sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sobrevivência

Em 1970, na esquadra da Ota, tudo chegava da América, ressalvando os géneros do rancho que vinham das hortas de Alenquer. Os aviões eram da guerra da Coreia, e a literatura que neles vinha inclusa tinha eficácia há muito comprovada, ou nas escolas do Texas ou em bases do Arizona. Ninguém sabia porquê, mas tudo funcionava. Obtinha-se a máxima produtividade com investimento mínimo, um conceito alienígena que só muito mais tarde assentaria arraiais no linguajar comum.

Faltava-nos treinar a sobrevivência no mar. E se a questão parece de somenos num país de marinheiros, logo adquire as dimensões duma Ilíada caseira, quando calha apagar-se o fogareiro a trinta milhas da costa. E lá veio uma equipa americana.

Fingiu-se o mar na piscina que ali estava, ao fundo da ladeira, rodeada de eucaliptos. Um cabo de aço amarrado numa copa, um rappel vertiginoso, no fim dele um abraço de madrasta, à nossa espera nas águas de Fevereiro. Livra-te do arnês do pára-quedas, nada até ao salva-vidas que além está, a dançar ao rés das ondas, iça-te lá para dentro sem demora, verifica a pistola de sinais, os fumos e tudo o resto, não te esqueças dos anzóis que te farão muita falta, se ainda não congelaste estás muito bem assim, já que estás na mão de Deus.

Depois era só vencer os cem metros da ladeira, as botas a chocalhar e o fato a gotejar limos, e o vento enregelado que vinha do Montejunto, a morder-nos nas orelhas, a alancear-nos o peito.

A princípio ainda corri, mas aos poucos foi-me afrouxando o passo. E à porta do alojamento caí na primeira escada. Foi aí que me encontrou aquele anjinho da guarda da senhora das limpezas, que vinha a pegar no turno. Deu o alerta, pôs-se a gritar por ajuda, e soltou-me das vestes encharcadas os ossos que estalavam sem controle. Levaram-me escada acima, meteram-me num chuveiro, barafustaram que viesse o médico. E ele veio, um velho que era dentista, e estava na escala de serviço. Só o meu corpo é que não obedecia, tomado dum frenesi.

Desistiram do chuveiro que fervia, enfiaram-me na cama, e abraçaram a mim, numa esperança de milagre, o corpo generoso da femme-de-ménage, que me ofereceu o peito avantajado. Era uma pietá pagã. Mas nem ela conteve o motim dos meus ossos, nem acalmou aquela rebelião. E ainda estou para decifrar o raciocínio do médico, que fez sair a mulher e lhe tomou o lugar, implorando ao meu corpo que parasse de vibrar.

Lentamente amainou o desvario, e os meus ossos deixaram de estalar. Eu voltei a tomar posse de mim mesmo e dispensei os cuidados do médico. Tudo isto contaram-mo depois, o resto dos pormenores não os sei.Mas foram por muito tempo motivo de chacota. E talvez tema dum congresso médico, ou de algum brain-storming na América. A gente sabe lá!

terça-feira, 14 de julho de 2026

Velho do Restelo

É uma das figuras mais injuriadas do sótão da nossa história. E no entanto o poeta deixou dele uma visão positiva, sem auréolas pintadas nem coroas de louro falso.

Era um velho de aspeito venerando, tinha um saber só de experiências feito, e tirou do experto peito anátemas de bom-senso: contra a glória de mandar e a vã cobiça, contra a temeridade que põe em risco a vida, contra as promessas falsas que o povo néscio enganam, contra a vaidade que enleva a fantasia, ontra a feridade e a crueza a que puseram nome esforço e valentia.

Tresleram-no desde logo os poderosos do reino, que das misérias alheias sempre encheram a barriga. Crismaram-no de timorato e de cobarde, e agora já é tarde para mudar.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-mau-Olhado

Ó Gonçalo, não me faças a cabeça, pá!

Olha! Dedica-te à pesca!!!

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Acelera

Nunca diz que aprendeu a guiar à socapa. E sai do carro, ao cimo da subida, no triunfante jeito de quem cortou a meta. Trabalha ali na garagem das recolhas.

Começou por ajudar às lavagens, a passar a camurça nos cromados, a fazer sinais aos clientes, olhe à direita, meta-lhe a marcha-atrás. Cabiam lá quarenta mas entravam sempre mais. E quando saía um, o patrão mexia em três ou quatro. Ele passou anos a estudar-lhe as manobras.

Fez o baptismo de volante num dia em que o patrão foi ao médico. Depois nunca mais parou, até que lhe cederam o comando a arrumar as viaturas. Desde então passa o dia em derrapagens controladas, ataca as curvas no limite, e na rampa de saída mete gás à tábua, como fazem os craques na recta da meta.

Ganhou esta paixão dos carros. Quando um dia tiver um, há-de ir com ele à oficina dum amigo, que se dedica ao tuning.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O sultão

A donzela, digo eu, terá os seus quinze anos. Vai sentada ao lado da janela, enquanto masca a chicla ruidosa, num estalar de beiços. Sujeita-lhe a gaforina um par de óculos espelhados, de tartaruga pintada.

Ele vai sentado ao lado, um pé no banco da frente. Vai tão indiferente ao mundo, tão alheio à companhia, faz-me lembrar um sultão.

Os olhares da donzela vão na rua, mas volta e meia cai numa agitação. Debruça-se para ele, varre-lhe a face com a linguita rosada, arrasta-lhe nos lábios um beicinho. Passa-lhe o dedo na cana do nariz, morde-lhe o lóbulo frio, dá-lhe dentadinhas a fingir. E afunda-lhe a língua no fosso auricular que lhe está mais à mão.

Ele queda-se impassível, desdenhoso, e eu fico  extasiado a seguir-lhes os maneios. Se não sei muito bem em que mundo me encontro, menos ainda sei de que mundo eles vêm. Ela faz-me lembrar escravas dos haréns. E ele um califa de costumes modernos, que veio à rua arejar a favorita.

À saída não fico mais tranquilo. Ele passou adiante, imperturbável. E as calças dela, que são de gancho curto, deixam-lhe a descoberto os balões das cadeiras, a explodir obesidade. Ela enfeitiça-me os olhos com os mistérios do umbigo, antes de me estoirar nas fuças o balãozito da chuinga.

Segue ele à frente, ela atrás, para contentar o profeta. Eu aproveito-lhe o contentamento e desço de novo à terra.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Estilhaços

Foi então, a meio duma tarde, que chegou um alferes do batalhão da Cuimba, com o pelotão de morteiros. Tinha um vago tique aristocrata, amamentava exóticas ideias monárquicas, e frequentava o quarto ano de medicina quando o despacharam para os sertões do Congo.

Estacionou os dois burros do mato em frente do que sobrava da sé catedral resumida a umas paredes, mal saudou os aviadores que despejavam bidões de gasolina nuns aviões cobertos de poeira e dirigiu-se a casa.

A mulher era legista, praticava de notária, servia de magistrada. Morava numa casa da avenida e estava ausente em Luanda, na companhia dum alferes médico.

O artilheiro reuniu o pelotão, montou nos burros do mato e regressou à Cuimba. Mandou formar no meio do terreiro, meteu uma bala na câmara da Walther que lhe pendia à ilharga, e descarregou nos miolos os nove milímetros dela.

Uma semana depois a história já estava morta. Ninguém gosta de viver com estilhaços que matam.

sábado, 23 de maio de 2026

Alta

Então apanhei um dia uma carga de paludismo, que voltara àcidade. Não sei se doido, não sei se cerebral, conforme lhe chamaram. Eu não sei. Era um febrão que eu nunca tinha sentido. E lá fui parar ao hospital, às mãos dum médico cubano que me arrecadou nos cuidados intensivos durante uma semana. O corpo desfazia-se-me em água e acabou por arribar. Mas ainda tinha à espera uns dias de quarentena numa enfermaria.

Não levei muito tempo a reconhacê-la. Era a mesma antiga enfermaria onde eu passara dois meses a refazer os destroços dum desastre aparatoso, uns trinta anos atrás, nas aventuras da guerra. Na cama junto à janela batia o sol, cicatrizavam as feridas que a viseira partida me deixara nos olhos, vinham às vezes visitas de donzelas condoídas. Um enfermeiro solícito empurrava-me a comida para a fornalha dos queixais que recusavam abrir, nunca mais esqueci um tal cuidado.

Mas desta vez o rancho era intragável. Uns caldos indecifráveis, umas aguadas mistelas sem sabor, não havia maneira de as tragar. Ao meu lado estadiava o mais-velho Faustino, que era uma figura sossegada, o que o forçava ali não cheguei a sabê-lo. E todos os dias chegava a família ao meio-dia, a trazer o almoço ao patriarca. Juntavam-se em volta dele a acompanhar o repasto, às vezes funge, um frango à cafreal... E eu ficava a olhá-los, silencioso.

Um dia o negro Faustino olhou para mim muito sério, e decretou perante o adjun to: - A partir de hoje passas a comer comigo o almoço que eu tiver! Não podes dizer que não!

Nem chegou a uma semana, tive alta do hospital.