terça-feira, 13 de abril de 2021

Ao menino e ao borracho...

Em Fevereiro de 1976 atravessei a ribeira dos Tourões e passei a salto a fronteira na Alta Rasa. Tinham-me prometido dez anos de exílio. Mas em Fevereiro de 78 já se tornara claro que, a haver um julgamento do 25 de Novembro, as regras normais seriam tidas em conta. Ora assim sendo havia que regressar. Porque a guerra era aqui e não lá fora.

E eu não tive qualquer dúvida. Mas também não tinha um passaporte válido, nem era lógico pedi-lo em Berlim. E lá se decidiu que o lugar adequado era o Maputo. Havia que ir até lá, depois de apanhar em Moscovo o voo da Aeroflot que dava a volta a meio mundo.

Nessa época eu tinha problemas com as amígdalas. E surgiam com frequência umas crises danadas, que me exigiam pesados antibióticos injectáveis. Dois ou três dias antes da partida... lá estava mais uma delas.

Preocupado fui ao hospital, onde uma Frau Doktor já madura me ouviu sem se condoer. Ficou-se por umas pastilhitas de chupar!

Era inverno. E eu vesti o sobretudo, apanhei o voo para Moscovo, passei umas horas numa sala de trânsito, e à noitinha parti no avião russo.

A infecçãozita fazia o seu caminho. E eu deixei de conseguir engolir, perante o espanto da hospedeira russa a quem recusei sempre as laranjas e outras vitualhas. A meio da noite aterrámos no Cairo, que se estendia lá em baixo num mar de luzes e noutro de mistérios. Milenares. Pouco depois descolámos, rumo à noite. E quando a manhã rompia achámo-nos em Aden, à entrada do Mar Vermelho.

Aí pudemos sair e estender as pernas. Lembro-me do sol macio, duns indígenas que andavam por ali, mas nenhum deles me pareceu ser o fantasma do Afonso de Albuquerque. Verdadeiro só o leme de direcção dum Mig russo, emboscado atrás das dunas. E ao longe, no horizonte, via-se um monte escuro, que bem ou mal me fez lembrar a Canção do Camões. Junto dum seco, fero e estéril monte...

A etapa seguinte seria Mogadiscio, onde as coisas não deviam andar muito católicas com os etíopes. Ninguém saiu, e a hospedeira russa encostou-se a um tabique, silenciosa, enquanto uma agente local entrou com ar de poucos amigos. Percorreu lentamente a coxia, viu o que havia que ver e pôs-se a andar.

Foi sem demora que nos fomos dali, rumo a Dar-es-Salam, e quando lá chegámos era Verão. Despi o sobretudo, desembarquei, e fiz uma bela passeata lá num parque, com hibiscos, trepadeiras e palmeiras. A fome nem a sentia, que tinha mais que fazer.

Restava um último salto até Maputo. Mas quando quis sair do aeroporto vi-me proibido de o fazer. E com imensa razão, já que não trazia qualquer visto de entrada. Sentei-me lá num banco, livrei-me do sobretudo e deixei-me desabar. As dores na garganta pareceram aumentar, e a cabeça entrou-me em roda livre, à espera duma saída. Até que ela chegou. Pedi ao hospedeiro o favor de telefonar para a embaixada alemã. E de lá chegou um funcionário que me safou da embrulhada.

O homem deixou-me num hotel surpreendente, que era redondo e moderno e se chamava girassol. Ora eu nunca estivera no Maputo, o que conhecera a palmo fora Angola e a Guiné. Não conhecia nada da cidade, nem das surpresas que ela me guardava. Logo que fiquei sozinho vim à rua e pus-me a andar à toa, alguma farmácia havia de encontrar. E encontrei-a. Atendeu-me um farmacêutico branco, de bata imaculada, a quem contei a história. A quem pedi que me vendesse sem receita o antibiótico de nome já esquecido.

Caiu-me o queixo de espanto quando o homem foi lá dentro e voltou com as pílulas na mão. Ao menino e ao borracho... e era mesmo verdade! Voltei para casa, contente como é de imaginar, e de caminho encontrei um vendedor a quem comprei um enorme abacaxi.

Levei para o quarto um prato e uma faca, que me dariam um jeitão. E deitei-me muito cedo, em vista das circunstâncias. 

Depois é que foram elas. Passei a noitada em claro, já se vê. As amígdalas estavam mais que maduras, e quando engoli as pílulas foi efeito fulminante. Passei toda a madrugada a escarrar num cinzeiro umas matérias castanhas, ensanguentadas e podres, que me faziam lembrar nem sei o quê. 

De manhã dei-me conta de estar novo. As dores desapareceram e finalmente a fome pôs-se a gritar. Fui-me ao abacaxi, comi-o todo.

Restava-me procurar o consulado, que encontrei na avenida Mao-tse-Tung, e pedir um  passaporte. Atendeu-me uma mulher que estava grávida, e me pediu uma certidão de nascimento de narrativa completa. Voltei lá quinze dias depois, com a certidão na mão. E nesse mesmo dia a mulher que estava grávida entregou-me o documento.

Confesso que fiquei emocionado, até lhe beijei a mão. Depois fui marcar o avião da TAP, que me traria a Lisboa. Informei o Conselho da Revolução da chegada à capital. E lá tinha à minha espera um senhor que era major, e me entregou em Caxias. Estive lá, se tanto, quinze dias. Fui presente a um juiz que me mandou aguardar o julgamento. Em casa.

Ora casa era coisa que eu não tinha. E o julgamento também nunca aconteceu. A história é que deixou de ser a mesma, com a ressalva de sempre. Ao menino e ao borracho...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Um tantinho de nozes

Angelina tem mais de setenta anos e vive em Dine, que é o lugar onde nasceu. É um aldeia com fornos de cal, abandonados há muito. E fica atrás do derradeiro monte que limita os fins do mundo. Chega-se lá depois de passar muitas encruzilhadas, e é um lugar tão bonito que nem apetece deixá-lo.

É aqui que Angelina vive, com uma cadela que se chama Luna. Ouve uma pessoa um nome assim e põe-se a fazer perguntas ao instinto.

A seu tempo foi Angelina mãe solteira, duma filha que vive na cidade. Trabalha no comércio, a rapariga, e Angelina está toda contente. Gosta mais de a ver longe neste ofício, do que perto a labutar no campo. Ressalvando a tristeza comum de se encontrarem só de horas em quando. Mas um dia há-de-lhe dar uma netinha.

Angelina vive perto da fontana, ao lado duma represa que também serve de tanque de lavar. E quando chega o Natal faz um presépio ali no jardinzito, para alegria e animação do povo. A casa fica além, debaixo da parreira, e vivem hoje nela a dona e a cadela, conforme antigamente lá viviam a filha e a mãe já velha. Sempre que voltava a casa, Angelina punha-se a fingir a voz duma vizinha, às punhaladas na porta com recados urgentes. - Oh que assim és tontinha, minha filha! - E riam ambas no fim.

Ao contrário do resto da aldeia Angelina não anda de preto, porque não é viúva. E por sobre ser uma mulher com ar alegre, tem um espírito aberto, dado e solto. O melhor será chamar-lhe livre, porque o é. Ninguém lho amansou, que é o que sucede as mais das vezes, quando passa por cima das mulheres o rolo compressor da conjugalidade.

À despedida oferece-nos um tantinho de nozes e castanhas. E confessa que, por esse mundo além, só lhe agradava ver a árvore de Natal numa praça do Porto. Dizem na televisão que não há outra maior, e ela acredita.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Um plebeu chamou-lhe um dia vaca sagrada.

 

                           Eduardo Lourenço 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A ninfa

Eram os olhos a maior perdição dela. Tão grandes que nele cabia o mundo, tão escuros e fundos que lembravam o mar. Depois vinha a estampa límpida do rosto, debaixo da gaforina asa de corvo: o lábio húmido a carnação macia, a flor da face cheia de mistério, a prometer abrir-se num sorriso que não chegava a abrir. O resto era o colo generoso, o ventre inquieto, as colunas das ancas a prometer abismos.

Ninguém sabe explicar como apareceu ali, criada na aldeia, aquela ninfa antiga. Olhava-se para ela e vinham à lembrança as deusas primitivas da fertilidade. O mesmo nome, Pristila, era um sinal pagão.

Dava escola para os lados de Aveiro, e vinha a casa sempre que podia. Chegava na carreira, ao fim da tarde, porque o pai, atento à vida, a reclamava. A bem dizer, era a aldeia inteira que a exigia.

Na vila sabia toda a gente que o Tunante não era boa rês. Era um vilão bastardo, que fazia deste mundo uma coutada de caça. E todos lhe guardavam respeitinho, mais por instinto primário de defesa do que por atributos que não tinha. A ninfa confundiu nele a brutidade grosseira com predicados de macho dominante. E quando vinha à vila, a passear, nem lhe escusava as momices atrevidas nem os avanços de bruto galaroz. E acabou, já mansa e confundida, a enlear-se no assédio do bargante.

No dia em que as férias começaram chegou a ninfa à vila, desceu da carreira ao fim da tarde. Uma outra que vinha do comboio havia de pô-la em casa. Mas o Tunante estava à espera dela. Cercou-a de rapapés e cortesias, havia de lhe mostrar a loja nova, logo à entrada das muralhas.

A ninfa deixou-se conduzir. E quando veio a hora da carreira, à beirinha da noite, prometeu-lhe o Tunante que um amigo a levaria a casa, de carrinho, à moda das princesas. E logo ela se rendeu, enleada em semelhante gentileza. Tinha mesa posta e banquete preparado, bom presunto, melhor queijo, de vinho bastava-lhe um dedal, não estava acostumada.

A princípio o Tunante foi cordato, coroou-a de rapapés, quis levá-la com bons modos. Penteou-lhe a gaforina, passeou-lhe as mãos no flanco, encheu-lhe o copo de vinho. E abriu-lhe um botão do peito, só para ter uma visão. 

A ninfa aos poucos cedeu, o coração num galope. Dum lado o corpo inteiro a amotinar-se, o sangue a romper as veias, o ventre incendiado a extravasar. Doutro lado um grande medo, a cara dele a perder as feições, e um gesto tão poderoso que a assustava. 

Quando quis despir-lhe a blusa a ninfa ainda resistiu. Mordeu o lábio para evitar um grito, cruzou os braços no peito sublevado, refugiou-se no medo. E o Tunante deteve-se um momento, pareceu abandonar o campo de batalha. Foi ajeitar, ao canto, as mantas que lá tinha. Depois apagou a luz, ergueu numa braçada a ninfa amedrontada e foi estendê-la no chão.

Lá fora passaram socas a tropear na calçada. Porém a ninfa hesitou, reteve outra vez um grito. E já dois braços poderosos lhe sujeitavam o corpo, e as pernas brutas lhe apartavam as colunas, e rudes mãos lhe devassavam o peito. As socas na calçada voltaram a tropear, mas a ninfa retraiu-se. Conteve a respiração, não fosse ouvir-se lá fora o ranger do bragal que estilhaçava. Por três vezes entrou nela um vendaval, três vezes a desfolhou. Depois caiu uma escuridão desamparada, e um lago que arrefecia.

Por fim bateram à porta, era o outro que chegava. Aconchegou a ninfa no banco de trás do seu Volvo marreco e arrancou. Antes de a deixar em casa foi parar na carreteira dos moinhos do Alcaide, ninguém ali passava àquela hora.

O Tunante recolheu as mantas, fechou a porta da loja. Uma ninfa desfolhada dava casamento certo, era raspar-se um homem para o Brasil ou sujeitar-se aos códigos. Porém, em sendo o festim a meias, era ela assumida marafona e os códigos sossegavam. Cumprisse o amigo a sua parte e ficava o problema resolvido.

Quando o Outono chegou, depois das primeiras chuvas, o Tunante subiu para a camioneta e foi recolher à aldeia uns contratos de centeio. Bem o avisaram as sibilas, que desfizesse o negócio, que por lá tinha a morte prometida. Mas ele guardou a sovaqueira no casaco e lá subiu a encosta, a governar a vida. Um homem não saiu para outra coisa das mãos do criador.

O pai da ninfa já estava à espera dele, sentado no balcão. E quando o viu saltar da camioneta, de machado nas unhas foi-se a ele. O outro ficou surpreendido, não podia acreditar. Estendeu a mão à sovaqueira e pôs-se a ladear, queria ver se era verdade. Mas o homem trazia no carão a fúria dum deus irado, como quem chega duma tragédia antiga, o melhor era levar a coisa a sério. E desatou a correr.

As mulheres espreitavam à janela, havia gente que parava pelas hortas, a olhar, silenciosa. A própria tarde parou, a ver um homem cavalgar estrada abaixo, atrás doutro que fugia. Quando o sentia mais perto, virava o braço para trás e disparava. Disparou à passagem do ribeiro, e à horta da Teresa Côta, e à subida do negrilho, e à curva da fraga grande.

Agora chegámos nós à fundeira da encosta, e já cruzámos a estrada, e temos à nossa frente o açude da ribeira. Não nos sobra mais que um tiro, e já nos queima o pescoço o bafo dum deus irado. O Tunante apontou-lhe ao coração e disparou. E o machado, que lá vinha como um raio, enterrou-se-lhe no ombro.

Mas vem dalém um pastor, a correr em altos berros, vem salvar esta desgraça. O primeiro já está morto, nada podemos fazer. De que nos serve o segundo, um vagabundo. E num golpe de machado abriu-lhe a cabeça ao meio.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Despautérios canalhas

Aqui há uns anos, numa feliz conjugação astral, veio à fala o presidente da câmara com dois cidadãos do mundo. Eram eles um brasileiro de lusas raízes, arquitecto e compositor entre mais dotes, e um tal Barbas de méritos prováveis de quem nada se apurou. Logo os três se deram conta de não existir no país uma entidade que congregasse os labores de artistas, filósofos, pensadores e cientistas. E consideraram Trancoso o lugar ideal para uma contínua reflexão sobre os males do planeta, através da arte, da ciência e das novas tecnologias. Os três criaram a FACTO, logo ali, como quem diz a Fundação para as Artes, Ciências e Tecnologia - Observatório.

O objectivo da FACTO era a promoção de projectos de carácter transdisciplinar, transcultural e intermediário. Seja lá isso o que for, em boa hora lhe deram nascimento, que assim veio a ter lugar o primeiro encontro internacional de arte e ciência, a que chamaram o Espírito da Descoberta. Um tal espírito visava promover um momento de informação e debate, gerando uma visão mais ampla, diversificada e profunda de alguma das mais fascinantes descobertas da ciência e das propostas da arte, questionando a sua natureza, os seus fins e o universo humano nelas envolvido. 

Perante o duvidoso jargão da propaganda, cresce ao viajante a muita perplexidade. Mas logo veio em apoio de tão peregrino evento uma procissão de aclamadores, entre eles um filósofo europeu, presidente da Associação Mundial de Críticos de Arte, que era também a cabeça honorária do Tribunal Europeu do Ambiente.

Uma tal instituição, que anos atrás já naufragara na Bélgica por culpa dos governos que faltam aos compromissos, das multinacionais cuja bandeira é o dividendo, e de corrupções avulsas, achara por fim em Londres um porto de acolhimento. Foi nessa altura que o já citado brasileiro-luso se tornou seu director. E os Encontros Internacionais de Arte e Ciência, já firmados em Trancoso, deram então lugar às sessões do Tribunal Europeu do Ambiente. O Espírito da Descoberta cedeu passo às Origens do Futuro, muito embora pareça ao viajante, em linguagem mais terrena, que à tal fome de aventuras visionárias se juntou aqui a mais singela vontade de comer.

Esperava-se audiência de estudantes das várias universidades vizinhas de Trancoso, não especificadas pela organização. Ademais de professores, artistas, investigadores e público em geral. A plateia, porém, não chega a duas dúzias de presenças exóticas, as mais delas personagens da própria encenação. Mistura-se nas conversas o linguajar brasileiro com um inglês de várias latitudes, alguém atarefado nos serviços de apoio fala um português genuíno. Mas a tradução simultânea permite ultrapassar a babélica confusão.

O primeiro orador é um artista português. Debita um par de noções elementares sobre a eutrofização das lagoas dos Açores, fala no pico do petróleo e nos limites do crescimento, cita os malefícios da suburbanização e da fordização da sociedade. Discursos consensuais. E acaba por desvendar o seu projecto de capital dum país do futuro, uma grande estuário estimulado pela utopia dos jogos olímpicos de 2020, que haverão de ser os primeiros jogos pós-carbónicos.

O segundo orador é um físico judeu, que parte do big-bang original até chegar ao microcosmos dos protões, feitos de quarks ligados por gluões. Revela ao auditório sonolento a descoberta dos quasi-cristais, que possuem natureza quasi-periódica. Verdade ou não, o viajante não o sabe. Nem conhece, neste vasto mundo, ninguém a quem isso interesse, muito menos em Trancoso ou no auditório que o cerca. Mas o cientista já se aproxima do fim, e termina com uma incursão, quem sabe se pertinente, ao campo dos números irracionais.

O orador seguinte vem da América, é especialista em novos meios e revoluções editoriais. Para economizar papel, lê a cansativa intervenção num écra de computador, e ao viajante parece isto, finalmente, um escrúpulo a registar. Fala de livros, da rede, de mercados e de comunicação. Porém muito vagamente, que a tradução simultânea claudicou.

A seu tempo abandona a plateia um marquês bem conhecido, anfitrião de lúcidas tertúlias, que veio do seu palácio em Lisboa atraído pelo rumor das propostas. Pôs-se ao fresco e não sabe o que perdeu, que à chegada do crepúsculo vai faltar à vernissage. Na vastidão das paredes da igreja do convento há uma instalação dum criativo inglês. A propósito da água, esse liquido precioso, e dos seus aspectos físicos, simbólicos e espirituais, há imagens vagas dum feto na bolsa de águas, um banhista às voltas numa piscina, e uma sequência de fotos dum galã americano a metamorfosear-se em boga.

Escapando a intervenções de cientistas avulsos e dum antropólogo indiano, o viajante seguiu o exemplo atilado do marquês, deu às de vila-diogo. E só tornou ao fechar dos trabalhos, para ver como acabava aquilo tudo. Um velho arquitecto português quis saber como é possível redesenhar a humanidade, se o principal dos orçamentos do governos vai para as armas e as guerras.

Um engenheiro brasileiro jurou que na sua terra estava tudo preparado para a nanotecnologia, só o equilíbrio da economia do mundo os mantinha sossegados. Vindo embora do país que deu ao mundo os camponeses sem terra, assegura que há nele terra bastante para afectar aos bio-combustíveis, sem molestar a produção alimentar. E porque era, enfim, necessário concluir, alvitrou uma figura feminina que ao menos guardassem os pensadores os telefones dos comparsas.

O Tribunal Europeu do Ambiente acabou a anunciar nos jornais a instalação em Trancoso dum projecto-piloto de cidade biológica. Benza-os Deus, ao tribunal e ao projecto, por virem tão a propósito. Pensa isto o viajante, ao lembrar-se do fedor das queijarias do quinta do Forcas, ali abaixo a dois passos. Com os seus lagos de efluentes a céu aberto, empestam a atmosfera à saída para Lamego, inquinam a ribeira de Rio de Moinhos, interditam a rega aos aldeãos, matam as faunas do Távora.

Ainda bem que chegaram a Trancoso estes cavaleiros andantes. A vila inteira é que não deu por eles, se antes não caprichou em manter as distâncias. É que há nestas liturgias diletantes um solipsismo patético, há um vazio que dói. Porém muito suspeita o viajante que a tão irreais oficiantes não molestou tão grande alheamento. Bem antes pelo contrário. E custa-lhe a acreditar que a câmara de Trancoso dispenda uma fortuna a financiar tudo isto.

Porque ainda não é tudo. Buscando nas entrelinhas, acaba por saber o viajante que o dito museu do tempo exporá uma  colecção de duzentos relógios dos últimos quatro séculos. Os quais fazem parte do espólio dum inventor e industrial português de contornos indecisos, directo ascendente do já citado compositor brasileiro-luso, a alma destes encontros. E o arrojado museu vai ter o nome do filósofo que é também presidente honorário do Tribunal Europeu do Ambiente. Sabidos que já eram os efeitos, ficam assim conhecidas as causas, não vá alguém iludir-se com os acasos deste mundo. Tudo não passa afinal dum concerto de privadas conveniências.

Ora o viajante considera que um tão distinto cenáculo de construtores do futuro bem faria em reunir-se no hotel do Alto dos Frades, para uns serões pacíficos de bridge. Mas não para estes rituais iniciáticos, alheios a uma realidade que absurdamente os ignora e financia. Bem verdade é o que se diz de qualquer poder sem freio. Ou corrompe ou ensandece.

(bem mais havia a dizer, mas fiquemos por aqui)

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Lidoro

Um tal nome é corruptela do vulgo, do original já não há quem se lembre. Tinha ressonâncias clássicas perdidas, engendradas ninguém sabe como na cabeça do pai, a quem chamavam filósofo. Isto quando voltou da grande guerra, de cabeça estonteada pelos gases.

Hoje vive ali nas Tapadinhas, a meio da encosta, como um anacoreta. Tem uma casita de chão térreo, com uma porta por onde o sol espreita, sem entrar. Lá dentro cabe uma vaca, duas cabras, e dúzia e meia de cães. Na horta há uma presa velha, de águas-vivas. Basta-lhe a ele, aos bichos e ao renovo.

Quando calha apanha uma perdiz, um laparoto incauto, se os cachorros ajudarem. Poda as vides da latada em lhe chegando o tempo, e é delas que tira um palheto improvisado para adoçar as invernias. Afora isso deixa o mundo correr.

Teve em tempos uma namorada, e desejos de fazer vida com ela. A mãe é que não deixou, no entendimento dela não era mulher para ele. A namorada foi casar a outro lado, a mãe morreu quando lhe chegou o dia, Lidoro ficou sozinho e mudou-se para as Tapadinhas. Nunca mais voltou ao povo, que foi ficando deserto.

Já lhe ofereceram uma casa da Misericórdia, um catre no lar dos velhos, mas ele escorraçou o mensageiro. Diz que se fartou daquelas galgas, que não está para as aturar. As galgas são as línguas das mulheres, quando se juntam na fonte. E ninguém lhe deu notícia de que as galgas lá morreram e deixaram de lá ir.

A pontada que lhe mói o lado esquerdo já passa as noites com ele. A princípio ia e vinha, uma fraqueza assim ao fim da tarde, talvez por mor do cansaço. Agora nem de madrugada o larga. Prende-o à cama e só o vai largar quando acabar com ele. Mas Lidoro ainda o não sabe.

Nessa altura, que não tarda, os cachorros vão juntar-se à roda do seu dono, todo ausente, a mão imóvel. Vão ganir-lhe, em voz chorada, a pressentir o pior. Vão uivar-lhe, em desespero, já sem esperança nenhuma.  E vão ladrar-lhe, raivosos deste abandono, já toldados pelo instinto. Até que o primeiro deles lhe afoite na jugular os caninos esfaimados.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Felisberto

E o viajante já está de partida quando chega Felisberto, a cavalo numa espécie de lambreta, barulhenta e minúscula. 

- Há-de-me ver isto, mestre Fernando! Vejo-me grego para a pôr a trabalhar, passa a vida a tossir!

O nome de Felisberto não lhe diz com a fachada. É um homem seco, nervoso. tem um ar atormentado, e a cortesia dos gestos não disfarça o sobressalto íntimo em que parece tropeçar. O mestre promete que ainda hoje tira as tosses à lambreta. E o viajante, é ao que anda, vai conversar com Felisberto para a sombra dum castanheiro.

O homem não esconde a vontade de falar das suas vidas, pouco terá ocasião de o fazer. Ora o viajante, médico não sendo, sabe da própria experiência o poder milagroso das palavras, mormente se outro remédio não houver. Há anos está Felisberto reformado da polícia e agora vive aqui na aldeia. Sempre é ambiente mais favorável ao seu génio sobressaltado.

- Tudo isto são nervos! - resume Felisberto, que pouco mais sabe explanar dos seus padecimentos. Embora saiba muito bem que tudo ficou assim desde as guerras de Angola. Um dia, em 70, acabado de chegar a Luanda, meteram-no com mais dois colegas num avião que os deixou em Serpa Pinto. De lá seguiu numa coluna militar para o Baixo-Longa, e depois para o Cuíto. Atravessaram o Kuando-Kubango e ao cabo de dois dias chegaram a Mavinga. Luanda ficara a dois mil quilómetros, e isso pouco era, comparado com a distância a que deixara a mulher e um filho, em Alcabideche, do outro lado do mar via-se a Trafaria.

Mas o guarda Felisberto não se quedou por aqui, o seu destino final era mais longe. E ainda faltava outro tanto de viagem até ao posto policial e fiscal do Rivungo, na fronteira da Zâmbia. Era lá que o império precisava dele, para enquadrar as milícias dos quimbos, e para controlar as populações de que o império era feito.

O viajante não entende muito bem o que  isto quer dizer, não sabe como se enquadram milícias, nem imagina como é que estes três homens vão controlar as populações dum império. As palavras são de Felisberto, o viajante limita-se a ouvi-las e a guardá-las na memória.

Ali viviam os três guardas num barracão de adobe e telhado de zinco, perdidos num mar de capim, quando iam ao rio espreitar os jacarés levavam em bandoleira a Mauser de repetição, que era tudo o que tinham por companhia. De horas em quando vinha uma coluna e deixava latas de salsichas, uns fardos de arroz e sacos de farinha, de que eles faziam pão numa fornalha de barro.

Felisberto não era nada feliz naquele mar de areias verdes onde a vista se perdia, mas aguentou sete meses. Até que o apanhou um ataque fatal de paludismo, mesmo ruim, e uma paralisia facial que o deixou de cara à banda. O viajante não compreende como é que o paludismo e a paralisia se juntaram assim, mas Felisberto também não sabe explicar.

Lá foi um dia evacuado para Serpa Pinto, numa passarola de quatro asas que aterrou na picada. Dali apanhou uma camioneta para Nova Lisboa, e depois outra para Luanda, onde acabou por chegar ao fim duma eternidade e com menos de cinquenta quilos de peso. Ficou assim mais perto do filho e da mulher, mas ainda havia de tardar em vê-los, que lhe faltava um ano e tal de comissão na 7ª esquadra de Luanda. Gastou-o ele entre idas ao médico e transportes de presos para a Damba, um presídio de pretos lá nos confins do Norte. E foi assim que Felisberto conheceu meio mundo, e viu coisas com que nunca sonhou, e se fartou de viajar à custa do império.

Quando voltou, foi parar à Quinta do Pisão, a um centro de apoio social da Misericórdia de Cascais. Ficou por lá uns anos, em serviços de enfermaria, e só não aguentou mais porque já nada era igual. Nem a vida com a mulher e o filho voltaram a ser a mesma coisa.

Ao viajante, que se limita a observar enquanto vai ouvindo, Felisberto faz lembrar um barco que perdeu o lastro. Sendo dum país de marinheiros, cabia-lhe andar assim por mares e sertões, isso o viajante não discute. Mas a um marujo assim não convirá expor-se a virações, nem aventurar-se em águas muito fundas.