quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ódios velhos

Chegavam sempre no começo do Outono, quando os corvos passavam ao fim da tarde a grasnar às frialdades que vinham de Além-Doiro. Interrompiam-nos a bola no terreiro, saltavam das carripanas escuras, abriam as gaiolas das matilhas. E caíam nos braços dum lavrador lá do povo, inchado por ter amigos na cidade. Soltavam palavrões que eu julgava proibidos, numa língua esquisita de pagãos, e escarravam muito pelo chão.

Manhã cedo faziam-se aos  caminhos, de espingarda na ombreira, a açular a canzoada. E não havia brejo em todo o vale inteiro que escapasse à invasão. O cainçar dos podengos ouvia-se nas quebradas, e os ecos da fuzilada faziam ricochete nas encostas do vale, monte cá, monte lá, até ao cair da noite.

Retiravam-se ao terceiro dia, com as grelhas de metal enfeitadas de perdizes a largar nuvens de penas, e rosários de coelhos a pendular nos telhados das carripanas escuras.

Hoje vivemos paredes-meias. Os palavrões já me são familiares, e ao sotaque de pagãos acostumei-me aos poucos. Mas não sei como indultá-los do olhar morto das lebres, enforcadas nas janelas, a mandarem-me corrê-los à pedrada.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Menina e Rubinho

Esta menina, com doze anos e três irmãos mais novos, desce pela mão da mãe o portaló dum vapor colonial, na Rocha do Conde de Óbidos.Nasceu e fez-se o que é numa província ultramarina, onde o Verão e a liberdade eram eternos. Hoje acaba de chegar a um país vago etristonho, num dia de inverno frio, e há-de apanhar um comboio ronceiro, com bancos de madeira, que vai partir para o Norte.

Quando ela chegar ao Porto, estão a dar-se em casa de Rubinho os últimos retoques na árvore de Natal, cuja montagem dura há uma semana.

Daqui a um tempo, quando Rubinho for a férias na Granja, esta menina vai chegar no comboiotodas as manhãs, e venderá saquinhas de pipocas pela praia fora, para ajudar a mãe a manter a família.

Anos mais tarde, quando Rubinho andar entretido a descobrir a vida no peito acolchoado duma senhora inglesa, há-de afagar a menina as frieiras dos dedos, por causa da água gelada do tanque onde lava a roupa das camas dos hóspedes, para ajudar a mãe a manter a família.

Quando Rubinho for para a universidade, onde estão à espera dele os mestres que lhe hão-de explicar o pensamento dos filósofos, irá esta menina à escola técnica nocturna, porque as horas do dia são para ajudar a mãe a manter a família.

Um dia havemos nós de ler as memórias de Rubinho, e adentrar-nos com ele nos meandros do surrealismo. O que nos valia a pena era aprender a sustentar uma família. Mas o mundo é o que é, se não for antes o que fazem dele.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A ninfa

Eram os olhos a maior perdição dela. Tão grandes que neles cabia o mundo, tão escuros e fundos que lembravam o mar. Depois vinha a estampa límpida do rosto, debaixo da gaforina asa de corvo: o lábio húmido, a carnação macia, a flor fa face cheia de mistério, a prometer abrir-se num sorriso que não chegava a abrir. O resto era o colo generoso, o ventre inquieto, as colunas das ancas a prometer abismos.

Ninguém sabe explicar como apareceu ali, criada na aldeia, aquela ninfa antiga. Olhava-se para ela e vinham à lembrança as deusas primitivas da fertilidade. O mesmo nome, Pristila,era um sinal pagão.

Dava escola escola para os lados de Aveiro, e vinha a casa sempre que podia. Chegava na carreira, ao fim da tarde, porque o pai, atento à vida, a reclamava. A bem dizer, era a aldeia inteira que a exigia.

Na vila sabia toda a gente que o Tunante não era boa rês. Era um vilão bastardo, que fazia deste mundo uma coutada de caça. E todos lhe guardavam respeitinho, mais por instinto primário de defesa, do que por atributos que não tinha. A ninfa confundiu nele a brutidade grosseira com predicados de macho dominante. E quando vinha à vila, a passear, nem lhe escusava as momices atrevidas, nem os avanços de bruto galaroz. E acabou, já mansa e confundida, a enlear-se no assédio do bargante.

No dia em que as férias começaram chegou a ninfa à vila, desceu da carreira ao fim da tarde. Uma outra que vinha do comboio havia de pô-la em casa. Mas o Tunante estava à espera dela. Cercou-a de rapapés e cortesias, havia de lhe mostrar a loja nova, logo à entrada das muralhas.

A ninfa deixou-se conduzir. E quando veio a hora da carreira, à beirinha da noite, prometeu-lhe o Tunante que um amigo a levaria a casa, de carrinho, à moda das princesas. E logo ela se rendeu, enleada em semelhante gentileza. Tinha mesa posta e banquete preparado, bom presunto, melhor queijo, de vinho bastava-lhe um dedal, não estava acostumada.

A princípio o Tunante foi cordato, coroou-a de rapapés, quis levá-la com bons modos. Penteou-lhe a gaforina, passeou-lhe as mãos no flanco, encheu-lhe o copo de vinho. E abriu-lhe um botão do peito, só para ter uma visão.

A ninfa aos poucos cedeu, o coração num galope. Dum lado o corpo inteiro a amotinar-se, o sangue a romper as veias, o ventre incendiado a extravasar. Doutro lado um grande medo, a cara dele a perder as feições, e um gesto tão poderoso que a assustava.

Quando quis despir-lhe a blusa, a ninfa ainda resistiu. Mordeu o lábio para evitar um grito, cruzou os braços no peito sublevado, refugiou-se no medo. E o Tunante deteve-se um momento, pareceu abandonar o campo de batalha. Foi ajeitar, ao canto, as mantas que lá tinha. Depois apagou a luz, ergueu numa braçada a ninfa amedrontada e foi estendê-la no chão.

Lá fora passaram socas a tropear na calçada. Porém a ninfa hesitou, reteve outra vez um grito. E já dois braços poderosos lhe sujeitavam o corpo, e as pernas brutas lhe apartavam as colunas, e rudes mãos lhe devassavam o peito. As socas na calçada voltaram a tropear, mas a ninfa retraiu-se. Conteve a respiração, não fosse ouvir-se lá fora o ranger do bragal que estilhaçava. Por três vezes entrou nela um vendaval, três vezes a desfolhou. Depois caiu uma escuridão desamparada, e um lago que arrefecia.

Por fim bateram à porta, era o outro que chegava. Aconchegou a ninfa no banco de trás do seu Volvo marreco e arrancou. Antes de a deixar em casa foi parar na carreteira dos moinhos do Alcaide, ninguém ali passava àquela hora.

O Tunante recolheu as mantas, fechou a porta da loja. Uma ninfa desfolhada dava casamento certo, era raspar-se um homem para o Brasil ou sujeitar-se aos códigos. Porém, em sendo o festim a meias, era ela assumida marafona e os cógigos sossegavam. Cumprisse o amigo a sua parte e ficava o problema resolvido.

Quando o Outono chegou, depois das primeiras chuvas, o Tunante subiu para a camioneta e foi recolher à aldeia uns contratos de centeio. Bem o avisaram as sibilas, que desfizesse o negócio, que por lá tinha a morte prometida. Mas ele guardou a sovaqueira no casaco e lá subiu a encosta, a governar a vida. Um homem não saiu para outra coisa das mãos do criador.

O pai da ninfa já estava à espera dele,sentado no balcão. E quando o viu saltar da camioneta, de machado nas unhas foi-se a ele. O outro ficoiu surpreendido, não podia acreditar. Estendeu a mão à sovaqueira e pôs-se a ladear, queria ver se era verdade. Mas o homem trazia no carão a fúria dum deus irado, como quem chega duma tragédia antiga, o melhor era levar a coisa a sério. E desatou a correr.

As mulheres espreitavam à janela, havia gente que parava pelas hortas, a olhar, silenciosa. A própria tarde parou, a ver um homem cavalgar estrada abaixo, atrás dotro que fugia. Quando o sentia mais perto, virava o braço para trás e disparava. Disparou à passagem do ribeiro, e à horta da Teresa Côta, e à subida do negrilho, e à curva da fraga grande.

Agora chegámos nós à fundeira da encosta, e já cruzámos a estrada, e temos à nossa frente o açude da ribeira. Não nos sobra mais que um tiro, e já nos queima o pescoço o bafo dum deus irado. O Tunante apontou-lhe ao coração e disparou. E o machado, que lá vinha como um raio, enterrou-se-lhe no ombro.

Mas vem dalém um pastor, a correr em altos berros, vem salvar esta desgraça. O rpimeiro já está morto, nada podemos fazer. Para que nos serve o segundo, um vagabundo. E num golpe de machado abriu-lhe a cabeça ao meio.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

As Aves Levantam contra o vento 7-9

Ali ficámos encerrados três dias, no meio daquele deserto, até que a neve deu sinais de amainar e o carro preto apareceu outra vez. O passador abriu o portão a chamar-nos aos berros, chegámos ao desvio e lá estava ele à espera, outra vez os mais pequenos fechados no cofre da traseira e oa restantes nove lá dentro, só parámos ao princípio da noite já depois de Tolosa, o carro preto nunca mais o tornámos a ver.

Com muita pena nossa, que tínhamos à espera a parte mais custosa da jornada. Toda a noite a andar, Pirinéus afora em caminhos de cabras, com a neve a tornar tudo mais bicudo. Cada um se guiava pelo vulto da frente naquela escuridão, ele havia ladeiras que só podiam ser iguais às que levam ao inferno e ninguém podia falar. A gente sabia que já íamos parar em França, e isso puxava-nos pelo ânimo, se nãoera antes o desespero a empurrar-nos. Mas o gelo atraiçoava o pessoal, as quedas eram frequentes, a dada altura o meu irmão torceu um pé e o passador logo se pôs a ameaçá-lo, quem o salvou ali e o amparou fui eu, mais o outro colega da nossa zona.

Quando entrámos no moinho à beira dum ribeiro tinha passado a fronteira.Já estávamos em França, Deus louvado, e ali ficámos a descansar parte do dia. Atarvessámos depois umas matas compridas, até darmos connosco num lugar onde já havia um rebanho de pessoal, amalhoado à beira duma estrada. Ali nos deram pela primeira vez garrafas de bebida, que disputámos à força, de comida é que não recebemos mais uma migalha até ao destino final. A dada altura pararam ali na estrada dois camiões de caixa fechada, num deles couberam oitenta e cinco homens, contei-os eu, que entrei na derradeira. Lá dentro havia mais limonadas, três baldes para as precisões, e  a porta de trás, tapada por dentro com caixas de cartão. só voltou a abrir-se quando parámos já perto de Champigny.

A viagem durou catorze dias, passadores que nos vieram à mão contei eu quarenta e um, e do que aconteceu depois da nossa chegada, enquanto a vida demorou a tomar algum rumo, não lhe vou aqui falar, ele há coisas que nem se podem contar, ficam melhor guardadas cá dentro.

Depois chegou depressa o tempode ir à tropa, eu estava na idade, e a guerra de Angola começou passado um ano. Nunca me apresentei, deram-me como fugido, se fosse a Portugal apanhavam-me logo. Só lá voltei dez anos mais tarde, casado já com a minha senhora, que é francesa, com passaporte de cá. Para poder voltar à minha terra, por ter fugido à tropa, deixei de ser português.

A tarde vai avançada e Gaspar tem que partir, mas assaltam-no emoções contraditórias e preferia ficar. Um silêncio atormentado toma-lhe conta do peito. Fica a olhar os circunstantes que ao fundo batem as cartas, ouve-lhes as conversas ruidosas, pára nos semblantes melancólicos que ruminam cervejas pensativas. Não encontra as palavras que procura e aqui teriam lugar. E sem elas se despede do seu anfitrião, que o envolve num abraço rude.

Antes de recolher ao hotel, para a sua últims noite na cidade-luz, passa Gaspar na praceta de Saint-Germain-des-Prés. Já não tem nas mãos nada para salvar. Mas queria ainda aprender como se salva o mundo, através de ocupções e da autugestão. Para algum acaso imprevisto.

Nessa noite o mestre faltou ao Deux Magots. E na manhã seguinte Gaspar tinha avião.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

As Aves 7-8

De forma que nos pusemos a pensar, lá em casa já havia a experiência do meu pai, embora antiga, e à palavra dp padre juntámo-nos três, dali daquela zona. Decidimos do dia para a noite, que é a melhor forma de tomar decisões impossíveis, como é sabido. À  procura dum passador foi o meu irmão mais velho ao Sabugal, que sempre foi boa terra para contrabandos. Lembro-me como se fosse hoje, a gente à espera e os dias a fugir, o facto é que a guarda já andava de focinho no ar, estranhou-lhe a presença por ali e meteu-o na cadeia durante uns dias, era assim que as coisas se faziam. Aguentou-se ele com as mentiras que pôde e lá omandaram embora, ao fim duma semana estava tudo pronto, tratámos de pedir emprestado o dinheiro da viagem e fomos ter a Quadrazais.

Ao todo éramos nove, arrancámos atrás do passador ao princípio da noite, meia hora adiante topámos com a guarda. Cada um debandou conforme pôde por aqueles cabeços da Malcata, parecíamos perdigotos assustados, eu deixei para trás o saco onde guardava um pão de quartos e a casaca, no dia seguinte a arrancada foi de vez.

Andámos então dezanove horas seguidas até uma terra espanhola chamada Valverde, sempre a rasgar a direito, e acabámos a descansar num ermo vago, agachados no mato. O passador voltou ao anoitecer  e lá cruzámos a estrada um a um, sempre atrás dele, avançámos ao longo dum lameiro, havia frio, ouvia-se restolhada de cavalos. A dado ponto alcançámos um barracão no monte, donde espantámos uns porcos que lá havia, ali nos deram o primeiro pão com chocolate espanhol, ali passámos a primeira noite em cama quente.

Partimos de madrugada, quando possível por caminhos abertos do campo, bebíamos água se havia algum regato, e se aparecia um chão de areia avançávamos às arrecuas, a desenhar os passos ao contrário, não há como seguir experiências já feitas e exemplos comprovados. Enfim chegámos, numa serra, a uns fortins de cimento, por certo coisas do tempo da guerra espanhola, ali no ermo. Foi onde descansámos uma tarde, numas camas de fieitos que lá dentro havia, ficámos a saber que não éramos os primeiros a passar por ali. O grupo era de nove, e nove se mantinham, embora o meu irmão quisesse desistir logo na primeira e mais longa tirada.

Bem fez ele em se firmar nas pernas e aguentar, que agora vamos deixar de andar a pé, daqui até Madrid viajamos de carro. Somos nove os caminheiros, a esse número temos que juntar o passador, nada feito sem ele, mais o condutor que não podemos dispensar. O conjunto há-de parecer exagerado para tão singela carruagem, mas só a quem nunca se viu nestas alhadas, não é o nosso caso, no ponto a que chegámos já nada nos causa admiração. Este carro preto é único exemplar, com ele nos temos que haver, importa aqui é saber quem são os dois de menos alentado corpo, melhor se encaixarão a par, lá atrás, no cofre das bagagens.

Quem tinha dúvidas bem fará em perdê-las, pois que a Madrid chegámos, e em Madrid ficámos dois dias fechados numa garagem, a pão e chocolate. Ainda hoje estou para saber por que razão ninguém pensava em trazer-nos bebidas, se não era para evitar necessidades de aliviar o corpo, não falo já do vinho a que estas bocas estão habituadas, falo duma limonada qualquer, dum reles pirolito, da água lisa duma bica.

De Madrid viemos, de rota batida e cu tremido, com o fito em Tolosa, o carro preto a dar mostras duma afoiteza que não se adivinhava. Porém, a dado ponto, a neve começou a cair e foi mais forte. Lá encostámos à berma antes de Miranda, num desvio ali a meio do descampado, saltámos cá para fora e logo nos puseram a correr, até chegarmos a um grande barracão que lá havia. (Cont.)

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

AsAves 7-7

A princípio falaram em francês, a tropeçar em cortesias e embaraços, mas quando se descobriram patrícios a conversa ganhou outro à-vontade. Nem de propósito, amanhã é domingo, apareça você em Saint-Denis, na rue des Peupliers, lá nos encontramos todos.

João Carrolo é dirigente da Associação Recreativa Cultural e Desportiva dos portugueses de Saint-Denis. Têm aqui este lugar de encontro, para estarem juntos, para se sentirem gente. Preparam festas, almoços, arraiais, já cá vieram artistas, já tiveram visitas de políticos. Aos domingos passam a tarde aqui, quem quiser vir, jogam às cartas, matam saudades. E Gaspar já se deu a conhecer, já fez as suas perguntas, já quis acamaradar. Já contou ao João Carrolo a sua circunstância, já explicou ao que vem. E enquanto tira de misérias a barriga, fica-se a ouvir do companheiro os motivos e as passadas que o troux em eram até França.

Eu vim do Zabro, lá para as serras da Lapa, nos começos da década de sessenta. Há-de estar a fazer anos a princípios de Março. Pouco se falava ainda em emigrar, nada daquela febre de alguns anos mais tarde, quando os homens debandaram em massa, e as aldeias, uma atrás da outra, ficaram entregues aos velhos, às crianças e às mulheres. Fui dos primeiros e lembro-me muito bem, o padre da ftreguesia era um homem como poucos. Atento às aflições do povo, foi dele o primeiro passa-palavra, havia muito trabalho a fazer em França.

Ora por França já o meu pai tinha andado em mil novecentos e trinta e tal, primeiro numa fábrica de anilinas em Lião, e mais tarde na ilha da Corsa, de machado e serrote nas unhas, a desbastar matagais. A  prova é que sempre andaram lá por casa, se ainda hoje andarão, uns postais do correio já mordidos do tempo, havia umas donzelas que se punham a sonhar e mandavam-nos ao cher Benjamin, já ele tinha regressado à nossa terra, já tinha casado com a minha mãe. Lá saberiam elas o que ficaram a perder, à vista de recado tão teimoso.

Mas vida de pobre não sai do mesmo sítio, por mais voltas que o cão dê. Chegava a gente ao cabo do ano, que era a feira de Agosto, vendia, quem os tinha, gados miúdos e graúdos, comprava-se um leitão para criar, uma vitela ao meio ganho se havia padrinhos de posses, via a gente a animação dos cavalinhos a girarem à roda e deixava de pensar no resto, as girafas atrás dos leões, e os leões a perseguir as zebras riscadas sem nunca as alcançarem, era tal e qual o mesmo jogo sem fim da nossa vida. Trazia a gente para casa uma camisa nova, umas botas de pneu, uma caixita redonda de banha da cobra com que tratava a pele ardida do muito sol, no fim de pagar a renda das courelas fechava-se o ano sempre no mesmo ponto em que tinha começado, uma miséria aflita, olha hoje um homem para trás e não acredita que um mundo assim já existiu.

O Salazar punha o povo a cantar a casinha portuguesa, mas o pão e o vinho sobre a mesa só existiam na letra da cantiga, não havia casa nenhuma, nem estaria para haver. O país existia para uso duns quantos figurões inchados de prosápia, o resto eram burros de carga, não havia entre a gente e os bichos fundamental diferença, de vida e passadio, quem quisesse fugir à miséria só tinha um rumo a tomar, era procurar uma terra melhor. (Cont.)


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

As Aves 7-6

Gaspar sai finalmente para os jardins. E tanta realidade traz nos olhos, que não lhe sobra espaço para imaginações. Mesmo amputados pela Revolução, parecem estes domínios um reino inteiro, a estender-se para lá do horizonte. Espelhos de água com figuras alegóricas, terraços e escadarias e bosques e alamedas, e jardins da Orangerie onde há plantas de Setúbal, e jogos de água com tritões de bronze, e cascatas e estátuas e fontanas, esta aqui é a de Latona, de quem nasceu Apolo, o do carro do sol. Sentindo-se ultrajada pelas línguas do povo, pediu vingança a Júpiter, que as transformou em rãs. E aqui ficaram elas para toda a eternidade, a coaxar ao vento as suas loas. Lá ao fundo começa o Grand Canal, onde já navegaram barcarolas e se travaram batalhas navais.

É impossível ver tudo. Mas Gaspar não partirá sem ir ao Trianon, onde já houve uma aldeia que um decreto real mandou desaparecer. Ficaram nas colinas dois pequenos palácios, como se mais palácios cá faltassem, e mais jardins à francesa, e um palácio belvedere, e paisagens românticas à moda de Inglaterra. Mas já galopa Gaspar aos casais da rainha, que uns arquitectos andaram a construir, para ela se espairecer dos grandes tédios da corte.

Os casinhotos são de inspiração normanda e têm tectos de colmo, à beira dum riacho. Resta o moinho, o pombal, a quinta e a leitaria, e a choupana da rainha com varandins de madeira. Tão pouco tempo a gozou, a desditosa, que Gaspar se surpreende a lamentar as razões que a história às vezes esconde. Certo rei varreu uma aldeia, mandou fazer um plácio. Deixa o palácio a rainha, volta a construir a aldeia. Não gosta do jogo, o povo, que já tem a vida dura, e corta a cabeça aos dois.E se não houver aqui quem lance a pedra primeira, a última não a lançaremos nós.

Foi tão grande a romaria como o dia, depois duma tal jornada Gaspar não se levantou. De cansaço, se não foi de exaustão, e de emoções, que não esperava tantas. Só ao fim da tarde veio à rua, em busca de um conforto para o estômago agastado. Sobram-lhe dias na escala, já lhe está faltando o ânimo, e mais ainda o dinheiro. Lança mão do telefone que o companheiro deixou. (Cont.)