segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Diálogos

O Platão cresceu, ganhou bochechas de gato dominante, uns grandes bigodes e muita sabedoria.
Ontem foi à horta e encontrou a cobra, que saía da toca onde passara o inverno.
Logo ela se pôs com as fosquinhas do costume, a fazer olhinhos e tal. Só p'ra ver se o levava à certa.
E vai ele: - Ó menina, o que tu sabes a mim já me esqueceu!
E lá foi, à procura de aventuras melhores.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Eu bem te digo, António!

Atão e o onde, o quando, o como, o porquê e com que fim?!

"Deus sabe que eu não queria. Deus conhece o íntimo da minha carne, a razão dos meus pecados e o labirinto das minhas intenções. Deus acompanha-me desde a Índia, onde o meu pai, de bivaque, trabalhava de estafeta na alfândega do porto e a minha mãe cozinhava no telheiro, sob a chuva, a tartaruga do  almoço, e continuou a acompanhar-me pelos anos fora dobrando as palmeiras da praia, nas monções, com um só dedo do seu vento e baixando em pleno dia numa noite absoluta que transtornava as iguanas e as mulheres.
Deus trouxe-me consigo para Moçambique como criado dum marquês que regressava ao reyno numa escuna de velas enfunadas pelos leques das aias, pesada de quinquilharias orientais vendidas depois nos túneis do metropolitano por gurus esqueléticos, acocorados no chão ao lado dum pífaro e de uma caixinha de mortalhas. Na véspera da partida de Lourenço Marques adormeci no quarto de musseque duma chinesa que conhecera duas horas antes, levitando em passinhos curtos numa avenida da Baixa, e ao acordar vi através do seu sorriso mudo, pela janela, os  leques das aias que acenavam no horizonte e um mandarim centenário ajoelhado numa almofada a almoçar carochas duma tigela de Barcelos. (...) O único branco do bairro vendia bíblias, postais eróticos e gira-discos no porta-a-porta da cidade, chamava-se Fernão Mendes Pinto, possuía uma cabana na areia atulhada de refugos de equinócios e recordações da Malásia, sentava-se à beira de água a comover-se com os crepúsculos, fez-me sócio no comércio de evangelhos e uma tarde, ao chegar mais cedo ao musseque, encontrei-o, nu e repulsivo, em cima da rãzita transparente da chinesa que sorria para o tecto a sua doçura inalterável. (...)
Com as automotoras chegavam sem cessar políticos, calceteiros, presidentes de câmara e cobradores de impostos. (...) Uma súbita aldeia de moradias, supermercados e cinemas alisava as dunas e avançava terraços pala mata. Arrumaram o padrão, limpo de folhas, na cave dum museu, à sombra de bustos de cera de exploradores memoráveis. Instalaram um clube naval para comodoros paranóicos num lugre abandonado, depois de o libertarem dos esqueletos de calafates que se desfaziam em pó mal o piaçaba lhes tocava. (...)
Os circos deram em desembarcar de vagões de mercadorias, e os equilibristas armavam as redes em praças roubadas aos eucaliptos e ao capim. De tempos a tempos o governador, acolitado de oficiais bigodudos, visitava os quarteirões pobres prometendo esgotos, e partia com um cabrito nos braços agaloados, ao som do hino, num automóvel gigantesco com um par de bandeirinhas no capot."
[AS NAUS]

sábado, 13 de janeiro de 2018

A seita

A primeira e única coisa que a seita do PPD/PSD trouxe de novo aos portugueses foi um novo D. Sebastião. Um Sá Carneiro que teria feito milagres no seu tempo, se não tivesse morrido tão cedo num desastre de avião, ou lá o que foi.                    
A partir daí foi sempre a descer. E é onde está ainda, apesar da idiotia indígena que não passa sem um pai, falso que seja.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

 

Em Portugal há pacientes que sofrem de fibromialgia desde crianças. E medicam-se com óleo de canabis vindo de Espanha. Porque os ilustrados médicos indígenas só há pouco tempo começaram a reconhecer a fibromialgia. O resto da questão era dos psiquiatras.
Sejam indulgentes os deuses, perante o sofrimento que eles deixaram à solta.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Grumos

Un poème inédit de Patrick Chamoiseau:

Depuis l'effroi, depuis la peur
Depuis la rumeur abyssale des griots et conteurs
Depuis l´encre de celui qui écrit

Depuis la magie du verbe qui ordonne au réel
aux odyssés aveugles qui s´appliquent à tout voir et a tout raconter
Des folies qui galopent dans l´audience des moulins
aux passions qui font scènes dans de plusieurs royaumes
La haute saisie du temps
dans les arcanes du souvenirs et le cosmos de la mémoire

Voici les furies coloniales
L´hécatombe des grandes guerres
Ces gouffres-monde ouverts qui défont la parole
Jusqu'à l'orgueil des langues que n'étaye plus la ciselure du style

Juste à ce point de déroute où
Faulkner

Dans la langue hors toute langue (...)

[Poesia? Ufff! Estes vagidos contemporâneos lidos no Magazine Littéraire  são grumos no leite creme. Vão-se lixar!]

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Bardamerda, diz a juventude!

Já não há bilhetes para o Rock in Rio, que só há-de chegar lá p'ro equinócio!
O pior vai ser se o resto dá para o torto!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Sentido

Perguntarei aos patos do lago
e aos corvos que às tardes passam a grasnar no céu alto
e aos pardais
que acordam na madrugada
e se põem a viver
onde vão buscar a alma de vencer este gelo
e guardar este sentido