Dona Belisanda carregava nos ombros uma tarefa medonha: ilustrar a criançada que lhe abarrotava a sala, onde viviam também um crucifixo e um mapa, uma ardósia, um Salazar e um Carmona. E o fantasma dum Navegador que metia medo à aula.
De parceria com o padre, que repartia a farinha da Cáritas e prometia manás vindos do céu, competia-lhe ainda iluminar as trevas que ensombravam este mundo.
A mestra tinha ascendentes numa tribo visigoda, há muitos anos extinta, donde lhe viera o nome e as maneiras. Porém isso levei eu muito tempo a sabê-lo. E enchia a barriga aos perús, sempre a grasnar no quinteiro, com ortigas cozinhadas que eu trazia do quintal.
Quando era tempo de aquecer a escalfeta, levávamos de casa umas achas de pinho. E ganíamos que voltasse a Primavera, enquanto bafejávamos as mãos.
Um dia, todo vaidoso, levei para a escola uma camisita nova, de riscado, aos quadradinhos vermelhos. Mal me viu ali ao lado, uma gaiata que fazia os meus encantos começou a derreter-se na carteira. Até o Navegador adoçou a catadura.
Mas a dona Belisanda não achou graça nenhuma. Talvez fossem ciumeiras, nunca o soube, eu de adultos ainda hoje pouco entendo. Recambiou-me para casa, que mudasse de camisa, e não voltasse a aparecer disfarçado de bombom de chocolate.
Perdi ali promessas de fururo, por troca duma camisa que nunca mais esqueci. E ainda hoje, dentro da minha cabeça, um bombom de chocolate tem quadradinhos vermelhos.