Quando era ainda cachopo e terminei o sétimo ano no liceu da Guarda, o meu destino natural seria a faculdade de Letras em Coimbra. Mas eu era apenas um de cinco irmãos, na barcaça dum orçamento familiar periclitante. Isso da vocação era expressão desusada. Por isso teve que ser esquecida até 1984, altura em que fui licenciar-me em Letras à Universidade Nova que surgira em Lisboa. Entretanto dei várias voltas ao mundo.
Os anos de 64, 65 e 66 gastei-os na Academia Militer, na Amadora e em Gomes Freire. O tirocínio de pilotagem levou-me, em Sintra, na Granja do Marquês, o ano de 67, ocupado com um aviãozinho a jacto que parecia uma coisa de brincar, e andava sempre três minutos adiante de mim. O que era uma parte muito chata.
É aí que entra em campo a superior visão dos generais que dirigiam a Força Aérea. Só eles saberão o que me mandaram fazer para uma base aérea onde só havia aviões pesados, pilotados por malta madura que tinha milhares e milhares de horas de voo sonolento.
Seis meses depois, alguém se lembrou de me tirar dali e mandar-me para uma base que havia no Montijo, ocupada por uns velhos aviões de luta anti-submarina. E eu, se mal andava de carro, pior passei a andar de arado.
Passados que foram oito meses, houve um cérebro que se lembrou que a África precisava de mim. Era o Maio de 68, de bastante má memória. E assim fui parar ao norte de Angola, onde só havia pequenos aviões convencionais que eu nunca tinha visto na vida. Era o trambolho inglês do Auster, que fazia missões de transporte ligeiro nas pequenas pistas de terra que enxameavam o mato. Era o trambolho do T-6 do Texas, que fazia missões de tiro em apoio da tropa, e largava bombas, e disparava foguetes e metralhadoras, e era uma excelente arma de arremesso, como eu haveria de mostrar, um ano depois. E era o DO-27, uma maravilha aerodinâmica, cujo motor tinha os seus caprichos. Quando bem lhe apetecia, deixava o mais pintado plantado numa picada qualquer.
Eu tinha então, por junto, trezentas e cinquenta horas de voo. Toda a minha experiência de tiro era o que lera nos manuais escolares. E tudo aquilo que eu tinha que aprender só me podia chegar através da imitação dos numerosos alferes milicianos, três quartos do efectivo total da esquadra.(Cont.)