sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Benesses de leitor

"O que tiveres a dizer, (ou mais exactamente aquilo que não podes deixar de dizer!), é a primeira coisa fundamental. A segunda coisa fundamental é o modo como o dizes. 
E não há mais segredo nenhum na literatura."
Já foi aqui dito um dia, e ainda é verdadeiro. Para não dizer que o é cada vez mais.

«Certa vez, no Norte de Angola, debaixo dum calor infernal, o então tenente-coronel António de Spínola , na companhia do capitão Leandro Carraça, do furriel António Mendes e do soldado Jacinto Marta, ordenou a este último que parasse o jipe. Por cima das densas copas das árvores adivinhava-se um céu de chumbo e, apesar de serem três e meia da tarde, seguiam de faróis acesos. O soldado Jacinto Marta obedeceu prontamente à ordem, e o tenente-coronel António de Spínola apeou-se num salto aparatoso, sem, no entanto, deixar cair o monóculo e o pingalim. Depois virou-se para o capitão Leandro Carraça e para o furriel António Mendes e pediu-lhes que fizessem o favor de o seguir.
O capitão Leandro Carraça, no tom ponderado que lhe era habitual, fez notar que talvez não fosse boa ideia o soldado Jacinto Marta ficar ali sozinho e sugeriu que o furriel António Mendes permanecesse, igualmente, junto da viatura. Argumentou, ainda, mas agora num tom irónico que não lhe era nada habitual, que dois oficiais bastariam para resolver o assunto.
Tanto o furriel António Mendes como o tenente-coronel António de Spínola perceberam que aquelas últimas palavras do capitão Leandro Carraça, realçadas pelo tom irónico com que haviam sido proferidas, não significavam a tentativa de desvalorizar o assunto que estava por resolver, bem pelo contrário, mas eram o resultado de um sentimento agudo de culpa, fruto de uma consciência em permanente observância e autocensura. Porque, sempre que algo de errado se passava com um dos seus homens, o capitão Leandro Carraça sentia-se imediatamente o principal responsável. Pior: o único culpado.
O tenente-coronel António de Spínola conhecia muito bem o capitão Leandro Carraça e admirava-o, também, por essa característica. Esteve prestes a sugerir-lhe que fosse resolver o assunto sozinho, mas temeu ser mal interpretado. Desapareceram os dois no meio do mato.
Dentro do jipe, ansioso por usufruir da liberdade que lhe conferia a momentânea ausência dos dois oficiais, o soldado Jacinto Marta aproximou-se do furriel António Mendes e perguntou-lhe baixinho, com a boca quase colada ao ouvido, se achava que o tenente-coronel António de Spínola, antes de se pôr a mijar, tirava as luvas. (...)
O soldado Jacinto Marta perguntou ao furriel António Mendes se achava que o tenente-coronel António de Spínola e o capitão Leandro Carraça iriam conseguir convencer o sargento Raul Figueira a descer da árvore e a voltar para o aquartelamento. O furriel António Mendes respondeu que o tenente-coronel António de Spínola era um militar muito persuasivo e o capitão Leandro Carraça um homem bom, e que essa duas qualidades juntas talvez conseguissem demover o sargento Raul Figueira da ideia de ficar a viver em cima duma árvore até a guerra acabar. Além disso, já tinham passado três dias, e o homem devia estar cheio de sede e de fome. (...)
As bátegas de água fustigavam-nos violentamente, e o caminho de terra parecia, agora, um autêntico rio de lama. O soldado Jacinto Marta apresentava notórias dificuldades em controlar a viatura, e nem a presença de um dos mais altos graduados de toda a hierarquia militar portuguesa o inibia de interpelar, alternadamente, e com igual devoção, S. Jerónimo, Nossa Senhora da Conceição e a cona da tia Alice. (...)»

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Registo elegíaco

Vem isto à conta de fragilidades várias, e a propósito dum robalinho grelhado com que hoje matei a galga. Robalo de aquacultura, que outros já deixou de haver. 
Fez-me recordar um verdadeiro, que há muitos anos vi no mar Cantábrico de la Coruña, preso no anzol dum pescador de praia, em Barranhã. 
Não se pode esquecer uma coisa daquelas. Nem o robalo a debater-se na areia, nem a mulher que me levou ali. A última que visceralmente me apreciou, e que merece registo. Pois continuamos sem saber o que seria este mundo sem as mulheres.

F. Mendelsohn Bartoldi

Mauricio Pollini.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Cavalarias

Era novo, corria os sertões dos bailundos à desfilada, de sabre desembainhado. Os cavalos tinham vindo da Argentina porque alguém os considerou os melhores que havia no mercado, a pacificar cuamatos. Não eram já os tempos do João de Almeida, estes agora exigiam comandos mais modernos. E a sua coluna aguentou-lhe as cavalgadas, nada que um espírito devotado e jovem não pudesse encaixar.
Porém o tempo passou. E agora há vértebras que foram danificadas, e discos esfacelados, e dores que resistem a medicações. Quando elas vêm perde o equilíbrio, chega a desabar na rua. Os serviços do hospital não dão para as encomendas, os médicos não estão lá, que foram para melhores lugares a governar a vida. 
Já nem lhe dá para pintar, fechou o atelier. Tem uma mulher fiel, três filhos que seguiram artes, uma cadela dócil e muitos sofrimentos. Ainda fuma, que ninguém pode prescindir de tudo. A cabeça povoada de lembranças ainda a tem, outros se acharão pior. E quando a pátria precisar de militares, chama-se o conde de Lippe.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

À falta de melhor...

O palhaço rico pintado de amarelo não brinca em serviço. Rodeia-se de anjinhos de asas brancas para a tomada de posse.  (tomado daqui)

Schubert

Sinfonia nº 9 (a partir do min. 17:30)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Doze sultanas, já que passas não há!

«O Mendes, sempre com aqueles casacos de feira, de napa, castanhos ou pretos, as mangas arregaçadas até metade do antebraço, os trejeitos da boca, as frases mal escolhidas, eram como se apedrejasse alguém, e aquela maneira de falar, da rua, em que se comem vogais e se acentua os ésses no final das palavras. O Mendes, que conta anedotas sobre pretos, mulheres, alentejanos, que chega ao pé de nós e diz: um inglês, um francês e um português entraram num bar, e nós reviramos os olhos, e depois ele  fala do Benfica, da cegueira escandalosa dos árbitros. O Mendes, sempre com a barba muito bem feita, um bocadinho de papel higiénico na curva do maxilar, um bocadinho de papel higiénico que serviu para estancar o sangue de um pequeno corte, as patilhas demasiado cortadas, o cheiro a after-shave e a colónia comprada na drogaria. O Mendes, quem diria?

Quando cheguei a casa subi ao terraço. Olhei lá para baixo, fechei os olhos e inspirei profundamente. Estava calmo, mas sentia-me muito cansado, estava na altura de desistir. Tinha as pernas dormentes, tão dormentes como a paisagem, a vida, essas coisas. Debrucei-me um pouco. A frase da Samadhi voltou a soar na minha cabeça. Quando ela encostou a porta agarrei-a pelos ombros e repeti: o Mendes? Ela irritou-se e disse: O Mendes tem muita coisa boa, se não tivesse, a tua mulher não se teria metido na cama dele durante mais de dois anos. E isto agora fazia-me um eco enorme dentro da cabeça: durante mais de dois anos, durante mais de dois anos, durante mais de dois anos.
Os carros lá em baixo, o meu cansaço a escorrer pelo corpo, pelos braços, a encravar-se nas unhas, um cansaço indolente, parecia um gato a roçar-se nas pernas de uma velha, e lá em baixo as pessoas pequeninas, os carros pequeninos, a vida pequenina, tudo a passear o tédio pelas ruas, e o eco, durante mais de dois anos, durante mais de dois anos, durante mais de dois anos. É agora, pensei enquanto me preparava para subir para o murete do terraço.
E optei pela frase mais chavão de todas: Adeus, mundo cruel.
Não havia maneira mais torpe de morrer. Até naquele momento patético eu era absolutamente ridículo.
Repeti: Adeus, mundo cruel.
O Mendes, com o seu casaco de napa, mangas arregaçadas até meio do antebraço, não diria melhor.»