quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O último maçaricão-esquimó 1


FRED BODSWORTH
Nasceu em 1918, em Port Burwell, no Canadá. Vem da infância o seu apego à natureza, sobretudo ao mundo das aves. Trabalhou em rebocadores e em plantações de tabaco, fez longas viagens até às fronteiras da civilização, colaborou em jornais canadianos, e mais tarde foi membro da redacção do “Maclean’s Magazine” de Toronto. Tornou-se um conceituado biólogo e escritor. Publicou, entre outros, a novela O último maçaricão-esquimó (1954), os romances O estranho de Barra (1960), A expiação de Ashley Morden (1964), Correi, pés, correi! (1967) e o estudo científico-natural A costa do Pacífico (1970).

A beleza e o espírito de uma obra de arte podem ser reproduzidos, mesmo depois de ela ter sido destruída. Uma harmonia desaparecida pode inspirar de novo os criadores. Porém, se o que estiver em causa for uma espécie de seres vivos, terão que passar céu e terra, antes que ela possa voltar a existir.
                               C. William Beebe, “A ave. Forma e função.”

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            Em Junho a noite do Árctico é muito curta, pouco mais que um intermezzo de penumbra. Durante os longos dias, nuvens de mosquitos enxameiam das valas profundas, como cortinas de fumo, sob o degelo da tundra.
            Antigamente, nesta época do ano, as populações esquimós aguardavam aqui o doce, fremente e longo trinado dos maçaricões-esquimós. Eles regressavam ao Árctico em grande número, trazendo consigo a perspectiva de carne tenra. Mas os grandes bandos já não aparecem. A sua própria lembrança se perdeu, ficando apenas a lenda. Pois o maçaricão-esquimó, primitivamente uma das mais abundantes aves de caça da América do Norte, deixava atrás de si, na Primavera e no Outono, um verdadeiro corredor da morte. Voavam tiros de todos os lados, e ele foi demasiado lento a aprender o que era essencial à sobrevivência: o medo, diante da espingarda do caçador.
            É verdade que a espécie se manteve, mas encontra-se em perigo extremo de extinção. Tal como antes, os poucos maçaricões-esquimós que ainda existem continuam a fazer a sua longa e perigosa migração, desde a Patagónia argentina onde passam o Inverno, até às planuras húmidas da tundra que descem para o mar polar. Aqui procuram a sua fêmea. Mas o Árctico é imenso, e, as mais das vezes, a sua busca é vã. Agora voam sozinhos, os últimos representantes de uma espécie moribunda.
(Cont.http://ladraralua.blogspot.pt/2014/01/o-ultimo-macaricaoesquimo-2.html)