domingo, 9 de junho de 2019

Tempos

O burgo tinha vida, nessa altura. Vida e gente. Tanta que havia uma livraria logo ali ao fundo da avenida.
Um dia o Fernando vendeu-me lá a Vigésima Quinta Hora, do Virgil Gheorghiu, e A Ponte Sobre o Drina. São dos livros mais antigos que comprei, numa caminhada que não parou mais. 
Muitas vezes pergunto-me para quê, mas é velhice minha. E do burgo, onde só ficou a história e as pedras dela.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

O último maçarico-esquimó 9


3

            Hora após hora voou o maçarico num ritmo poderoso, rápido e regular. Os seus batimentos de asa eram fluentes e leves. Principiavam por baixo do abdómen e abriam-se largamente por cima do dorso. Cada batimento constituía uma complicada sucessão de passos, harmoniosamente ajustados uns aos outros, fundidos, numa fracção de segundo, num elegante movimento único. As asas funcionavam numa combinação perfeita de superfície aerodinâmica e hélice impulsora. O vento desempenhava diversas funções durante o voo.
            O plano da asa, junto ao corpo, cortava o ar como a superfície de um avião. Deste modo criava-se pressão no intradorso da asa, daí resultando sustentação, exactamente aquele impulso que possibilita o voo. No maçarico isso era conseguido apenas através da forma aerodinâmica da asa. O batimento fornecia impulso, mas nada tinha que ver com a sustentação no ar.
            A superfície exterior da asa era composta sobretudo por fortes rémiges sobrepostas. Elas eram a hélice do sistema de propulsão da ave, e produziam a corrente de ar que fornecia sustentação aos planos alares, junto ao corpo. Em cada batimento, as rémiges executavam uma complicada sucessão de posições. Quando a asa baixava, elas deviam mover-se deste modo: o bordo de ataque baixava e subia o bordo de fuga, funcionando assim cada pena como pá de uma hélice, que aspirava o ar e criava impulsão. Quando a asa subia, o ângulo de ataque das rémiges tinha que ser ao contrário, assim se criando impulsão suplementar. A superfície alar junto ao corpo produzia continuamente tanto impulso que não se perdia altitude, mesmo quando a asa se movia para cima. A regulação perfeita das penas era um reflexo que não podia ser conscientemente controlado, pois o maçarico executava três ou quatro batimentos de asa por segundo, o que lhe permitia uma velocidade de oitenta quilómetros por hora.
            Ocasionalmente o maçarico entrava no turbilhão provocado por uma ave que seguia adiante dele. Com as suas asas ultra-sensíveis podia detectar mesmo tão insignificantes vestígios. Por norma, uma leve alteração nas condições aerodinâmicas do voo era o primeiro sinal de que se aproximava de um bando de aves. Quando deparava com tais turbilhões, o maçarico aproveitava-se deles. Seguia-os, deixando-se arrastar como uma asa pela coluna de ar horizontal. Assim mantinha a impulsão correcta, e as asas podiam funcionar com um pouco menos de esforço.
            Porém, com excepção das tarambolas-douradas, nenhuma narceja era tão rápida como o maçarico. E assim ele alcançava sempre os bandos que voavam na sua dianteira. Primeiro ouvia os ténues gorjeios, através dos quais as aves comunicavam. Depois o turbilhão tornava-se mais forte. E finalmente surgia o bando, confundido com o cinzento do céu. O maçarico acompanhava-o durante algum tempo, mas acabava por ultrapassá-lo, devido à sua maior velocidade. E continuava a voar sozinho.
            Nessa noite aconteceu isso várias vezes, pois as camadas de ar por cima da tundra em arrefecimento estavam agitadas, e a maioria dos bandos voava à mesma altitude, um pouco acima dos níveis de turbulência. Pela manhã o maçarico deparou com uma esteira mais larga, e adaptou o batimento de asa às novas condições de impulsão. Voou assim durante longo tempo, e o turbilhão causado pelas pontas das asas das aves que o precediam manteve-se inalterável. Desta vez não alcançou o bando automaticamente. Ainda não era o tempo de migração dos patos e dos gansos. Nesta altura, só duas espécies eram tão velozes que o maçarico as não podia ultrapassar sem esforço. Tinham que ser tarambolas-douradas... ou maçaricos-esquimós.
            As incansáveis asas bateram-lhe mais depressa. O ar comprimiu-se fortemente contra o seu corpo aerodinâmico. O turbilhão do bando invisível foi-se tornando maior, e era de facto mais forte do que todos os outros que encontrara nessa noite. A sua impaciência cresceu. Uma leve esperança, meio reacção instintiva e meio vago pensamento consciente, agitou-se-lhe no cérebro. Estava iminente o fim desta interminável procura de companheiros da espécie? O maçarico aumentou a velocidade, até lhe doerem os poderosos tendões do peito, um dos tecidos mais fortes em todo o reino animal.
            Aproximou-se do bando. Na escuridão, só agora iam tomando forma as aves que o precediam, primeiro vaga, depois mais claramente. Durante um bom minuto o maçarico apenas pôde reconhecer a linha desvanecida da sua formação, mas agora via claramente cada uma das aves. Só voadores fortes e rápidos, como os gansos, os maçaricos e as tarambolas-douradas voavam assim, nesta formação em coluna, em diagonal ou em cunha. Através dela, cada ave tirava partido do turbilhão da ponta da asa da ave precedente, sem que fosse perturbada pela esteira de turbulência que ela deixava atrás. E o maçarico sabia que os gansos ainda não voavam para Sul. Ficou ainda mais impaciente, voou ainda mais depressa.
            A distância diminuiu rapidamente, e as aves que o precediam tomaram forma nítida. Eram pequenas, muito mais pequenas do que ele. Mas agora já não sentia a rejeição instintiva que o levara a não dar qualquer atenção aos maçaricos-norte-americanos ou às narcejas. Continuava a sentir o mesmo impulso de se juntar a um bando. Soltou um grito de chamamento discreto, responderam-lhe tarambolas-douradas.
            Tratava-se de um grupo de quarenta ou cinquenta aves, e o maçarico alinhou na parte de trás da cunha. Reduziu a velocidade e anunciou a sua presença com uma série de gorjeios rápidos. Todo o bando respondeu em uníssono com trinados fortes. O ímpeto do maçarico ficou silenciado. No mais fundo de si agitava-se ainda um indefinido sentimento de solidão, mas a partir de agora já não voava sozinho.

            De entre as mais de trinta espécies de narcejas que todos os outonos migram do Árctico canadiano para o Sul, apenas a tarambola-dourada é um companheiro de viagem adequado para o maçarico-esquimó. Ambos têm velocidades de voo semelhantes e apreciam idêntico alimento. Mas há ainda outra razão mais importante. As tarambolas e os maçaricos são voadores particularmente resistentes, e rejeitam a rota terrestre sobre a América do Norte, que todas as outras aves de arribação adoptam. Em vez disso dirigem-se para leste, até às costas rochosas do Lavrador, da Terra Nova e da Nova Escócia, e daí voam directamente para Sul, sobre o Atlântico. Vencem esta etapa de 4 mil quilómetros ou mais, num esgotante voo de quarenta e oito horas sem escala. Não fazem qualquer paragem até alcançarem terra, na costa norte da América do Sul.
(Cont.)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Epopeias

"Embarquei no Vera Cruz no dia 25 de Abril de 1970, sem imaginar quanto a guerra iria mudar a minha vida. Um desgraçado que andou a dar a vida pela pátria - diziam que aquilo era nosso - e como eu tantos camaradas , com tantas outras histórias.Há milhares de ex-combatentes que nem sabem como estão cá hoje. Como eu, que fui por duas vezes retirado em estado de coma para o hospital durante a guerra, tanto que ainda hoje não sei como saí vivo do ultramar. Foi um milagre.
O primeiro episódio aconteceu logo no início da comissão, devia ter passado pouco mais de um mês da nossa chegada. O desastre foi perto da barragem de Cahora Bassa. Foram dar comigo lá no meio do monte, no capim, dizem que parecia morto. Ouviram-se tiros dentro e fora da picada e foi tudo pelo ar, por causa das minas. (...)
Nesse primeiro rebentamento parti a clavícula, a cana do nariz, os dentes, o pé direito em dois ou três sítios; ainda tenho estilhaços na rótula do joelho esquerdo, já o direito parecem dois joelhos por causa duma queda que dei. Foi quando me atirei duma Berliet abaixo para me safar, porque tinham começado a chover tiros. Fiquei com a coluna num oito e ainda hoje me doem os joelhos e o pé.
Em Dezembro de 1970 apanhei malária cerebral e pela segunda vez fui retirado. Antes de atacarmos uma base fui encher o cantil num charco, tal era a sede. Estive internado seis meses, num quarto sozinho, com duas garrafas de soro, uma de cada lado.(...)
Regressei no dia 21 ou 22 de Maio de 1972, uma pessoa completamente diferente daquela que fui. Quando cheguei fui trabalhar para um hotel em Albufeira. Uma vez houve lá uma festa dos pescadores em que começaram a mandar tiros. Eu mandei-me logo para o chão, foi pratos, vidros, tudo pelo ar. Era a guerra ainda atrás de mim. (...)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O último maçarico-esquimó 8

Alguns dias mais tarde, a reserva perdera toda a excitação. O maçarico-esquimó elevou-se no ar e voou um par de horas na direcção do Sul. Quando sentiu fome poisou num terreno pantanoso, onde um rio desaguava num grande lago. Vindas da tundra a caminho do Sul, chegavam em bando, como todos os verões, as narcejas velhas e novas e os pequenos maçaricos-das-rochas. Pilritos de longas pernas passavam sobre a margem do lago, em oscilantes formações em V. Ele parou de comer e soltou um grito excitado. Este modo de voar, estas formações, só podiam ser de maçaricos. Passavam em formação cerrada e moviam-se tão exactamente como se todos eles formassem um corpo, como se um único centro nervoso controlasse todo o bando. Mantinham as asas curvadas para baixo e desciam para o solo em voo planado. O maçarico-esquimó correu ao seu encontro. Mas, depois de algumas passadas, parou de repente e continuou a comer, indiferente. Os outros eram maçaricos-norte-americanos, e ele reconheceu-os pelos bicos mais curtos e pelas barrigas cor de cabedal.
            Não sabia que os recém-chegados, muito parecidos com ele, voavam mais lentamente, e que, por isso mesmo, não eram companheiros de viagem adequados. Também desconhecia que as narcejas jovens só um pouco mais tarde adquiriam força suficiente para a longa viagem, e eram deixadas para trás pelos pais. No entanto elas seguiam-nos instintivamente ao longo da perigosa rota de doze mil quilómetros, que iam fazer pela primeira vez. Os modelos de comportamento, fixados através dos genes de numerosas gerações, apenas diziam ao maçarico o que ele tinha a fazer, sem lhe esclarecer os motivos. O seu comportamento não era definido por decisões racionais, mas por reacções aos estímulos do ambiente. De bom grado se teria juntado a um bando migratório. Mas os maçaricos-norte-americanos não provocavam nenhuma reacção no seu cérebro, e por isso continuou a procurar alimento, quase sem olhar para eles. Quando levantaram voo mal deu por isso. A terra estava cheia de ruídos de asas em movimento, e o maçarico ficou de novo só.
            Durante a tarde, o pântano ficou salpicado de narcejas que interromperam o voo e esgaravatavam o lodo em busca de alimento. A maior parte mantinha-se agrupada por espécies, e com a chegada do crepúsculo os bandos abalaram, um após outro. Só o maçarico ficou. Os outros comunicavam por pequenos trinados, organizando as suas formações na escuridão que se instalava. Por uns momentos rondavam a mil metros por cima da tundra, até que rompiam para Sul. As narcejas viajam sempre de noite. Digerem rapidamente, consomem muita energia, e durante o dia têm que procurar alimento. Durante as migrações, o seu alto consumo de energia só pode ser satisfeito através da exacta regulação do tempo de voo. Ele tem de terminar logo que amanhece, mal as aves podem começar a alimentar-se.
            Lá no alto, por cima de si, o maçarico ouvia as fracas vozes ciciadas das aves que se dirigiam do Árctico para outras paragens mais quentes. Nas margens dos charcos começavam a formar-se cristais de gelo. O instinto do maçarico-esquimó proibia-o de voar sozinho. Porém, quando lançou à noite fria um chamamento estridente, ninguém respondeu. E era tempo de partir.
            Elevou-se na aragem, procurou encontrar o ângulo mais favorável, com o bordo de ataque das asas levantado e o bordo de fuga descaído, até sentir finalmente a corrente ascendente. Na família das galinholas, o maçarico dispunha das asas mais adaptadas a um voo fácil e rápido; eram longas, estreitas, e graciosamente terminadas em ponta. Mesmo quando ficava parado, de asas abertas, no vento suave da noite, era transportado pela aragem como se não tivesse peso. Lançava-se agilmente para o ar com o impulso das pernas, dava duas batidas de asa para obter estabilidade de voo, e elevava-se quase sem esforço. Durante mais de um minuto subiu na vertical, até que a tundra desapareceu lá em baixo, no cinzento do crepúsculo. Depois manteve a altitude. A velocidade aumentou, e ele voava com batidas mais leves e mais lentas. O ar sibilava à sua volta e comprimia-lhe as penas contra o corpo. A viagem tinha começado. Mesmo o seu cérebro primitivo e simples sentia vagamente que o caminho indefinido, estendido diante de si por dois subcontinentes, era um corredor da morte. Nele não havia misericórdia, apenas ameaças de tempestades, de inimigos, da própria morte. No entanto, antes de a tundra inóspita mergulhar na névoa do horizonte, o maçarico pressentiu levemente que o impulso nupcial havia de chamá-lo no próximo ano. Na Primavera voltaria a esperar pela sua fêmea, quando os musgos e os líquenes do Árctico ficassem verdes outra vez.

                                               O  CORREDOR  DA  MORTE

            ... Apontamentos de Lucien McShan Turner, até agora não publicados, sobre as aves da baía de Ungava... Não vi nenhum maçarico-esquimó, até à manhã do dia 4 de Setembro de 1884, quando regressávamos da foz do rio Koksoak. Um bando enorme, de várias centenas de exemplares, voava em direcção ao Sul...

domingo, 2 de junho de 2019

O último maçarico-esquimó 7


2

            Os dias quentes e as noites frescas passaram com a rapidez do vento, os montes de neve desapareceram das depressões escuras do terreno, e as tonalidades cinzentas da paisagem da tundra transformaram-se num flamejante tapete de flores amarelas e rosadas. Mas a fêmea do maçarico não chegou. As narcejas juntaram-se às centenas, lutaram por uma reserva, acasalaram, fizeram ninhos. Prepararam-se para dar início a um novo ciclo de vida, objectivo pelo qual tinham voado dez ou doze mil quilómetros. O maçarico lutou como um louco contra as tarambolas, contra qualquer maçarico-das-rochas que atravessasse a fronteira da sua reserva, até esta ficar salpicada das penas castanhas dos intrusos, que demasiado tarde fugiram aos seus ataques. As hormonas do acasalamento, segregadas pelas glândulas, acumulavam-se nele como uma carga explosiva.
            Investiu contra cada narceja que ousasse chegar-se a ele. Porém, o seu modelo instintivo de comportamento não lhe permitiu ser hostil com as escrevedeiras, os tentilhões e os lagópodes-brancos, que também povoavam a tundra. Estes não eram biologicamente seus parentes próximos, nem lhe disputavam o alimento de que necessitava para as crias, logo que a fêmea chegasse. Uma fêmea de galo branco fizera o ninho a menos de cinco metros do lugar onde haveria de ficar o seu. Mas o maçarico mal dera por isso, e passados alguns dias já tinha esquecido que ele estava ali.
            As noites foram-se tornando maiores e mais escuras. As flores minúsculas e claras da tundra deram lugar a sementes emplumadas, que pareciam tramas de seda. Muito perto, um par excitado de tarambolas-douradas começou a gritar. A penugem negra do papo e da barriga brilhava intensamente aos raios do sol matinal que apareceu ao longe, no horizonte. Então elas começaram a voar em círculos, rapidamente. O maçarico sabia que as crias já tinham saído da casca. Tinham acabado de deixar o ninho, bem desenvolvidas desde o início, como todas as narcejas. E agora corriam ali à volta, antes de secarem completamente as cascas de ovo que as tinham protegido. O Verão polar ia chegando ao fim.
            Várias crias aveludadas corriam pela reserva do maçarico, atrás da mãe que lhes trazia comida. Este lançou um assobio de aviso na sua direcção e investiu contra elas. As crias gritaram pela mãe, e isso teve sobre ela mais efeito do que o medo de uma ave estranha e muito maior. A fêmea não fugiu. Ficou parada e abriu as asas protectoras sobre as minúsculas bolas de penas que piavam, agachadas no tapete de musgo. O maçarico levantou voo e não voltou a atacá-las. Planou trinta metros até um monte de rochas onde poisou, observou como ela alimentava os filhos e esqueceu-os.
            O ponto alto do ciclo de actividade das glândulas acabava de ser ultrapassado. A produção de hormonas era cada vez menor, e com ela desaparecia lentamente o impulso de acasalamento e a agressividade. Em seu lugar veio uma outra necessidade. Dantes era a defesa da reserva o primeiro mandamento, mesmo mais importante do que a busca de alimento. Agora começava a sentir as primeiras manifestações de impulso para o movimento que não se calava. Nenhuma fêmea viera, e a reserva perdera significado.
            De vez em quando observava a tarambola-dourada, mas ela não se ia embora. Acabou por deixar de se preocupar com ela e esqueceu-a. Durante um dia deambulou por ali. Às vezes dava-se conta dos intrusos que lhe penetravam na reserva, mas logo os esquecia. No dia seguinte outras narcejas chegaram à reserva. Chegavam e partiam, e o maçarico não lhes ligava qualquer importância. Uma vez voou mesmo um bom bocado pelo rio abaixo, e ficou longe durante um par de horas. Foi a primeira vez que deixou a reserva, desde a sua chegada, há dois meses atrás.
            À sua volta as narcejas novas cresciam rapidamente. Os pais abandonavam-nas e elas tinham que fazer pela vida. Era uma separação brusca e total. Pais e filhos formavam, cada um, o seu bando migratório.
            Chegou o fim de Julho. O pântano fervilhava de insectos e crustáceos, que eram o alimento das narcejas. Havia agora alimento em demasia, e faltavam ainda alguns meses para ao inverno. Mas o Árctico já tinha cumprido o seu papel. E o Sul chamava insistentemente, semanas a fio, antes que os bandos de facto se pusessem a caminho. O maçarico, que durante todo o Verão lutara furiosamente por ficar sozinho, ansiava agora por companhia. Isso nada tinha que ver com o pensamento ou com a inteligência. Ele reagia simplesmente ao primitivo modelo de comportamento da espécie, às alterações do ciclo fisiológico. Os dias eram cada vez mais curtos, o sol cada vez mais fraco, e com isso reduzia-se também a actividade da hipófise. As hormonas da hipófise estimulavam as gónadas a derramar hormonas sexuais na corrente sanguínea. E agora, ao reduzir-se a produção de hormonas, desaparecia o agressivo impulso de acasalamento, substituído pelo instinto migratório. Era apenas um processo fisiológico. O maçarico não tinha consciência de que o Inverno ia chegar ao Árctico, e de que morreria à fome quem se alimentava de insectos e ali permanecesse. Ele conhecia apenas a irresistível força que agora o obrigava a migrar.
            Porém, algures no seu cérebro rudimentar, esboçava-se um processo de pensamento elementar. Por que razão estava sempre sozinho? Onde paravam as fêmeas que o instinto lhe prometia em cada primavera, quando o fogo nupcial ardia em todas as suas células? Nesta altura, as outras aves juntavam-se em bandos migratórios. Mas por que motivo não havia, entre as miríades de narcejas e outras espécies de maçaricos, nenhuma outra com a penugem castanha clara, que ele prontamente reconheceria como irmã de casta?
(Continua)

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O último maçarico-esquimó 6


O impulso nupcial do maçarico-esquimó transformou-se de repente em fúria agressiva. A fêmea era uma intrusa, em vez de uma companheira. De perto, ele reconheceu-lhe a penugem mais escura e a postura diferente. Embora algo semelhante, era um maçarico da espécie norte-americana. Ele sabia, por reacções instintivas, criadas pela natureza para evitar acasalamentos estéreis entre espécies diversas, que não se tratava da fêmea que aguardava. Afugentou-a durante um quilómetro, com uma fúria tão apaixonada como o seu amor alguns segundos antes. Depois voltou à reserva e continuou à espera. A sua fêmea chegaria em breve.
  
            Duas espécies de maçaricos nidificam na tundra árctica: o esquimó e o norte-americano, que é mais abundante e um pouco maior. Na extensa família das narcejas, dos maçaricos-das-rochas e das tarambolas, são eles que têm as pernas e os bicos mais compridos. E, tratando-se embora de duas espécies diferentes, dificilmente se distinguem pelo aspecto exterior.
            O dia árctico era longo. E, apesar da aragem fresca a correr sobre a tundra, a atmosfera mantinha-se quente e húmida. O maçarico esgaravatou o solo pantanoso em busca de alimento e regressou à guarda da reserva, observando atentamente o horizonte plano. Pouco antes do meio-dia surgiu ao longe, do norte, um búteo-calçado. Descreveu alguns círculos sobre o rio e atacou um pequeno roedor descuidado que se aventurou no musgo. Aos poucos, o grande caçador aproximou-se da reserva, e o maçarico observou-o, temeroso. Finalmente o búteo atravessou a fronteira. Embora não marcada no solo, ela estava perfeitamente definida no cérebro do maçarico. E logo este levantou voo e iniciou uma veloz perseguição. As suas asas batiam fortemente. E quando ficou perto do intruso, cujo corpo era dez vezes mais pesado, saiu-lhe da garganta um grito de aviso agudo e estridente. Durante alguns segundos o búteo não deu qualquer atenção às ameaças. Depois rodou para Norte e partiu sem luta. Teria podido matar o maçarico com um simples golpe de garras. Mas só matava quando precisava de alimento, e voluntariamente deixou o campo livre a uma ave que o fogo do acasalamento tornara tão insensata.
            O sol pôs-se entretanto, mas a vista não se desvaneceu. E, como um véu, a noite árctica desceu pela primeira vez sobre o maçarico. Em breve a tundra arrefeceu e parou de repente o vento que uivara todo o dia. Seguiu-se uma penumbra, que não era propriamente escuridão.
            Por um impulso instintivo que ele não entendia, o maçarico sentiu-se atraído para o monte seco de rochas, na base do qual se achava o espesso tapete de musgo que havia de abrigar o ninho. Este era o seu quinto verão e ele nunca tivera um ninho, nem uma vez sequer avistara uma fêmea da sua espécie. Só vagamente se lembrava do ninho e da mãe, no seu tempo de infância. Mas sabia, sem o ter aprendido, como se corteja uma fêmea e como se faz um ninho, como se isso viesse duma vida anteriormente vivida. Agora dormia, apoiado numa só perna e com o bico escondido nas penas do dorso. Dormia ao lado das rochas. Em breve o ninho estaria ali, era o que o instinto lhe dizia. Amanhã ou depois a fêmea havia de chegar, pois o curto ciclo da vida no Árctico não permitia demoras.

  
                                               O  CORREDOR DA MORTE

            SESSÕES  FILOSÓFICAS  DA  REAL  SOCIEDADE  DE  LONDRES
            nas quais se referem as actuais acções, estudos e obras de
            investigadores, em muitas e importantes partes do mundo.
            Vol. LXII do ano de 1772.

            ARTIGO XXIX
            Relato sobre aves, comunicado a partir da baía do Hudson. Contém observações sobre a sua história natural, assim como descrições latinas de algumas das espécies mais invulgares. Do sr. Reinhold Forster, membro da Real Sociedade.
            Antes da construção da manufactura da baía do Hudson, foi oferecida à Real Sociedade uma grande colecção de invulgares quadrúpedes, aves, peixes, etc, incluindo um catálogo dos seus nomes, locais de permanência, hábitos e modos de vida. Isto através do sr. Graham, que pertence à colónia de Seven River. Os gerentes da companhia da baía do Hudson forneceram as indicações mais corteses, por forma a que estas notícias pudessem ser completadas de tempos a tempos.
            (Uma vez que todas as aves descritas pelo sr. Forster têm entrada, sob idêntica designação, nos livros de ornitologia do sr. Latham, não se torna necessário fornecer aqui as descrições latinas).
            1. Falco columbarius. Esmerilhão-comum. Ave de arribação. 
            2. ...
            3. ...
            18. Espécie nova. Scolopax borealis. Maçarico-esquimó. Esta espécie de maçarico é até hoje desconhecida dos ornitólogos, e é mencionada pela primeira vez na Faunula Americae Septentrionalis, ou no catálogo da fauna norte-americana. Os indígenas chamam-no “wee-kee-me-nase-su”. Procura alimento nos pântanos, comendo vermes, larvas, minhocas, etc. Passa por Fort Albany em Abril ou no princípio de Maio. Nidifica no Norte, regressa em Agosto, e migra para o Sul, em bandos gigantescos, nos finais de Setembro.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O último maçarico-esquimó 5


O maçarico voou em círculos cada vez mais altos, e o seu canto nupcial tornou-se mais repetitivo e urgente. Subitamente parou, e transformou-se num grito febril. Lá longe, a montante do rio, mancha castanha no céu acinzentado, voava uma outra ave em direcção ao Norte, e o maçarico reconheceu-a como membro da espécie. Esperou, pairando sobre a reserva, em círculos cada vez mais apertados, e a ave aproximou-se. A fêmea vinha aí. Os três verões que o macho passara sozinho, esperando em vão, eram uma lembrança vaga e desagradável. Mas agora ela desaparecera do seu cérebro, tão poderosamente determinado por reacções instintivas que apenas restava um pequeno espaço para a memória e a reflexão. O instinto dominava-o completamente, ao elevar-se na espiral do voo nupcial, não já com as batidas de asa habituais mas esvoaçando como uma borboleta. Chegado ao ponto mais alto deixou-se cair de novo, silvou de encontro ao solo, recuperou baixo sobre a tundra e voltou a subir.
            A outra ave escutou-lhe o grito selvagem, mudou de direcção, veio velozmente ao seu encontro. Obedecendo instintivamente às leis da reserva, que todas as aves conhecem, a fêmea poisou numa rocha musgosa, situada um bom pedaço fora da reserva do macho. Excitado, ele ardia em paixão. Numa sequência rápida efectuou ainda várias danças, subiu no ar ruidosamente até desaparecer da vista, desceu de novo em picada violenta, e de cada vez quase roçava o solo. Durante alguns minutos a fêmea alisou as penas, indiferente, sem dar atenção a tais demonstrações amorosas. Depois correu e voou sobre o terreno, alternando batidas de asa com passadas febris. Entrou na reserva e agachou-se, submissa, ao chegar perto do macho. Este soltou um assobio estridente e subiu na vertical para um último voo, pairou lá no alto sobre ela, deixou-se cair como um meteoro e poisou a cerca de dois metros de distância. Ficou parado por um momento, eriçou as penas, esticou o pescoço e caminhou para ela. Porém, a cerca de um metro, estacou subitamente. Emudeceram os sons meigos de ternura que até ali lhe saíam da garganta, e em seu lugar ecoou uma rápida sequência de gritos de advertência. O comportamento humilde e submisso da fêmea também se modificou. De súbito pôs-se de pé e afastou-se. O macho já não a cortejava, baixou a cabeça como um galo de combate e investiu contra ela. A fêmea desviou-se e atirou-se para o ar. Ele seguiu-a, aos gritos, ameaçando-a com o bico repetidas vezes.
(Continua)