Este post vencia uma terceira parte que não quer sair. Ou é ela que se teme de mim, ou eu tenho medo dela. Não sei quem perde com isso.
De modos que... fecho a loja... meto a viola no saco... e vou andar por aí.
A especialidade da casa é a tortura do sono. Fechar os olhos não vale.
Este post vencia uma terceira parte que não quer sair. Ou é ela que se teme de mim, ou eu tenho medo dela. Não sei quem perde com isso.
De modos que... fecho a loja... meto a viola no saco... e vou andar por aí.
A base do Negage mantinha destacamentos pelo norte, para maior proximidade aos comandos do exército. Um deles era no Toto. Duas ou três dezenas de militares com funções diversas, sob a administração dum alferes miliciano, que geria as instalações, a alimentação e a cozinha. A pista era de terra batida e os pilotos eram dois, dispondo de um Auster para transportes ligeiros e dois T-6 para apoio à tropa.
Um dia regressei às três da tarde dum transporte do brigadeiro do exército. A fome não era pouca, e o rancho resumia-se a uns restos de bacalhau em estado duvidoso. Uma espreitadela às gavetas da cozinha brindou-me com uma ninhada de ratinhos ainda implumes. O alferes administrativo, um indígena amigo do Lobito, confidenciou-me que o Nord-Atlas que trazia abastecimentos de Luanda não aterrava há vários dias, porque as chuvas tinham alagado a pista. E eu... vi assim reunidas todas as condições para meter a pata na poça. Tirámos a porta direita do Auster, sobrevoámos uns burros do mato, mas o cabo do armamento não acertou em nenhum com a G3 da ordem. E eu reentrei num T-6, dei umas voltas pelo horizonte, encontrei umas pacaças, fiz um passe, abati uma. Durante uma semana houve carne para o destacamento e para a sanzala próxima.
Quando o mimo se acabou, a via já estava aberta. E eu lá fui, até encontrar um bando nas margens dum charco. Entre elas um vitelo amarelinho, de fazer água na boca. Entrei ao passe, disparei, voltei a entrar, voltei a disparar, voltei a entrar... Quanto mais passes fazia, mais baixo entrava, em piores condições ficava. Depois veio o perigo da fascinação do alvo móvel. É ir atrás dele... até chegar ao chão!
O bicho morreu quando um trovão lhe desabou em cima e o matou. E eu bem tentei recuperar da picada, mas ao pobre do aparelho já faltava metade da asa. Lá caiu não sei bem como, partido aos bocados. E eu, com os olhos cheios de sangue e a articulação do maxilar bloqueada, acabei por ser encontrado pelos camaradas que foram à minha procura.
Fui evacuado para Luanda, com uma camisa verde de brigadeiro limpíssima. E acabei por regressar a Lisboa, ao hospital da Estrela, tendo ficado inativo durante um ano. Fiz entretanto um casamento catastrófico, de que é melhor nem falar. E os generais da Força Aérea, em novo assomo de cinismo, mandaram-me para Tancos, para dar formação a jovens alferes milicianos em trânsito para o sertão.
Um belo dia lá vou eu, com dois cachopos dentro dum Dornier, a treinar umas aterragens numa pista de terra que havia na Comenda, do Pequito Rebelo, ali ao lado de Abrantes. Simulámos uma aterragem forçada num lameiro, e quando recuperámos o motor disse que não. Havia que meter aquela porra num sítio qualquer onde coubesse, mas o horizonte era de vinhas, de pinhais, de um ou outro montado. Acabámos por aterrar de lado, num pequeno quintal, isto é, com uma perna do trem e a ponta duma asa a lavrar o chão. O aparelho acabou deitado de lado, a dormir uma soneca. E nós saímos os três pela porta de cima, frescos que nem uma alface. Ao lado havia uma quinta, e os donos, com alguma pena de nós, ofereceram-nos um prato de morangos que ainda hoje me sabem bem.
Até que um dia...
Quando era ainda cachopo e terminei o sétimo ano no liceu da Guarda, o meu destino natural seria a faculdade de Letras em Coimbra. Mas eu era apenas um de cinco irmãos, na barcaça dum orçamento familiar periclitante. Isso da vocação era expressão desusada. Por isso teve que ser esquecida até 1984, altura em que fui licenciar-me em Letras à Universidade Nova que surgira em Lisboa. Entretanto dei várias voltas ao mundo.
Os anos de 64, 65 e 66 gastei-os na Academia Militer, na Amadora e em Gomes Freire. O tirocínio de pilotagem levou-me, em Sintra, na Granja do Marquês, o ano de 67, ocupado com um aviãozinho a jacto que parecia uma coisa de brincar, e andava sempre três minutos adiante de mim. O que era uma parte muito chata.
É aí que entra em campo a superior visão dos generais que dirigiam a Força Aérea. Só eles saberão o que me mandaram fazer para uma base aérea onde só havia aviões pesados, pilotados por malta madura que tinha milhares e milhares de horas de voo sonolento.
Seis meses depois, alguém se lembrou de me tirar dali e mandar-me para uma base que havia no Montijo, ocupada por uns velhos aviões de luta anti-submarina. E eu, se mal andava de carro, pior passei a andar de arado.
Passados que foram oito meses, houve um cérebro que se lembrou que a África precisava de mim. Era o Maio de 68, de bastante má memória. E assim fui parar ao norte de Angola, onde só havia pequenos aviões convencionais que eu nunca tinha visto na vida. Era o trambolho inglês do Auster, que fazia missões de transporte ligeiro nas pequenas pistas de terra que enxameavam o mato. Era o trambolho do T-6 do Texas, que fazia missões de tiro em apoio da tropa, e largava bombas, e disparava foguetes e metralhadoras, e era uma excelente arma de arremesso, como eu haveria de mostrar, um ano depois. E era o DO-27, uma maravilha aerodinâmica, cujo motor tinha os seus caprichos. Quando bem lhe apetecia, deixava o mais pintado plantado numa picada qualquer.
Eu tinha então, por junto, trezentas e cinquenta horas de voo. Toda a minha experiência de tiro era o que lera nos manuais escolares. E tudo aquilo que eu tinha que aprender só me podia chegar através da imitação dos numerosos alferes milicianos, três quartos do efectivo total da esquadra.(Cont.)
Entraram à noitinha na taberna, mandaram encher dois copos. Vinham de longe, quiseram impressionar.
- E aquela ribeira que passámos, onde havia um moinho no bico dum choupo.?! - isto disse o moço ao almocreve.
- Não vá, senhor, sem resposta! Nesse lugar vi um dia dois machos eguariços, carregados de fanegas, a trepar choupo acima! - foi o que retorquiu um aldeão.
- Pois ontem mesmo topámos nós um ganapo de sete braços! Está aqui o moço que nãome deixa em mentira!
- Minta mais a modo, meu amo! Que o rapaz de sete braços não chegámos a topá-lo! Vimos-lhe foi a camisa de sete mangas, pendurada no estendal!
Veio rodada geral.
O mais certo é ter-lhe tomado medo. Mas fosse ele por ter chegado a velho, ou porque se cansou dos ruídos do mundo, o homem deitou-lhe as rédeas por cima e afastou-se. Comprou uma horta distante e fez nela uma mansarda debaixo do carvalho. Depois levantou a cerca à sombra da latada e soltou nela as galinhas. E assim viveram um tempo. O homem comia os ovos, e as galinhas catavam as minhocas e o milho que a horta dava.
A certa altura a raposa saltou a vredação. Avançou pelo terreiro, espaventou as galinhas, esganou logo a mais gorda e comeu-a. O homem assistiu àquilo tudo sentado no alpendre e não mexeu uma palha. As galinhas amontoaram-se ao canto,pasmadas pelo terror. E a raposa, aprisionada na cerca, ficou a fazer a digestão. Quando a fome lhe voltava, esgorjava outra galinha.E o homem assistia àquilo tudo sentado no alpendre.
Depois chegou a cegonha, deu duas voltas no ar e fez ninho na copa do carvalho. E em breve engordava os filhos com os sapos-conchos que havia nas redondezas, e eram muitos. Engordavam os filhos da cegonha, benza-os Deus, mas a barriga da raposa dava horas. Um dia começaram a pintar as uvas da parreira. E quanto mais ela pulava, a abocanhá-las, mais a barriga minguava.
Certa tarde passou lá por cima um corvo, trazia um queijo no bico, roubado à janela duma velha que o tinha a secar ao sol. Viu a raposa magrita, deu-lhe duas de conversa e foi-se embora. A raposa desfez-se ali em queixumes, mas o homem assistiu àquilo tudo sentado no alpendre e não mexeu uma palha.
Quando os filhos levantaram voo, foi a cegonha que ouviu os lamentos dela e deixou-se condoer. Fez umas papas do milho que a horta dava, meteu-as numa cabaça e baixou a partilhá-las com a raposa. Logo ela as estendeu em cima duma laja, onde em tempos as galinhas debicavam o milho. E foi assim que a raposa se desforrou de misérias e a cegonha ficou a ver navios.
Foi então que o homem se levantou e veio abrir a porta do cerrado. Fatigara-se do mundo, quisera afastar-se dele, viera encontrá-lo em casa. E deste modo se dispôs a relatar as muitas fábulas dele.
Há um sobressalto na paisagem. Do céu fugiu a cor. A brisa bate à porta. Vem entrando Saturno, o melancólico.
Nesse tempo viviam em Angola cinquenta portugueses. Nada como hoje,que serão duzentosmil. E o rio Gabriel era um leito de areias a descer do planalto, à procura do mar: um promontório ao longe, uma enseada amena, uma praia circular ao fundo da falésia, que mergulhava a pique.
Varadas à beira de água meia dúzia de canoas, em que os moleques do Mário Cambuta arrancavam aos fundos cardumes de lagostas. Serviam-nas grelhadas à hora do almoço, àsombra duns tabiques de folhas de palmeira.
Quano acabava a jornada e trabalho, eu descia sem demora o areão do rio a cavalo no Toyota e só parava na foz. Estendia-me em pelota numas rochas, olhava o promontório escuro ao longe e lia.E foi assim que li à desfilada os oito mil oitocentos e dezasseis versos dOs Lusíadas, e pela mão do Dante visitei os círculos todos da Divina Comédia.
Aconteciam às vezes chuvadas diluvianas, e o rio Gabriel era vê-lo a correr. Arrastava encosta abaixo toneladas de areiaque despejava no mar. Depois vinha a maré, lambia a praia, aplainava aquilo tudo.
O chão era movediço e um dia o milagre aconteceu. Ao chegar à foz do rio, dei com o vulto duma Vénus de pedra estendida no areal. Era só um torso dela, mas o que não se via nãofazia falta: um ombro reclinado, um ventre misterioso, o flanco duma anca, duas coxas apartadas, o talvegue dum abismo, e dois joelhos que a areia já escondia... A maré deixara a descoberto aquela aparição.
Semanas e semanas voltei eu, à procura da Vénus, no final do dia. Mas a maré avara nunca mais ma desvendou.