sábado, 23 de maio de 2026

Alta

Então apanhei um dia uma carga de paludismo, que voltara àcidade. Não sei se doido, não sei se cerebral, conforme lhe chamaram. Eu não sei. Era um febrão que eu nunca tinha sentido. E lá fui parar ao hospital, às mãos dum médico cubano que me arrecadou nos cuidados intensivos durante uma semana. O corpo desfazia-se-me em água e acabou por arribar. Mas ainda tinha à espera uns dias de quarentena numa enfermaria.

Não levei muito tempo a reconhacê-la. Era a mesma antiga enfermaria onde eu passara dois meses a refazer os destroços dum desastre aparatoso, uns trinta anos atrás, nas aventuras da guerra. Na cama junto à janela batia o sol, cicatrizavam as feridas que a viseira partida me deixara nos olhos, vinham às vezes visitas de donzelas condoídas. Um enfermeiro solícito empurrava-me a comida para a fornalha dos queixais que recusavam abrir, nunca mais esqueci um tal cuidado.

Mas desta vez o rancho era intragável. Uns caldos indecifráveis, umas aguadas mistelas sem sabor, não havia maneira de as tragar. Ao meu lado estadiava o mais-velho Faustino, que era uma figura sossegada, o que o forçava ali não cheguei a sabê-lo. E todos os dias chegava a família ao meio-dia, a trazer o almoço ao patriarca. Juntavam-se em volta dele a acompanhar o repasto, às vezes funge, um frango à cafreal... E eu ficava a olhá-los, silencioso.

Um dia o negro Faustino olhou para mim muito sério, e decretou perante o adjun to: - A partir de hoje passas a comer comigo o almoço que eu tiver! Não podes dizer que não!

Nem chegou a uma semana, tive alta do hospital.

terça-feira, 12 de maio de 2026

A mestra

Dona Belisanda carregava nos ombros uma tarefa medonha: ilustrar a criançada que lhe abarrotava a sala, onde viviam também um crucifixo e um mapa, uma ardósia, um Salazar e um Carmona. E o fantasma dum Navegador que metia medo à aula.

De parceria com o padre, que repartia a farinha da Cáritas  e prometia manás vindos do céu, competia-lhe ainda iluminar as trevas que ensombravam este mundo.

A mestra tinha ascendentes numa tribo visigoda, há muitos anos extinta, donde lhe viera o nome e as maneiras. Porém isso levei eu muito tempo a sabê-lo. E enchia a barriga aos perús, sempre a grasnar no quinteiro, com ortigas cozinhadas que eu trazia do quintal.

Quando era tempo de aquecer a escalfeta, levávamos de casa umas achas de pinho. E ganíamos que voltasse a Primavera, enquanto bafejávamos as mãos.

Um dia, todo vaidoso, levei para a escola uma camisita nova, de riscado, aos quadradinhos vermelhos. Mal me viu ali ao lado, uma gaiata que fazia os meus encantos começou a derreter-se na carteira. Até o Navegador adoçou a catadura.

Mas a dona Belisanda não achou graça nenhuma. Talvez fossem ciumeiras, nunca o soube, eu de adultos ainda hoje pouco entendo. Recambiou-me para casa, que mudasse de camisa, e não voltasse a aparecer disfarçado de bombom de chocolate.

Perdi ali promessas de fururo, por troca duma camisa que nunca mais esqueci. E ainda hoje, dentro da minha cabeça, um bombom de chocolate tem quadradinhos vermelhos.

sábado, 9 de maio de 2026

O triunfo dos porcos

Antes de ser o que é hoje, Wall-Street era em tempos o local onde uns agricultores ergueram um muro à entrada de Manhattan, para evitar que os porcos invadissem as quintas e destruíssem culturas.

A medida submeteu os porcos fossadores e os campos ficaram em sossego. Mas depois vieram os porcos da finança e reocuparam posições. Deitaram abaixo o muro, puseram o nome à rua, e instalaram-se nas quintas e nas nossas vidas.

Só erguendo barricadas novas lhes escaparemos.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Lolita

A adolescente pica a senha no visor e avança pela coxia. Tem um ar um tanto produzido e o visual gótico destoa. Veste de preto integral, e a mochila avantajada que tem pendurada às costas dificulta-lhe a manobra. Traz cuidada a flor da face, rigorosa, maquilhada. Quase brilha, na geral vulgaridade. Ocupa o lugar da frente, dentro da sua redoma, vê-se bem que vem trancada numa filosofia.

De peito afogado em véus, veste uma saia de bicos, por baixo duma nuvem de organdis. Traz muitos anéis nos dedos, talvez de aço, e símbolos esotéricos a pendular ao pescoço. Os traços negros que lhe ornamentam as pálpebras dão-lhe um toque de vampiro inofensivo.

Quando arrisco se já leu o Nabokov, diz que não gosta de ler. - E viste o filme?! - Qual filme?! Segue a escola japonesa que frequenta na Internet.

Cá fora vejo-a melhor. Tem pernas tortas, cambadas, e enviesa os pés para dentro. As Doc Martens são imitação chinesa.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Manhã

Em Longroiva há um castelo dos templários.

Há uma chaminé a fumegar.

Há um velho a atravessar a rua, arrimado num bordão.

Há tractores que transportam azeitona para um lagar.

Há umas termas sulfurosas, recém-remodeladas.

Há um solar muito baixinho, com um brasão da gesta gloriosa, adaptado a turismo. Um dia quis lá dormir mas fugi dele, com receio duma harpia, e das teias de aranha que lá havia.

Há os penhascos de xisto da Verdadinha, a desenhar as margens dum ribeiro.

E além em frente, no cimo da cumeada, dá consultas a bruxa da Relva, que trabalha com o doutor Sousa Martins.

sábado, 14 de março de 2026

Bajo los tilos

A geografia não o diz abertamente, porque não quer a história badalada. Mas a avenida Unter den Linden em Berlim é a mais comprida do mundo. Vai desde a Pariser Platz até chegar ao cavalo de Frederico II, lá ao fundo. Uma jornada esgotante.

A primeira vez que a vi, chamava-lhe Gabi Bajo los Tilos. Mas as tílias da avenida eram pequenas e decepcionaram-me. Tinham sido plantadas há uns anos, que as mães delas foram levadas pelo povo, para se aquecer no meio das ruínas do desgraçado inverno de 46.

A última vez que as vi já eram bem redondas. E hoje estarão imponentes, não sei bem, há muito que as não vejo.

Oxalá tenham voltado à majestade antiga. Não vá o povo outra vez precisar delas, para acender uma velha fogueira entre ruínas novas.

terça-feira, 3 de março de 2026

O Roque e a amiga

Estão ambos ali ao cimo da avenida, há um ror de tempo, a quezilar. Nos dias de calor sonham com o lençol do rio, que passa lá ao fundo. Sempre traz uma frescura e lembra-lhes o mar, e o mundo para além dele. Fora disso contentam-se com a baixa pombalina, que lhes dormita aos pés.

Um tem formação romântica e um espírito clássico. Recolhido nas abas do capote, hierático e definitivo, parece um rei de pedra, dos antigos. Bem pode o mundo quebrá-lo mas não o torcerá, porque a razão não deixa.

O outro tem formação clássica e um espírito romântico, e uma alma que não se lhe confina às arcadas do peito. Traça no ombro a capa esvoaçante e avança para o mundo de cabeça erguida, de barbicha à dandy, gaforina ao vento. O génio todo está no sentimento.

Sempre que ali passo bato-lhes à aldraba e empurro a cancela. Para saber quando resolvem a contenda.