domingo, 24 de setembro de 2017

Ladrar à lua

Cada coisa tem seu tempo: uma máquina, uma obra, qualquer vida.
Todas as coisas têm um limite, além do qual se tornam sofrimento. Os mesmos deuses morrem quando chega o tempo, como as vozes das estrelas que há no firmamento. Lentamente fenecem, esgotadas.
É este o tempo de parar de ladrar e deixar a lua em paz.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Nobel

 

Tarde começou ele, mas acontece. E com tal força que daqui partiu meia dúzia de romances que puseram a Europa a ler-nos na década de oitenta. Desde os ecos de Camões que tal não acontecia, até chegar o Pessoa.
Mas já estava tudo aqui, na cabeça do autor e nas fábulas dos camponeses de Monte Lavre.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Jorge Luís Borges

 
Não há como ler quem sabe. Tudo o resto são conversas.
 
José Maria Eça de Queirós
 
O Mandarim
 
Nos finais do séc. XIX, Groussac pôde escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época.
Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre. Em 1869 acompanhou o seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egipto para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações lêem e relêem. Três anos depois ingressou na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muito diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Emile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras: fala-lhes um discípulo de Flaubert.
Cada oração que Eça de Queirós publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica. Um das personagens é um demónio; a outra, a partir duma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.
No ano final do séc. XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Desaba o mundo? E o que é que isso tem?!

Desde que um génio, já no ocaso, lhe prometeu o Nobel, o Gonçalo vive nas suas sete quintas. Deixa correr o marfim.
E constrói as suas fábulas a la Gregor Samsa, como o bom Kafka. Só lhe falta uma ruela em Praga e a paciência dos leitores.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Malhadinhas

"Provecto dos anos, uma tarde ergueu-se do borralho e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho de marmeleiro. Andava há dias a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados. Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara, codejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago, farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E - o Justo Juiz lhe perdoe as facadas, que as não deu em nenhum santo - nem se sentiu a atravessar as alpodras duma margem para a outra do negro rio."
Lisboa, 1922

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Agosto

Toda a vida assim foi. Quando a trampa em Portugal é muita, ou nele falta, monta-se um intercâmbio com o Brasil.
Fáxavor vão-se foder. Uns e outros!

domingo, 17 de setembro de 2017

Jorge de Sena, Camões e outros exilados 3

 
"(...) E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida; o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler.
E há mais e pior: quando no liceu líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados, que vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. (...)
Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas. (...) Estes deuses, na dialética camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra , e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. (...)
Porque para o amor Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é para ele a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor não há heróis, nem há homens dignos desse nome. (...)
Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para o bem e para o mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África.(...)
Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, o desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento, e a sensualidade mais desbragada. Leiam-no e amem-no."
(1977)