terça-feira, 12 de maio de 2026

A mestra

Dona Belisanda carregava nos ombros uma tarefa medonha: ilustrar a criançada que lhe abarrotava a sala, onde viviam também um crucifixo e um mapa, uma ardósia, um Salazar e um Carmona. E o fantasma dum Navegador que metia medo à aula.

De parceria com o padre, que repartia a farinha da Cáritas  e prometia manás vindos do céu, competia-lhe ainda iluminar as trevas que ensombravam este mundo.

A mestra tinha ascendentes numa tribo visigoda, há muitos anos extinta, donde lhe viera o nome e as maneiras. Porém isso levei eu muito tempo a sabê-lo. E enchia a barriga aos perús, sempre a grasnar no quinteiro, com ortigas cozinhadas que eu trazia do quintal.

Quando era tempo de aquecer a escalfeta, levávamos de casa umas achas de pinho. E ganíamos que voltasse a Primavera, enquanto bafejávamos as mãos.

Um dia, todo vaidoso, levei para a escola uma camisita nova, de riscado, aos quadradinhos vermelhos. Mal me viu ali ao lado, uma gaiata que fazia os meus encantos começou a derreter-se na carteira. Até o Navegador adoçou a catadura.

Mas a dona Belisanda não achou graça nenhuma. Talvez fossem ciumeiras, nunca o soube, eu de adultos ainda hoje pouco entendo. Recambiou-me para casa, que mudasse de camisa, e não voltasse a aparecer disfarçado de bombom de chocolate.

Perdi ali promessas de fururo, por troca duma camisa que nunca mais esqueci. E ainda hoje, dentro da minha cabeça, um bombom de chocolate tem quadradinhos vermelhos.

sábado, 9 de maio de 2026

O triunfo dos porcos

Antes de ser o que é hoje, Wall-Street era em tempos o local onde uns agricultores ergueram um muro à entrada de Manhattan, para evitar que os porcos invadissem as quintas e destruíssem culturas.

A medida submeteu os porcos fossadores e os campos ficaram em sossego. Mas depois vieram os porcos da finança e reocuparam posições. Deitaram abaixo o muro, puseram o nome à rua, e instalaram-se nas quintas e nas nossas vidas.

Só erguendo barricadas novas lhes escaparemos.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Lolita

A adolescente pica a senha no visor e avança pela coxia. Tem um ar um tanto produzido e o visual gótico destoa. Veste de preto integral, e a mochila avantajada que tem pendurada às costas dificulta-lhe a manobra. Traz cuidada a flor da face, rigorosa, maquilhada. Quase brilha, na geral vulgaridade. Ocupa o lugar da frente, dentro da sua redoma, vê-se bem que vem trancada numa filosofia.

De peito afogado em véus, veste uma saia de bicos, por baixo duma nuvem de organdis. Traz muitos anéis nos dedos, talvez de aço, e símbolos esotéricos a pendular ao pescoço. Os traços negros que lhe ornamentam as pálpebras dão-lhe um toque de vampiro inofensivo.

Quando arrisco se já leu o Nabokov, diz que não gosta de ler. - E viste o filme?! - Qual filme?! Segue a escola japonesa que frequenta na Internet.

Cá fora vejo-a melhor. Tem pernas tortas, cambadas, e enviesa os pés para dentro. As Doc Martens são imitação chinesa.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Manhã

Em Longroiva há um castelo dos templários.

Há uma chaminé a fumegar.

Há um velho a atravessar a rua, arrimado num bordão.

Há tractores que transportam azeitona para um lagar.

Há umas termas sulfurosas, recém-remodeladas.

Há um solar muito baixinho, com um brasão da gesta gloriosa, adaptado a turismo. Um dia quis lá dormir mas fugi dele, com receio duma harpia, e das teias de aranha que lá havia.

Há os penhascos de xisto da Verdadinha, a desenhar as margens dum ribeiro.

E além em frente, no cimo da cumeada, dá consultas a bruxa da Relva, que trabalha com o doutor Sousa Martins.

sábado, 14 de março de 2026

Bajo los tilos

A geografia não o diz abertamente, porque não quer a história badalada. Mas a avenida Unter den Linden em Berlim é a mais comprida do mundo. Vai desde a Pariser Platz até chegar ao cavalo de Frederico II, lá ao fundo. Uma jornada esgotante.

A primeira vez que a vi, chamava-lhe Gabi Bajo los Tilos. Mas as tílias da avenida eram pequenas e decepcionaram-me. Tinham sido plantadas há uns anos, que as mães delas foram levadas pelo povo, para se aquecer no meio das ruínas do desgraçado inverno de 46.

A última vez que as vi já eram bem redondas. E hoje estarão imponentes, não sei bem, há muito que as não vejo.

Oxalá tenham voltado à majestade antiga. Não vá o povo outra vez precisar delas, para acender uma velha fogueira entre ruínas novas.

terça-feira, 3 de março de 2026

O Roque e a amiga

Estão ambos ali ao cimo da avenida, há um ror de tempo, a quezilar. Nos dias de calor sonham com o lençol do rio, que passa lá ao fundo. Sempre traz uma frescura e lembra-lhes o mar, e o mundo para além dele. Fora disso contentam-se com a baixa pombalina, que lhes dormita aos pés.

Um tem formação romântica e um espírito clássico. Recolhido nas abas do capote, hierático e definitivo, parece um rei de pedra, dos antigos. Bem pode o mundo quebrá-lo mas não o torcerá, porque a razão não deixa.

O outro tem formação clássica e um espírito romântico, e uma alma que não se lhe confina às arcadas do peito. Traça no ombro a capa esvoaçante e avança para o mundo de cabeça erguida, de barbicha à dandy, gaforina ao vento. O génio todo está no sentimento.

Sempre que ali passo bato-lhes à aldraba e empurro a cancela. Para saber quando resolvem a contenda.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Responsório

Vais-me dizer que eu inventei a história. Que eu sou um cínico e a história é impossível. Andas muito longe da verdade.

O padre Abreu não é padre, nunca chegou a sê-lo. Não tem cabeça para teologias e as latinadas cansam-no. Mas veste-se à futrica, como os padres modernos, e sempre que pode exercita a função. Mora aqui na cidade. E o povo, que não separa o facto do direito, chama-lhe padre Abreu.

Razão terá, que o padre Abreu não sonha com outra coisa, passa a vida na sé. Ajuda á missa, cuida da liturgia, aconselha as devotas e decora os responsos. Já perdoou pecados capitais, e gente há que entrou no céu por sua mão.

Há tempos foi preciso enterrar um cristão, numa aldeia dessas despovoadas, onde nem padres vão. E o padre Abreu lá foi, a encomendar o defunto, a devolvê-lo ao pó. Mas os parentes vieram a saber que o padre Abreu nunca tomara ordens e temeram o pior. Puseram-lhe uma demanda em tribunal.

O padre Abreu sentou no banco dos réus a gravidade e a mansidão dum sócio do Vaticano. Alegou em defesa o serviço de Deus e afiançou as encomendações.

- Pois faça aí o responsório dum defunto! - ordenou o juiz, a esfolhear os códigos. - Já veremos se merece remissão!

Não pedia outra coisa o padre Abreu. O meretíssimo chegou ao fim apaziguado, como quem deixa um amigo em boas mãos. E absolveu o réu.