segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Famas boas

A dona Belisanda tinha a dimensão duma catedral gótica, o próprio nome o dizia. Numa sala duma casa da aldeia albergava cinquenta ganapos, da primeira à quarta classe. Cuidava-lhes da higiene física e da limpeza mental. E não hesitava em mandar um infractor lavar os pés no ribeiro que passava próximo. 

Ainda hoje não entendo como ela fazia aquilo. Primeiro dava a aula da primeira classe. Depois era a da segunda. Por fim lá chegavam os da terceira e da quarta. E mantinha tudo em ordem.

Numa pequena horta, à entrada, havia um damasqueiro. E não há notícia de que alguma vez um ratoneiro tivesse metido a mão à fruta. Lá atrás, no cabanal, alguns perús grasnavam de horas em quando. Mas quem cuidava deles era a criada, a Maria, que os calava com urtigas cozidas. Muitas vezes eu lhas trouxe, que havia muitas lá no quintal, debaixo da nogueira grande.

Um dia, pelo Natal, ia eu na quarta classe, a mestra claudicou. Adoeceu de surpresa. E a ganapada viu nisso uma prenda de Natal. Temendo, porém, uma baixa demorada, e o atraso de um anito, os meus pais resolveram conversar com a professora da Torre, ali a três quilómetros. E ela aceitou receber-me. De formas que eu ia todos os dias, pela estrada velha, de sacola ao ombro, e uma cabacinha com refresco de café, que a minha mãe me dava sempre de presente.

Nesse tempo os castanheiros do Vale Azedo ainda não tinham morrido. E eu lá ia, todo contente na sua companhia, metendo o nariz em todo o lado. Um dia descobri, debaixo dum silvado, um ninho de perdiz com uma catrefada de ovos. E passei a visitá-lo todas as manhãs. Até que alguém armou um laço com pelo de cavalo, no corredor da entrada. A perdiz enjeitou o ninho, e os ovos lá ficaram. 

Os meus novos colegas, vendo-me de cabacinha, cuidaram que era vinho. E passaram a olhar-me como um homem. Mas um dia, algum mais aventureiro achou-me distraído e foi-me ao vinho. Não faltou nada para uma risada. E assim se desfizeram as minhas boas famas.

sábado, 11 de setembro de 2021

Caloteiro

 Acabo de reler o romance Ernestina, de José Rentes de Carvalho. Uma edição de há muito (Março 2001) da falecida editora Escritor, cujo número 439 o autor me presenteou em momento oportuno.

Estou-lhe em dívida dupla, que não sei como remir:

- a um lado, pelo prazer desta leitura;

- a outro lado, porque em tempos que lá vão, o José me deu a confiança de convencer um seu amigo a levar-nos ao Cabeço, num jipe que ele tinha.

Tenho que ficar inadimplente, caro José. Se não caloteiro.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Nem mais!

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terça-feira, 7 de setembro de 2021

Brasis

 Na estrada a tabuleta anuncia o Solar dos Brasis, na aldeia chamam-lhe a casa das fidalgas. Seja ele como for é um insólito lugar. E este viajante já por aqui andou alguma vez, atraído pela gala das talhas, pela febre das cores a gritar nas madeiras, pelo mistério simétrico das janelas, a fingir horizontes pintados nas paredes. 

O viajante empurra um portão carcomido. Mas não encontra o Gastão, sentado atrás da bancada, a fazer bonecos de madeira a canivete, e flautas de cana para vender aos turistas. O anexo do solar está fechado, a cumeeira mestra já ruiu, e quem recebe o viajante é uma assistente que anda por ali, de mau feitio e pior catadura. Logo lhe dispara a novidade da morte do feitor.

Antigamente o Gastão habitava estes anexos e olhava pelo conjunto. Ele era neste lugar a única coisa viva, e queixava-se do IPPAR, e das águas no telhado, dos roubos das imagens e da segurança escassa. Mostrava ao viajante as palmeiras do jardim, as japoneiras em flor quando era o tempo, levava-o à mãe-de-água de pedra à beira do ribeiro, nas terras que um fidalgo arrematou ao fisco, à vinda do Brasil, há muitos anos atrás. Tinham sido confiscadas a um marrano qualquer pela Santa Inquisição.

Subia depois ao belvedere, virado às doçuras do poente, e mostrava o salão de honra nos altos do torreão. Era um deslumbramento inusitado, olhava o viajante a paisagem lá fora e não acreditava no que estava ali, à frente dos seus olhos. O tecto era um céu de caixotões pintados, com o brasão do fidalgo no lugar central. O resto em volta eram painéis de santos e naturezas mortas. E tão mortos estavam, as naturezas e os santos, que uns prometiam a ruína e as outras já desabavam, comidas da humidade. O todo apoiava-se, nos cantos, em anjos-cariátides, empenachados como índios do Brasil.

Finalmente o Gastão conduzia à capela um viajante estonteado, cativo do esplendor dos ouros, do jogo das simetrias barrocas, dos exotismos da flora mineira, com crocodilos, e palmeiras, e coqueiros. A Senhora da Penha de França lá estava em apoteose, entre prodígios de arte e opulência, cercada de querubins, envolta em festões e grinaldas. À direita uma porta a fingir, reflectindo a entrada verdadeira na parede da esquerda. E em cima, à esquerda, uma janela pintada, a espelhar a verdadeira, que à direita abria para a ruela.

Depois contava ao viajante a história do fidalgo, que ali se mostrava em dois retratos de tamanho natural. Dum lado o escralate da labita cortesã, do outro o hábito escuro das ordens que tomou, já sexagenário. Luís de Figueiredo Monterroyo foi-se ao Brasil, ao ouro, no tempo dele. Era capitão da armada real e provedor dos quintos de el-rei em Vila Rica de Ouro Preto, nas minas de Sabará. E à desmedida fortuna acumulava uma filha, a mulatinha Angélica, que fez numa escrava da Mina por quem tomou paixões. "Mercê que fez Nossa Senhora, no Instituidor, vendo-se em perigo de morte no sertão do Brasil, em jornada de 900 léguas às Minas do Ouro". E o Gastão mostrava, num ex-voto, um dragão pintalgado, a soprar fogo ao fidalgo em terror. "Milagre que fez Nosso Senhor... no mar da Baía...". E era um barco a adornar, a vela já perdida, o fidalgo no convés a amparar a mulatinha. 

Ao ver-se em aflições, implorou D. Luís a protecção da Santa, jurou construir-lhe uma capela que não tivesse igual. Em 1727 cumpriu-se o voto aqui, ao lado dum solar que ninguém concluiu, e dum convento franciscano que não chegou a existir. Onde o meu cavalo parar, aí o santuário hei-de levantar. O cavalo é que escolheu este lugar, concluía o Gastão, antes de mostrar ao viajante, num livro dum letrado, que a mulatinha se finou solteira, sem deixar descendência, no ano em que assaltaram a Bastilha. E que o Solar dos Brasis é testemunho da boa aplicação em Portugal do ouro de Sabará.

Agora o Gastão foi-se embora e com ele a sorte deste viajante, que se limita a uma ronda exterior do Solar dos Brasis. O IPPAR pôs-lhe um telhado novo, e trancou as portas e as janelas com grades de ferro chumbadas na ombreira.

Ao contrário do letrado, o viajante só vê neste lugar um tempo triste da história, que  deixou aqui um túmulo, mais um, onde embalsamaram Portugal. Chegavam rios de ouro nos porões, a um país sangrado pelo império. E acabavam aqui, neste espavento, sem deixar outro sinal nas vidas. Mas este viajante nunca o disse ao Gastão, e ele foi-se embora sem saber a verdade. Ao menos foi em paz.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Dia 9

O bartolomeu não sabe explicar por que tomou a decisão de subir ao chiado, naquele dia à tarde. Certo está apenas de já não guardar esperanças no peito, à medida que ia subindo a rua nova do almada. Dormia há três meses nas arcadas do ministério das finanças, encostado a um pilar que os pombos ainda respeitavam. Esmolava no sul e sueste, quotidianamente posto em  risco pelas avalanches de pernas que desaguavam de cacilhas, e aventurava-se a um almoço na económica dos anjos, quando as forças lhe deixavam subir a avenida, o que era raro. Nesse dia trepou ao chiado como quem vai de férias.

Olhai as aves do céu, que não semeiam nem colhem! - Soletrou o cartaz pendur ado ao cimo das escadas da igreja dos mártires, que no íntimo sentiu como sua, porém sem cogitar o milagre que ali estava à espera. Atravessou o guarda-vento, tacteou ao longo da parede e lançou os dedos à pia de água benta, num gesto que desenterrou duma memória antiga. E foi quando a mão direita lhe transitava, canhestra, entre o pai e o espírito santo, que os olhos se afizeram à obscuridade e decifraram o peixe picotado no lioz da coluna, mesmo por cima do tanque.

 Pouco dado a leituras cabalísticas, o bartolomeu ficou surpreendido. Mas logo saltou da surpresa para o espanto, quando viu o peixe desprender-se da pedra e mergulhar na água benta, num encarpado perfeito.

Arqueou as sobrancelhas, roçou um punho nos olhos, não queria acreditar. Procurou assento num dos bancos corridos e ali ficou, de queixo nas mãos, enquanto a fresca atmosfera da nave central lhe assentava lentamente na cumeada dos ombros. À saída foi espreitar a concha da água benta. O pequeno dorso do peixe evolucionava lá dentro, a lavrar, cuidadoso, as lodagens do fundo.

Oito dias depois regressou à igreja, e lá encontrou o vulto escuro a remexer as águas. Mas o que via agora eram dois palmos de lombada sólida e carnuda, de barbatana inchada, abrindo as guelras ávidas ao maná da água benta. Logo ali capturou o robalo a mãos ambas, fê-lo desaparecer no bolso e foi tratar do jantar.

No dia seguinte foi à igreja de são roque e saiu-lhe uma carpa enorme. Na sé teve direito a salmão. Nos jerónimos ia-se empanturrando de besugos, de linguados, de azevias. O bartolomeu tem o futuro assegurado. Levará muitos anos a percorrer as pias de água benta de lisboa. Depois há-de vir o porto, santarém, a idolátrica braga... E o bartolomeu olhará, sem cobiça, os pássaros do céu, enquanto for correndo as capelas do minho, à espera duma lampreia.

|O Mensário do Corvo]

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Burro

 

Jumento queixoso por ter ido à Caparica de óculos escuros e máscara no focinho.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Feira de Agosto

 Há um sobressalto na paisagem. Do céu fugiu a cor. A brisa bate à porta. Vem entrando Saturno, o melancólico.