A base do Negage mantinha destacamentos pelo norte, para maior proximidade aos comandos do exército. Um deles era no Toto. Duas ou três dezenas de militares com funções diversas, sob a administração dum alferes miliciano, que geria as instalações, a alimentação e a cozinha. A pista era de terra batida e os pilotos eram dois, dispondo de um Auster para transportes ligeiros e dois T-6 para apoio à tropa.
Um dia regressei às três da tarde dum transporte do brigadeiro do exército. A fome não era pouca, e o rancho resumia-se a uns restos de bacalhau em estado duvidoso. Uma espreitadela às gavetas da cozinha brindou-me com uma ninhada de ratinhos ainda implumes. O alferes administrativo, um indígena amigo do Lobito, confidenciou-me que o Nord-Atlas que trazia abastecimentos de Luanda não aterrava há vários dias, porque as chuvas tinham alagado a pista. E eu... vi assim reunidas todas as condições para meter a pata na poça. Tirámos a porta direita do Auster, sobrevoámos uns burros do mato, mas o cabo do armamento não acertou em nenhum com a G3 da ordem. E eu reentrei num T-6, dei umas voltas pelo horizonte, encontrei umas pacaças, fiz um passe, abati uma. Durante uma semana houve carne para o destacamento e para a sanzala próxima.
Quando o mimo se acabou, a via já estava aberta. E eu lá fui, até encontrar um bando nas margens dum charco. Entre elas um vitelo amarelinho, de fazer água na boca. Entrei ao passe, disparei, voltei a entrar, voltei a disparar, voltei a entrar... Quanto mais passes fazia, mais baixo entrava, em piores condições ficava. Depois veio o perigo da fascinação do alvo móvel. É ir atrás dele... até chegar ao chão!
O bicho morreu quando um trovão lhe desabou em cima e o matou. E eu bem tentei recuperar da picada, mas ao pobre do aparelho já faltava metade da asa. Lá caiu não sei bem como, partido aos bocados. E eu, com os olhos cheios de sangue e a articulação do maxilar bloqueada, acabei por ser encontrado pelos camaradas que foram à minha procura.
Fui evacuado para Luanda, com uma camisa verde de brigadeiro limpíssima. E acabei por regressar a Lisboa, ao hospital da Estrela, tendo ficado inativo durante um ano. Fiz entretanto um casamento catastrófico, de que é melhor nem falar. E os generais da Força Aérea, em novo assomo de cinismo, mandaram-me para Tancos, para dar formação a jovens alferes milicianos em trânsito para o sertão.
Um belo dia lá vou eu, com dois cachopos dentro dum Dornier, a treinar umas aterragens numa pista de terra que havia na Comenda, do Pequito Rebelo, ali ao lado de Abrantes. Simulámos uma aterragem forçada num lameiro, e quando recuperámos o motor disse que não. Havia que meter aquela porra num sítio qualquer onde coubesse, mas o horizonte era de vinhas, de pinhais, de um ou outro montado. Acabámos por aterrar de lado, num pequeno quintal, isto é, com uma perna do trem e a ponta duma asa a lavrar o chão. O aparelho acabou deitado de lado, a dormir uma soneca. E nós saímos os três pela porta de cima, frescos que nem uma alface. Ao lado havia uma quinta, e os donos, com alguma pena de nós, ofereceram-nos um prato de morangos que ainda hoje me sabem bem.
Até que um dia...