sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Há muitos anos...

Era Natal, foi-me oferecida esta novela dum biólogo canadiano, em tradução alemã. Trata-se nela da saga do último maçarico-esquimó, um poderoso migrador que se deslocava entre os círculos polares, e acabou extinto a tiro no século passado, nas vastidões do midwest americano.
Tratava-se duma editora que já não existe, num país que já não há. E mais tarde fiz dela uma tradução que me agrada, que há-de ser editada porque não existe em português e nos faz falta.
Na altura estava a chegar ao fim o meu tempo de exilado, às mãos dum Torquemada cujo nome me escapa. Tratava-se pois de regressar, porque a guerra a sério era em Lisboa. Mas eu não tinha passaporte de regresso, e tinha que ir arranjá-lo num consulado do Maputo, recém-independente.
Dois dias antes da partida apareceu a amigdalite. Quando ela vinha eram três dias de antibióticos poderosíssimos e devastadores.
Fui ao hospital, mas a Frau fugiu a dar-me antibióticos. E recomendou-me umas pastilhas de chupar. "Já estou fodido!", pensei eu. E estava, mas muito menos do que imaginava.
No dia aprazado entrei num avião que me levou a Moscovo, onde fiquei à espera a tarde inteira, numa sala de trânsito. À espera do Aeroflot que me poria em Maputo dois dias depois. Aí é que estava o consulado que me dava um passaporte português.
A amigdalite devorava-me a garganta, provocava-me dores de condenado, impedia-me de engolir fosse o que fosse. Mas embarcámos quando a noite caiu.
Lembro-me de ter visto as luzes do Cairo, um oásis na noite africana, "antiquíssima e idêntica". E da hospedeira russa, uma mamuda, que olhava com ar maternal este viajante que recusava as laranjas e não engolia nada.
Mal sorriu a manhã aterrámos em Aden, lá onde o Camões penou, "junto dum seco, fero e estéril monte". E o monte ainda estava lá ao fundo, por trás dum cordão de dunas, ainda fero e seco como em tempos idos. Outra vez me senti a tomar parte na gesta gloriosa.
A escala seguinte foi em Mogadiscio. Já andavam muito mal as relações entre Moscovo e a Somália, por isso a hospedeira se encostou a uma porta e aguardou a inspecção. Isto muito antes de aterrarmos em Dar-es-Salam, no final do dia.
A temperatura subiu muito, e eu trazia no corpo o sobretudo de inverno, donde partira. Mas aguentei-me até chegarmos ao Maputo. Aí o funcionário não me deixava sair, porque não lhe mostrei visto de entrada. Sentei-me num sofá, disse-lhe que apenas na embaixada haveria solução. E ela acabou por chegar, na pessoa dum funcionário que me deixou num hotel.
O hotel era redondo, modernista, e mal me achei nele fui para a rua. Até que encontrei numa farmácia um branco de bata branca, disposto a dar-me os meus antibióticos. No caminho comprei a uma vendedeira um abacaxi enorme e levei-o para o hotel. Depois meti-me na cama e aguardei. 
Durante a noite julguei que morria. A garganta sabia-me a podre, escarrava uma substância escura e mal cheirosa que me agoniava. Mas de manhã veio o sol e eu estava salvo. Desapareceram as dores, comi metade do abacaxi e fui à procura do consulado que havia de me dar um passaporte português. E ele chegou um dia, das mãos duma funcionária que estava tão grávida como a Senhora do Ó.
Mandei dizer a Lisboa em que avião havia de chegar, vindo do Maputo. Lisboa portou-se bem, mandou um major para me receber e levar-me para Caxias. Fui ouvido por um juiz, e fui mandado para casa, à espera dum julgamento. Que não chegou a existir. 
Mas já não havia casa, nem família, nem trabalho... para que serviria o julgamento?! 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Batem leve, levemente

Será chuva? Será gente? Nada disso, felizmente! O que há é neve na Lapa, a desabar lentamente. E essas crianças, senhor? 
Dá-thes vida e muito amor!

078902630RH+

«E de súbito isto regressa como um vómito, o mesmo enjoo, o mesmo mal-estar, o mesmo nojo. O prisioneiro sem pernas que se amarrava ao guarda-lamas do rebenta-minas e gritava o tempo todo. O quartel da Pide com os prisioneiros lá dentro, e a mulher do inspector que lhes dava choques eléctricos nos tomates. O alferes que durante um ataque saiu da caserna com um colchão sobre a cabeça, a borrar-se literalmente de medo.O primeiro morto, um condutor a que chamávamos Macaco. A gente a escolher os nossos próprios caixões na arrecadação: continuo a lembrar-me do meu. Pregava-se a medalha que trazíamos ao pescoço, com o número mecanográfico e o grupo sanguíneo
(a minha 078902630RH+)
na madeira. Os pelotões de regresso da mata, desfeitos de cansaço. O helicóptero
- Atenção mosca atenção mosca
dos feridos. A minha pergunta constante
- Porquê?
o ruído do milho, à noite, contra o arame. O apontador de metralhadora, ferido no pescoço, que continuava a disparar. Os nossos morteiros 70 contra os morteiros 120 do MPLA. O Melo Antunes a comunicar que tínhamos feito prisioneiros
(uns velhos, uma mulher grávida)
o pide a dar um pontapé na barriga da mulher grávida, o Melo Antunes a apontar-lhe a pistola e a mandá-lo ir-se embora, o pide a ameaçá-lo, o general furioso com o Melo Antunes. Como perdíamos muitas camionetas com as minas, a ordem
- As Mercedes são ouro, os homens que piquem
e com as picas das minas anti-pessoais a arrancarem as pernas aos soldados. Metia-lhes garrotes e iam acabar no Luso de embolias gordas. Isto regressa como um vómito e tenho de falar nisto. E vocês têm de ouvir, porque eu continuo a ouvir. Em nome do Pereira, do Carpinteiro, dos outros que perdemos. Vocês têm de ouvir. Mesmo que eu escreva isto mal porque estou a escrever com o sangue dos meus mortos. Não posso esquecer. Não consigo esquecer.(...) Não terei sido um criminoso por haver participado nisto? O Melo Antunes
- Às vezes apetecia-me morrer
e não teremos, de facto, morrido disto, Ernesto? Porquê? O Melo Antunes
- Cada vez mais isto me parece um erro formidável
e a mim não me parecia nada, apenas queria durar. Comíamos merda, bebíamos a água porca dos filtros. Eu comi. Eu bebi. (...)»
[António Lobo Antunes, Terceiro Livro de Crónicas, Lisboa, 2006, Ed. D. Quixote]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Ohey Silver!

(A propósito de imagens muito antigas da Tágide)
« (...) Um dia, por alturas de Sete Rios, uma velha para aí de vinte ou quarenta anos colocou a mão sobre a minha, no varão, e encostou-me a coxa à cintura: continuo a recordar o seu perfume de verbena e a sentir-me tão grato: a coxa o tempo inteiro a fazer pressão e a abrandar, os dedos devagarinho nos meus. Nem me mexi. Saiu no Calhariz, não tornei a vê-la mas o seu calor continua. Se calhar não se destinava a mim, destinava-se a Cisco Kid. Durante semanas rondei o Calhariz na esperança de a encontrar numa janela de rés-do-chão, quase tão bonita como as actrizes de cinema, a chamar-me. Para o caso de me supor Cisco Kid treinei o sorriso dele em casa e de quando em quando, a espiar os prédios, dizia
- Ohey Silver
(o meu cavalo)
baixinho. Só me faltavam o bigode e as botas de montar e embora eu quase completo a actriz de cinema nada. Até hoje. Dizem que o tempo cura a saudade: posso garantir que não é certo. Aqueles dedos. Aquela coxa. Aquele perfume. E eu de calções
- Ohey Silver
à procura. (...)»

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A sinestesia, ou a essência do pêssego rosa

«O problema pseudo-filosófico da arbitrariedade subjectiva do gosto não encontra melhor ilustração do que a voz de Elisabeth Schwarzkopf. Para mim, a voz desta mulher que morreu em 2006 é simplesmente o som mais belo do universo. Nada se lhe compara. Os meus amigos mais próximos sabem todos que no dia em que a voz da Schwarzkopf me for indiferente, é altura de me levarem para o cemitério.
No entanto, a voz é controversa; a mulher que a emitia foi mais controversa ainda. Quando acabou a 2ªGuerra Mundial em Maio de 1945, Schwarzkopf era uma cantora ainda jovem, com 29 anos, há pouco chegada ao topo da pirâmide no mundo da música que era a Staatsoper de Viena; o percurso fora feito por mérito próprio, mas ela nunca escaparia ao estigma de uma juventude maculada pela actividade partidária nazi. (...)
Os mais velhos que me educaram com o seu gosto - além dos meus pais, João Bénard da Costa, Alberto Vaz da Silva e outros do mesmo círculo de O Tempo e o Modo - professavam uma religião na qual certas vozes transmitiam aos mortais verdades celestes, de que nós, seres humanos, sem mais transmissores, teríamos ficado para sempre privados. (...) Além disso João Bénard da Costa era fanático coleccionador de todos os discos gravados por estas duas deusas, e foi graças à sua colecção que fui conhecendo a fundo a revelação das ditas verdades celestes. (...)
É um som intrinsecamente aristocrático. Um som com o seu quê indefinível de setecentista. Um som têxtil; por um lado, tem algo de diáfano, da transparência do tule; por outro, evoca a macieza táctil dum veludo valioso e antigo. Um som cheio de coloridos, capaz de mimetizar matizes como rosa-velho, azul celeste, madrepérola, violeta. Uma voz com perfume. (...)»
[Frederico Lourenço, O Lugar Supraceleste, Lisboa, Cotovia, 2015]

E lucevan le stelle

Tosca, Pucinni.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Do Templo - 2

Antes da Ordem do Templo, o que ocupava o imaginário popular eram as sagas muçulmanas, das moiras encantadas. Foi isso que ficou na memórias dos povos, da Reconquista Cristã. Já que dos mitos celtas, e muito menos visigodos ou romanos, pouco ou nada ficou.
A sagacidade de D. Dinis, que era poeta e administrador, fez o resto. O tesouro dos Templários estava em Castro Marim, em Tomar, em Almourol, e aqui mais perto em Longroiva, e na aldeia templária de Aveloso.
Nada dos seus tesouros reais passou aos cofres do reino. Tudo ficou na Ordem de Cristo, cujo grão-mestre foi o Infante do Chapéu Grande, da ínclita geração. E foi usado para financiar a gesta gloriosa, e o primeiro mercado de escravos em Lagos. Valeu a pena!

«(...) Nela, o rei Filipe o Belo dava conta dos delitos de que o Templo era acusado e ordenava a imediata detenção de todos os membros da Ordem, cujos bens seriam confiscados pela coroa, ao mesmo tempo que os seus membros seriam submetidos a julgamento. No dia 13, todos os frades do Templo em França deveriam estar já nas mãos da justiça.
Ao amanhecer desse dia, com impecável precisão, milhares de servidores reais entraram nas inúmeras casas e comendas templárias em solo francês para levarem a cabo a detenção em massa. O trabalho policial foi enorme, pois os vinte mil membros do Templo foram presos em simultâneo; destes só 546 eram cavaleiros, que viviam nas cerca de 3 mil casas que o Templo possuía em toda a França. A surpresa e a incapacidade para entenderem o que se estava a passar levaram os membros da Ordem a deixar-se prender sem opor qualquer resistência. Entregues às autoridades judiciais, nesse dia todos ficaram presos e incomunicáveis nos cárceres reais. Quase nenhum conseguiu escapar.
A natureza das acusações exigia a intervenção da Inquisição, cujos tribunais, especialmente em Paris, começaram rapidamente a trabalhar. (...)
Os delitos imputados aos membros da Ordem eram de suma gravidade naquela época: eram acusados de negar a Cristo, cuspir, pisar e urinar sobre a Cruz nas cerimónias de recepção de irmãos. Insistia-se que nelas davam rédea solta à sua maldade, entregando-se a práticas obscenas, tais como obrigar os neófitos a dar beijos na boca, no umbigo e nas nádegas  dos outros irmãos. (...)»