quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dona Elvira

Não sei onde é que ele foi buscar o vezo de fura-bolos. Mas tinha-o. Nem sei onde é que foi desencantar o apelido de Guinemer.
Um dia previu a falência dos moleiros milenares, que usavam a mó alveira para fazer farinha. E construiu a moagem, movida a gasóleo, para a farinha não faltar. Depois a farinha começou a vir de longe, em sacos, e ele foi para a África.
Dona Elvira estava casada com ele, e todos os dias subia a ladeira da Sobreposta para ir dar escola a Casteição. Ao fim da tarde descia e regressava a casa.
Quando o Guinemer partiu para a África, foi com ele. Até se saber mais tarde que acabou debaixo dum tractor, que um preto fez empinar e cambulhou.
A Dona Elvira só voltou na ponte aérea de 75, uma coisa que nunca aceitou bem.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Curtos

Outono

Caem as folhas. Devagar. Aplicadas. Mas isso nem é o pior. Caem, também, os livros dos amigos na caixa do correio.
Trazem um abraço, às vezes beijos, e mesmo algum (sim, nunca fiando) protesto de amizade. Depois, pelas entrelinhas (falo ainda da dedicatória), a lembrança de quão agradável leitor vou ser.
Gosto do Outono. Mas não assim. Para ler os amigos, roubo no cinema, roubo no sono, roubo na preguiça. Chego à Primavera lido mas definhado. Houve momentos de suave aperto, de doce amargura. Mas pouco ri, muito pouco, não é mal lembrá-lo.
Os amigos não têm piedade. E, hão-de ver, para o ano voltarão, os sacanas, como se nada tivessem conseguido.
Fernando Venâncio

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em boa hora

Há muitos anos, no Porto, fiz trabalho voluntário no armazém do Banco Alimentar, ali a Perafita. Ainda acreditava em gambozinos, pus-me a jeito.
O armazém recebia camiões de latas (tomate, frutas e leguminosas) que chegavam de Alcobaça. E sempre que uma lata era maltratada na cadeia de enchimento, acabava rejeitada.
A empresa disponibilizava todo esse material, que lhe aligeirava os impostos. Por isso o levavam a Perafita.
Logo à entrada do grande portão do hangar havia o Tarrafal. Era um espaço murado de alta rede, onde iam parar estes e outros donativos. Que só eram postos à disposição das instituições consumidoras quando eram libertados pelo responsável do Tarrafal.
Encostadas à altíssima parede, empilhavam-se paletes de embalagens que aguardavam a triagem. Mas numa manhã, um dia...
Não sei donde me chegou a inspiração. Parei o trabalho, saí do Tarrafal, e fui ter com a máquina de café que estava lá ao fundo, num desvão.
A certa altura ouviu-se um terramoto, um sobressalto, o que foi, o que não foi... Era uma rima de paletes de 500 kgs que tinha desabado, mesmo no sítio em que eu estava a trabalhar.
Olhei para aquilo, falei com o Vasco António, e nunca mais entrei no Tarrafal. Ofereci-me como leitor, na sonora de São Lázaro. Em boa hora!

domingo, 23 de julho de 2017

O quê?

Se não existisse música e pintura e poesia, a arte para que servia?
O que é que um homem fazia?

quinta-feira, 20 de julho de 2017

País?! O caralho! Uma seita!!!

Toda a gente sabe o que nunca foi segredo: o PPD estaria hoje a dormir sossegado nos braços do fascismo, se a história lhe não tivesse caído, de escantilhão, no colo.
Mas caiu. E o PPD adaptou-se, ajustou-se, aggiornou-se, sempre à medida das necessidades. Veja-se o caso de Manuel Pinto.
Chegou a ter previsto o Finalmente Hotel, no terreiro das freiras de Trancoso. Mas os fundos para construir o hotel foram parar a outro lado, e o Pinto desistiu. Chamou o Cavaco e abriu o lar dos velhos no Reboleiro.
Agora rebenta a bronca: o genro dele, advogado mestre de vigaristas, fingiu a morte num acidente de jeep, fingiu uma cremação inexistente e fugiu para o Brasil. O que vem a seguir está na telenovela em marcha. Basta ir vendo os média da corda, porque nem é preciso  imaginação.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Lições dos bichos

Um adulto na Polónia

As cegonhas brancas de S. Pedro já partiram: a da torre sineira, a dos freixos altos, todas. Comeram os sapos-conchos que havia nas redondezas, deram carta de alforria aos filhos e lá foram. Até ao ano que vem.
Os casais são irrepreensivelmente fiéis, uma vez acasalados nunca mais se separam.
Contava-se mesmo o caso, numa aldeia lá para a Europa de Leste, em que uma fêmea se feriu numa asa, impedindo-a de voar. Quando lhes chegou o tempo, o macho partiu e a fêmea ficou na aldeia.
Os camponeses protegeram-na durante o longo inverno, e ela esperou até que o macho voltasse. Fizeram criação e ele voltou a partir. E ela voltou a ficar.
Por certo hoje já nenhum deles existe. Ficou a lenda, o exemplo, a edificação.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Máquina de fazer espanhóis

Vou à estação de comboios esperar alguém que chega. E lá acaba por chegar, com uma hora e tal de atraso. Volto a casa a altas horas.
A solução aqui é tornar-nos espanhóis. Basta perguntar ao Hugo-Mãe como é que funciona a máquina de os fazer. Porque isto assim não é vida que chegue a netos!