quarta-feira, 25 de março de 2015

Donzílio

Já por cá não anda quem poderia esmiuçar razões. Mas razões houve que levaram o Donzílio a emigrar para o Brasil, alguns anos depois das guerras da Europa. 
Homem pacato e sem história maior (aparte um copo a mais se bem calhava), vivia aí com a mulher e dois filhos. E as faltas dele eram as mesmas faltas da miséria geral: aos ganapos matava-se a fome como se podia, as terras boas todas tinham dono, era racionado o açúcar na venda, o azeite um luxo de muito poucos, e umas botas custavam na feira aquilo que não havia. Mal talhado ele seria, mas era assim que o mundo estava feito. De formas que o Donzílio mandou vir duns parentes uma carta de chamada, embarcou num vapor à beira-Tejo, atravessou o mar e foi parar a Santos.
A princípio foi difícil, antes de o Donzílio entrar num convento da terceira ordem como irmão-leigo servente. O seu trabalho era tratar da chácara, assistir os pedidos de irmãos-frades e frequentar as liturgias da capela. O Donzílio tinha cama e tinha mesa, tinha um pequeno salário a horas caprichosas. E assim viveu trinta anos.
A mulher acolhera-se à parentela, submeteu-se ao destino, criou os filhos e até lhes deu uma escola. Até que um dia o Donzílio voltou, surpreendente conforme tinha partido. Mas agora era diferente, quem o quisesse encontrar era nas liturgias. De madrugada, à hora das matinas, o Donzílio acordava dos lençóis, ajoelhava a tiritar no sobrado e recitava salmos. A mulher, essa, dormia a sono solto.