quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Manias

Fiquei algo pasmado quando o vi aparecer à primeira consulta, confesso que não reconheci nele o tipo de paciente que se dispõe a pagar o meu tempo. Era um homem na casa dos quarenta, e tinha um ar frágil e consumido. Vestia uma bata de sarja azul, dessas de operário, e trazia semeadas no cabelo desgrenhado aparas de madeira. Quando me disse que era carpinteiro tive as minhas dúvidas. Porque a profissão deixou-me esta costela de detective, e vi-lhe as mãos demasiado finas para afagos de enxó e de garlopa. Rocei de vagar a palma no queixo, e mandei-o deitar-se na marquesa.

Não foi preciso desbravá-lo muito, logo se pôs a relatar uma viagem ao egipto, há uns vinte e tal anos. Fora uma teimosia da mulher, boa tecedeira e cardadora de lãs, mas de um alevantado vezo que sempre lhe trouxera inquietações, como quem trouxesse na barriga um rei qualquer. Um dia ela apareceu a dizer que tinham de partir sem demora, era preciso poupar a criança à perseguição dos inocentes, para cumprir a voz do profeta e salvaguardar-lhe o desígnio transcendente.

Alugaram um solípede caríssimo, mas a viagem foi cheia de percalços e acabou por durar uma eternidade. Volta não volta ela dizia que era preciso calçar ao asno os cascos ao contrário, assim estava escrito, para confundir os perseguidores. O pobre do animal é que já não estava capaz de tais subtilezas, fez o que pôde para adequar o passo às profecias, mas as constantes mudanças de solias complicavam-lhe a andadura. Voltaram a casa os quatro sãos e salvos, depois de atravessarem o deserto, sabe deus como.

De resto, ele sempre olhara para este filho com algum desconforto, desde que a aparadeira confirmara a virgindade da mãe, na altura do parto. Mas os problemas com ele estavam só a começar. Desde cedo se mostrou um superdotado, atraía multidões com enigmáticas parábolas abrangentes, e ultimamente começara a constar que tinha poderes. Transformava a água em vinho, e matara a fome à multidão com meia dúzia de pães e um par de peixes do lago.

Eu não sou apostólico nem romano, e já vi muitos abismos do mundo. Não costumo perder as estribeiras com os relatos dos pacientes, mas não assim com este. Fiz logo entrar a equipa da camisa-de-forças, e mandei-o internar imediatamente. Imagino o que não seria, ter que repetir tudo outra vez.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Era uma vez...

Era uma vez uma família muito pobre. Vivia numa aldeia em que as noites eram escuras, e mais longas ainda quando a fome se punha a cantar nas barrigas, antes de chegar a manhã.

Certa noite, num serão de pão escasso, lembrou-se o pai de contar uma história. E vai ele, que bom seria, mulher, termos dinheiro para comprar uma cabra. Havíamos de levá-la à vez a pastar pelos caminhos, para ela encher a barriga dos botões de silvas bravas, quando o sol, na primavera, constrói jardins nas paredes. E quando anoite chegasse, e a cabra voltasse a casa, íamos colher-lhe o leite, e as noites seriam longas, e a família cresceria, já viste mais alegria. Mas eu não gosto de leite, tornou o filho mais novo. E quando o outono chegar, e as silvas ficarem duras, subo ao freixo do valado, e domais dourado ramo se há-de fartar nosso gado, disse o outro, confiado. Mas eu não gosto de leite, insistiu o desgraçado.

Numa breve conclusão, perde o pai o seu vagar, e ali mesmo obriga o revel e obstinado filho a engolir duas grandes tigelas de leite na companhia dos irmãos, que assim dormiram toda a santa noite, de barriguinha calada.

É claro que tudo isto aconteceu num tempo muito antigo, enquanto havia milagres e cabras que davam leite.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Sinais

Não tenho lembrança de alguma vez ter visto tão baixo o nível de água da barragem. Dela se alimentam a vila inteira e as aldeias todas do município. Por este andar, lá tem que voltar a malta toda a encher a cantarinha na fonte de mergulho.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Sinais

Na aldeia terminou a campanha das castanhas. Há cinquenta anos saíam daí comboios delas, vinham ranchos de mulheres de longe para as apanhar. Os soitos cobriam toda a encosta e as árvores duravam séculos. Aos poucos foram morrendo, da tinta, do cancro americano, da nova vespa das galhas. Os ouriços já nem abrem ao toque do martelo de madeira, que perdeu utilidade. Recolhem-se em grandes  baldes, passam-se num moinho tocado a tractor, quem o tiver. Escolhem-se os frutos e devolvem-se ao campo os ouriços vazios. Uma trabalheira.

As castanhas já não têm a qualidade antiga, depressa criam bicho. E quem planta castanheiros novos logo vê secar metade. Um jogo de cabra-cega, uma tramoia. Tudo sinais dum mundo que já foi.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Famas boas

A dona Belisanda tinha a dimensão duma catedral gótica, o próprio nome o dizia. Numa sala duma casa da aldeia albergava cinquenta ganapos, da primeira à quarta classe. Cuidava-lhes da higiene física e da limpeza mental. E não hesitava em mandar um infractor lavar os pés no ribeiro que passava próximo. 

Ainda hoje não entendo como ela fazia aquilo. Primeiro dava a aula da primeira classe. Depois era a da segunda. Por fim lá chegavam os da terceira e da quarta. E mantinha tudo em ordem.

Numa pequena horta, à entrada, havia um damasqueiro. E não há notícia de que alguma vez um ratoneiro tivesse metido a mão à fruta. Lá atrás, no cabanal, alguns perús grasnavam de horas em quando. Mas quem cuidava deles era a criada, a Maria, que os calava com urtigas cozidas. Muitas vezes eu lhas trouxe, que havia muitas lá no quintal, debaixo da nogueira grande.

Um dia, pelo Natal, ia eu na quarta classe, a mestra claudicou. Adoeceu de surpresa. E a ganapada viu nisso uma prenda de Natal. Temendo, porém, uma baixa demorada, e o atraso de um anito, os meus pais resolveram conversar com a professora da Torre, ali a três quilómetros. E ela aceitou receber-me. De formas que eu ia todos os dias, pela estrada velha, de sacola ao ombro, e uma cabacinha com refresco de café, que a minha mãe me dava sempre de presente.

Nesse tempo os castanheiros do Vale Azedo ainda não tinham morrido. E eu lá ia, todo contente na sua companhia, metendo o nariz em todo o lado. Um dia descobri, debaixo dum silvado, um ninho de perdiz com uma catrefada de ovos. E passei a visitá-lo todas as manhãs. Até que alguém armou um laço com pelo de cavalo, no corredor da entrada. A perdiz enjeitou o ninho, e os ovos lá ficaram. 

Os meus novos colegas, vendo-me de cabacinha, cuidaram que era vinho. E passaram a olhar-me como um homem. Mas um dia, algum mais aventureiro achou-me distraído e foi-me ao vinho. Não faltou nada para uma risada. E assim se desfizeram as minhas boas famas.

sábado, 11 de setembro de 2021

Caloteiro

 Acabo de reler o romance Ernestina, de José Rentes de Carvalho. Uma edição de há muito (Março 2001) da falecida editora Escritor, cujo número 439 o autor me presenteou em momento oportuno.

Estou-lhe em dívida dupla, que não sei como remir:

- a um lado, pelo prazer desta leitura;

- a outro lado, porque em tempos que lá vão, o José me deu a confiança de convencer um seu amigo a levar-nos ao Cabeço, num jipe que ele tinha.

Tenho que ficar inadimplente, caro José. Se não caloteiro.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Nem mais!

 https://aspirinab.com/valupi/paulo-rangel-e-a-asfixia-sexual/?