O burgo tinha vida, nessa altura. Vida e gente. Tanta que havia uma livraria logo ali ao fundo da avenida.
Um dia o Fernando vendeu-me lá a Vigésima Quinta Hora, do Virgil Gheorghiu, e A Ponte Sobre o Drina. São dos livros mais antigos que comprei, numa caminhada que não parou mais.
Muitas vezes pergunto-me para quê, mas é velhice minha. E do burgo, onde só ficou a história e as pedras dela.
domingo, 9 de junho de 2019
quinta-feira, 6 de junho de 2019
O último maçarico-esquimó 9
3
Hora
após hora voou o maçarico num ritmo poderoso, rápido e regular. Os seus
batimentos de asa eram fluentes e leves. Principiavam por baixo do abdómen e
abriam-se largamente por cima do dorso. Cada batimento constituía uma
complicada sucessão de passos, harmoniosamente ajustados uns aos outros,
fundidos, numa fracção de segundo, num elegante movimento único. As asas
funcionavam numa combinação perfeita de superfície aerodinâmica e hélice
impulsora. O vento desempenhava diversas funções durante o voo.
O plano
da asa, junto ao corpo, cortava o ar como a superfície de um avião. Deste modo
criava-se pressão no intradorso da asa, daí resultando sustentação, exactamente
aquele impulso que possibilita o voo. No maçarico isso era conseguido apenas
através da forma aerodinâmica da asa. O batimento fornecia impulso, mas nada
tinha que ver com a sustentação no ar.
A
superfície exterior da asa era composta sobretudo por fortes rémiges
sobrepostas. Elas eram a hélice do sistema de propulsão da ave, e produziam a
corrente de ar que fornecia sustentação aos planos alares, junto ao corpo. Em
cada batimento, as rémiges executavam uma complicada sucessão de posições. Quando
a asa baixava, elas deviam mover-se deste modo: o bordo de ataque baixava e
subia o bordo de fuga, funcionando assim cada pena como pá de uma hélice, que
aspirava o ar e criava impulsão. Quando a asa subia, o ângulo de ataque das
rémiges tinha que ser ao contrário, assim se criando impulsão suplementar. A
superfície alar junto ao corpo produzia continuamente tanto impulso que não se
perdia altitude, mesmo quando a asa se movia para cima. A regulação perfeita
das penas era um reflexo que não podia ser conscientemente controlado, pois o
maçarico executava três ou quatro batimentos de asa por segundo, o que lhe
permitia uma velocidade de oitenta quilómetros por hora.
Ocasionalmente
o maçarico entrava no turbilhão provocado por uma ave que seguia adiante dele.
Com as suas asas ultra-sensíveis podia detectar mesmo tão insignificantes
vestígios. Por norma, uma leve alteração nas condições aerodinâmicas do voo era
o primeiro sinal de que se aproximava de um bando de aves. Quando deparava com
tais turbilhões, o maçarico aproveitava-se deles. Seguia-os, deixando-se
arrastar como uma asa pela coluna de ar horizontal. Assim mantinha a impulsão
correcta, e as asas podiam funcionar com um pouco menos de esforço.
Porém,
com excepção das tarambolas-douradas, nenhuma narceja era tão rápida como o
maçarico. E assim ele alcançava sempre os bandos que voavam na sua dianteira.
Primeiro ouvia os ténues gorjeios, através dos quais as aves comunicavam.
Depois o turbilhão tornava-se mais forte. E finalmente surgia o bando,
confundido com o cinzento do céu. O maçarico acompanhava-o durante algum tempo,
mas acabava por ultrapassá-lo, devido à sua maior velocidade. E continuava a
voar sozinho.
Nessa
noite aconteceu isso várias vezes, pois as camadas de ar por cima da tundra em
arrefecimento estavam agitadas, e a maioria dos bandos voava à mesma altitude,
um pouco acima dos níveis de turbulência. Pela manhã o maçarico deparou com uma
esteira mais larga, e adaptou o batimento de asa às novas condições de
impulsão. Voou assim durante longo tempo, e o turbilhão causado pelas pontas
das asas das aves que o precediam manteve-se inalterável. Desta vez não
alcançou o bando automaticamente. Ainda não era o tempo de migração dos patos e
dos gansos. Nesta altura, só duas espécies eram tão velozes que o maçarico as
não podia ultrapassar sem esforço. Tinham que ser tarambolas-douradas... ou
maçaricos-esquimós.
As
incansáveis asas bateram-lhe mais depressa. O ar comprimiu-se fortemente contra
o seu corpo aerodinâmico. O turbilhão do bando invisível foi-se tornando maior,
e era de facto mais forte do que todos os outros que encontrara nessa noite. A
sua impaciência cresceu. Uma leve esperança, meio reacção instintiva e meio
vago pensamento consciente, agitou-se-lhe no cérebro. Estava iminente o fim
desta interminável procura de companheiros da espécie? O maçarico aumentou a
velocidade, até lhe doerem os poderosos tendões do peito, um dos tecidos mais
fortes em todo o reino animal.
Aproximou-se
do bando. Na escuridão, só agora iam tomando forma as aves que o precediam,
primeiro vaga, depois mais claramente. Durante um bom minuto o maçarico apenas
pôde reconhecer a linha desvanecida da sua formação, mas agora via claramente
cada uma das aves. Só voadores fortes e rápidos, como os gansos, os maçaricos e
as tarambolas-douradas voavam assim, nesta formação em coluna, em diagonal ou
em cunha. Através dela, cada ave tirava partido do turbilhão da ponta da asa da
ave precedente, sem que fosse perturbada pela esteira de turbulência que ela
deixava atrás. E o maçarico sabia que os gansos ainda não voavam para Sul.
Ficou ainda mais impaciente, voou ainda mais depressa.
A
distância diminuiu rapidamente, e as aves que o precediam tomaram forma nítida.
Eram pequenas, muito mais pequenas do que ele. Mas agora já não sentia a
rejeição instintiva que o levara a não dar qualquer atenção aos maçaricos-norte-americanos
ou às narcejas. Continuava a sentir o mesmo impulso de se juntar a um bando.
Soltou um grito de chamamento discreto, responderam-lhe tarambolas-douradas.
Tratava-se
de um grupo de quarenta ou cinquenta aves, e o maçarico alinhou na parte de
trás da cunha. Reduziu a velocidade e anunciou a sua presença com uma série de
gorjeios rápidos. Todo o bando respondeu em uníssono com trinados fortes. O
ímpeto do maçarico ficou silenciado. No mais fundo de si agitava-se ainda um
indefinido sentimento de solidão, mas a partir de agora já não voava sozinho.
De entre
as mais de trinta espécies de narcejas que todos os outonos migram do Árctico
canadiano para o Sul, apenas a tarambola-dourada é um companheiro de viagem
adequado para o maçarico-esquimó. Ambos têm velocidades de voo semelhantes e
apreciam idêntico alimento. Mas há ainda outra razão mais importante. As
tarambolas e os maçaricos são voadores particularmente resistentes, e rejeitam
a rota terrestre sobre a América do Norte, que todas as outras aves de
arribação adoptam. Em vez disso dirigem-se para leste, até às costas rochosas
do Lavrador, da Terra Nova e da Nova Escócia, e daí voam directamente para Sul,
sobre o Atlântico. Vencem esta etapa de 4 mil quilómetros ou mais, num
esgotante voo de quarenta e oito horas sem escala. Não fazem qualquer paragem
até alcançarem terra, na costa norte da América do Sul.
(Cont.)
quarta-feira, 5 de junho de 2019
Epopeias
"Embarquei no Vera Cruz no dia 25 de Abril de 1970, sem imaginar quanto a guerra iria mudar a minha vida. Um desgraçado que andou a dar a vida pela pátria - diziam que aquilo era nosso - e como eu tantos camaradas , com tantas outras histórias.Há milhares de ex-combatentes que nem sabem como estão cá hoje. Como eu, que fui por duas vezes retirado em estado de coma para o hospital durante a guerra, tanto que ainda hoje não sei como saí vivo do ultramar. Foi um milagre.
O primeiro episódio aconteceu logo no início da comissão, devia ter passado pouco mais de um mês da nossa chegada. O desastre foi perto da barragem de Cahora Bassa. Foram dar comigo lá no meio do monte, no capim, dizem que parecia morto. Ouviram-se tiros dentro e fora da picada e foi tudo pelo ar, por causa das minas. (...)
Nesse primeiro rebentamento parti a clavícula, a cana do nariz, os dentes, o pé direito em dois ou três sítios; ainda tenho estilhaços na rótula do joelho esquerdo, já o direito parecem dois joelhos por causa duma queda que dei. Foi quando me atirei duma Berliet abaixo para me safar, porque tinham começado a chover tiros. Fiquei com a coluna num oito e ainda hoje me doem os joelhos e o pé.
Em Dezembro de 1970 apanhei malária cerebral e pela segunda vez fui retirado. Antes de atacarmos uma base fui encher o cantil num charco, tal era a sede. Estive internado seis meses, num quarto sozinho, com duas garrafas de soro, uma de cada lado.(...)
Regressei no dia 21 ou 22 de Maio de 1972, uma pessoa completamente diferente daquela que fui. Quando cheguei fui trabalhar para um hotel em Albufeira. Uma vez houve lá uma festa dos pescadores em que começaram a mandar tiros. Eu mandei-me logo para o chão, foi pratos, vidros, tudo pelo ar. Era a guerra ainda atrás de mim. (...)
O primeiro episódio aconteceu logo no início da comissão, devia ter passado pouco mais de um mês da nossa chegada. O desastre foi perto da barragem de Cahora Bassa. Foram dar comigo lá no meio do monte, no capim, dizem que parecia morto. Ouviram-se tiros dentro e fora da picada e foi tudo pelo ar, por causa das minas. (...)
Nesse primeiro rebentamento parti a clavícula, a cana do nariz, os dentes, o pé direito em dois ou três sítios; ainda tenho estilhaços na rótula do joelho esquerdo, já o direito parecem dois joelhos por causa duma queda que dei. Foi quando me atirei duma Berliet abaixo para me safar, porque tinham começado a chover tiros. Fiquei com a coluna num oito e ainda hoje me doem os joelhos e o pé.
Em Dezembro de 1970 apanhei malária cerebral e pela segunda vez fui retirado. Antes de atacarmos uma base fui encher o cantil num charco, tal era a sede. Estive internado seis meses, num quarto sozinho, com duas garrafas de soro, uma de cada lado.(...)
Regressei no dia 21 ou 22 de Maio de 1972, uma pessoa completamente diferente daquela que fui. Quando cheguei fui trabalhar para um hotel em Albufeira. Uma vez houve lá uma festa dos pescadores em que começaram a mandar tiros. Eu mandei-me logo para o chão, foi pratos, vidros, tudo pelo ar. Era a guerra ainda atrás de mim. (...)
segunda-feira, 3 de junho de 2019
O último maçarico-esquimó 8
Alguns dias mais tarde, a reserva perdera toda a excitação.
O maçarico-esquimó elevou-se no ar e voou um par de horas na direcção do Sul.
Quando sentiu fome poisou num terreno pantanoso, onde um rio desaguava num
grande lago. Vindas da tundra a caminho do Sul, chegavam em bando, como todos
os verões, as narcejas velhas e novas e os pequenos maçaricos-das-rochas.
Pilritos de longas pernas passavam sobre a margem do lago, em oscilantes
formações em V. Ele parou de comer e soltou um grito excitado. Este modo de
voar, estas formações, só podiam ser de maçaricos. Passavam em formação cerrada
e moviam-se tão exactamente como se todos eles formassem um corpo, como se um
único centro nervoso controlasse todo o bando. Mantinham as asas curvadas para
baixo e desciam para o solo em voo planado. O maçarico-esquimó correu ao seu
encontro. Mas, depois de algumas passadas, parou de repente e continuou a
comer, indiferente. Os outros eram maçaricos-norte-americanos, e ele
reconheceu-os pelos bicos mais curtos e pelas barrigas cor de cabedal.
Não
sabia que os recém-chegados, muito parecidos com ele, voavam mais lentamente, e
que, por isso mesmo, não eram companheiros de viagem adequados. Também
desconhecia que as narcejas jovens só um pouco mais tarde adquiriam força
suficiente para a longa viagem, e eram deixadas para trás pelos pais. No entanto
elas seguiam-nos instintivamente ao longo da perigosa rota de doze mil
quilómetros, que iam fazer pela primeira vez. Os modelos de comportamento,
fixados através dos genes de numerosas gerações, apenas diziam ao maçarico o
que ele tinha a fazer, sem lhe esclarecer os motivos. O seu comportamento não
era definido por decisões racionais, mas por reacções aos estímulos do
ambiente. De bom grado se teria juntado a um bando migratório. Mas os maçaricos-norte-americanos
não provocavam nenhuma reacção no seu cérebro, e por isso continuou a procurar
alimento, quase sem olhar para eles. Quando levantaram voo mal deu por isso. A
terra estava cheia de ruídos de asas em movimento, e o maçarico ficou de novo
só.
Durante
a tarde, o pântano ficou salpicado de narcejas que interromperam o voo e
esgaravatavam o lodo em busca de alimento. A maior parte mantinha-se agrupada
por espécies, e com a chegada do crepúsculo os bandos abalaram, um após outro.
Só o maçarico ficou. Os outros comunicavam por pequenos trinados, organizando
as suas formações na escuridão que se instalava. Por uns momentos rondavam a
mil metros por cima da tundra, até que rompiam para Sul. As narcejas viajam
sempre de noite. Digerem rapidamente, consomem muita energia, e durante o dia
têm que procurar alimento. Durante as migrações, o seu alto consumo de energia
só pode ser satisfeito através da exacta regulação do tempo de voo. Ele tem de
terminar logo que amanhece, mal as aves podem começar a alimentar-se.
Lá no
alto, por cima de si, o maçarico ouvia as fracas vozes ciciadas das aves que se
dirigiam do Árctico para outras paragens mais quentes. Nas margens dos charcos
começavam a formar-se cristais de gelo. O instinto do maçarico-esquimó
proibia-o de voar sozinho. Porém, quando lançou à noite fria um chamamento
estridente, ninguém respondeu. E era tempo de partir.
Elevou-se
na aragem, procurou encontrar o ângulo mais favorável, com o bordo de ataque
das asas levantado e o bordo de fuga descaído, até sentir finalmente a corrente
ascendente. Na família das galinholas, o maçarico dispunha das asas mais
adaptadas a um voo fácil e rápido; eram longas, estreitas, e graciosamente
terminadas em ponta. Mesmo quando ficava parado, de asas abertas, no vento
suave da noite, era transportado pela aragem como se não tivesse peso.
Lançava-se agilmente para o ar com o impulso das pernas, dava duas batidas de
asa para obter estabilidade de voo, e elevava-se quase sem esforço. Durante
mais de um minuto subiu na vertical, até que a tundra desapareceu lá em baixo,
no cinzento do crepúsculo. Depois manteve a altitude. A velocidade aumentou, e
ele voava com batidas mais leves e mais lentas. O ar sibilava à sua volta e
comprimia-lhe as penas contra o corpo. A viagem tinha começado. Mesmo o seu
cérebro primitivo e simples sentia vagamente que o caminho indefinido,
estendido diante de si por dois subcontinentes, era um corredor da morte. Nele
não havia misericórdia, apenas ameaças de tempestades, de inimigos, da própria
morte. No entanto, antes de a tundra inóspita mergulhar na névoa do horizonte,
o maçarico pressentiu levemente que o impulso nupcial havia de chamá-lo no
próximo ano. Na Primavera voltaria a esperar pela sua fêmea, quando os musgos e
os líquenes do Árctico ficassem verdes outra vez.
O CORREDOR
DA MORTE
domingo, 2 de junho de 2019
O último maçarico-esquimó 7
2
Os dias
quentes e as noites frescas passaram com a rapidez do vento, os montes de neve
desapareceram das depressões escuras do terreno, e as tonalidades cinzentas da
paisagem da tundra transformaram-se num flamejante tapete de flores amarelas e
rosadas. Mas a fêmea do maçarico não chegou. As narcejas juntaram-se às
centenas, lutaram por uma reserva, acasalaram, fizeram ninhos. Prepararam-se
para dar início a um novo ciclo de vida, objectivo pelo qual tinham voado dez
ou doze mil quilómetros. O maçarico lutou como um louco contra as tarambolas,
contra qualquer maçarico-das-rochas que atravessasse a fronteira da sua reserva,
até esta ficar salpicada das penas castanhas dos intrusos, que demasiado tarde fugiram
aos seus ataques. As hormonas do acasalamento, segregadas pelas glândulas,
acumulavam-se nele como uma carga explosiva.
Investiu
contra cada narceja que ousasse chegar-se a ele. Porém, o seu modelo instintivo
de comportamento não lhe permitiu ser hostil com as escrevedeiras, os
tentilhões e os lagópodes-brancos, que também povoavam a tundra. Estes não eram
biologicamente seus parentes próximos, nem lhe disputavam o alimento de que
necessitava para as crias, logo que a fêmea chegasse. Uma fêmea de galo branco
fizera o ninho a menos de cinco metros do lugar onde haveria de ficar o seu.
Mas o maçarico mal dera por isso, e passados alguns dias já tinha esquecido que
ele estava ali.
As
noites foram-se tornando maiores e mais escuras. As flores minúsculas e claras
da tundra deram lugar a sementes emplumadas, que pareciam tramas de seda. Muito
perto, um par excitado de tarambolas-douradas começou a gritar. A penugem negra
do papo e da barriga brilhava intensamente aos raios do sol matinal que
apareceu ao longe, no horizonte. Então elas começaram a voar em círculos,
rapidamente. O maçarico sabia que as crias já tinham saído da casca. Tinham
acabado de deixar o ninho, bem desenvolvidas desde o início, como todas as
narcejas. E agora corriam ali à volta, antes de secarem completamente as cascas
de ovo que as tinham protegido. O Verão polar ia chegando ao fim.
Várias
crias aveludadas corriam pela reserva do maçarico, atrás da mãe que lhes trazia
comida. Este lançou um assobio de aviso na sua direcção e investiu contra elas.
As crias gritaram pela mãe, e isso teve sobre ela mais efeito do que o medo de
uma ave estranha e muito maior. A fêmea não fugiu. Ficou parada e abriu as asas
protectoras sobre as minúsculas bolas de penas que piavam, agachadas no tapete
de musgo. O maçarico levantou voo e não voltou a atacá-las. Planou trinta
metros até um monte de rochas onde poisou, observou como ela alimentava os
filhos e esqueceu-os.
O ponto
alto do ciclo de actividade das glândulas acabava de ser ultrapassado. A
produção de hormonas era cada vez menor, e com ela desaparecia lentamente o
impulso de acasalamento e a agressividade. Em seu lugar veio uma outra
necessidade. Dantes era a defesa da reserva o primeiro mandamento, mesmo mais
importante do que a busca de alimento. Agora começava a sentir as primeiras
manifestações de impulso para o movimento que não se calava. Nenhuma fêmea
viera, e a reserva perdera significado.
De vez
em quando observava a tarambola-dourada, mas ela não se ia embora. Acabou por
deixar de se preocupar com ela e esqueceu-a. Durante um dia deambulou por ali.
Às vezes dava-se conta dos intrusos que lhe penetravam na reserva, mas logo os
esquecia. No dia seguinte outras narcejas chegaram à reserva. Chegavam e
partiam, e o maçarico não lhes ligava qualquer importância. Uma vez voou mesmo
um bom bocado pelo rio abaixo, e ficou longe durante um par de horas. Foi a
primeira vez que deixou a reserva, desde a sua chegada, há dois meses atrás.
À sua
volta as narcejas novas cresciam rapidamente. Os pais abandonavam-nas e elas
tinham que fazer pela vida. Era uma separação brusca e total. Pais e filhos
formavam, cada um, o seu bando migratório.
Chegou o
fim de Julho. O pântano fervilhava de insectos e crustáceos, que eram o
alimento das narcejas. Havia agora alimento em demasia, e faltavam ainda alguns
meses para ao inverno. Mas o Árctico já tinha cumprido o seu papel. E o Sul
chamava insistentemente, semanas a fio, antes que os bandos de facto se
pusessem a caminho. O maçarico, que durante todo o Verão lutara furiosamente
por ficar sozinho, ansiava agora por companhia. Isso nada tinha que ver com o
pensamento ou com a inteligência. Ele reagia simplesmente ao primitivo modelo
de comportamento da espécie, às alterações do ciclo fisiológico. Os dias eram
cada vez mais curtos, o sol cada vez mais fraco, e com isso reduzia-se também a
actividade da hipófise. As hormonas da hipófise estimulavam as gónadas a
derramar hormonas sexuais na corrente sanguínea. E agora, ao reduzir-se a
produção de hormonas, desaparecia o agressivo impulso de acasalamento,
substituído pelo instinto migratório. Era apenas um processo fisiológico. O
maçarico não tinha consciência de que o Inverno ia chegar ao Árctico, e de que
morreria à fome quem se alimentava de insectos e ali permanecesse. Ele conhecia
apenas a irresistível força que agora o obrigava a migrar.
Porém,
algures no seu cérebro rudimentar, esboçava-se um processo de pensamento
elementar. Por que razão estava sempre sozinho? Onde paravam as fêmeas que o
instinto lhe prometia em cada primavera, quando o fogo nupcial ardia em todas
as suas células? Nesta altura, as outras aves juntavam-se em bandos
migratórios. Mas por que motivo não havia, entre as miríades de narcejas e
outras espécies de maçaricos, nenhuma outra com a penugem castanha clara, que
ele prontamente reconheceria como irmã de casta?
(Continua)
quinta-feira, 30 de maio de 2019
O último maçarico-esquimó 6
O impulso nupcial do maçarico-esquimó transformou-se de
repente em fúria agressiva. A fêmea era uma intrusa, em vez de uma companheira.
De perto, ele reconheceu-lhe a penugem mais escura e a postura diferente.
Embora algo semelhante, era um maçarico da espécie norte-americana. Ele sabia,
por reacções instintivas, criadas pela natureza para evitar acasalamentos
estéreis entre espécies diversas, que não se tratava da fêmea que aguardava.
Afugentou-a durante um quilómetro, com uma fúria tão apaixonada como o seu amor
alguns segundos antes. Depois voltou à reserva e continuou à espera. A sua
fêmea chegaria em breve.
Duas
espécies de maçaricos nidificam na tundra árctica: o esquimó e o
norte-americano, que é mais abundante e um pouco maior. Na extensa família das
narcejas, dos maçaricos-das-rochas e das tarambolas, são eles que têm as pernas
e os bicos mais compridos. E, tratando-se embora de duas espécies diferentes,
dificilmente se distinguem pelo aspecto exterior.
O dia
árctico era longo. E, apesar da aragem fresca a correr sobre a tundra, a
atmosfera mantinha-se quente e húmida. O maçarico esgaravatou o solo pantanoso
em busca de alimento e regressou à guarda da reserva, observando atentamente o
horizonte plano. Pouco antes do meio-dia surgiu ao longe, do norte, um
búteo-calçado. Descreveu alguns círculos sobre o rio e atacou um pequeno roedor
descuidado que se aventurou no musgo. Aos poucos, o grande caçador aproximou-se
da reserva, e o maçarico observou-o, temeroso. Finalmente o búteo atravessou a
fronteira. Embora não marcada no solo, ela estava perfeitamente definida no
cérebro do maçarico. E logo este levantou voo e iniciou uma veloz perseguição.
As suas asas batiam fortemente. E quando ficou perto do intruso, cujo corpo era
dez vezes mais pesado, saiu-lhe da garganta um grito de aviso agudo e
estridente. Durante alguns segundos o búteo não deu qualquer atenção às ameaças.
Depois rodou para Norte e partiu sem luta. Teria podido matar o maçarico com um
simples golpe de garras. Mas só matava quando precisava de alimento, e voluntariamente
deixou o campo livre a uma ave que o fogo do acasalamento tornara tão
insensata.
O sol
pôs-se entretanto, mas a vista não se desvaneceu. E, como um véu, a noite
árctica desceu pela primeira vez sobre o maçarico. Em breve a tundra arrefeceu e
parou de repente o vento que uivara todo o dia. Seguiu-se uma penumbra, que não
era propriamente escuridão.
Por um
impulso instintivo que ele não entendia, o maçarico sentiu-se atraído para o
monte seco de rochas, na base do qual se achava o espesso tapete de musgo que
havia de abrigar o ninho. Este era o seu quinto verão e ele nunca tivera um
ninho, nem uma vez sequer avistara uma fêmea da sua espécie. Só vagamente se
lembrava do ninho e da mãe, no seu tempo de infância. Mas sabia, sem o ter
aprendido, como se corteja uma fêmea e como se faz um ninho, como se isso
viesse duma vida anteriormente vivida. Agora dormia, apoiado numa só perna e
com o bico escondido nas penas do dorso. Dormia ao lado das rochas. Em breve o
ninho estaria ali, era o que o instinto lhe dizia. Amanhã ou depois a fêmea
havia de chegar, pois o curto ciclo da vida no Árctico não permitia demoras.
O CORREDOR DA MORTE
SESSÕES FILOSÓFICAS
DA REAL SOCIEDADE
DE LONDRES
nas
quais se referem as actuais acções, estudos e obras de
investigadores,
em muitas e importantes partes do mundo.
Vol.
LXII do ano de 1772.
ARTIGO
XXIX
Relato
sobre aves, comunicado a partir da baía do Hudson. Contém observações sobre a
sua história natural, assim como descrições latinas de algumas das espécies
mais invulgares. Do sr. Reinhold Forster, membro da Real Sociedade.
Antes
da construção da manufactura da baía do Hudson, foi oferecida à Real Sociedade
uma grande colecção de invulgares quadrúpedes, aves, peixes, etc, incluindo um
catálogo dos seus nomes, locais de permanência, hábitos e modos de vida. Isto
através do sr. Graham, que pertence à colónia de Seven River. Os gerentes da
companhia da baía do Hudson forneceram as indicações mais corteses, por forma a
que estas notícias pudessem ser completadas de tempos a tempos.
(Uma
vez que todas as aves descritas pelo sr. Forster têm entrada, sob idêntica
designação, nos livros de ornitologia do sr. Latham, não se torna necessário
fornecer aqui as descrições latinas).
1.
Falco columbarius. Esmerilhão-comum. Ave de arribação.
2.
...
3.
...
18.
Espécie nova. Scolopax borealis. Maçarico-esquimó. Esta espécie de maçarico é
até hoje desconhecida dos ornitólogos, e é mencionada pela primeira vez na
Faunula Americae Septentrionalis, ou no catálogo da fauna norte-americana. Os
indígenas chamam-no “wee-kee-me-nase-su”. Procura alimento nos pântanos,
comendo vermes, larvas, minhocas, etc. Passa por Fort Albany em Abril ou no princípio
de Maio. Nidifica no Norte, regressa em Agosto, e migra para o Sul, em bandos
gigantescos, nos finais de Setembro.
quarta-feira, 29 de maio de 2019
O último maçarico-esquimó 5
O maçarico voou em círculos cada vez mais altos, e o seu
canto nupcial tornou-se mais repetitivo e urgente. Subitamente parou, e transformou-se
num grito febril. Lá longe, a montante do rio, mancha castanha no céu
acinzentado, voava uma outra ave em direcção ao Norte, e o maçarico
reconheceu-a como membro da espécie. Esperou, pairando sobre a reserva, em
círculos cada vez mais apertados, e a ave aproximou-se. A fêmea vinha aí. Os
três verões que o macho passara sozinho, esperando em vão, eram uma lembrança
vaga e desagradável. Mas agora ela desaparecera do seu cérebro, tão
poderosamente determinado por reacções instintivas que apenas restava um
pequeno espaço para a memória e a reflexão. O instinto dominava-o completamente,
ao elevar-se na espiral do voo nupcial, não já com as batidas de asa habituais
mas esvoaçando como uma borboleta. Chegado ao ponto mais alto deixou-se cair de
novo, silvou de encontro ao solo, recuperou baixo sobre a tundra e voltou a subir.
A outra
ave escutou-lhe o grito selvagem, mudou de direcção, veio velozmente ao seu
encontro. Obedecendo instintivamente às leis da reserva, que todas as aves
conhecem, a fêmea poisou numa rocha musgosa, situada um bom pedaço fora da
reserva do macho. Excitado, ele ardia em paixão. Numa sequência rápida efectuou
ainda várias danças, subiu no ar ruidosamente até desaparecer da vista, desceu
de novo em picada violenta, e de cada vez quase roçava o solo. Durante alguns
minutos a fêmea alisou as penas, indiferente, sem dar atenção a tais
demonstrações amorosas. Depois correu e voou sobre o terreno, alternando batidas
de asa com passadas febris. Entrou na reserva e agachou-se, submissa, ao chegar
perto do macho. Este soltou um assobio estridente e subiu na vertical para um
último voo, pairou lá no alto sobre ela, deixou-se cair como um meteoro e
poisou a cerca de dois metros de distância. Ficou parado por um momento, eriçou
as penas, esticou o pescoço e caminhou para ela. Porém, a cerca de um metro, estacou
subitamente. Emudeceram os sons meigos de ternura que até ali lhe saíam da
garganta, e em seu lugar ecoou uma rápida sequência de gritos de advertência. O
comportamento humilde e submisso da fêmea também se modificou. De súbito pôs-se
de pé e afastou-se. O macho já não a cortejava, baixou a cabeça como um galo de
combate e investiu contra ela. A fêmea desviou-se e atirou-se para o ar. Ele
seguiu-a, aos gritos, ameaçando-a com o bico repetidas vezes.
(Continua)
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