segunda-feira, 5 de setembro de 2022

O meu 4-patas

Viveu comigo seis anos. Há dias entrei o portão da rua e salta-me ele do muro à esquerda. Não era a primeira vez que o fazia, como quem dá as boas-vindas. Mas desta vez passou por baixo do carro e foi pisado por uma roda.

Com a coluna partida, o meu 4-patas arrastou-se à volta da casa e apareceu-me no alpendre. Não sei definir o que senti ao vê-lo, a arrastar-se e a sangrar da boca. Chegou à beira, desceu para os agapantos num gesto costumeiro, e morreu.

Em lugar dum 4-patas, eu tenho agora comigo um sentimento de culpa. E duas lágrimas.

domingo, 14 de agosto de 2022

Feira de Agosto

Há um sobressalto na paisagem

Do céu fugiu a cor

A brisa bate à porta

Vem entrando Saturno, o melancólico.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

domingo, 3 de julho de 2022

Credo! Abrenúncio!!!

No tempo em que os animais falavam, o dótor Relvas podia. E assim podendo, mandava que fosse feita formação específica de pessoal autárquico, na gestão de quaisquer remotos aeródromos que houvesse no meio da selva. Fosse lá isso o que fosse, a tarefa cabia à empresa Tecnoforma, onde pontificava um tal Passos Coelho.

Foram tempos para esquecer e assim ficaram. Mas agora apareceu o Montenegro, com os dois dedinhos no ar. E o pior é de temer.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Ena pá!

 

O que p´raí vai!!!

terça-feira, 28 de junho de 2022

Contos... do vigário

(Cont.)

O Tribunal Europeu do Ambiente acabou a anunciar nos jornais a instalação em Trancoso dum projecto-piloto de cidade biológica. Benza-os Deus, ao tribunal e ao projecto, por virem tão a propósito. Pensa isto o viajante, ao lembrar-se do fedor das queijarias da quinta do Forcas, ali abaixo a dois passos. Com os seus lagos de efluentes a céu aberto, empestam a atmosfera à saída para Lamego, inquinam a ribeira de Rio de Moinhos, interditam a rega aos aldeãos, matam as faunas do Távora.

Ainda bem que chegaram a Trancoso estes cavaleiros andantes. A vila inteira é que não deu por eles, se antes não caprichou em manter as distâncias. É que há nestas liturgias diletantes um solipsismo patético, há um vazio que dói. Porém muito suspeita o viajante que a tão irreais oficiantes não molestou tão grande alheamento. Bem antes pelo contrário. E custa-lhe a acreditar que a câmara de Trancoso dispenda uma fortuna a financiar tudo isto.

Porque ainda não é tudo. Buscando nas entrelinhas, acaba por saber o viajante que o dito museu do tempo exporá uma colecção de duzentos relógios dos últimos quatro séculos. Os quais fazem parte do espólio dum inventor e industrial português de contornos indecisos, directo ascendente do já citado compositor brasileiro-luso, a alma destes encontros. E o arrojado museu vai ter o nome do filósofo que é também presidente honorário do Tribunal Europeu do Ambiente. Sabidos que já eram os efeitos, ficam assim conhecidas as causas, não vá alguém iludir-se com os acasos deste mundo. Tudo não passa afinal dum concerto de privadas conveniências.

Ora o viajante considera que um tão distinto cenáculo de construtores do futuro bem faria em reunir-se no hotel do Alto dos Frades para uns serões pacíficos de bridge. Mas não para estes rituais iniciáticos, alheios a uma realidade que absurdamente os ignora e financia. Bem verdade é o que se diz de qualquer poder sem freio. Ou corrompe, ou ensandece.

Isto fica a pensar o viajante, que ainda não imagina a dimensão verdadeira da sandice. Porque os dois encontros anuais da FACTO, para o ano hão-de ser quatro. Dado que anda o planeta mergulhado em ondas de simetria e assimetria, nada como devotar-se a câmara de Trancoso a discutir as magnas questões da Ruptura e Tradição, mecenando conclaves de sumidades internacionais em educação, sistemas cognitivos, design, teoria e história da arte, matemática, arquitectura, música, filosofia da ciência, neurologia e dança.

E não vá tanta coisa parecer pouco, há-de o Segundo Encontro Iternacional de Arte e Ciência esquartejar o tema das Sociedades de Alto e Baixo Poder. E por haver neste lugar remoto largas famas e melhores tradições visionárias e esotéricas, aqui terá lugar um Encontro Internacional de Arte e Alquimia, onde será chamada a capítulo a Alchimiarte, sociedade de ilustres que em Locarno se ocupam das relações entre uma coisa e outra, desde há séculos.

Hão-de fazer do Bandarra um cabalista, há-de justificar-se-lhe um museu. E finalmente, - pois que em toda a acção do Tribunal Europeu do Ambiente está francamente presente a ideia da liberdade, resgatada no seu significado clássico, de onde emana uma dinâmica Paideia, em que cada pessoa é responsável pelo desígnio dos seus próprios limites - hão-de voltar as Origens do Futuro, para pôr em pratos limpos a questão.

No mundo caprichoso que aí está, não saberá dizer o viajante se a decadência triste que vai por estas terras é uma fatalidade inescapável. Mas não duvida, depois do que tem visto, de que estas políticas locais só lhes abreviam a sentença. Que Portugal mete medo. (...)

Contos... do vigário

(cont.)

O primeiro orador é um artista português. Debita um par de noções elementares sobre a eutrofização das lagoas dos Açores, fala do pico do petróleo e nos limites do crescimento, cita os malefícios da suburbanização e da fordização da sociedade. Discursos consensuais. E acaba por desvendar o seu projecto de capital dum país do futuro, um grande estuário estimulado pela utopia dos jogos olímpicos de 2020, que haverão de ser os primeiros jogos pós-carbónicos.

O segundo orador é um físico judeu, que parte do big-bang original até chegar ao microcosmos dos protões, feitos de quarks ligados por gluões. Revela ao auditório sonolento a descoberta dos quasi-cristais, que possuem natureza quasi-periódica. Verdade ou não, o viajante não o sabe. Nem conhece, neste vasto mundo, ninguém a quem isso interesse, muito menos em Trancoso, ou no auditório que o cerca. Mas o cientista já se aproxima do fim, e termina com uma incursão, quem sabe se pertinente, ao campo dos números irracionais.

O orador seguinte vem da América, é especislista em novos meios e revoluções editoriais. Para economizar papel, lê a cansativa intervenção num ecrã de computador, e ao viajante parece isto, finalmente, um escrúpulo a registar. Fala de livros, da rede, de mercados e de comunicação. Porém muito vagamente, que a tradução simultãnea claudicou.

A seu tempo abandonou a plateia um marquês bem conhecido, anfitrião de lúcidas tertúlias, que veio do seu palácio em Lisboa atraído pelo rumor das propostas. Pôs-se ao fresco e não sabe o que perdeu,que à chegada do crepúsculo vai faltar à vernissage. Na vastidão das paredes da igreja do convento há uma instalação dum criativo inglês. A propósito da água, esse líquido precioso, e dos seus aspectos físicos, simbólicos e espirituais, há imagens vagas dum feto na bolsa de águas, um banhista às voltar numa piscina, e uma sequência de fotos dum galã americano a metamorfosear-se em boga.

Escapando a intervenções de cientistas avulsos e dum antropólogo indiano, o viajante seguiu o exemplo atilado do marquês,deu às de vila-diogo. E só tornou ao fechar dos trabalhos, para ver como acabava aquilo tudo. Um velho arquitecto português quis saber como é possível redesenhar a humanidade, se o rpincipal dos orçamentos dos governos vai para as armas e as guerras.

Um engenheiro brasileiro jurou que na sua terra estava tudo preparado para a nano-tecnologia, só o eqilíbrio do mundo os mantinha sossegados. Vindo embora do país que deu ao mundo os camponeses sem-terra, assegura que há nele terra bastante para afectar aos bio-combustíveis, sem molestar a produção alimentar. E porque era, enfim ,necessário concluir, alvitrou uma figura feminina que ao menos guardassem os pensadores os telefones dos comparsas.

(Cont.)

 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Contos... do vigário

(...) Aqui há uns anos, numa feliz conjugação astral, veio à fala o presidente da câmara com dois cidadãos do mundo. Eram eles um brasileiro de lusas raízes, arquitecto e compositor entre mais dotes, e um tal Barbas de méritos prováveis de quem nada se apurou. Logo os três se deram conta de não existir no país uma entidade que congregasse os labores de artistas, folósofos, pensadores e cientistas. E consideraram Trancoso o lugar ideal para uma contínua reflexão sobre os males do planeta, através da arte, da ciência e das novas tecnologias. Os três criaram a FACTO, logo ali, como quem diz a Fundação para as Artes, Ciências e Tecnologias - Observatório.

O objectivo da FACTO era a promoção de projectos de carácter transdisciplinar, transcultural, transnacional e intermediático. Seja lá isso o que for, em boa hora lhe deram nascimento, que assim veio a ter lugar o primeiro encontro internacional de arte e ciência, a que chamaram o Espírito da Descoberta. Um tal espírito visava promover um momento de informação e debate, gerando uma visão mais ampla, diversificada e profunda dealgumas das mais fascinantes descobertas da ciência e das propostas da arte, questionando a sua natureza, os seus fins e o universo humano nelas envolvido.

Perante o duvidoso jargão da propaganda, cresce ao viajante a muita perplexidade. Mas logo veio em apoio de tão peregrino evento uma procissão de aclamadores, entre eles um filósofo europeu, presidente da Associação Mundial de Críticos de Arte, que era também a cabeça honorária do Tribunal Europeu do Ambiente.

Uma tal instituição, que anos atrás já naufragara na Bélgica por culpa dos governos que faltam aos compromissos, das multinacionais cuja bandeira é o dividendo, e de corrupções avulsas, achara por fim em Londres um porto de acolhimento. Foi nessa altura que o já citado brasileiro-luso se tornou seu director. E os Encontros Internacionais de Arte e Ciência, já firmados em Trancoso, deram então lugar às sessões do Tribunal Europeu do Ambiente. O Espírito da Descoberta cedeu passo às Origens do Futuro, muito embora pareça ao viajante, em linguagem mais terrena, que à tal fome de aventuras visionárias se juntou aqui a mais singela vontade de comer.

Esperava-se audiência de estudantes de várias universidades vizinhas de Trancoso, não especificadas pela organização. Ademais de professores, artistas, investigadores e público em geral. A plateia, porém, não chega a duas dúzias de presenças exóticas, as mais delas personagens da própria encenação. Mistura-se nas conversas o linguajar brasileiro com um inglês de várias latitudes, alguém atarefado nos serviços de apoio fala um português genuíno.Mas a tradução simultânea permite ultrapassar a babélica confusão.

(Cont.)

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Rumor de setins

Quem teve sorte foi a avó Basília, que chegou antes de todos, na cadeira de rodas. Dois netos patinaram rampa acima, fincando os pés nas gretas da calçada, até depositarem ao cimo da ladeira esta rainha. Tamanha canseira nem a dos palafreneiros d'el-rei dom João V, quando o magnânimo vinha aqui subir a encosta e abrir o peito ao espavento dos torreões da sua Mafra, que haveriam de torná-lo imortal. Fosse como fosse, a verdade é que a velhota, os pêlos do mento escanhoados a preceito e o restante do carão aplainado por cremes e pós-de-arroz muito oportunos, logo tomou lugar à frente, na coxia central da grande nave da basílica, não queria perder pitada da função.

O pior foi que muitos convivas rebanhavam ainda na larga escadaria quando a noiva chegou, e já não puderam entrar. Porque ela apoiou o cansaço das olheiras no cotovelo solene do padrinho, deixou que a frescura do templo lhe cerrasse as pálpebras azuis, ajustou o passinho miúdo aos acordes imponentes das tubagens do órgão e deixou-se levar. Dir-se-ia que levitava, hirta, nave acima, de bouquet na mãozinha fria, enquanto flutuava por cima das leis da física, o corpo de libélula a dissolver-se na abundância de folhos, entre sedas e organdis. E atrás dela, na mesma lentidão sisuda de majestade reinante, lambendo o chão num rumor de setins, logo começou a entrar na igreja a cauda do vestido.

Quando a noiva chegou ao altar e se apoiou, exausta, no genuflexório, ainda o vasto caudal se alongava pelo largo fronteiro, vindo lá do fundo da avenida que chega da Ericeira. Andavam os pobres caudatários numa fona, afugentando cães, espantando choferes irritados, os veludos do fato em desalinho. O manto continuava a desaguar na basílica, enchendo o pórtico de umbral a umbral, em volutas de tafetás e tules.

Radioso a princípio, o semblante do padre foi-se fechando à medida que o empo se escoava, sem aparecer o fim da cauda nupcial. Ele conhecia como ninguém os caprichos do mundo e das suas criaturas. Mas não pôde evitar a sombra duma inquietação, à medida que foi vendo a metade fundeira da igreja afogar-se em castelos de cambraias, os convivas, em temor, a rodearem o altar.

E foi quando o pânico ameaçava já tomar conta da assembleia que a fímbria derradeira do manto entrou na basílica. Perante o arrebato de quantos protestavam lá fora, tão insolitamente impedidos de assistir à função, o padre ministrou rapidamente o sacramento, era o que podia fazer. E logo desapareceu na sacristia, desparamentou-se e saiu pelas traseiras.

Abandonado a si mesmo naquela clausura, de que ninguém lobrigava forma de sair, esteve o concílio a pontos de perder a cabeça. Houve quem tivesse a ideia de deitar fogo a tudo, alguém sugeriu que era melhor saltarem todos pela janela, abandonando os tules inúteis.

Acabou afinal por vir a desvendar-se que tudo não passava duma tramóia, engendrada por uma estação de televisão em desespero de audiências. E foi então que a avó Basília, incomodada por tamanho desperdício, chamou de parte a neta e lhe disse ao ouvido que sempre encontrará na vida o que precisa quem guarda o que não presta.

Tal foi o que lhe disse, como foi o que se fez. Recordado das antigas campanhas na Guiné, o padrinho chamou em apoio um pelotão de infantaria, que saía em manobras do quartel vizinho. Ajudaram todos a enfardar cambraias e setins, veio mais tarde a noiva recolhê-los, depois da lua-de mel.

Tinha razão a avó Basília, tamanho jeito lhe vieram a dar para tapar as misérias, durante um ror de anos.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Maias


Floresce a giesta negral.
Mas as abelhas evitam-na
Salvo quando constipadas.

terça-feira, 10 de maio de 2022

Europa

 

Zeus viu Europa brincar com as companheiras na praia. Apaixonado pela sua beleza, transformou-se num touro de resplandecente brancura e cornos semelhantes a duas luas em quarto crescente. Aproximou-se da jovem e foi deitar-se a seus pés. Ela assustou-se, mas logo acariciou o animal, sentando-se no seu dorso. Logo o touro se levanta e corre em direcção ao mar. Assim chegam ambos a Creta, e Zeus consuma o seu amor pela jovem à sombra duns plátanos.

Nasce daí este privilégio de ser europeu.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Abril

 

Ainda e sempre|

sábado, 23 de abril de 2022

Cantigas

Mil vozes chilreiam à Primavera. Mas cai a noite e só o rouxinol se ouve.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Melodramas

A primeira vez que ela me saltou da poltrona e se dissolveu no ecrã, à vista de toda a plateia, foi quando uma das crianças da família trape, acostumada a vê-la na primeira fila, veio tomá-la do braço para lhe ouvir, à noite, o embalo da voz, antes de adormecer.

A nossa vida já não corria há uns tempos. E não minto se disser que tudo se deveu à incorrigível mania que ela tinha de adiar tudo para depois do casamento. Quando passeávamos no parque, era sabido que só aceitava sentar-se comigo nos bancos onde passava toda a gente. Experimentei várias vezes levá-la à margem do rio, quando à tarde o sol convidava a um repouso debaixo dos salgueiros. Cheguei a estender na relva a manta que trago sempre na mala do fiat, enviesado modo de lhe tornar a sesta mais convidativa. Mas ela escapulia-se, entre risos, e punha-se a refrescar os pezinhos na água, a ver se apanhava à mão as bogas que passavam, a abrir a boca entre os juncos.

E assim me foi arrefecendo a paixão. De modo que fiquei muito tempo em cuidados, sem saber bem como livrar-me dela.

Um dia descobri-lhe uma insopitável tendência para o melodrama, e decidi levá-la à matiné, para ver em que paravam as modas. Mal sabia eu as peripécias que haviam de vir. É que estava ali no ecrã tudo quanto a fazia feliz. Um fidalgo distante e sedutor, a manada dos filhos a precisar de mãe, e uma fada que se perdera a caminho de casa e se abrigara no jardim. Com aquela música dos anjos, o céu, a havê-lo, era por certo assim.

Nunca a vi tão feliz, decerto foi por isso que não mais deixou de ir à matiné das três, até vir a criança tomá-la do braço, como já ficou dito. E, quando a família trape saiu de cena, já ela não podia dispensar-lhe o convívio e continuou a dissolver-se no ecrã. Um dia a história dirá que foi ela a salvação da menina escarlate, na solidão da geórgia, quando o vendaval do destino lhe desabou em cima e o dandy dos bigodes desertou, batendo com o portão. Noutra ocasião, hibernava um poeta russo na tundra siberiana, de alma retalhada e incapaz dum verso, foi ela que se meteu, intrépida, aos frios dos urais, inçados de guardas vermelhos, para guiar o pobre a uma cidadezinha onde haveria salvamento. E, numa tarde de tombstone city, ela mais uma vez não hesitou em pôr-se do lado dos bons, e segredou à orelha do xerife o nome do homem que matou o liberty valance.

Num domingo dei por ela a passar para a matiné, sem imaginar que a via pela última vez. Nessa arde foi juntar-se a um grupo de anarquistas espanholas, que defendia heroicamente uma portela qualquer da sierra de guadarrama, para salvar madrid dos tércios mouros do franco. Não sei onde é que ela aprendeu a manejar os fuzis de repetição, creio que não havia limites para aquele coração febril. Mas a correlação de forças era desesperada, e os alfanges berberes acabaram a cevar-se no sangue nobre das guerrilheiras libertárias.

Ela nunca mais voltou. E, durante uma semana, até eu me reconciliei com a escumalha dos fascistas.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Metafísicas

O jagudi de pescoço pelado, indígena dos pântanos, poisou no galho escasso do embondeiro. O soldado de infantaria vinha cansado no coice do pelotão, deitou a bazuca no capim e estendeu-se à sombra do jagudi.

O pássaro ficou a chupar a última perna dum caranguejo do lodo, e o atirador abriu uma lata de sardinhas de conserva, que tirou do bornal.

- Mais me valia um pássaro na mão! - disse o soldado de infantaria.

- Antes te acudiram dois a voar! - disse o jagudi dos pântanos.

E assim ficaram. Mas quando o soldado atirador deu um piparote na lata vazia, um raio de sol fez ricochete no fundo da lata e regressou ao infinito.

Atentos ao sinal estavam dois bombardeiros de focinho comprido, que patrulhavam as nuvens e tinham ordens para abater tudo quanto mexesse. Vieram como duas setas, de nariz esticado e sorrateiro, rasgaram o ar por cima do embondeiro e largaram as duas bombas de napalm.

Iguaizinhos na vida, o jagudi e o soldado de infantaria mantiveram-se idênticos na morte. Só divergiam na metafísica.

sábado, 2 de abril de 2022

Lidoro

Um tal nome é corruptela do vulgo, do original já não há quem se lembre. Tinha ressonâncias clássicas perdidas, engendradas ninguém sabe como na cabeça do pai, a quem chamavam filósofo. Isto quando voltou da grande guerra, de cabeça estonteada pelos gases.

Hoje vive ali nas Tapadinhas, a meio da encosta, como um anacoreta. Tem uma casita de chão térreo, com uma porta por onde o sol espreita, sem entrar. Lá dentro cabe uma vaca, duas cabras, e dúzia e meia de cães. Na horta há uma presa velha, de águas-vivas. Basta-lhe a ele, aos bichos e ao renovo.

Quando calha apanha uma perdiz, um laparoto incauto, se os cachorros ajudarem. Poda as vides da latada em lhe chegando o tempo, e é delas que tira um palheto improvisado para adoçar as invernias. Afora isso deixa o mundo correr.

Teve em tempos uma namorada, e desejos de fazer vida com ela. A mãe é que não deixou, no entendimento dela não era mulher para ele. A namorada foi casar a outro lado, a mãe morreu quando lhe chegou o dia, Lidoro ficou sozinho e mudou-se para as Tapadinhas. Nunca mais voltou ao povo, que foi ficando deserto.

Já lhe ofereceram uma casa da Misericórdia, um catre no lar dos velhos, mas ele escorraçou o mensageiro. Diz que se fartou daquelas galgas, que não está para as aturar. As galgas são as línguas das mulheres, quando se juntam na fonte. E ninguém lhe deu notícia de que as galgas já morreram e deixaram de lá ir.

A pontada que lhe mói o lado esquerdo já passa as noites com ele. A princípio ia e vinha, uma fraqueza assim ao fim da tarde, talvez por mor do cansaço. Agora nem de madrugada o larga. Prende-o à cama e só o vai largar quando acabar com ele. Mas Lidoro ainda o não sabe.

Nessa altura, que não tarda, os cachorros vão juntar-se à roda do seu dono, todo ausente, a mão imóvel. Vão ganir-lhe, em voz chorada, a pressentir o pior. Vão uivar-lhe, em desespero, já sem esperança nenhuma. E vão ladrar-lhe, raivosos deste abandono, já toldados pelo instinto. Até que o primeiro deles lhe afoite na jugular os caninos esfaimados.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Sobrevivência

Em 1970, na esquadra da Ota, tudo chegava da América, ressalvando os géneros do rancho que vinham das hortas de Alenquer. Os aviões eram da guerra da Coreia, e a literatura que neles vinha inclusa tinha eficácia há muito comprovada, ou nas escolas do Texas ou em bases do Arizona. Ninguém sabia porquê, mas tudo funcionava. Obtinha-se a máxima produtividade com investimento mínimo, um conceito alienígena que só muito mais tarde assentaria arraiais no linguajar comum.

Faltava-nos treinar a sobrevivência no mar. E se a questão parece de somenos num país de marinheiros, logo adquire as dimensões duma Ilíada caseira, quando calha apagar-se o fogareiro a trinta milhas da costa. E lá veio uma equipa americana.

Fingiu-se o mar na piscina que ali estava, ao fundo da ladeira, rodeada de eucaliptos. Um cabo de aço amarrado numa copa, um rappel vertiginoso, no fim dele uma abraço de madrasta, à nossa espera nas águas de Fevereiro. Livra-te do arnês do pára-quedas, nada até ao salva-vidas que além está, a dançar ao rés das ondas, iça-te lá para dentro sem demora, verifica a pistola de sinais, os fumos e tudo o resto, não te esqueças dos anzóis que te farão muita falta, se ainda não congelaste estás muito bem assim, já que estás na mão de Deus. 

Depois era só vencer os cem metros da ladeira, as botas a chocalhar e o fato a gotejar limos, e o vento enregelado que vinha do Montejunto, a morder-nos as orelhas, a alancear-nos o peito.

A princípio ainda corri, mas aos poucos foi-me afrouxando o passo. E à porta do alojamento caí na primeira escada. Foi aí que me encontrou aquele anjinho da guarda da senhora das limpezas, que vinha a pegar no turno. Deu o alerta, pôs-se a gritar por ajuda, e soltou-me das vestes encharcadas os ossos que estalavam sem controle. Levaram-me escada acima, meteram-me num chuveiro, barafustaram que viesse o médico. E ele veio, um velho que era dentista, e estava na escala de serviço. Só o meu corpo é que não obedecia, tomado dum frenesi.

Desistiram do chuveiro que fervia, enfiaram-me na cama, e abraçaram a mim, numa esperança de milagre, o corpo generoso da femme-de-ménage, que me ofereceu o peito avantajado. Era uma pietá pagã. Mas nem ela conteve o motim dos meus ossos, nem acalmou aquela rebelião. E ainda hoje estou para decifrar o raciocínio do médico, que fez sair a mulher e lhe tomou o lugar, implorando ao meu corpo que parasse de vibrar.

Lentamente amainou o desvario, e os meus ossos deixaram de estalar. Eu voltei a tomar posse de mim mesmo e dispensei os cuidados do médico. Tudo isto contaram-mo depois, o resto dos pormenores não os sei. Mas foram por muito tempo motivo de chacota. E talvez tema dum congresso médico, ou de algum brain-storming na América. A gente sabe lá!

domingo, 27 de março de 2022

Pois é!

 



quinta-feira, 17 de março de 2022

Cândida

Vive além naquela casa grande, ao fundo da vereda. Mas nunca gostou de morar fora do povo, aqui no descampado. E agora ainda por cima está sozinha, desde que enviuvou.

Antigamente a vida era diferente e até os dias lhe pareciam mais pequenos, sempre numa fona entre a cozinha e a horta, o asseio da casa e as lixaradas que o vento juntava no pátio. Mas agora tornaram-se tão grandes, e tão pesados às vezes, que malos consegue suportar. Só a poder de tristeza e solidão.

Metade da casa não perece sua, fechou a porta que dá para o corredor e nem lá entra. Só para se defender. As latas das sardinheiras que rodeiam o pátio ficam semanas sem uma atenção. O que lhes vale é serem resistentes e saberem esperar. Agora tem muita pena, mas foi assim que as sécias lhe morreram.

Esta lembrança das sécias deixa-as numa aflição, fá-la sentir-se culpada da morte do marido naquela manhã. Ele em frente do espelho, a deixar de ver no queixo a espuma da barba, a queixar-se das tonturas. Ela chegou a correr, e ele dobrado por cima do lavatório, ele a estender a mão à procura da parede, ele a pedir-lhe que lhe limpe um suor frio na testa. E ela a ficar ali atarantada, a telefonar ao cunhado em vez de ligar para as ambulâncias, o cunhado a tirar o carro da garagem, a levar o irmão ao consultório do médico, e o médico sem atentar no que fazia, sem perceber o que se estava a passar, sem o despachar logo para as urgências, o médico a escrever uma carta vagarosa para os colegas do hospital, a mandá-lo seguir no carro do cunhado em vez de reclamar os bombeiros, o tempo a passar e os dois a gastá-lo na sala de espera, sem que nenhuma enfermeira reparasse nele, sem que a menina da bata lhe adivinhasse o nome e viesse chamá-lo, senhor Manuel dos Santos.

Ah, se ela tivesse aprendido que havia ambulâncias quando se deixa de ver a espuma da barba em frente do espelho, se ela tivesse escrito num papel o telefone dos bombeiros, se ela ao menos soubesse conduzir, Talvez o Manel não tivesse morrido de abandono, cercado de tanta gente, ali à entrada das urgências do hospital da cidade!

O certo é que o marido lhe morreu, porque o tempo foi demais. Tão comprido o tempo dele, nesse dia, conforme o dela é hoje, que só a poder de tristeza e solidão lhe consegue resistir.

A casa, grande demais, ambos a ganharam na Alemanha, há trinta anos atrás. Deixaram o filho em casa do avô e ala moleiro. Bem lhe custou, como mãe. E mais lhe custaria se soubesse o que sabe hoje, porque a criação do filho não foi bem o que devia. Sobre o mais, era aquela língua tão arrevesada que nunca foi capaz de lhe meter o dente. Mas os peixes na fábrica também não falavam, os peixes que ela amanhou anos a fio, a metê-los nas latas e nos frascos sem dizer uma palavra. Para já não falar do frio, que lhe incendiava os dedos, na água onde nadavam barbatanas e tripas. De vez em quando havia quem metesse uma krankada, mas ela nunca o fez. E se não fossem as férias que vinham em Agosto não se tinha aguentado. A bem dizer, ainda hoje não sabe se valeu a pena tanto sacrifício.

Mas este ano já prometeu à Dulce que não vai ficar aqui sozinha. Quando as vindimas vierem, já prometeu à Dulce e à Armandina que há-de ir com elas para o Doiro. Há-de apanhar, madrugada, a camionete que as vai levar e trazer. Não será  lá grande coisa. Mas pode ser que as férias em Agosto aconteçam outra vez.

Apostila: As férias em Agosto não voltaram a acontecer. Nem o Doiro lhe valeu. Ontem o povo levou-a para o cemitério.

terça-feira, 1 de março de 2022

Cicatrizes

Em Maio de 68 os generais mandaram-me para a guerra de Angola. E eu lá fui. A viagem era num velho DC6, um quadrimotor decrépito que se arrastava costa abaixo, guiando-se pelos padrões que os velhos navegadores tinham semeado nas praias.

O primeiro percalço aconteceu antes da partida. Às onze da noite, no aeroporto, os passageiros foram informados de que a partida sofrera um atraso de 24 horas. Eu lá dormi numa pensão qualquer, e o dia seguinte passei-o na Feira do Livro, que na altura acontecia na avenida da Liberdade. Comprei lá um livro dum japonês e outro dum sul-americano, um Miguel Angel qualquer. Dois prémios Nobel, nem mais.

E lá partimos, num grande estrondo por cima do Areeiro, que começava a dormir. Alheado e imprevidente, não tratei do farnel. E o que me valeu foi o salame de chocolate que a Mitina levava. (A Mitina era a mulher dum camarada que também fora mobilizado).

Quando aterrámos nos Espargos, na ilha do Sal, a tripulação informou-nos de que havia uma avaria num dos motores. Era preciso que a TAP trouxesse de Lisboa uma peça sobresselente. Tínhamos que esperar.

Nós encontrámos refúgio na enfermaria, onde dormimos duas noites. Os restantes passageiros desenrascaram-se como puderam. Na parte de trás do avião acampava um grupo de marinheiros. Mais à frente havia mulheres com filhos, e cheiro a papas e fraldas. O sol inclemente encarregava-se do resto.

Mas a peça lá chegou e acabámos por partir. Na escala da Bissalanca não chegámos a sair. Apenas nos inundou a bafósia inclemente da Guiné. E finalmente aterrámos em Luanda.

Os generais hesitaram uma semana e finalmente decidiram. Mandaram-nos para o Negage, onde só havia aeronaves que nunca conhecêramos. Nunca tínhamos feito exercícios de tiro, e lá acabámos por aprender alguma coisa com os alferes milicianos que lá estavam. O tecto da base aérea era um firmamento com as estrelas do hemisfério sul. E no grande hotel do Negage, ocupado pela Força Aérea, havia uma messe com música de luxo. Foi lá que eu conheci o Jacques Loussier, e as suas versões ligeiras do Sebastian Bach.

Um dia, passado um ano, acabou-se-me o gás. Destruí um avião e acabei no hospital. Os médicos lá fizeram o que sabiam. E eu acabei evacuado para Lisboa, com as cicatrizes que ainda guardo.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Metamorfoses

Copiando descaradamente as velhas tácticas da operação nó cego, que a seu tempo reduziram a pó o planalto dos macondes, desencadeei uma série de campanhas que me permitiram ultrapassar a crise dos pulgões amotinados. Porém, após a euforia da vitória, dei conta do estado lastimoso em que me ficara o terraço, quem tenha andado nas trincheiras da flandres saberá do que estou a falar.

Ora este era o pequeno património que me restava da família, e guardava para mim um vasto significado emotivo, a despeito de algum desvalor intrínseco. Pedi o parecer dum paisagista, o qual em boa hora me aconselhou a reconversão agrícola do espaço. Sem ajuizar, por certo, das metamorfoses a que me ia sujeitar.

Havia que fazer opções. E não sei se foi a antiga preocupação de dar de comer a um milhão de portugueses, ou se foi a minha costela clássica a lembrar-me que nem só os deuses merecem um bom vinho. O facto é que não demorei a plantar uns bacelos que arranjei no mercado, após o que tratei de me associar a uma destas agremiações da lavoura de qualidade, que há muito me habituara a reverenciar.

Logo na primavera, estavam os bacelos a abrolhar os primeiros gomos, começaram a sair-me coelhos da cartola. Havia um qualquer instituto no ministério da agricultura, que pagava generosamente o arranque das cepas. E eu, moderno empreendedor, tinha que ser pragmático. Meti os catrapilos a arrotear o terraço, e ainda me sobrou capital para investir num parque de máquinas. Comecei logo por um jipe samurai de tracção integral, e passei a deslocar-me ao centro da cidade em viatura própria, liberto das indigestões da carris.

Eu era agora um empreendedor, como já foi dito, e tinha o terraço devoluto. Frequentava os seminários da grape, à procura de entender, entre o tinto e o patanegra alentejanos, os meandros daquilo que toda a gente chamava a política agrária global. Durante três anos, e enquanto, salvo seja, ia apalpando o terreno, apostei na cultura das oleaginosas, que funcionava de modo tão simples quanto surpreendente. Eu lançava as sementes à terra, e garantia logo a correspondente subvenção. Porém, sendo os gastos da colheita superiores ao valor do produto, o destino da plantação era mirrar-se lentamente, até se desfazer ao vento. Ficava eu livre de trabalhos vãos, enquanto o fundo de garantia se encarregava de manter-me em equilíbrio os orçamentos.

Esta espécie de pousio havia de ter como efeito uma notável melhoria dos solos, a tal ponto que me abalancei à cultura de frutas mais especiosas. Apresentei um projecto de plantação, cuja subvenção a fundo perdido incluía um sistema de rega científico, inventado por judeus do deserto. Embora mais adequadas às neblinas da nova zelândia, as plantas resistiram à escassez de águas e mostravam considerável vigor.

Passados três anos, a primeira produção foi tão fecunda que o mercado recusou absorvê-la por inteiro. A situação era de vera catástrofe, não havia estações de armazenamento para acolher tanta fruta, esgotou-se a capacidade nacional de produção de embalagens. Apoiado pela grape, exigi a intervenção do governo. E a resistência obstinada do ministro, a quem alguns jornais chegaram a imputar infames antipatriotismos, acabou por ser-lhe fatal às coronárias e à carreira política.

Mas não há fartura que em fome não venha a dar. No ano seguinte, chegou em maio uma tardia onda de geadas negras, e as belas promessas dos pomares foram-se murchando e acabaram mirradas. Reclamei do governo a declaração de calamidade, e consegui apoios de emergência que me pouparam à falência.

Mas ficara-me da fruta um sabor desconsolado, depois de ver como a geada perturbara o estado vegetativo dos pomares. Ainda fiz umas podas extraordinárias, umas empas de recurso, ainda apliquei umas caldas de aquecimento, mas nada valeu a pena. E eu era agora um empreendedor, volto a dizê-lo propositadamente, tinha que fazer opções sustentadas de investimento.

Foi assim que me entreguei à produção de leite. Apresentei os planos num instituto do ministério, e logo e logo vieram uns catrapilos a instalar a pastagem, quando nos estábulos se faziam já as últimas afinações dos equipamentos de automatização. Chegaram por fim umas dúzias de vacas frísias, que eram um consolo para a vista.

Foram dois anos que me deixaram saudades. Isto antes de os tipos de bruxelas reduzirem drasticamente o subsídio à produção, e antes de os galegos terem entrado no mercado, parecia a dada altura que o rio minho se fizera leite.

Foi por então que tive que vender a casa de férias no algarve, antes de entregar um projecto de reconversão à produção de carne, que me evitou males maiores. Em boa hora se foram as frísias e vieram as charolesas. Havia no ministério um fundo de apoio por cabeça, e os técnicos agrícolas vinham controlar os efectivos, volta não volta. Eu recebia-os pela manhã, na adega, com tinto e patanegra da amareleja, e a tarde passavam-na no terraço, embrenhados em observações de campo. Dava uma trabalheira transferir nessas noites o efectivo para a marquise, onde eu tinha montado um cenário de pastagens alpinas, a vistoriar no dia seguinte. Mas as contagens finais resultavam generosas, e foi graças a elas que a exploração floresceu.

Um dia fui ajeitar o penso às charolesas, e dei com elas a dançar a polca, cheias de cortesias. O veterinário fez-me o diagnóstico à mesa do café, as vacas tinham enlouquecido. Estalara a moda na inglaterra, quando os cientistas quiseram obrigá-las a comer os antepassados.

Caiu-me oqueixo de estupefação, e fiquei dois minutos a benzer-me. Mas o homem logo adiantou que estava criado um fundo para abate. E eu aproveitei-me dele para trocar o todo-o-terreno e abandonar o ciclo produtivo.

Por uns tempos ainda estive tentado a reconverter-me à floresta, usando um  fundo de modernização. Mas tenho-me limitado a ver arder as matas dos vizinhos.

sábado, 29 de janeiro de 2022

O Pavelca

Era eu ainda um ganapo quando o Pavelca apareceu na aldeia. Era um puto loiro, de estranhos olhos azuis, que vivia em casa do padre. Passado algum tempo já ele arranhava a nossa língua, já tomava parte nas nossas brincadeiras.

Um dia desapareceu, terá ido para a América, se ainda hoje por lá anda. E eu demorei muitos anos até perceber tudo.

Em 1956 houve uma bronca na terra dele, que era a Hungria. Os tipos de Moscovo entraram por ali dentro e impuseram as suas leis. Milhares de húngaros deram à sola, ou mandaram os filhos para local seguro. E o Pavelca, apenas um exemplo, veio parar à aldeia.

Tanto barulho para nada.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Manias

Fiquei algo pasmado quando o vi aparecer à primeira consulta, confesso que não reconheci nele o tipo de paciente que se dispõe a pagar o meu tempo. Era um homem na casa dos quarenta, e tinha um ar frágil e consumido. Vestia uma bata de sarja azul, dessas de operário, e trazia semeadas no cabelo desgrenhado aparas de madeira. Quando me disse que era carpinteiro tive as minhas dúvidas. Porque a profissão deixou-me esta costela de detective, e vi-lhe as mãos demasiado finas para afagos de enxó e de garlopa. Rocei de vagar a palma no queixo, e mandei-o deitar-se na marquesa.

Não foi preciso desbravá-lo muito, logo se pôs a relatar uma viagem ao egipto, há uns vinte e tal anos. Fora uma teimosia da mulher, boa tecedeira e cardadora de lãs, mas de um alevantado vezo que sempre lhe trouxera inquietações, como quem trouxesse na barriga um rei qualquer. Um dia ela apareceu a dizer que tinham de partir sem demora, era preciso poupar a criança à perseguição dos inocentes, para cumprir a voz do profeta e salvaguardar-lhe o desígnio transcendente.

Alugaram um solípede caríssimo, mas a viagem foi cheia de percalços e acabou por durar uma eternidade. Volta não volta ela dizia que era preciso calçar ao asno os cascos ao contrário, assim estava escrito, para confundir os perseguidores. O pobre do animal é que já não estava capaz de tais subtilezas, fez o que pôde para adequar o passo às profecias, mas as constantes mudanças de solias complicavam-lhe a andadura. Voltaram a casa os quatro sãos e salvos, depois de atravessarem o deserto, sabe deus como.

De resto, ele sempre olhara para este filho com algum desconforto, desde que a aparadeira confirmara a virgindade da mãe, na altura do parto. Mas os problemas com ele estavam só a começar. Desde cedo se mostrou um superdotado, atraía multidões com enigmáticas parábolas abrangentes, e ultimamente começara a constar que tinha poderes. Transformava a água em vinho, e matara a fome à multidão com meia dúzia de pães e um par de peixes do lago.

Eu não sou apostólico nem romano, e já vi muitos abismos do mundo. Não costumo perder as estribeiras com os relatos dos pacientes, mas não assim com este. Fiz logo entrar a equipa da camisa-de-forças, e mandei-o internar imediatamente. Imagino o que não seria, ter que repetir tudo outra vez.