sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Nocturno, em si, menor

Alguns dormitam, maçados, nos beliches, ele viaja a noite inteira a pé. Entre o bar e o corredor, entre uma nova cerveja e os considerandos do salário que recebe. Quase setecentos contos, mesmo quando não embarca. Como agora, que vem a casa ver a mulher. Mas isso vai acontecer só amanhã, lá pelo dia, em chegando à Pampilhosa, depois de atravessar a infindável noite basca, a leonesa, a castelhana, num Sud-Expresso lôbrego.

Alfredo tem trinta anos e deixou a escola antes do tempo, em Mira. Foi trabalhar com o pai, no tempo em que havia quarenta companhas só nas artes da xávega. A princípio puxavam a rede à unha, com juntas de bois que enterravam os cascos no areal macio. Hoje não chegam à dúzia. O peixe foi-se embora, será culpa das chuponas espanholas. E ficou tão baratona lota quanto é caro nas bancas do mercado, não se compreende Portugal. Paga-se o gazol do barco e o resto mal dá para viver. De forma que o pessoal começou a emigrar e ele foi parar a Quipert, ao pé de Nantes. Foi há dois meses, mais um cunhado, é esta a primeira vez que vem a casa.

Em Quipert saem para o mar à quinzena e Alfredo é o cozinheiro. O dono do barco é tão velho que já não navega, toda a companha de sete é contratada. Mas o peixe vai à lota ao mesmo preço para todos e toda a gente ganha.Só não entende o que se passa em Portugal.

Alfredo vem excitado com os considerandos do salário que recebe. Jantou no vagão-restaurante, bebeu uma garrafa de bom vinho, no fim pediu um conhaque e pagou quarenta euros mas valeu a pena. Depois foi aturando a noite a poder de cervejas, e é por isso que já lhe arrasta a voz, e tem este bafo choco e amargoso, e repisa outra vez os considerandos do salário que recebe. Quando chega a Vilar Formoso desce ao cais durante meia hora, o tempo de mudar a máquina ao comboio. Bebe outra cerveja na cantina, com uns camaradas negros que exercitam um hip.hop lusófono, e também chegam da Europa.

Lá pelo meio-dia, toldado como vai, Alfredo levará tempo a encontrar-se com a mulher. E, logo que o conseguir, vão ser horas de apanhar outra vez o comboio para voltar a Quipert, ao pé de Nantes. Onde agora é cozinheiro, sempre que sai ao mar, a pensar nos considerandos do salário que recebe.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ódios velhos

Chegavam sempre no começo do Outono, quando os corvos passavam ao fim da tarde a grasnar às frialdades que vinham de Além-Doiro. Interrompiam-nos a bola no terreiro, saltavam das carripanas escuras, abriam as gaiolas das matilhas. E caíam nos braços dum lavrador lá do povo, inchado por ter amigos na cidade. Soltavam palavrões que eu julgava proibidos, numa língua esquisita de pagãos, e escarravam muito pelo chão.

Manhã cedo faziam-se aos  caminhos, de espingarda na ombreira, a açular a canzoada. E não havia brejo em todo o vale inteiro que escapasse à invasão. O cainçar dos podengos ouvia-se nas quebradas, e os ecos da fuzilada faziam ricochete nas encostas do vale, monte cá, monte lá, até ao cair da noite.

Retiravam-se ao terceiro dia, com as grelhas de metal enfeitadas de perdizes a largar nuvens de penas, e rosários de coelhos a pendular nos telhados das carripanas escuras.

Hoje vivemos paredes-meias. Os palavrões já me são familiares, e ao sotaque de pagãos acostumei-me aos poucos. Mas não sei como indultá-los do olhar morto das lebres, enforcadas nas janelas, a mandarem-me corrê-los à pedrada.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Menina e Rubinho

Esta menina, com doze anos e três irmãos mais novos, desce pela mão da mãe o portaló dum vapor colonial, na Rocha do Conde de Óbidos.Nasceu e fez-se o que é numa província ultramarina, onde o Verão e a liberdade eram eternos. Hoje acaba de chegar a um país vago etristonho, num dia de inverno frio, e há-de apanhar um comboio ronceiro, com bancos de madeira, que vai partir para o Norte.

Quando ela chegar ao Porto, estão a dar-se em casa de Rubinho os últimos retoques na árvore de Natal, cuja montagem dura há uma semana.

Daqui a um tempo, quando Rubinho for a férias na Granja, esta menina vai chegar no comboiotodas as manhãs, e venderá saquinhas de pipocas pela praia fora, para ajudar a mãe a manter a família.

Anos mais tarde, quando Rubinho andar entretido a descobrir a vida no peito acolchoado duma senhora inglesa, há-de afagar a menina as frieiras dos dedos, por causa da água gelada do tanque onde lava a roupa das camas dos hóspedes, para ajudar a mãe a manter a família.

Quando Rubinho for para a universidade, onde estão à espera dele os mestres que lhe hão-de explicar o pensamento dos filósofos, irá esta menina à escola técnica nocturna, porque as horas do dia são para ajudar a mãe a manter a família.

Um dia havemos nós de ler as memórias de Rubinho, e adentrar-nos com ele nos meandros do surrealismo. O que nos valia a pena era aprender a sustentar uma família. Mas o mundo é o que é, se não for antes o que fazem dele.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A ninfa

Eram os olhos a maior perdição dela. Tão grandes que neles cabia o mundo, tão escuros e fundos que lembravam o mar. Depois vinha a estampa límpida do rosto, debaixo da gaforina asa de corvo: o lábio húmido, a carnação macia, a flor fa face cheia de mistério, a prometer abrir-se num sorriso que não chegava a abrir. O resto era o colo generoso, o ventre inquieto, as colunas das ancas a prometer abismos.

Ninguém sabe explicar como apareceu ali, criada na aldeia, aquela ninfa antiga. Olhava-se para ela e vinham à lembrança as deusas primitivas da fertilidade. O mesmo nome, Pristila,era um sinal pagão.

Dava escola escola para os lados de Aveiro, e vinha a casa sempre que podia. Chegava na carreira, ao fim da tarde, porque o pai, atento à vida, a reclamava. A bem dizer, era a aldeia inteira que a exigia.

Na vila sabia toda a gente que o Tunante não era boa rês. Era um vilão bastardo, que fazia deste mundo uma coutada de caça. E todos lhe guardavam respeitinho, mais por instinto primário de defesa, do que por atributos que não tinha. A ninfa confundiu nele a brutidade grosseira com predicados de macho dominante. E quando vinha à vila, a passear, nem lhe escusava as momices atrevidas, nem os avanços de bruto galaroz. E acabou, já mansa e confundida, a enlear-se no assédio do bargante.

No dia em que as férias começaram chegou a ninfa à vila, desceu da carreira ao fim da tarde. Uma outra que vinha do comboio havia de pô-la em casa. Mas o Tunante estava à espera dela. Cercou-a de rapapés e cortesias, havia de lhe mostrar a loja nova, logo à entrada das muralhas.

A ninfa deixou-se conduzir. E quando veio a hora da carreira, à beirinha da noite, prometeu-lhe o Tunante que um amigo a levaria a casa, de carrinho, à moda das princesas. E logo ela se rendeu, enleada em semelhante gentileza. Tinha mesa posta e banquete preparado, bom presunto, melhor queijo, de vinho bastava-lhe um dedal, não estava acostumada.

A princípio o Tunante foi cordato, coroou-a de rapapés, quis levá-la com bons modos. Penteou-lhe a gaforina, passeou-lhe as mãos no flanco, encheu-lhe o copo de vinho. E abriu-lhe um botão do peito, só para ter uma visão.

A ninfa aos poucos cedeu, o coração num galope. Dum lado o corpo inteiro a amotinar-se, o sangue a romper as veias, o ventre incendiado a extravasar. Doutro lado um grande medo, a cara dele a perder as feições, e um gesto tão poderoso que a assustava.

Quando quis despir-lhe a blusa, a ninfa ainda resistiu. Mordeu o lábio para evitar um grito, cruzou os braços no peito sublevado, refugiou-se no medo. E o Tunante deteve-se um momento, pareceu abandonar o campo de batalha. Foi ajeitar, ao canto, as mantas que lá tinha. Depois apagou a luz, ergueu numa braçada a ninfa amedrontada e foi estendê-la no chão.

Lá fora passaram socas a tropear na calçada. Porém a ninfa hesitou, reteve outra vez um grito. E já dois braços poderosos lhe sujeitavam o corpo, e as pernas brutas lhe apartavam as colunas, e rudes mãos lhe devassavam o peito. As socas na calçada voltaram a tropear, mas a ninfa retraiu-se. Conteve a respiração, não fosse ouvir-se lá fora o ranger do bragal que estilhaçava. Por três vezes entrou nela um vendaval, três vezes a desfolhou. Depois caiu uma escuridão desamparada, e um lago que arrefecia.

Por fim bateram à porta, era o outro que chegava. Aconchegou a ninfa no banco de trás do seu Volvo marreco e arrancou. Antes de a deixar em casa foi parar na carreteira dos moinhos do Alcaide, ninguém ali passava àquela hora.

O Tunante recolheu as mantas, fechou a porta da loja. Uma ninfa desfolhada dava casamento certo, era raspar-se um homem para o Brasil ou sujeitar-se aos códigos. Porém, em sendo o festim a meias, era ela assumida marafona e os cógigos sossegavam. Cumprisse o amigo a sua parte e ficava o problema resolvido.

Quando o Outono chegou, depois das primeiras chuvas, o Tunante subiu para a camioneta e foi recolher à aldeia uns contratos de centeio. Bem o avisaram as sibilas, que desfizesse o negócio, que por lá tinha a morte prometida. Mas ele guardou a sovaqueira no casaco e lá subiu a encosta, a governar a vida. Um homem não saiu para outra coisa das mãos do criador.

O pai da ninfa já estava à espera dele,sentado no balcão. E quando o viu saltar da camioneta, de machado nas unhas foi-se a ele. O outro ficoiu surpreendido, não podia acreditar. Estendeu a mão à sovaqueira e pôs-se a ladear, queria ver se era verdade. Mas o homem trazia no carão a fúria dum deus irado, como quem chega duma tragédia antiga, o melhor era levar a coisa a sério. E desatou a correr.

As mulheres espreitavam à janela, havia gente que parava pelas hortas, a olhar, silenciosa. A própria tarde parou, a ver um homem cavalgar estrada abaixo, atrás dotro que fugia. Quando o sentia mais perto, virava o braço para trás e disparava. Disparou à passagem do ribeiro, e à horta da Teresa Côta, e à subida do negrilho, e à curva da fraga grande.

Agora chegámos nós à fundeira da encosta, e já cruzámos a estrada, e temos à nossa frente o açude da ribeira. Não nos sobra mais que um tiro, e já nos queima o pescoço o bafo dum deus irado. O Tunante apontou-lhe ao coração e disparou. E o machado, que lá vinha como um raio, enterrou-se-lhe no ombro.

Mas vem dalém um pastor, a correr em altos berros, vem salvar esta desgraça. O rpimeiro já está morto, nada podemos fazer. Para que nos serve o segundo, um vagabundo. E num golpe de machado abriu-lhe a cabeça ao meio.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

As Aves Levantam contra o vento 7-9

Ali ficámos encerrados três dias, no meio daquele deserto, até que a neve deu sinais de amainar e o carro preto apareceu outra vez. O passador abriu o portão a chamar-nos aos berros, chegámos ao desvio e lá estava ele à espera, outra vez os mais pequenos fechados no cofre da traseira e oa restantes nove lá dentro, só parámos ao princípio da noite já depois de Tolosa, o carro preto nunca mais o tornámos a ver.

Com muita pena nossa, que tínhamos à espera a parte mais custosa da jornada. Toda a noite a andar, Pirinéus afora em caminhos de cabras, com a neve a tornar tudo mais bicudo. Cada um se guiava pelo vulto da frente naquela escuridão, ele havia ladeiras que só podiam ser iguais às que levam ao inferno e ninguém podia falar. A gente sabia que já íamos parar em França, e isso puxava-nos pelo ânimo, se nãoera antes o desespero a empurrar-nos. Mas o gelo atraiçoava o pessoal, as quedas eram frequentes, a dada altura o meu irmão torceu um pé e o passador logo se pôs a ameaçá-lo, quem o salvou ali e o amparou fui eu, mais o outro colega da nossa zona.

Quando entrámos no moinho à beira dum ribeiro tinha passado a fronteira.Já estávamos em França, Deus louvado, e ali ficámos a descansar parte do dia. Atarvessámos depois umas matas compridas, até darmos connosco num lugar onde já havia um rebanho de pessoal, amalhoado à beira duma estrada. Ali nos deram pela primeira vez garrafas de bebida, que disputámos à força, de comida é que não recebemos mais uma migalha até ao destino final. A dada altura pararam ali na estrada dois camiões de caixa fechada, num deles couberam oitenta e cinco homens, contei-os eu, que entrei na derradeira. Lá dentro havia mais limonadas, três baldes para as precisões, e  a porta de trás, tapada por dentro com caixas de cartão. só voltou a abrir-se quando parámos já perto de Champigny.

A viagem durou catorze dias, passadores que nos vieram à mão contei eu quarenta e um, e do que aconteceu depois da nossa chegada, enquanto a vida demorou a tomar algum rumo, não lhe vou aqui falar, ele há coisas que nem se podem contar, ficam melhor guardadas cá dentro.

Depois chegou depressa o tempode ir à tropa, eu estava na idade, e a guerra de Angola começou passado um ano. Nunca me apresentei, deram-me como fugido, se fosse a Portugal apanhavam-me logo. Só lá voltei dez anos mais tarde, casado já com a minha senhora, que é francesa, com passaporte de cá. Para poder voltar à minha terra, por ter fugido à tropa, deixei de ser português.

A tarde vai avançada e Gaspar tem que partir, mas assaltam-no emoções contraditórias e preferia ficar. Um silêncio atormentado toma-lhe conta do peito. Fica a olhar os circunstantes que ao fundo batem as cartas, ouve-lhes as conversas ruidosas, pára nos semblantes melancólicos que ruminam cervejas pensativas. Não encontra as palavras que procura e aqui teriam lugar. E sem elas se despede do seu anfitrião, que o envolve num abraço rude.

Antes de recolher ao hotel, para a sua últims noite na cidade-luz, passa Gaspar na praceta de Saint-Germain-des-Prés. Já não tem nas mãos nada para salvar. Mas queria ainda aprender como se salva o mundo, através de ocupções e da autugestão. Para algum acaso imprevisto.

Nessa noite o mestre faltou ao Deux Magots. E na manhã seguinte Gaspar tinha avião.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

As Aves 7-8

De forma que nos pusemos a pensar, lá em casa já havia a experiência do meu pai, embora antiga, e à palavra dp padre juntámo-nos três, dali daquela zona. Decidimos do dia para a noite, que é a melhor forma de tomar decisões impossíveis, como é sabido. À  procura dum passador foi o meu irmão mais velho ao Sabugal, que sempre foi boa terra para contrabandos. Lembro-me como se fosse hoje, a gente à espera e os dias a fugir, o facto é que a guarda já andava de focinho no ar, estranhou-lhe a presença por ali e meteu-o na cadeia durante uns dias, era assim que as coisas se faziam. Aguentou-se ele com as mentiras que pôde e lá omandaram embora, ao fim duma semana estava tudo pronto, tratámos de pedir emprestado o dinheiro da viagem e fomos ter a Quadrazais.

Ao todo éramos nove, arrancámos atrás do passador ao princípio da noite, meia hora adiante topámos com a guarda. Cada um debandou conforme pôde por aqueles cabeços da Malcata, parecíamos perdigotos assustados, eu deixei para trás o saco onde guardava um pão de quartos e a casaca, no dia seguinte a arrancada foi de vez.

Andámos então dezanove horas seguidas até uma terra espanhola chamada Valverde, sempre a rasgar a direito, e acabámos a descansar num ermo vago, agachados no mato. O passador voltou ao anoitecer  e lá cruzámos a estrada um a um, sempre atrás dele, avançámos ao longo dum lameiro, havia frio, ouvia-se restolhada de cavalos. A dado ponto alcançámos um barracão no monte, donde espantámos uns porcos que lá havia, ali nos deram o primeiro pão com chocolate espanhol, ali passámos a primeira noite em cama quente.

Partimos de madrugada, quando possível por caminhos abertos do campo, bebíamos água se havia algum regato, e se aparecia um chão de areia avançávamos às arrecuas, a desenhar os passos ao contrário, não há como seguir experiências já feitas e exemplos comprovados. Enfim chegámos, numa serra, a uns fortins de cimento, por certo coisas do tempo da guerra espanhola, ali no ermo. Foi onde descansámos uma tarde, numas camas de fieitos que lá dentro havia, ficámos a saber que não éramos os primeiros a passar por ali. O grupo era de nove, e nove se mantinham, embora o meu irmão quisesse desistir logo na primeira e mais longa tirada.

Bem fez ele em se firmar nas pernas e aguentar, que agora vamos deixar de andar a pé, daqui até Madrid viajamos de carro. Somos nove os caminheiros, a esse número temos que juntar o passador, nada feito sem ele, mais o condutor que não podemos dispensar. O conjunto há-de parecer exagerado para tão singela carruagem, mas só a quem nunca se viu nestas alhadas, não é o nosso caso, no ponto a que chegámos já nada nos causa admiração. Este carro preto é único exemplar, com ele nos temos que haver, importa aqui é saber quem são os dois de menos alentado corpo, melhor se encaixarão a par, lá atrás, no cofre das bagagens.

Quem tinha dúvidas bem fará em perdê-las, pois que a Madrid chegámos, e em Madrid ficámos dois dias fechados numa garagem, a pão e chocolate. Ainda hoje estou para saber por que razão ninguém pensava em trazer-nos bebidas, se não era para evitar necessidades de aliviar o corpo, não falo já do vinho a que estas bocas estão habituadas, falo duma limonada qualquer, dum reles pirolito, da água lisa duma bica.

De Madrid viemos, de rota batida e cu tremido, com o fito em Tolosa, o carro preto a dar mostras duma afoiteza que não se adivinhava. Porém, a dado ponto, a neve começou a cair e foi mais forte. Lá encostámos à berma antes de Miranda, num desvio ali a meio do descampado, saltámos cá para fora e logo nos puseram a correr, até chegarmos a um grande barracão que lá havia. (Cont.)

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

AsAves 7-7

A princípio falaram em francês, a tropeçar em cortesias e embaraços, mas quando se descobriram patrícios a conversa ganhou outro à-vontade. Nem de propósito, amanhã é domingo, apareça você em Saint-Denis, na rue des Peupliers, lá nos encontramos todos.

João Carrolo é dirigente da Associação Recreativa Cultural e Desportiva dos portugueses de Saint-Denis. Têm aqui este lugar de encontro, para estarem juntos, para se sentirem gente. Preparam festas, almoços, arraiais, já cá vieram artistas, já tiveram visitas de políticos. Aos domingos passam a tarde aqui, quem quiser vir, jogam às cartas, matam saudades. E Gaspar já se deu a conhecer, já fez as suas perguntas, já quis acamaradar. Já contou ao João Carrolo a sua circunstância, já explicou ao que vem. E enquanto tira de misérias a barriga, fica-se a ouvir do companheiro os motivos e as passadas que o troux em eram até França.

Eu vim do Zabro, lá para as serras da Lapa, nos começos da década de sessenta. Há-de estar a fazer anos a princípios de Março. Pouco se falava ainda em emigrar, nada daquela febre de alguns anos mais tarde, quando os homens debandaram em massa, e as aldeias, uma atrás da outra, ficaram entregues aos velhos, às crianças e às mulheres. Fui dos primeiros e lembro-me muito bem, o padre da ftreguesia era um homem como poucos. Atento às aflições do povo, foi dele o primeiro passa-palavra, havia muito trabalho a fazer em França.

Ora por França já o meu pai tinha andado em mil novecentos e trinta e tal, primeiro numa fábrica de anilinas em Lião, e mais tarde na ilha da Corsa, de machado e serrote nas unhas, a desbastar matagais. A  prova é que sempre andaram lá por casa, se ainda hoje andarão, uns postais do correio já mordidos do tempo, havia umas donzelas que se punham a sonhar e mandavam-nos ao cher Benjamin, já ele tinha regressado à nossa terra, já tinha casado com a minha mãe. Lá saberiam elas o que ficaram a perder, à vista de recado tão teimoso.

Mas vida de pobre não sai do mesmo sítio, por mais voltas que o cão dê. Chegava a gente ao cabo do ano, que era a feira de Agosto, vendia, quem os tinha, gados miúdos e graúdos, comprava-se um leitão para criar, uma vitela ao meio ganho se havia padrinhos de posses, via a gente a animação dos cavalinhos a girarem à roda e deixava de pensar no resto, as girafas atrás dos leões, e os leões a perseguir as zebras riscadas sem nunca as alcançarem, era tal e qual o mesmo jogo sem fim da nossa vida. Trazia a gente para casa uma camisa nova, umas botas de pneu, uma caixita redonda de banha da cobra com que tratava a pele ardida do muito sol, no fim de pagar a renda das courelas fechava-se o ano sempre no mesmo ponto em que tinha começado, uma miséria aflita, olha hoje um homem para trás e não acredita que um mundo assim já existiu.

O Salazar punha o povo a cantar a casinha portuguesa, mas o pão e o vinho sobre a mesa só existiam na letra da cantiga, não havia casa nenhuma, nem estaria para haver. O país existia para uso duns quantos figurões inchados de prosápia, o resto eram burros de carga, não havia entre a gente e os bichos fundamental diferença, de vida e passadio, quem quisesse fugir à miséria só tinha um rumo a tomar, era procurar uma terra melhor. (Cont.)