A fábrica original das viaturas Porsche, que arregalam os olhos dos nossos patrões, nasce num vão de escada da Europa Central, antes do fim do séc. XIX. Alguém ali começou a apertar parafusos, a afeiçoar os perfis na bigorna, enquanto ia sonhando com o futuro e aos poucos o construía. O resto, que é espírito inventivo feito de persistências e contabilidades, é a história que o ensina.
Vem isto a propósito dum inquérito europeu, do ano de 2002, em que dois terços dos portugueses atribuem a pobreza a factores como a má sorte, o destino fatalista, ou a preguiça dos pobres. Foi a um tal estado de superstição alienada que uma história de vagamundos nos condenou. Confusamente nos queixamos da economia, mas não saímos daí.
Os nossos empresários de sucesso lembram-se bem do cheiro da canela. E sabem há muito tempo que a especulação dá maiores dividendos do que a geração de mais-valias. Por isso especulam no imobiliário, construindo habitações que ficam devolutas. Por isso especulam nas finanças, multiplicando riquezas de papel. Por isso especulam na distribuição, comprando e vendendo rabanetes. São os deuses da nossa economia, mas valor acrescentado não é com eles.
E é com vénia às possíveis excepções, que rendo aqui homenagens a Azinhais Nabeiro. Começou, há muitos anos, a matar a fome com cargas de contrabando em cima dos costados. Levava café dos outros. E foi investindo o que apurava no sonho do seu próprio café.
Hoje dá de comer a um concelho inteiro, resiste aos italianos, e dá-nos as lições que não tomamos. Ele merece ser doutor honoris causa. Nós, quem sabe, merecemos a pobreza.
domingo, 8 de junho de 2008
sábado, 7 de junho de 2008
Cultura de folha dupla
É a última novidade vinda de Espanha e promete revolucionar o mercado da cultura. Papel higiénico com alguns dos clássicos da literatura universal. A ideia é da Empreendores (...).
E agora se faz a prova, a quem restassem dúvidas, da rendição do mercado à prima literatura. O arranjinho promete. Não se conhece é a resposta dos clássicos.
E agora se faz a prova, a quem restassem dúvidas, da rendição do mercado à prima literatura. O arranjinho promete. Não se conhece é a resposta dos clássicos.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Loja de quê?!
Eu achei bem, o Documento Único Automóvel! Menos papéis, menos burocracia... De forma que lá fui, à Loja do Cidadão, a renovar a velha papelada dum panzer que ali tenho há muitos anos. Um dia chegou-me no correio o documento novo.
Do meu discreto e recolhido amigo, saíra um descapotável mundano e ostensivo. A tara avantajada perdera setenta quilos. Os pneumáticos, de viajante comum, passaram às dimensões dum pégaso de fórmula. A cor original, que era vermelha, desbotou num cinzento penitente. E a data da matrícula rejuvenesceu um ano.
Eu lá voltei, à Loja, a reclamar. E bem argumentei que conquistei Malaca, que tenho as côngruas em dia, que sou, afinal, um cidadão da casa!... Nenhuma façanha minha os comoveu. Fiquei dono dum veículo martelado, e só no Instituto da Mobilidade mo podiam salvar.
É no que dá, sonhar com modernidades numa terra de bêbados! Ainda congeminei em voltar ao passado, em regressar a Malaca. Mas optei por arranjar um atestado falso, e ir gastar um dia à Direcção Geral. Duma penada alinho-me com a história, e talvez resgate o couraçado do parque da sucata.
Do meu discreto e recolhido amigo, saíra um descapotável mundano e ostensivo. A tara avantajada perdera setenta quilos. Os pneumáticos, de viajante comum, passaram às dimensões dum pégaso de fórmula. A cor original, que era vermelha, desbotou num cinzento penitente. E a data da matrícula rejuvenesceu um ano.
Eu lá voltei, à Loja, a reclamar. E bem argumentei que conquistei Malaca, que tenho as côngruas em dia, que sou, afinal, um cidadão da casa!... Nenhuma façanha minha os comoveu. Fiquei dono dum veículo martelado, e só no Instituto da Mobilidade mo podiam salvar.
É no que dá, sonhar com modernidades numa terra de bêbados! Ainda congeminei em voltar ao passado, em regressar a Malaca. Mas optei por arranjar um atestado falso, e ir gastar um dia à Direcção Geral. Duma penada alinho-me com a história, e talvez resgate o couraçado do parque da sucata.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Traz outra loira!
- Venham todos! Mas venham dois a dois! No ecrã uma figura de forcado, camisola rubra ao peito, as quinas no lugar do coração, e uma rópia patriota, febre pura.
- Não há terra como a nossa, e esta é a raça que nos há-de salvar, caralho. Ouvi-o uma vez da boca dum rei, nas vésperas de Alcácer, e ouvi-o outra vez da boca dum conde em cima dum cavalo, quando abriam a porta dos curros para a última corrida em Salvaterra.
- Cá está outra vez, caralho, para que não hajam dúvidas, é esta a raça que nos há-de salvar. Venham de lá aos pares, que um só para nós é pouco!
- Rapaz, traz outra loira, caralho!
imagem pilhada no Ponte Europa.
Fascismo linguístico
Isto escreve Desidério Murcho, no PÚBLICO de hoje.
O fascismo está inscrito na mentalidade portuguesa. Mal se fala da língua portuguesa, desata-se a usar maiúsculas, a falar da pátria, da expansão e só não se fala da conquista e da colonização de outros povos porque nos tempos que correm isso é um bocadito excessivo. Como acontece com todas as mentalidades fascistas, ergue-se um facho não apenas para ser seguido cega e acriticamente, mas também para esconder as misérias. (...)
A suprema importância universal da língua portuguesa é uma treta. Uma treta reveladora de mentalidades e atitudes que mostram quão longe estamos de ser uma sociedade genuinamente democrática e livre, sem atavismos fascizantes - hoje em dia baseados na língua, porque não o podem ser nas caravelas. Os seres humanos são seres humanos - falem ou não português, e escrevam ou não 'óptimo' com 'p'. E cada ser humano, em si, é mais importante do que quaisquer sonhos de conquistas futuras, de grandiosidades épicas, de poderios imaginários. O que importa é dar aos portugueses as mesmas oportunidades para se realizarem do que qualquer outra pessoa em qualquer outra parte do mundo - como matemáticos, poetas ou filósofos, físicos, pianistas ou jornalistas, padeiros, taxistas ou empresários. O resto são atavismos que têm precisamente o efeito contrário, atravancando o país.
País que poderia perfeitamente ter desaparecido há 400 anos, sem que as principais realizações artísticas, científicas e políticas da humanidade tivessem sido substancialmente diferentes. As grandes realizações da humanidade, com valor universal e universalmente reconhecidas, não são portuguesas. Além dos Descobrimentos, nada demos à humanidade que seja reconhecido. Somos um povo sem grandes realizações, como os suecos, os dinamarqueses ou os corsos - mas qual é o problema disso? Porquê andar a sonhar com o 5º império, que não é outra coisa senão o colonialismo salazarista temperado com versos épicos de gosto duvidoso?
Seria mais avisado assumirmos o que somos: um pequeno país no seio da Europa, com imensas dificuldades em criar riqueza e avesso a uma mentalidade livre e democrática. Assumir isso seria o primeiro passo para conseguirmos, com boa vontade e realismo, cooperando entre todos, transformar um pequeno país numa sociedade justa, de bem-estar, desenvolvida, que ofereça aos seus membros as melhores condições para desenvolverem os seus talentos e darem assim as suas contribuições para o desenvolvimento da humanidade.
Precisamos de melhor ensino, melhores políticos, melhor pensamento científico, filosófico e artístico. Nada disto se consegue enquanto continuarmos a tapar o sol com a peneira da ilusória pátria grandiosa da língua portuguesa.
O fascismo está inscrito na mentalidade portuguesa. Mal se fala da língua portuguesa, desata-se a usar maiúsculas, a falar da pátria, da expansão e só não se fala da conquista e da colonização de outros povos porque nos tempos que correm isso é um bocadito excessivo. Como acontece com todas as mentalidades fascistas, ergue-se um facho não apenas para ser seguido cega e acriticamente, mas também para esconder as misérias. (...)
A suprema importância universal da língua portuguesa é uma treta. Uma treta reveladora de mentalidades e atitudes que mostram quão longe estamos de ser uma sociedade genuinamente democrática e livre, sem atavismos fascizantes - hoje em dia baseados na língua, porque não o podem ser nas caravelas. Os seres humanos são seres humanos - falem ou não português, e escrevam ou não 'óptimo' com 'p'. E cada ser humano, em si, é mais importante do que quaisquer sonhos de conquistas futuras, de grandiosidades épicas, de poderios imaginários. O que importa é dar aos portugueses as mesmas oportunidades para se realizarem do que qualquer outra pessoa em qualquer outra parte do mundo - como matemáticos, poetas ou filósofos, físicos, pianistas ou jornalistas, padeiros, taxistas ou empresários. O resto são atavismos que têm precisamente o efeito contrário, atravancando o país.
País que poderia perfeitamente ter desaparecido há 400 anos, sem que as principais realizações artísticas, científicas e políticas da humanidade tivessem sido substancialmente diferentes. As grandes realizações da humanidade, com valor universal e universalmente reconhecidas, não são portuguesas. Além dos Descobrimentos, nada demos à humanidade que seja reconhecido. Somos um povo sem grandes realizações, como os suecos, os dinamarqueses ou os corsos - mas qual é o problema disso? Porquê andar a sonhar com o 5º império, que não é outra coisa senão o colonialismo salazarista temperado com versos épicos de gosto duvidoso?
Seria mais avisado assumirmos o que somos: um pequeno país no seio da Europa, com imensas dificuldades em criar riqueza e avesso a uma mentalidade livre e democrática. Assumir isso seria o primeiro passo para conseguirmos, com boa vontade e realismo, cooperando entre todos, transformar um pequeno país numa sociedade justa, de bem-estar, desenvolvida, que ofereça aos seus membros as melhores condições para desenvolverem os seus talentos e darem assim as suas contribuições para o desenvolvimento da humanidade.
Precisamos de melhor ensino, melhores políticos, melhor pensamento científico, filosófico e artístico. Nada disto se consegue enquanto continuarmos a tapar o sol com a peneira da ilusória pátria grandiosa da língua portuguesa.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Terrorismo do bom
Vê-se no cinema La graine et le mulet, do tunisino Kechiche, O segredo de um cuscuz. Uma vez, duas, três, e rejubila a alma.
É que ainda há ilhas de sublime, a resistir às alegres bebedeiras da pós-modernidade. E para lá do estreito de Gibraltar, descobre-se que, afinal, há terrorismo. Do bom.
É que ainda há ilhas de sublime, a resistir às alegres bebedeiras da pós-modernidade. E para lá do estreito de Gibraltar, descobre-se que, afinal, há terrorismo. Do bom.
domingo, 1 de junho de 2008
Tradições milionares
O jornalista expõe na televisão trabalheiras de há mil anos. Fala de antigas manufacturas, de profissões ancestrais, de tradições milionares. Já praticamente extintas.
Milionário será ele, às fortunas de que por aí se ouve falar. E é natural que aproveite para pôr ao soalheiro as honras da família, em tardes mais solarengas.
Já quando fala, é a língua que fica em perigo de morte. Mas para ele é muito claro que só as velhas tradições estão a correr perigo de vida.
Milionário será ele, às fortunas de que por aí se ouve falar. E é natural que aproveite para pôr ao soalheiro as honras da família, em tardes mais solarengas.
Já quando fala, é a língua que fica em perigo de morte. Mas para ele é muito claro que só as velhas tradições estão a correr perigo de vida.
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