terça-feira, 12 de outubro de 2010

Cem cães...

... a um osso esburgado! Isto é, uma roda cada vez mais quadrada.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Portugalmente - 78

(...)
A fidalga era uma das muitas filhas da casa dos viscondes, e nasceu em Salamanca. Corriam por então os tempos da República e os ares andavam torvos, dos brados de carbonários e pedreiros-livres. A quem trouxesse a consciência mais pesada, com motivos ou sem eles, só restava uma saída: passar de noite a fronteira e resguardar-se. Foi o que o visconde fez, enquanto se esfumava a poeirada, até poder regressar. E assim nasceu em Castela uma fidalga, que se já vinha dotada de condição e prebendas, mais medrou com as bênçãos da natureza.
Junto dos condes de Almendra encontrara entretanto acolhimento um mocetão de Foz-Côa, filho natural dum Távora remoto. A seu tempo se fez médico, a encargos do patrono. E foi o primeiro passo para vir a ser nomeado delegado de saúde, e administrador do concelho, e mais tarde o homem forte da União Nacional, um feudo de patriotas. Isto tudo muito antes da fundação da fábrica de azeites, cujo destino atrás se antecipou.
Quando lhes chegou a altura, o médico de Foz-Côa e a fidalga dos viscondes deram o nó sacramental. Ela juntava aos predicados naturais o património. E ele acrescentava o ceptro da autoridade, a figura impositiva e o poder. É com tais coligações que se edificam reinados.
Se o homem tinha má fama, o proveito era melhor. E famas leva-as o vento. O terror que infundia às criancinhas, que na consulta lhe mostravam a garganta tomada do garrotilho, só achava paralelo no rancor dos camponeses, que no lagar lhe sofriam o esbulho da funda a cinco. Por cem quilos de azeitona recebiam cinco litros, era pegar ou largar. Pior só assaltantes de estrada.
A fidalga era dez anos mais nova. E tinha uma figura de menina que fazia rir as rosas, quando descia a sentar-se no caramanchão. Os filhos foram chegando, como frutos naturais, conforme Deus os mandava. Só às vezes um reflexo no espelho do toucador, ou uma lágrima furtiva no recesso da alcova, traíam inconfidências que o peito ainda recusava e o tempo foi agravando.
Os encontros da família, ao repasto do jantar, eram momentos de aspérrima doutrina. Ninguém arriscava fala, qualquer simples transacção era através do mordomo. Às fêmeas e aos mais pequenos fê-los Deus para obedecer, era o primeiro mandamento. Por isso o doutor tinha no Porto, para reserva das hormonas, uma amiga de casa e pucarinho.
A fidalga não era senhora de ir à rua, de seu não tinha um tostão. E só a cumplicidade duma ama compassiva lhe permitia vender às escondidas uma medida de azeite, duas fanegas de trigo, para dispor dumas moedas. Fosse ele por ciúme ou por doideira, o doutor era um algoz. Humilhava a fidalguita diante das visitas, mais que uma vez lhe pôs as mãos na cara.
Quando à ama lhe cheirou a história com o Mal-Casado, deu-lhe o coração um baque. A fidalga abria o corpo ao serviçal, estendida na tarimba das cavalariças. E sorvia dele, em ânsias, o fio de humanidade que de outro lado não vinha.
- Muito mal vai à colmeia se a rainha se tresmalha! - gemia a pobre da ama. Mas nem ela imaginava o que estava para chegar.
(...)

sábado, 9 de outubro de 2010

Agendas

Pelo-me por tudo quanto seja folheto municipal. Não há agenda cultural, agenda de eventos, ou agenda de cultura e eventos a que não chame um figo. É por elas que vou tomando o pulso ao meu país, e à febre de cultura que grassa por aí. Em podendo, nunca falto.
Na Meda, é um exemplo, há meia dúzia de anos que vou tomar café ao centro cultural, quando estou perto. Tenho o bar inteiro ao meu dispor, e a atenção das camareiras. Nunca me cruzei lá dentro com a sombra dum concorrente.
Aqui há dias foi tudo bem diferente, encontrei o auditório a abarrotar. Celebravam-se os 500 anos do foral de Longroiva, nem faltavam ali mestres de estudo nem eminências ilustres.
Cá fora, os carros topo de gama já me tinham avisado. É que estava lá dentro, a conversar, um grupo de irmãos templários. Vinham ver o que foi feito do país que eles empurraram para o mar, amarrado à cruz de Cristo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ar do tempo - II

Já no 2º período clássico, o barroco, domina o desequilíbrio, a desrazão. E nem a Contra-Reforma nem a Santa Inquisição são alheias ao fenómeno. O homem barroco é um espírito atormentado, precário e inseguro, o Galileo que o diga. Foge do real concreto, refugia-se nas formas.
Os frades atarefavam-se a construir sonetos Ao Menino Jesus em metáfora de doce. E o único rigor que praticavam era o de um formalismo extremo, tão surpreendente quanto vazio. [Nise (tb Lisi), sois mais dura que o muro mais duro que a terra goza;
sois mais cruel que a rocha mais cruel que cerca o mar;
sois mais rigorosa que o cometa mais rigoroso que o céu vê.]

A construção da quadra é geométrica, perfeita. Nem lá faltam os 4 elementos, sendo que o fogo é a Nise. Mas é um puro jogo de palavras, um cultismo de escasso conteúdo.
O Vieira, ícone do conceptismo, elaborado jogo de conceitos, por força tinha que ser o grande mestre que foi, da língua portuguesa. Teve que inventar uma maneira de carrear em linguagem o sarilho em que se meteu.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Portugalmente - 77

(...)
O largo do pelourinho, que era uma praça maior ali no cimo do outeiro, caiu há tempos nas mãos dum urbanista, para beneficiação. Ao pelourinho roubaram-lhe um degrau, lá lhes pareceu que não fazia falta. E acrescentaram ao largo, em cima dum pedestal, um busto do Venturoso, que foi rei de Portugal e do Algarve, da Índia, do Brasil e da Guiné, e visto o foral de Almendra, mandou que pagarão os moradores, em cada ano, no dia de S. Martinho, sete reais… É o mais que fazem, as ordenações d’el-rei.
A igreja matriz de Almendra guarda esplendores antigos e imponência pouco vista. Amparada em contrafortes, parece uma fortaleza. E associa um portal renascentista de 1565, e o rocaille aligeirado da capela-mor, à imponência da traça medieva, que mistura a gravidade do românico e a respiração do gótico. Na vastidão das três amplíssimas naves cabia a devoção dos fiéis todos, mesmo no tempo em que Almendra era rainha.
Nem palácios lhe faltaram, que era dois. Este, o dos condes de Almendra, uma honraria serôdia da mão de el-rei D. Carlos, tem a sisudez ensimesmada da casa grande burguesa. Já aquele, o dos viscondes do Banho, que foi concessão duma rainha antiga, padece as demasias do seu tempo. O espavento dos arabescos de pedra que lhe enfeitam os frontões nas fachadas dá-lhe um ar de teatro de bonifrates. Destoa no aglomerado, ali à beira da estrada. Mas por um qualquer sinal, às vezes uma verruga, se hão-de distinguir os homens.
Os dois solares vieram a ser cenário de dramas do romantismo tardio, se for verdade que o bom do romantismo escolhe idades. Estes dramas ficaram na memória, e eram matéria da pena do Camilo original. Na falta dele, contentou-se o viajante com o relato atamancado do Camilo anfitrião.
(...)

Espionagem galáctica

Ver o relatório aqui.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Tebas

Já foi a mais orgulhosa das sete portas de Tebas. Hoje nem as pombas guarda.