Sou ateu racionalista, não padeço de crenças nem superstições, nem viajo em místicas transcendências de papel. A minha religião é beber chá, e alimentar o corpo mal acorda. É a minha missinha matinal, aqui numa mesquita privativa. Habita nela a minha divindade, e todo o sacrário dela é um alpendre. É um deus pagão chamado o Grande Foco, essa energia que move o universo e a Natureza dele a que eu pertenço.
Não me exige cruzadas sanguinárias, nem se alimenta de guerras fratricidas, nem vive de delírios doentios. Não quer saber de hecatombes nem oferendas, dispensa rituais e preces falsas. É um ancião muitíssimo antigo, um pagão urbano e tolerante, que não se esconde de ninguém atrás dum véu.
Dá-me o pão de que preciso, a saúde que me ensina a cultivar, e algum juízo que tiver à mão, nem sempre muito. Oferece-me o que dou de mim aos meus irmãos, na mesma exactíssima medida, o resto não é com ele. Que mais lhe pedirei?