quarta-feira, 29 de abril de 2026

Lolita

A adolescente pica a senha no visor e avança pela coxia. Tem um ar um tanto produzido e o visual gótico destoa. Veste de preto integral, e a mochila avantajada que tem pendurada às costas dificulta-lhe a manobra. Traz cuidada a flor da face, rigorosa, maquilhada. Quase brilha, na geral vulgaridade. Ocupa o lugar da frente, dentro da sua redoma, vê-se bem que vem trancada numa filosofia.

De peito afogado em véus, veste uma saia de bicos, por baixo duma nuvem de organdis. Traz muitos anéis nos dedos, talvez de aço, e símbolos esotéricos a pendular ao pescoço. Os traços negros que lhe ornamentam as pálpebras dão-lhe um toque de vampiro inofensivo.

Quando arrisco se já leu o Nabokov, diz que não gosta de ler. - E viste o filme?! - Qual filme?! Segue a escola japonesa que frequenta na Internet.

Cá fora vejo-a melhor. Tem pernas tortas, cambadas, e enviesa os pés para dentro. As Doc Martens são imitação chinesa.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Manhã

Em Longroiva há um castelo dos templários.

Há uma chaminé a fumegar.

Há um velho a atravessar a rua, arrimado num bordão.

Há tractores que transportam azeitona para um lagar.

Há umas termas sulfurosas, recém-remodeladas.

Há um solar muito baixinho, com um brasão da gesta gloriosa, adaptado a turismo. Um dia quis lá dormir mas fugi dele, com receio duma harpia, e das teias de aranha que lá havia.

Há os penhascos de xisto da Verdadinha, a desenhar as margens dum ribeiro.

E além em frente, no cimo da cumeada, dá consultas a bruxa da Relva, que trabalha com o doutor Sousa Martins.