segunda-feira, 24 de abril de 2017

O Roque e a amiga

Estão ambos ali ao cimo da avenida, há um ror de tempo, a quezilar. Nos dias de calor sonham com o lençol do rio, que passa lá ao fundo. Sempre traz uma frescura e lembra-lhes o mar, e o mundo para além dele. Fora disso contentam-se com a baixa pombalina, que lhes dormita aos pés.
Um tem formação romântica e um espírito clássico. Recolhido nas abas do capote, hierático e definitivo, parece um rei de pedra, dos antigos. Bem pode o mundo quebrá-lo mas não o torcerá, porque a razão não deixa.
O outro tem formação clássica e um espírito romântico, e uma alma que não se lhe confina às arcadas do peito. Traça no ombro a capa esvoaçante e avança para o mundo de cabeça erguida, de barbicha à dandy, gaforina ao vento. O génio todo está no sentimento.
Sempre que ali passo bato-lhes à aldraba s empurro a cancela. Para saber quando resolvem a contenda.

domingo, 23 de abril de 2017

LER

É um caderno de 160 páginas. Lá dentro há notícias de publicações de perto e de longe, vinte e cinco páginas acerca do Onésimo, cinco páginas à volta do Lobo Antunes, sete páginas sobre o Raul Brandão, e trinta e quatro páginas do João Pedro George (olha quem!) sobre as mamas na literatura portuguesa. Custa a desmesura de 6€. Leio uma horita dele e arrumo-o na estante.

"O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar às coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade."
[José Rentes de Carvalho, em Mazagran, livro de crónicas que venceu o prémio APE]

sábado, 22 de abril de 2017

Farsantes eruditos

Em tempos, o mestre encartado Pedro Eiras desceu da faculdade de Letras do Porto para palestrar na BMEL. E apresentou uma publicação que perora sobre a sua descoberta das cartas de Pessoa a Mário de Sá-Carneiro, suicidado em Paris em 1915.
De facto são conhecidas as cartas que ele enviou ao Pessoa, como colaborador do Orpheu. Mas as respostas do aprendiz ao mestre ter-se-ão perdido num hotel, onde até as contas ficaram por pagar.
Diz ele que as ditas cartas ficaram numa mala que ele, mestre, acabou por achar. E publicou-as num livrinho a que a Assírio & Alvim chamou um figo. O leitor confiante que se cuide, ou que se foda! Não sei o que é que o mestre Eiras ensina aos seus mestrandos de Bolonha, que por aí pululam a fazer figuras tristes e a praxar os caloiros. Muito suspeito que isto anda tudo ligado! 
Demos a palavra ao farsante-mor:
"Em 1995, numa ida a Paris, decidi procurar o antigo Hotel de Nice, onde Mário de Sá-Carneiro viveu os últimos meses e se suicidou. O hotel fica em Pigalle, bairro vermelho da cidade, cheio de cinemas pornográficos e espectáculos para adultos, com os empregados à porta a tentarem aliciar os casais, entre néons. Descobri o prédio numa rua mais tranquila, atrás das avenidas. Na fachada, uma placa lembrava que ali tinha vivido le poète portugais Mário de Sá-Carneiro; na recepção, sobre uma mesa, havia um exemplar da fotobiografia do autor, publicada por Marina Tavares Dias em 1988. Inteiramente remodelado, o pequeno hotel - agora Hôtel des Artistes - não podia ter mais interesse para mim. Nada restava de Sá-Carneiro neste bairro falsamente alegre. Abandonei Pigalle com alguma amargura.
Em Outubro de 2015 desloquei-me a Paris para participar num colóquio. Cheguei alguns dias antes e, neste ano marcado pelo centenário da revista Orpheu, tive curiosidade de ver como estaria o Hôtel des Artistes. Saí do metro em Pigalle. Revi a placa na fachada. Entrei, já não avistei a Fotobiografia. O empregado do hotel perguntou-me se eu vinha reservar um quarto. Expliquei o que me levava ali. O empregado achou muito curioso eu interessar-me tanto pelo poète portugais; contou-me que, durante as últimas obras do hotel, tinham encontrado nas águas-furtadas uns papéis que eram peut-être dessa altura, escritos numa língua que ele não percebia, e perguntou-me se os queria ver. Eu disse que sim.
(...) assim também me esperavam, pousadas sobre uma arca antiga na arrecadação do hotel, amarradas por um cordel, amarelecidas pela humidade e pelo tempo, as cartas que Fernando Pessoa escreveu a Mário de Sá-Carneiro entre Julho de 1915 e Abril de 1916.(...)
Mário de Sá-Carneiro suicida-se a 26 de Abril de 1916, tomando vários frascos de arseniato de estricnina. Uma enigmática relação amorosa, a falta de dinheiro (apesar da mensalidade que o pai regularmente lhe enviava de Moçambique) e um insistente fascínio pela ideia do suicídio já tinham levado Sá-Carneiro a planear matar-se no início desse mês. Quando morre, deixa uma dívida no Hôtel de Nice, onde residia. (...)
Admito que é absolutamente inverosímil as cartas de Pessoa estarem pousadas sobre uma arca naquela arrecadação, naquele início duma tarde de Outubro de 2015, no dia em que, por acaso, decidi passar pelo Hôtel des Artistes. Porém, contra toda a inverosimilhança, assim foi. (...)"

Noite

"Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faz da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe,
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos.
Vem, e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida. (...)

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos Humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido (...).

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil. (...)
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,
A lua começa a ser real!"
  • [Poesias de Álvaro de Campos, Ed Ática, Lisboa]

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Gin-Tonic


Última tentação
Então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pera pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustração.
Não há dúvida de que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!


Exageros
O Alfredo atirou o jornal ao chão, irritadíssimo, e virou-se para mim:
- Estes jornalistas! Passam a vida a inventar coisas, é o que te digo. Então não afirmam que, no Sardoal, foi encontrado um frango com três pernas! Vê lá tu! É preciso ter descaramento.
Ajeitou-se melhor no sofá e, realmente indignado, coçou a tromba com a pata do meio.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Merdas

O burgo não vem no mapa, mas tem uma escola secundária e outra profissional. E a juventude, recentemente púbere, senta-se na esplanada ao fim da tarde.
Elas mal se diferenciam deles. Uns picam em écrãs, outros nem isso. E a maior parte são gordos, quando não obesos, devorando o que o mercado lhes oferece: pacotes, churritos, milhos, refrigerantes, merdas.
A pátria um dia vai vê-los partir, a trabalhar mundo além. E se ela os não lamentar, eu também não.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Um regalo

Fazem-lhe a festa no último domingo de Maio, está aí à porta. Porque a igreja católica nunca brincou em serviço, quando se tratou de ocupar os lugares antigos que há séculos o povo frequentava.
Aqui ao lado nuns fraguedos houve um castro pré-histórico, as evidências são muitas. Há sepulturas antropomórficas de tempos imemoriais. E mais além num outeiro, houve um posto de vigia, quem sabe se dependente do castro de Casteição.
Mas a santa está ali, na capela onde passou o Inverno. Já não é a santa original, que dava chuva quando lha pediam e agora fazia falta. Mas um dia vieram cá os dos Gatos e roubaram-na. Porém os de Casteição assaltaram-lhes a igreja e trouxeram-na para cá. E cá a têm. Puseram uma santa nova na capela, que não dá chuva sempre que lha pedem, nem guarda a virtude original.
O povo vai festejá-la à entrada do Verão. Prende-a no andor, leva-a a passear, areja-a. E a santinha, mesmo falsa, fica toda regalada.