segunda-feira, 5 de setembro de 2022

O meu 4-patas

Viveu comigo seis anos. Há dias entrei o portão da rua e salta-me ele do muro à esquerda. Não era a primeira vez que o fazia, como quem dá as boas-vindas. Mas desta vez passou por baixo do carro e foi pisado por uma roda.

Com a coluna partida, o meu 4-patas arrastou-se à volta da casa e apareceu-me no alpendre. Não sei definir o que senti ao vê-lo, a arrastar-se e a sangrar da boca. Chegou à beira, desceu para os agapantos num gesto costumeiro, e morreu.

Em lugar dum 4-patas, eu tenho agora comigo um sentimento de culpa. E duas lágrimas.

domingo, 14 de agosto de 2022

Feira de Agosto

Há um sobressalto na paisagem

Do céu fugiu a cor

A brisa bate à porta

Vem entrando Saturno, o melancólico.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

domingo, 3 de julho de 2022

Credo! Abrenúncio!!!

No tempo em que os animais falavam, o dótor Relvas podia. E assim podendo, mandava que fosse feita formação específica de pessoal autárquico, na gestão de quaisquer remotos aeródromos que houvesse no meio da selva. Fosse lá isso o que fosse, a tarefa cabia à empresa Tecnoforma, onde pontificava um tal Passos Coelho.

Foram tempos para esquecer e assim ficaram. Mas agora apareceu o Montenegro, com os dois dedinhos no ar. E o pior é de temer.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Ena pá!

 

O que p´raí vai!!!

terça-feira, 28 de junho de 2022

Contos... do vigário

(Cont.)

O Tribunal Europeu do Ambiente acabou a anunciar nos jornais a instalação em Trancoso dum projecto-piloto de cidade biológica. Benza-os Deus, ao tribunal e ao projecto, por virem tão a propósito. Pensa isto o viajante, ao lembrar-se do fedor das queijarias da quinta do Forcas, ali abaixo a dois passos. Com os seus lagos de efluentes a céu aberto, empestam a atmosfera à saída para Lamego, inquinam a ribeira de Rio de Moinhos, interditam a rega aos aldeãos, matam as faunas do Távora.

Ainda bem que chegaram a Trancoso estes cavaleiros andantes. A vila inteira é que não deu por eles, se antes não caprichou em manter as distâncias. É que há nestas liturgias diletantes um solipsismo patético, há um vazio que dói. Porém muito suspeita o viajante que a tão irreais oficiantes não molestou tão grande alheamento. Bem antes pelo contrário. E custa-lhe a acreditar que a câmara de Trancoso dispenda uma fortuna a financiar tudo isto.

Porque ainda não é tudo. Buscando nas entrelinhas, acaba por saber o viajante que o dito museu do tempo exporá uma colecção de duzentos relógios dos últimos quatro séculos. Os quais fazem parte do espólio dum inventor e industrial português de contornos indecisos, directo ascendente do já citado compositor brasileiro-luso, a alma destes encontros. E o arrojado museu vai ter o nome do filósofo que é também presidente honorário do Tribunal Europeu do Ambiente. Sabidos que já eram os efeitos, ficam assim conhecidas as causas, não vá alguém iludir-se com os acasos deste mundo. Tudo não passa afinal dum concerto de privadas conveniências.

Ora o viajante considera que um tão distinto cenáculo de construtores do futuro bem faria em reunir-se no hotel do Alto dos Frades para uns serões pacíficos de bridge. Mas não para estes rituais iniciáticos, alheios a uma realidade que absurdamente os ignora e financia. Bem verdade é o que se diz de qualquer poder sem freio. Ou corrompe, ou ensandece.

Isto fica a pensar o viajante, que ainda não imagina a dimensão verdadeira da sandice. Porque os dois encontros anuais da FACTO, para o ano hão-de ser quatro. Dado que anda o planeta mergulhado em ondas de simetria e assimetria, nada como devotar-se a câmara de Trancoso a discutir as magnas questões da Ruptura e Tradição, mecenando conclaves de sumidades internacionais em educação, sistemas cognitivos, design, teoria e história da arte, matemática, arquitectura, música, filosofia da ciência, neurologia e dança.

E não vá tanta coisa parecer pouco, há-de o Segundo Encontro Iternacional de Arte e Ciência esquartejar o tema das Sociedades de Alto e Baixo Poder. E por haver neste lugar remoto largas famas e melhores tradições visionárias e esotéricas, aqui terá lugar um Encontro Internacional de Arte e Alquimia, onde será chamada a capítulo a Alchimiarte, sociedade de ilustres que em Locarno se ocupam das relações entre uma coisa e outra, desde há séculos.

Hão-de fazer do Bandarra um cabalista, há-de justificar-se-lhe um museu. E finalmente, - pois que em toda a acção do Tribunal Europeu do Ambiente está francamente presente a ideia da liberdade, resgatada no seu significado clássico, de onde emana uma dinâmica Paideia, em que cada pessoa é responsável pelo desígnio dos seus próprios limites - hão-de voltar as Origens do Futuro, para pôr em pratos limpos a questão.

No mundo caprichoso que aí está, não saberá dizer o viajante se a decadência triste que vai por estas terras é uma fatalidade inescapável. Mas não duvida, depois do que tem visto, de que estas políticas locais só lhes abreviam a sentença. Que Portugal mete medo. (...)

Contos... do vigário

(cont.)

O primeiro orador é um artista português. Debita um par de noções elementares sobre a eutrofização das lagoas dos Açores, fala do pico do petróleo e nos limites do crescimento, cita os malefícios da suburbanização e da fordização da sociedade. Discursos consensuais. E acaba por desvendar o seu projecto de capital dum país do futuro, um grande estuário estimulado pela utopia dos jogos olímpicos de 2020, que haverão de ser os primeiros jogos pós-carbónicos.

O segundo orador é um físico judeu, que parte do big-bang original até chegar ao microcosmos dos protões, feitos de quarks ligados por gluões. Revela ao auditório sonolento a descoberta dos quasi-cristais, que possuem natureza quasi-periódica. Verdade ou não, o viajante não o sabe. Nem conhece, neste vasto mundo, ninguém a quem isso interesse, muito menos em Trancoso, ou no auditório que o cerca. Mas o cientista já se aproxima do fim, e termina com uma incursão, quem sabe se pertinente, ao campo dos números irracionais.

O orador seguinte vem da América, é especislista em novos meios e revoluções editoriais. Para economizar papel, lê a cansativa intervenção num ecrã de computador, e ao viajante parece isto, finalmente, um escrúpulo a registar. Fala de livros, da rede, de mercados e de comunicação. Porém muito vagamente, que a tradução simultãnea claudicou.

A seu tempo abandonou a plateia um marquês bem conhecido, anfitrião de lúcidas tertúlias, que veio do seu palácio em Lisboa atraído pelo rumor das propostas. Pôs-se ao fresco e não sabe o que perdeu,que à chegada do crepúsculo vai faltar à vernissage. Na vastidão das paredes da igreja do convento há uma instalação dum criativo inglês. A propósito da água, esse líquido precioso, e dos seus aspectos físicos, simbólicos e espirituais, há imagens vagas dum feto na bolsa de águas, um banhista às voltar numa piscina, e uma sequência de fotos dum galã americano a metamorfosear-se em boga.

Escapando a intervenções de cientistas avulsos e dum antropólogo indiano, o viajante seguiu o exemplo atilado do marquês,deu às de vila-diogo. E só tornou ao fechar dos trabalhos, para ver como acabava aquilo tudo. Um velho arquitecto português quis saber como é possível redesenhar a humanidade, se o rpincipal dos orçamentos dos governos vai para as armas e as guerras.

Um engenheiro brasileiro jurou que na sua terra estava tudo preparado para a nano-tecnologia, só o eqilíbrio do mundo os mantinha sossegados. Vindo embora do país que deu ao mundo os camponeses sem-terra, assegura que há nele terra bastante para afectar aos bio-combustíveis, sem molestar a produção alimentar. E porque era, enfim ,necessário concluir, alvitrou uma figura feminina que ao menos guardassem os pensadores os telefones dos comparsas.

(Cont.)