sábado, 15 de agosto de 2026

Aparição

Nesse tempo viviam em Angola cinquenta portugueses. Nada como hoje,que serão duzentosmil. E o rio Gabriel era um leito de areias a descer do planalto, à procura do mar: um promontório ao longe, uma enseada amena, uma praia circular ao fundo da falésia, que mergulhava a pique.

Varadas à beira de água meia dúzia de canoas, em que os moleques do Mário Cambuta arrancavam aos fundos cardumes de lagostas. Serviam-nas grelhadas à hora do almoço, àsombra duns tabiques de folhas de palmeira.

Quano acabava a jornada e trabalho, eu descia sem demora o areão do rio a cavalo no Toyota e só parava na foz. Estendia-me em pelota numas rochas, olhava o promontório escuro ao longe e lia.E foi assim que li à desfilada os oito mil oitocentos e dezasseis versos dOs Lusíadas, e pela mão do Dante visitei os círculos todos da Divina Comédia.

Aconteciam às vezes chuvadas diluvianas, e o rio Gabriel era vê-lo a correr. Arrastava encosta abaixo toneladas de areiaque despejava no mar. Depois vinha a maré, lambia a praia, aplainava aquilo tudo.

O chão era movediço e um dia o milagre aconteceu. Ao chegar à foz do rio, dei com o vulto duma Vénus de pedra estendida no areal. Era só um torso dela, mas o que não se via nãofazia falta: um ombro reclinado, um ventre misterioso, o flanco duma anca, duas coxas apartadas, o talvegue dum abismo, e dois joelhos que a areia já escondia... A maré deixara a descoberto aquela aparição.

Semanas e semanas voltei eu, à procura da Vénus, no final do dia. Mas a maré avara nunca mais ma desvendou.