domingo, 3 de julho de 2022

Credo! Abrenúncio!!!

No tempo em que os animais falavam, o dótor Relvas podia. E assim podendo, mandava que fosse feita formação específica de pessoal autárquico, na gestão de quaisquer remotos aeródromos que houvesse no meio da selva. Fosse lá isso o que fosse, a tarefa cabia à empresa Tecnoforma, onde pontificava um tal Passos Coelho.

Foram tempos para esquecer e assim ficaram. Mas agora apareceu o Montenegro, com os dois dedinhos no ar. E o pior é de temer.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Ena pá!

 

O que p´raí vai!!!

terça-feira, 28 de junho de 2022

Contos... do vigário

(Cont.)

O Tribunal Europeu do Ambiente acabou a anunciar nos jornais a instalação em Trancoso dum projecto-piloto de cidade biológica. Benza-os Deus, ao tribunal e ao projecto, por virem tão a propósito. Pensa isto o viajante, ao lembrar-se do fedor das queijarias da quinta do Forcas, ali abaixo a dois passos. Com os seus lagos de efluentes a céu aberto, empestam a atmosfera à saída para Lamego, inquinam a ribeira de Rio de Moinhos, interditam a rega aos aldeãos, matam as faunas do Távora.

Ainda bem que chegaram a Trancoso estes cavaleiros andantes. A vila inteira é que não deu por eles, se antes não caprichou em manter as distâncias. É que há nestas liturgias diletantes um solipsismo patético, há um vazio que dói. Porém muito suspeita o viajante que a tão irreais oficiantes não molestou tão grande alheamento. Bem antes pelo contrário. E custa-lhe a acreditar que a câmara de Trancoso dispenda uma fortuna a financiar tudo isto.

Porque ainda não é tudo. Buscando nas entrelinhas, acaba por saber o viajante que o dito museu do tempo exporá uma colecção de duzentos relógios dos últimos quatro séculos. Os quais fazem parte do espólio dum inventor e industrial português de contornos indecisos, directo ascendente do já citado compositor brasileiro-luso, a alma destes encontros. E o arrojado museu vai ter o nome do filósofo que é também presidente honorário do Tribunal Europeu do Ambiente. Sabidos que já eram os efeitos, ficam assim conhecidas as causas, não vá alguém iludir-se com os acasos deste mundo. Tudo não passa afinal dum concerto de privadas conveniências.

Ora o viajante considera que um tão distinto cenáculo de construtores do futuro bem faria em reunir-se no hotel do Alto dos Frades para uns serões pacíficos de bridge. Mas não para estes rituais iniciáticos, alheios a uma realidade que absurdamente os ignora e financia. Bem verdade é o que se diz de qualquer poder sem freio. Ou corrompe, ou ensandece.

Isto fica a pensar o viajante, que ainda não imagina a dimensão verdadeira da sandice. Porque os dois encontros anuais da FACTO, para o ano hão-de ser quatro. Dado que anda o planeta mergulhado em ondas de simetria e assimetria, nada como devotar-se a câmara de Trancoso a discutir as magnas questões da Ruptura e Tradição, mecenando conclaves de sumidades internacionais em educação, sistemas cognitivos, design, teoria e história da arte, matemática, arquitectura, música, filosofia da ciência, neurologia e dança.

E não vá tanta coisa parecer pouco, há-de o Segundo Encontro Iternacional de Arte e Ciência esquartejar o tema das Sociedades de Alto e Baixo Poder. E por haver neste lugar remoto largas famas e melhores tradições visionárias e esotéricas, aqui terá lugar um Encontro Internacional de Arte e Alquimia, onde será chamada a capítulo a Alchimiarte, sociedade de ilustres que em Locarno se ocupam das relações entre uma coisa e outra, desde há séculos.

Hão-de fazer do Bandarra um cabalista, há-de justificar-se-lhe um museu. E finalmente, - pois que em toda a acção do Tribunal Europeu do Ambiente está francamente presente a ideia da liberdade, resgatada no seu significado clássico, de onde emana uma dinâmica Paideia, em que cada pessoa é responsável pelo desígnio dos seus próprios limites - hão-de voltar as Origens do Futuro, para pôr em pratos limpos a questão.

No mundo caprichoso que aí está, não saberá dizer o viajante se a decadência triste que vai por estas terras é uma fatalidade inescapável. Mas não duvida, depois do que tem visto, de que estas políticas locais só lhes abreviam a sentença. Que Portugal mete medo. (...)

Contos... do vigário

(cont.)

O primeiro orador é um artista português. Debita um par de noções elementares sobre a eutrofização das lagoas dos Açores, fala do pico do petróleo e nos limites do crescimento, cita os malefícios da suburbanização e da fordização da sociedade. Discursos consensuais. E acaba por desvendar o seu projecto de capital dum país do futuro, um grande estuário estimulado pela utopia dos jogos olímpicos de 2020, que haverão de ser os primeiros jogos pós-carbónicos.

O segundo orador é um físico judeu, que parte do big-bang original até chegar ao microcosmos dos protões, feitos de quarks ligados por gluões. Revela ao auditório sonolento a descoberta dos quasi-cristais, que possuem natureza quasi-periódica. Verdade ou não, o viajante não o sabe. Nem conhece, neste vasto mundo, ninguém a quem isso interesse, muito menos em Trancoso, ou no auditório que o cerca. Mas o cientista já se aproxima do fim, e termina com uma incursão, quem sabe se pertinente, ao campo dos números irracionais.

O orador seguinte vem da América, é especislista em novos meios e revoluções editoriais. Para economizar papel, lê a cansativa intervenção num ecrã de computador, e ao viajante parece isto, finalmente, um escrúpulo a registar. Fala de livros, da rede, de mercados e de comunicação. Porém muito vagamente, que a tradução simultãnea claudicou.

A seu tempo abandonou a plateia um marquês bem conhecido, anfitrião de lúcidas tertúlias, que veio do seu palácio em Lisboa atraído pelo rumor das propostas. Pôs-se ao fresco e não sabe o que perdeu,que à chegada do crepúsculo vai faltar à vernissage. Na vastidão das paredes da igreja do convento há uma instalação dum criativo inglês. A propósito da água, esse líquido precioso, e dos seus aspectos físicos, simbólicos e espirituais, há imagens vagas dum feto na bolsa de águas, um banhista às voltar numa piscina, e uma sequência de fotos dum galã americano a metamorfosear-se em boga.

Escapando a intervenções de cientistas avulsos e dum antropólogo indiano, o viajante seguiu o exemplo atilado do marquês,deu às de vila-diogo. E só tornou ao fechar dos trabalhos, para ver como acabava aquilo tudo. Um velho arquitecto português quis saber como é possível redesenhar a humanidade, se o rpincipal dos orçamentos dos governos vai para as armas e as guerras.

Um engenheiro brasileiro jurou que na sua terra estava tudo preparado para a nano-tecnologia, só o eqilíbrio do mundo os mantinha sossegados. Vindo embora do país que deu ao mundo os camponeses sem-terra, assegura que há nele terra bastante para afectar aos bio-combustíveis, sem molestar a produção alimentar. E porque era, enfim ,necessário concluir, alvitrou uma figura feminina que ao menos guardassem os pensadores os telefones dos comparsas.

(Cont.)

 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Contos... do vigário

(...) Aqui há uns anos, numa feliz conjugação astral, veio à fala o presidente da câmara com dois cidadãos do mundo. Eram eles um brasileiro de lusas raízes, arquitecto e compositor entre mais dotes, e um tal Barbas de méritos prováveis de quem nada se apurou. Logo os três se deram conta de não existir no país uma entidade que congregasse os labores de artistas, folósofos, pensadores e cientistas. E consideraram Trancoso o lugar ideal para uma contínua reflexão sobre os males do planeta, através da arte, da ciência e das novas tecnologias. Os três criaram a FACTO, logo ali, como quem diz a Fundação para as Artes, Ciências e Tecnologias - Observatório.

O objectivo da FACTO era a promoção de projectos de carácter transdisciplinar, transcultural, transnacional e intermediático. Seja lá isso o que for, em boa hora lhe deram nascimento, que assim veio a ter lugar o primeiro encontro internacional de arte e ciência, a que chamaram o Espírito da Descoberta. Um tal espírito visava promover um momento de informação e debate, gerando uma visão mais ampla, diversificada e profunda dealgumas das mais fascinantes descobertas da ciência e das propostas da arte, questionando a sua natureza, os seus fins e o universo humano nelas envolvido.

Perante o duvidoso jargão da propaganda, cresce ao viajante a muita perplexidade. Mas logo veio em apoio de tão peregrino evento uma procissão de aclamadores, entre eles um filósofo europeu, presidente da Associação Mundial de Críticos de Arte, que era também a cabeça honorária do Tribunal Europeu do Ambiente.

Uma tal instituição, que anos atrás já naufragara na Bélgica por culpa dos governos que faltam aos compromissos, das multinacionais cuja bandeira é o dividendo, e de corrupções avulsas, achara por fim em Londres um porto de acolhimento. Foi nessa altura que o já citado brasileiro-luso se tornou seu director. E os Encontros Internacionais de Arte e Ciência, já firmados em Trancoso, deram então lugar às sessões do Tribunal Europeu do Ambiente. O Espírito da Descoberta cedeu passo às Origens do Futuro, muito embora pareça ao viajante, em linguagem mais terrena, que à tal fome de aventuras visionárias se juntou aqui a mais singela vontade de comer.

Esperava-se audiência de estudantes de várias universidades vizinhas de Trancoso, não especificadas pela organização. Ademais de professores, artistas, investigadores e público em geral. A plateia, porém, não chega a duas dúzias de presenças exóticas, as mais delas personagens da própria encenação. Mistura-se nas conversas o linguajar brasileiro com um inglês de várias latitudes, alguém atarefado nos serviços de apoio fala um português genuíno.Mas a tradução simultânea permite ultrapassar a babélica confusão.

(Cont.)

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Rumor de setins

Quem teve sorte foi a avó Basília, que chegou antes de todos, na cadeira de rodas. Dois netos patinaram rampa acima, fincando os pés nas gretas da calçada, até depositarem ao cimo da ladeira esta rainha. Tamanha canseira nem a dos palafreneiros d'el-rei dom João V, quando o magnânimo vinha aqui subir a encosta e abrir o peito ao espavento dos torreões da sua Mafra, que haveriam de torná-lo imortal. Fosse como fosse, a verdade é que a velhota, os pêlos do mento escanhoados a preceito e o restante do carão aplainado por cremes e pós-de-arroz muito oportunos, logo tomou lugar à frente, na coxia central da grande nave da basílica, não queria perder pitada da função.

O pior foi que muitos convivas rebanhavam ainda na larga escadaria quando a noiva chegou, e já não puderam entrar. Porque ela apoiou o cansaço das olheiras no cotovelo solene do padrinho, deixou que a frescura do templo lhe cerrasse as pálpebras azuis, ajustou o passinho miúdo aos acordes imponentes das tubagens do órgão e deixou-se levar. Dir-se-ia que levitava, hirta, nave acima, de bouquet na mãozinha fria, enquanto flutuava por cima das leis da física, o corpo de libélula a dissolver-se na abundância de folhos, entre sedas e organdis. E atrás dela, na mesma lentidão sisuda de majestade reinante, lambendo o chão num rumor de setins, logo começou a entrar na igreja a cauda do vestido.

Quando a noiva chegou ao altar e se apoiou, exausta, no genuflexório, ainda o vasto caudal se alongava pelo largo fronteiro, vindo lá do fundo da avenida que chega da Ericeira. Andavam os pobres caudatários numa fona, afugentando cães, espantando choferes irritados, os veludos do fato em desalinho. O manto continuava a desaguar na basílica, enchendo o pórtico de umbral a umbral, em volutas de tafetás e tules.

Radioso a princípio, o semblante do padre foi-se fechando à medida que o empo se escoava, sem aparecer o fim da cauda nupcial. Ele conhecia como ninguém os caprichos do mundo e das suas criaturas. Mas não pôde evitar a sombra duma inquietação, à medida que foi vendo a metade fundeira da igreja afogar-se em castelos de cambraias, os convivas, em temor, a rodearem o altar.

E foi quando o pânico ameaçava já tomar conta da assembleia que a fímbria derradeira do manto entrou na basílica. Perante o arrebato de quantos protestavam lá fora, tão insolitamente impedidos de assistir à função, o padre ministrou rapidamente o sacramento, era o que podia fazer. E logo desapareceu na sacristia, desparamentou-se e saiu pelas traseiras.

Abandonado a si mesmo naquela clausura, de que ninguém lobrigava forma de sair, esteve o concílio a pontos de perder a cabeça. Houve quem tivesse a ideia de deitar fogo a tudo, alguém sugeriu que era melhor saltarem todos pela janela, abandonando os tules inúteis.

Acabou afinal por vir a desvendar-se que tudo não passava duma tramóia, engendrada por uma estação de televisão em desespero de audiências. E foi então que a avó Basília, incomodada por tamanho desperdício, chamou de parte a neta e lhe disse ao ouvido que sempre encontrará na vida o que precisa quem guarda o que não presta.

Tal foi o que lhe disse, como foi o que se fez. Recordado das antigas campanhas na Guiné, o padrinho chamou em apoio um pelotão de infantaria, que saía em manobras do quartel vizinho. Ajudaram todos a enfardar cambraias e setins, veio mais tarde a noiva recolhê-los, depois da lua-de mel.

Tinha razão a avó Basília, tamanho jeito lhe vieram a dar para tapar as misérias, durante um ror de anos.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Maias


Floresce a giesta negral.
Mas as abelhas evitam-na
Salvo quando constipadas.