sábado, 5 de setembro de 2026

Esopo

O mais certo é ter-lhe tomado medo. Mas fosse ele por ter chegado a velho, ou porque se cansou dos ruídos do mundo, o homem deitou-lhe as rédeas por cima e afastou-se. Comprou uma horta distante e fez nela uma mansarda debaixo do carvalho. Depois levantou a cerca à sombra da latada e soltou nela as galinhas. E assim viveram um tempo. O homem comia os ovos, e as galinhas catavam as minhocas e o milho que a horta dava.

A certa altura a raposa saltou a vredação. Avançou pelo terreiro, espaventou as galinhas, esganou logo a mais gorda e comeu-a. O homem assistiu àquilo tudo sentado no alpendre e não mexeu uma palha. As galinhas amontoaram-se ao canto,pasmadas pelo terror. E a raposa, aprisionada na cerca, ficou a fazer a digestão. Quando a fome lhe voltava, esgorjava outra galinha.E o homem assistia àquilo tudo sentado no  alpendre.

Depois chegou a cegonha, deu duas voltas no ar e fez ninho na copa do carvalho. E em breve engordava os filhos com os sapos-conchos que havia nas redondezas, e eram muitos. Engordavam os filhos da cegonha, benza-os Deus, mas a barriga da raposa dava horas. Um dia começaram a pintar as uvas da parreira. E quanto mais ela pulava, a abocanhá-las, mais a barriga minguava.

Certa tarde passou lá por cima um corvo, trazia um queijo no bico, roubado à janela duma velha que o tinha a secar ao sol. Viu a raposa magrita, deu-lhe duas de conversa e foi-se embora. A raposa desfez-se ali em queixumes, mas o homem assistiu àquilo tudo sentado no alpendre e não mexeu uma palha.

Quando os filhos levantaram voo, foi a cegonha que ouviu os lamentos dela e deixou-se condoer. Fez umas papas do milho que a horta dava, meteu-as numa cabaça e baixou a partilhá-las com a raposa. Logo ela as estendeu em cima duma laja, onde em tempos as galinhas debicavam o milho. E foi assim que a raposa se desforrou de misérias e a cegonha ficou a ver navios.

Foi então que o homem se levantou e veio abrir a porta do cerrado. Fatigara-se do mundo, quisera afastar-se dele, viera encontrá-lo em casa. E deste modo se dispôs a relatar as muitas fábulas dele.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Feira de Agosto

Há um sobressalto na paisagem. Do céu fugiu a cor. A brisa bate à porta. Vem entrando Saturno, o melancólico.

sábado, 15 de agosto de 2026

Aparição

Nesse tempo viviam em Angola cinquenta portugueses. Nada como hoje,que serão duzentosmil. E o rio Gabriel era um leito de areias a descer do planalto, à procura do mar: um promontório ao longe, uma enseada amena, uma praia circular ao fundo da falésia, que mergulhava a pique.

Varadas à beira de água meia dúzia de canoas, em que os moleques do Mário Cambuta arrancavam aos fundos cardumes de lagostas. Serviam-nas grelhadas à hora do almoço, àsombra duns tabiques de folhas de palmeira.

Quano acabava a jornada e trabalho, eu descia sem demora o areão do rio a cavalo no Toyota e só parava na foz. Estendia-me em pelota numas rochas, olhava o promontório escuro ao longe e lia.E foi assim que li à desfilada os oito mil oitocentos e dezasseis versos dOs Lusíadas, e pela mão do Dante visitei os círculos todos da Divina Comédia.

Aconteciam às vezes chuvadas diluvianas, e o rio Gabriel era vê-lo a correr. Arrastava encosta abaixo toneladas de areiaque despejava no mar. Depois vinha a maré, lambia a praia, aplainava aquilo tudo.

O chão era movediço e um dia o milagre aconteceu. Ao chegar à foz do rio, dei com o vulto duma Vénus de pedra estendida no areal. Era só um torso dela, mas o que não se via nãofazia falta: um ombro reclinado, um ventre misterioso, o flanco duma anca, duas coxas apartadas, o talvegue dum abismo, e dois joelhos que a areia já escondia... A maré deixara a descoberto aquela aparição.

Semanas e semanas voltei eu, à procura da Vénus, no final do dia. Mas a maré avara nunca mais ma desvendou.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sobrevivência

Em 1970, na esquadra da Ota, tudo chegava da América, ressalvando os géneros do rancho que vinham das hortas de Alenquer. Os aviões eram da guerra da Coreia, e a literatura que neles vinha inclusa tinha eficácia há muito comprovada, ou nas escolas do Texas ou em bases do Arizona. Ninguém sabia porquê, mas tudo funcionava. Obtinha-se a máxima produtividade com investimento mínimo, um conceito alienígena que só muito mais tarde assentaria arraiais no linguajar comum.

Faltava-nos treinar a sobrevivência no mar. E se a questão parece de somenos num país de marinheiros, logo adquire as dimensões duma Ilíada caseira, quando calha apagar-se o fogareiro a trinta milhas da costa. E lá veio uma equipa americana.

Fingiu-se o mar na piscina que ali estava, ao fundo da ladeira, rodeada de eucaliptos. Um cabo de aço amarrado numa copa, um rappel vertiginoso, no fim dele um abraço de madrasta, à nossa espera nas águas de Fevereiro. Livra-te do arnês do pára-quedas, nada até ao salva-vidas que além está, a dançar ao rés das ondas, iça-te lá para dentro sem demora, verifica a pistola de sinais, os fumos e tudo o resto, não te esqueças dos anzóis que te farão muita falta, se ainda não congelaste estás muito bem assim, já que estás na mão de Deus.

Depois era só vencer os cem metros da ladeira, as botas a chocalhar e o fato a gotejar limos, e o vento enregelado que vinha do Montejunto, a morder-nos nas orelhas, a alancear-nos o peito.

A princípio ainda corri, mas aos poucos foi-me afrouxando o passo. E à porta do alojamento caí na primeira escada. Foi aí que me encontrou aquele anjinho da guarda da senhora das limpezas, que vinha a pegar no turno. Deu o alerta, pôs-se a gritar por ajuda, e soltou-me das vestes encharcadas os ossos que estalavam sem controle. Levaram-me escada acima, meteram-me num chuveiro, barafustaram que viesse o médico. E ele veio, um velho que era dentista, e estava na escala de serviço. Só o meu corpo é que não obedecia, tomado dum frenesi.

Desistiram do chuveiro que fervia, enfiaram-me na cama, e abraçaram a mim, numa esperança de milagre, o corpo generoso da femme-de-ménage, que me ofereceu o peito avantajado. Era uma pietá pagã. Mas nem ela conteve o motim dos meus ossos, nem acalmou aquela rebelião. E ainda estou para decifrar o raciocínio do médico, que fez sair a mulher e lhe tomou o lugar, implorando ao meu corpo que parasse de vibrar.

Lentamente amainou o desvario, e os meus ossos deixaram de estalar. Eu voltei a tomar posse de mim mesmo e dispensei os cuidados do médico. Tudo isto contaram-mo depois, o resto dos pormenores não os sei.Mas foram por muito tempo motivo de chacota. E talvez tema dum congresso médico, ou de algum brain-storming na América. A gente sabe lá!

terça-feira, 14 de julho de 2026

Velho do Restelo

É uma das figuras mais injuriadas do sótão da nossa história. E no entanto o poeta deixou dele uma visão positiva, sem auréolas pintadas nem coroas de louro falso.

Era um velho de aspeito venerando, tinha um saber só de experiências feito, e tirou do experto peito anátemas de bom-senso: contra a glória de mandar e a vã cobiça, contra a temeridade que põe em risco a vida, contra as promessas falsas que o povo néscio enganam, contra a vaidade que enleva a fantasia, ontra a feridade e a crueza a que puseram nome esforço e valentia.

Tresleram-no desde logo os poderosos do reino, que das misérias alheias sempre encheram a barriga. Crismaram-no de timorato e de cobarde, e agora já é tarde para mudar.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-mau-Olhado

Ó Gonçalo, não me faças a cabeça, pá!

Olha! Dedica-te à pesca!!!

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Acelera

Nunca diz que aprendeu a guiar à socapa. E sai do carro, ao cimo da subida, no triunfante jeito de quem cortou a meta. Trabalha ali na garagem das recolhas.

Começou por ajudar às lavagens, a passar a camurça nos cromados, a fazer sinais aos clientes, olhe à direita, meta-lhe a marcha-atrás. Cabiam lá quarenta mas entravam sempre mais. E quando saía um, o patrão mexia em três ou quatro. Ele passou anos a estudar-lhe as manobras.

Fez o baptismo de volante num dia em que o patrão foi ao médico. Depois nunca mais parou, até que lhe cederam o comando a arrumar as viaturas. Desde então passa o dia em derrapagens controladas, ataca as curvas no limite, e na rampa de saída mete gás à tábua, como fazem os craques na recta da meta.

Ganhou esta paixão dos carros. Quando um dia tiver um, há-de ir com ele à oficina dum amigo, que se dedica ao tuning.