sábado, 25 de maio de 2024

As Aves 2-17

Já outros entendiam a vida das sociedades como uma barcaça antiga, a hesitar entre disputas e ralhos, dirigida porémpelos escolhidos em eleições democráticas e livres, ou por alguns mais expeditos, como vezes bastantes se tem visto e se há-de tornar a ver. Porém, enquanto uns e outros se tomavamde tais razões, velhos senhores de ânimo recobrado começaram a mover armas e tropas, afinando estratégias em segredo, enquanto bombistas multiplicavam assaltos e atentados, e o governo preparava a saída de Lisboa, declarando greve à impossível função de governar. Por isso Gaspar ficou surpreendido quando as movimentações das tropas rebentaram, participou nelas com o sobressalto que já vimos e as dúvidas quenos confidenciou, e aguardou um desenlace que lhe não traria surpresas. Foi só asi próprio que enganou, se engano houve. Porém, mais por saber o que não queria, do que por estar certo daquilo que buscava, nunca cedeu aos sinais de derrocada, como fazem os ratos em cheirando a água nos porões.

Derrocada, porém, não foi o que agora aqui houve, nada mais que um desfalecimento passageiro, um baque no chão de que este companheiro já se recompôs, a embaixada segue rua adiante, o caminho espera por nós.

E é longo, este caminho. Rodando no céu, a lua descaiu para o indistinto horizonte, não chega este luar para claramente iluminar o mundo, se o mundo se terá tornado vasto demais para nós, ou nós por demais minúsculos perante ele.

E talvez seja isso. São todos os homens formigas demasiado minúsculas perantea vida, mesmo as que seguem de vaidoso rabo alçado no carreiro, bêbedas deste verão que aí está e não vai durar muito. São bonitos os sonhos que na arca do peito lhes rebentam, mais fáceis de sonhar quede materializar, que estes sonhos pedem o que nunca foi feito, e exigem, para viver, um mundo que ainda não houve. É demasiado simples decretar a igualdade geral, e que nenhum homem construa a sua felicidade com o sofrimento alheio. E tavez aí se funde este azedume que em Gaspar desvendámos, e esta intolerância com fraquezas que a si próprio não permite. Em rigor, o que ele sente é o desconforto de ter persistido em acreditar, mesmo quando a sua intuição lhe segredava os perigos que aí vinham, em acreditar na litania da capacidade milagrosa das massas,dos operários, dos camponeses, dos soldadose dos marinheiros, em acreditar que só os pequeno-burgueses pusilânimes descrêem da força e do avanço imparável da história, sem se darem conta, uns e outros, de que apenas são já uma trupe de robertos de feira, nas mãos de quem recuperou o comando dos acontecimentos, e os manipula em silêncio.

Poderia Gaspar ter ficado estendido, como outros, debaixo da grande figueira bíblica que esta vida é, olhai as aves do campo, que não semeiam nem colhem. Sejas tu homem cordato e reverente, sabendo esperar alguma coisa te há-de vir à mão, quando os figos maduros, em Setembro, vierem a cair. Foi culpa sua ter desprezado este saber de séculos, se presunção temerária não foi antes o seu pecado original. Já ao pai adão rebentaram os beiços deste leite, e mais eram do paraíso os figos verdes que comeu. (cont.)

segunda-feira, 22 de abril de 2024

As Aves 2-16

O companheiro fez as despedidas telefónicas, está encostado ao balcão e perdeu visivelmente a cor, qualquer coisa lhe deserta do semblante, se não é a luz dos olhos que inesperadamente selhe apaga, agarra-se ao balcão e desaba redondo no duro soalho. Discreto alvoroço geral, e de novo Gaspar não compreende, a bem dizer de novo a situação o escandaliza, agora por caricata, se por ela poderemos nós avaliar e perceber inexplicadas coisas, segunda vez que tal comentário, assim azedo e suspeitoso, escapa do peito de Gaspar, que coisas serão elas. Se não houver aqui diferenças de galões e de responsabilidades, ficamos sem saber a que vem esta subtil censura, este protesto fechado. A um subalterno desilude sempre a vista destas e outras fraquezas, é como quem diz, onde haveríamos nós de ter podido ir com gente assim, se entrega um homem a outro as suas confianças, natural é aguardar que ele esteja à altura delas. De facto, Gaspar nunca se deu à boca de cena nos múltiplos palcos da revolução, embora a estranha essência das coisas conferisse aos militares fundamental papel. Nunca usou da ofertada intimidade das velhas secretárias, pontes discretas dos antigos patrões silenciados e das suas conspirações, nunca fez depender da sua opinião o correr dos rios, nunca mergulhou no vulcão das escolas, das empresas, das herdades na planície, onde o povo, como um cavalo de súbito sem freio, subitamente irado, se debatia entre contrários gritos, agora contra o fascismo e logo contra o social-fascismo,ninguém lhes perguntou se sabiam do que falavam. Outros o fizeram por ele, assim se expondo à euforia da glorieta fugaz, vaidosos talvez por se terem tornado personagens de entrevistas, com direito a sentença e opinião. Discretamente, Gaspar sonhou apenas o sonho colectivo, que o houve, e remou muita vez contra si mesmo, mas a euforia geral empurrou-o a silenciar vagos augúrios de catástrofe.

Ultimamente pressentia, arrumado numa prateleira administrativa onde um coronel lhe entregava tarefas sem sentido, como um sísifo qualquer condenado a alinhar, das nove às cinco, inúteis listas de pessoal em quilométricas folhas de papel quadriculado, ultimamente pressentia, já isolado e sem contactos num segundo andar de larga escadaria de madeira, que os pulmões da revolução sofriam de bronquite asmática, como um cavalo a rebentar dos quartos à vista da meta de chegada, pressentia que a euforia primaveril da liberdade dera lugar a um outono melancólico e cinzento, em que as facções surgidas no povo e nas tropas se afadigavam a cozinhar intolerâncias, e que ambos os campos aguardavam apenas um despize do adversário para o degolar. A princípio tudo era unidade, todos queriam o socialismo e a revolução. E os poderosos, que a temiam, traziam na consciência um peso tão antigo, que só acharam refúgio seguro no exílio ouno silêncio das alcovas. Porém, aos poucos, se  foram separando as águas entre as partes. Uns aprenderam a ver a história como loga sucessão de opostos insanáveis, infatigável e verdadeira guerra de classes, a dado ponto os interesses em vigor bloquevam a sociedade, tornavam impossível a expansão e o desenvolvimento geral. Qualquer avanço exigia a ruptura violenta que só a revolução trazia, uma classe nova arrancava às mãos da antiga os lemes do poder, se quisessem mudar o rumo da sua vida os trabalhadores tinham que suceder à esgotada burguesia, já esta fizera o mesmo à esgotada arstocracia do despotismo antigo.Era assim, por saltos bruscos, que a ahistória dos homens mudava de qualidade.

sábado, 6 de abril de 2024

As Aves 2-15

Todos têm as pernas entorpecidas, e Gaspar percorre uns metros no passeio para aquecer os joelhos que protestam da prolongada imobilidade, pior está o companheiro que sofre de mazelas da coluna. A mulher é a mais animada e louçã, efeito prodigioso do prolongado sono ou milagres da juventude, a bem dizer todos aqui são jovens, o bastante para não podermos opinar que alguém seja velho, há nestas palavras uma irrespondível relatividade que havemos de aceitar, e mais facilmente se entendermos que esta e todas as revoluções se alimentam de sangue novo, é dos verdes sonhos que vivem, a bem dizer todos aqui são jovens, duas vezes fica dito, e esta mulher mais que todos, por isso vai assim viçosa e guapa, não sabemos o que seria deste mundo sem as mulheres.

João já lá vai em busca dum estanco restaurador, parece este conjunto uma romaria de paisanos perdidos na cidade, faltará aqui o poeta a olhar as fachadas como quem busca o sete-estrelo, tão difícil de ver neste estranho céu, ainda bem que afinal não demorou a encontrar. O comedor nada tem de singular e próprio, que este mundo é todo ele uma redonda uniformidade, um balcão à direita, a parede rendada de garrafas antigas cobertas de pó, ao fundo uma porta que dá para o reservado, e é nele que estes viajantes procuram algum recato e discrição, chuletas de cerdo para todos e uma botelha de sidra, produto regional garantizado para ustedes, afinal não ra desagradável, João paga a conta, o caminho espera por nós.

Antes que se partam vai este companheiro telefonar, Gaspar supõe que para Lisboa, mas não sabe se de razões do coração ou de outras mais conspirativas se trata, ele não poderia explicar porquê mas não lhe agrada o gesto, que toma por leviano, se por ele poderemos nós avaliar e perceber muitas inexplicadas coisas, acaso será apenas injustificado temor seu, ou sua ingénua intolerância. E enquanto espera perdeu-se-lhe na rua o olhar, triste, se não inseguro ou aflito, há esta onda de melancolia a desabar-lhe sobre o coração, este niagara a dissolver-lhe a força dos membros, simples fruto da nostálgica hora ou mais completo diagnóstico Gaspar não o sabe ao certo, se acaso terá tudo isto algum sentido, está um homem a meio dum rio sem poldras para trás nem para a frente, a meio dum rio a que a enxurrada levou as margens, subitamente engrossou a torrente e engoliu-as, o que fazia aqui falta agora era abrir-se este mar vermelho e passar, por seu pé enxuto, o povo eleito, não seria esta a vez primeira, mas o mundo ainda não é igual para todos. (cont.)

segunda-feira, 18 de março de 2024

As Aves 2-14

As conversas são como as cerejas, é isto um facto por demais sabido e redito, mais ainda se de imaginações e lembranças se trata, vento que não cansa, rio que não pára de passar. Vejamos o caso de Gaspar, que temos acompanhado, se exemplo nos faltar para a demonstração. Vai esta sossegada barca assim Castela adiante, no mar calmo da noite, tão apertados os viajantes por força do escasso habitáculo que mal podem mexer-se, mais parece que tomámos lugar na arca de Noé. Esta mulher dorme, acaso tem o espírito mais leve, ou consegue apenas aconchegar melhor o pequeno corpo no minúsculo assento, o luar não chega para animar esta paisagem que de seu natural é monótona e repetitiva, e no caminho apenas o condutor reparou numa patrulha de carabineiros, brutamontes altos que ali estavam. Tal é o visível sossego, que poucas palavras temos ouvido, mas o frenesim das lembranças e o cavalgar dos pensamentos tem sido o que se viu, e vai agora a missa apenas em metade.

Quem não precisa de assistir à metade restante somos nós, baste-nos o que já vimos para tirar conclusões. Estes dois são clandestinos que o desenrolar da revolução empurrou a buscar outros ares, por certo sob pena de males maiores, é bem verdade queimar-se quem com fogos brinca, se não é mais concreto dizer que nenhuma revolução poupa os filhos. Não inventámos nada desde os velhos gregos, já entre eles havia quem não soubesse furtar-se ao implacável destino, acaso será a vida de cada homem vera revolução, desde que o mundo começou.

Gaspar não desencostou a cabeça da pequena vidraça, um rosto fechado assim apoiado na mão esquerda, mas na sua ideia vai ainda a entrar no autocarro já falado, avança, lenta, a bicha dos passageiros, compra e não compra bilhete, que este motorista não gosta de fazer tudo por atacado, guiar o mastodonte e cozinhar os trocos, se lhe perguntássemos diria que enquanto se capa não se assobia, é esta discutível ciência o mais eficaz modo de propongar a vida. E só a palavra de João, que assim se chama este condutor são cristóvão, logrou interromper-lhe o devaneio, e trazê-lo de novo ao momento. Salamanca está aí, não tarda chegamos aos arrabaldes, o melhor é comer alguma coisa e dar uma folga às pernas, ainda há muito que andar, a dormida é só em Palência. Alvíssaras capitão, alívio geral neste convés, lá está o clarão nocturno da cidade, são dez da noite, uma aguada vem mesmo a calhar. (cont.)

domingo, 17 de março de 2024

As Aves 13

É talvez por estar distraído das lições da nossa história que este gasolineiro nãosai da sua pacatez, nem desliza sorrateiro para o telefone ao receber os talões militares, senhor general dos comandos, sei como tem vocelência no coração uma alma de patriota, tenho acompanhado nos últimos dias tudo quanto tem feito para nos livrar do perigo comunista, pois olhe que passou agora aqui um desses traidores à pátria, num carro que também é vermelho, o melhor é deitarem-lhe a mão. Este gasolineiro não quer saber, acaso estará também farto desta pátria, limita-se a olhar mais atentamente o cliente paisano ao receber os talões militares, e, se perguntou aos próprios botões de que lado estará este na batalha que aqui se trava, não exteriorizou a pergunta e Gaspar não tem que responder, moita carrasco. Pelo sim pelo não arranca intranquilo, e mesmo sem razão avança mais depressa, à medida que se mistura no trânsito citadino.

Esta cidade está hoje mais sossegada do que é seu costume, dizemos nós quando deveríamos precisar que parece desconfiada e temerosa, os olhares comuns parecem outra vez os antigos, olha este homem o céu no temor de que ele traga chuva, quando ontem estava bem seguro do sol que todos os dias o sol manda. Olhares outros mais triunfantes haverá também por aí, não é difícil imaginá-lo, mas desses não encontrou Gaspar nenhum sinal na rua. E não é por distracção. Esqueceu-se de que, sendo a rua o natural lugar das emoções do povo, outros lhe preferem os salões. Deixa o carro no Campo Pequeno, a mulher o irá buscar. E é mais descontraído e confiante, por se ver assim dissolvido entre os passantes, que sai de novo para o subúrbio, na camioneta do Barraqueiro.(cont.)

quinta-feira, 14 de março de 2024

As Aves 12

E Gaspar lá fica, enquanto a situaçãose vai desmoronando. A rádio traz notícias da queda de quartéis, notícias do estado de sítio na cidade, notícias das prisões e do medo. Os telefones já não funcionam e Gaspar vai-se embora, são oito da manhã e ele não pode voltar a casa. Leva no bolso uma velha pistola de guerra, por que será que uma lembra a outra, da revolução e da guerra falamos, sempre tão próximas ambas, quem quiser a revolução tem que aceitar a guerra, parecia  que tornar o mundo um lugar habitável havia de ser desejo natural de todos os homens, sonho a construir em cada dia, pacificamente. Porém, muito seengana quem cuida, e muito mais Gaspar, que só mais tarde aprenderá não haver salvação para os homens, porque nem todos dela precisam, dirão sempre alguns que já estão salvos, e muito bem, assim.

Esta manhã é chuvosa e enfermiça, longos nevoeiros cobrem o rio, como poderia a mesma natureza ficar alheia à consumição que em tantos peitos lavra, e Gaspar lembra-se de esconder a pistola num dos bancos do carro. Atravessou a vilória encolhido atrás da roda do volante, desejando que ninguém dê por ele, e agora vai deixando para trás a charneca em direcção ao Porto Alto, se haverá barragens na estrada, e, havendo, como reagir-lhes, pergunta que deixa sem resposta enquanto passa, temeroso, a entrada do campo de tiro de Alcochete e se lembra das experimentações que andou por estes ares a fazer, do velho material de artilharia que era preciso adaptar aos aviões, já não havia material para o cansaço africano, já ninguém nos vendia material para a teimosia africana, o império aguentava-se preso por arames, e Gaspar lembra-se de quem aqui ficou pulverizado por má selecção duma espoleta, para que o império se aguentasse mais um pouco. A morte não énada do outro mundo, pensa Gaspar, salvo quando se morre ao serviço duma mentira colossal, caso esse em que tudo se resume a perda vã e total desperdício.

Os sobreiros da paisagem dormem ainda na humidade cinzenta da manhã, não é nada com eles, o trânsito é escasso na carreteira estreita, e vendo nós a sossegada marcha desta viatura não adivinhamos a agitação que vai lá dentro, o galope sem freio deste peito, o sobressalto de cada curva, se consegues chegar a Vila Franca tens as estradas saloias à mão, cala e confia, coração.

Numa esquecida bomba de gasolina tratou de encher o depósito, de nada servirão, no futuro, a este viajante, os talões de combustível que traz no bolso, não demora muito passará na televisão a sua cara de menino com apelos de delação e de captura, juntamente com outros igualmente perigosos traidores, tem esta pátria reincidente experiência denunciante e acusa-cristos, é um corropio de séculos, verdade que Gaspar não é judeu, nem bruxo, nem cristão-novo dado a marranices, não é estrangeirado, nem liberal, nem pedreiro-livre, nem comunista se lhe pode chamar, a bem dizer, é apenas um traidor aos objectivos da revolução, quem puder que entenda. (Cont.)

sábado, 9 de março de 2024

As Aves 11

As coisas políticas assustavam a sua ignorância, e a violência desordenada das consignas dos partidos fazia tremer a sua timidez insegura, qualquer che guevara de bairro impressionava o seu incerto pensamento ideológico, não podemos perder esta oportunidade histórica de implantar o socialismo, é preciso aproveitar a momentânea desorientação dos inimigos do povo e assestar-lhes golpes demolidores, e uma táctica assim é que tinha dado jeito na terra dos macondes, no planalto de Mueda.

Mas o povo não era um animal homogéneo, de contornos concretos e incapaz de incoerências, e isso ainda Gaspar o não sabia. Porém, foi-se dando conta de que o mais pequeno gesto íntimo, o simples modo de olhar o mundo e os outros homens tinha sempre uma significação política. Julgou mesmo descobrir que a revolução lhe trouxera resposta para enigmas do mundo nunca decifrados, e lhe desatara mesmo os nós da compreensão da sua própria vida pessoal. Sentiu que a revolução vinha resgatá-lo também a ele, e Gaspar escolheu o seu campo, sem avaliação de riscos. Andou por herdades na apanha da azeitona, assistiu a comícios, gritou em manifestações, acorreu a assembleias, sentiu raiva e temor em cada atentado bombista, em cada assalto, em cada assassinato, descobriu que não há limites para o impudor dos poderosos assustados, ainda não tinha então concluído que os ricos têm sempre razão, já que, quando a não têm, vem a fraqueza dos pobres oferecer-lha.

Gaspar hesita,mas já tinha escolhido o seu campo, e por isso estendeu as pernas para fora da cama e deslizou dos lençóis, cuidadoso, não valia a pena acordar a mulher. Os filhos dormiam, doces, nas camitas, e o comboio que passava perto, silvando vapores na ravina, lembrou-lhe a premência daquela voz que viera acordá-lo. Andavam cavalos à solta nos verdes prados da revolução e Gaspar não sabia de nada, ninguém lhe comunicara intenções nem planos, nem isso era importante, a sua mão não era indispensável, mas onde está a revolução que dispensa mãos, e que mãos dispensam a revolução depois de ela tomar assim o freio nos dentes.

Havia tropas amigas na rua, nos últimos dias era duma evidência transparente que ficaria sem cabeça quem a expusesse, e por isso Gaspar não compreende, sabe só que as tropas nunca se movimentam sem ordens, não sabe ainda que nunca saberá donde tais ordens vieram. Mas vai, porque já não pode recuar. Vai para uma base militar onde encontra confinada num salão toda a oficialidade, pastoreada pela tropa alevantada enquanto joga às damas, enquanto dá umas tacadas no bilhar, enquanto a meia voz comenta o insólito, quem sabe se inesperado, súbito lance. Gaspar ensaia uma explicação do que está a acontecer, tenta mostrar os limites da sublevação, procura legitimar-lhe os objectivos. Ainda não sabe que a razão não desempenha aqui qualquer papel, outros são os motivos que levam os homens a ver, não o que está, mas o que querem ver, numa revolução. E ele próprio é quem vê, pela primeira vez, o ódio nos olhos dos camaradas de ontem, o ódio nos olhos dos companheiros de África de ontem, que lhe chamam traidor e não entendem, alguns cospem-lhe aos pés e não entendem que se possa desejar outra coisa, que se pretenda substituir a definitiva rigidez de cadáver dos códigos deontológicos pelo calor suado e desprezível do povo, não entendem que se possa trocar esta vazia, mas certa, segurança, pela duvidosa aventura de indefinidas utopias, por sonhos incertos de transformar o mundo, assim é a tropa, a fingir-nos a vida para nos interditar o ofício de a criarmos, e eles sem entenderem que chegou o momento do resgate, e que não o aproveitar será deixar toda a história a meio. (cont.)