domingo, 26 de maio de 2019

Andaduras de santa

O foguetório da alvorada às oito da manhã é que me lembrou da santa da Vila Maior, além no monte. Hoje é o último domingo de Maio, que sempre foi o dia da romaria. 
Vivia a santantoninha à sombrinha da capela, no termo de Casteição, a sua terra. Até que, numa noite, uns hereges dos Gatos passaram lá e roubaram-na. E foram escondê-la num campo de centeio, fiados na grande força do esquecimento. 
Só que um pastor assistiu à marosca e deu com a língua nos dentes. E os de Casteição foram lá recuperá-la e guardaram-na na igreja. Na capelinha puseram uma santa nova.
Mas havia um problema de maior: a santa nova não tinha a mesma virtude, nem dava chuva quando lha pediam, tal como fazia a santa velha.
Mas a crença dos romeiros faz milagres. No último domingo de Maio acorrem todos, enfeitam o andor, pregam notas no vestido da santa, e levam-na a passear. A procissão é pequena, é uma volta ali ao penhasco do castro antigo. No fim arrematam as oferendas, bebem uns copos, contam umas larachas, e até a santa fica sossegada. Um dia a chuva há-de vir.

terça-feira, 14 de maio de 2019

O último maçarico-esquimó 2


1

            Em Junho a noite do Árctico é muito curta, pouco mais que um intermezzo de penumbra. Durante os longos dias, nuvens de mosquitos enxameiam das valas profundas, como cortinas de fumo, sob o degelo da tundra.
            Antigamente, nesta época do ano, as populações esquimós aguardavam aqui o doce, fremente e longo trinado dos maçaricos-esquimós. Eles regressavam ao Árctico em grande número, trazendo consigo a perspectiva de carne tenra. Mas os grandes bandos já não aparecem. A própria lembrança deles se perdeu, ficando apenas a lenda. Pois o maçarico-esquimó, primitivamente uma das mais abundantes aves de caça da América do Norte, deixava atrás de si, na Primavera e no Outono, um verdadeiro corredor da morte. Voavam tiros de todos os lados, e ele foi demasiado lento a aprender o que era essencial à sobrevivência: o medo, diante da espingarda do caçador.
            É verdade que a espécie se manteve, mas encontra-se em perigo extremo de extinção. Tal como antes, os poucos maçaricos-esquimós que ainda existem continuam a fazer a sua longa e perigosa migração, desde a Patagónia argentina onde passam o Inverno, até às planuras húmidas da tundra que descem para o mar polar. Aqui procuram a sua fêmea. Mas o Árctico é imenso, e, as mais das vezes, a sua busca é vã. Agora voam sozinhos, os últimos representantes de uma espécie moribunda.


            Quando clareou a penumbra da noite sobre o Árctico e mais um dia de Junho começou, primeiro com um vermelho pálido e depois um amarelo vivo, o maçarico reconheceu finalmente, mil metros lá em baixo, a familiar curva do rio debruada de gelo. Nessa noite voara oitocentos quilómetros através da tundra plana e uniforme, sobre muitas curvas de rios que podiam confundir-se com esta. Sentia-se esgotado mas sabia que só agora estava em casa. Tinha as pontas castanhas das rémiges e das tectrizes em desalinho, após uma viagem migratória que começara abaixo dos trópicos e terminara sobre estas planuras escalvadas, num voo ininterrupto. O instinto do acasalamento rugia nele.
            O maçarico abriu as asas e deixou-se cair em glissagens laterais. Pedaços de gelo rosados, a flutuar no rio acastanhado, aproximavam-se vertiginosamente. Então interrompeu a picada e desceu em voo planado até ao chão. Pousou na margem lamacenta dum charco de esmalte, um pouco afastado do rio.
            Os maçaricos chegam aqui em Junho, desde há milénios, para defender a reserva e os seus locais de nidificação. Na tundra desolada aguardam febrilmente as fêmeas, esperando que elas procurem aqui um companheiro para este ano. E, durante o tempo de espera, mal conseguem aliviar o instinto de acasalamento nas lutas com os vizinhos, pela defesa da reserva que escolheram.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O último maçarico-esquimó


FRED BODSWORTH
Nasceu em 1918, em Port Burwell, no Canadá. Vem da infância o seu apego à natureza, sobretudo ao mundo das aves. Trabalhou em rebocadores e em plantações de tabaco, fez longas viagens até às fronteiras da civilização, colaborou em jornais canadianos, e mais tarde foi membro da redacção do “Maclean’s Magazine” de Toronto. Tornou-se um conceituado biólogo e escritor. Publicou, entre outros, a novela O último maçarico-esquimó (1954), os romances O estranho de Barra (1960), A expiação de Ashley Morden (1964), Correi, pés, correi! (1967) e o estudo científico-natural A costa do Pacífico (1970).
                                                          


            Viaja sem descanso, do Árctico para Sul, levado pelo desejo de encontrar uma companheira. Luta encarniçadamente com o frio e a neve, com a chuva e os temporais, vence o Atlântico num voo ininterrupto de 60 horas, recobra novas forças no Orinoco e avança, procurando sempre, até à Patagónia.
            Mas o verão passa e ele continua sozinho. E, quando a esperança já quase lhe morreu, aparece a desejada. Saúdam-se, entusiasmados, e iniciam juntos o regresso a casa.
            O caminho passa agora sobre as alturas dos Andes, através de nuvens geladas. Mas já não falta muito para chegar ao destino, uma vez que a fêmea, tal como milhares de outras, será vítima dum atirador pérfido.
            Ele fica outra vez sozinho e percorre assim a última etapa. Instala-se na sua reserva habitual e espera. Será que chega a companheira, ou ele é, realmente, o último maçarico-esquimó?

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Haiku

Floresce a giesta negral.
Mas as abelhas evitam-na
Salvo quando constipadas.

domingo, 5 de maio de 2019

Xeque múltiplo

ImagemO Costa ameaçou demitir-se e logo a canalhada perdeu a tramontana.
O Rui Rio começou a ladear.
A Cristas levantou as mãos ao céu e pediu misericórdia.
A Catarina talvez venha a perceber que isto não é o da Joana.
O Jirómino mandou consultar o pai dos povos.
Quem dera que os tugas entendessem o que está no tabuleiro.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Tijolos

O meu avô assentava tijolos.
O meu pai assentou tijolos.
Eu ando a assentar tijolos.
E a minha casa onde está?

terça-feira, 23 de abril de 2019

Eu nunca guardei rebanhos/Mas é como se os guardasse...

Um cobertor que me cobre, um cajado a que me arrimo, e uma lapada certeira às cabras que se arriscam às fruteiras. As chalanas têm nomes e as mais próximas respondem à minha voz. Os três cães fazem a sua função. Andam em volta, vão submissos onde os mando, só adormecem ao sol quando entramos no curral.
À noite durmo-me sem pesadelos, que o mundo dos animais é um sossego. De fugir é o dos homens.