segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Textos de luxo, que o tempo não oxida

Fica aí mais um excerto:
«(...) ordeno que a todos os corregedores do reino se mande que reúnam e enviem para Mafra quantos operários se encontrarem nas suas jurisdições, sejam eles carpinteiros, pedreiros ou braçais, retirando-os, ainda que por violência, dos seus mesteres, e que sob nenhum pretexto os deixem ficar, não lhes valendo considerações de família, dependência ou anterior obrigação, porque nada está acima da vontade real, salvo a vontade divina, e a esta ninguém poderá invocar, que o fará em vão, porque precisamente para serviço dela se ordena esta providência, tenho dito.
Ludovice acenou a cabeça gravemente, como quem acabasse de verificar a regularidade duma reacção química, os secretários escrituraram velocíssimas notas, os camaristas entreolharam-se e sorriram, isto é que é um rei, o doutor Leandro de Melo estava a salvo desta nova obrigação porque na sua comarca já não havia quem trabalhasse em ofícios que não servissem o convento, por via directa ou indirecta.
Foram as ordens, vieram os homens. De sua própria vontade alguns, aliciados pela promessa de bom salário, por gosto de aventura outros, por desprendimento de afectos também, à força quase todos. Deitava-se o pregão nas praças, e, sendo escasso o número de voluntários, ia o corregedor pelas ruas, acompanhado dos quadrilheiros, entrava nas casas, empurrava os cancelos dos quintais, saía ao campo a ver onde se escondiam os relapsos, ao fim do dia juntava dez, vinte, trinta homens, e quando eram mais que os carcereiros atavam-nos com cordas, variando o modo, ora presos pela cintura uns aos outros, ora com improvisada pescoceira, ora ligados pelos tornozelos, como galés ou escravos. Em todos os lugares se repetia a cena, Por ordem de sua majestade vais trabalhar na obra do convento de Mafra, e se o corregedor era zeloso, tanto fazia que estivesse o requisitado na força da vida como já lhe escorregasse o rabo da tripeça, ou pouco mais fosse que menino. (...)
Corriam as mulheres, choravam, e as crianças acresciam o alarido, era como se andassem os corregedores a prender para a tropa ou para a Índia. Reunidos na praça de Celorico da Beira, ou de Tomar, ou em Leiria, em Vila Pouca ou Vila Muita, na aldeia sem mais nome que saberem-no os moradores de lá, nas terras da raia ou da borda do mar, ao redor dos pelourinhos (...)».
(Memorial do Convento, José Saramago, Ed. Caminho, Lisboa 1982)

domingo, 15 de janeiro de 2017

sábado, 14 de janeiro de 2017

Mercedes Sosa

Quando a voz mais funda dos povos se faz ouvir...

Lev Tolstoi

Prefácio:
Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte?
Lukacs, por exemplo, defendia a segunda hipótese, contrapondo o Llanto por Ignacio Sanchez Mexias, de Federico Garcia Lorca, como o grande texto acerca do fim. Embora eu concorde com parte dos argumentos de uns e outros é um tipo de discussão que só academicamente me interessa: a morte de Ivan Ilitch é ambas as coisas e transcende tudo isso, para se tornar o retrato implacável da nossa condição: não há sentimento que nele não figure, não há emoção que não esteja presente. Tudo o que somos se acha em poucas páginas, escrito de uma forma magistral.
Li-as, maravilhado, umas vinte ou trinta vezes, continuarei a lê-las, maravilhado, até ao fim dos meus dias. Maravilhado, exaltado, comovido, a perguntar-me como é que ele conseguiu. E conseguiu. Reparem no que Tolstoi faz com as palavras e como nos retrata, de corpo inteiro, no mais íntimo de nós mesmos.
António Lobo Antunes
Há palavras tão perfeitas, tão exactas, que temos que dar a volta ao mundo antes de as poder ouvir!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Papa Haydn

Nunca foi indispensável que os poderosos se dessem à trabalheira de produzir arte, sempre lhes bastou pagá-la para dela poderem usufruir. 
Ao tempo em que Napoleão andou pela Áustria, Haydn vivia nos arredores, ao serviço dos serões do palácio da família Esterhazy. 
Os logradouros do palácio eram empedrados, e neles produziam as ferraduras dos cavalos um grande estardalhaço.
Napoleão ordenou que as patas dos cavalos fossem protegidas durante as manhãs, para evitar que a tropeada perturbasse o papa Haydn, como lhe chamava. 
É que nem no paraíso terreal a vida foi de outro modo!
(3º andamento da sonata para flauta e piano)

Who cares?! - diz o palhaço rico pintado de amarelo, a entrar na Casa Branca.

Três falhanços do negro Obama são a imagem da América verdadeira:
- Não conseguiu fechar Guantanamo, essa papaia podre que vai cheirar mal nas mãos do Ocidente;
- Não partiu os dentes à NRA, que mantém à cintura da América 350 milhões de armas, ligeiras e mais pesadas;
- Não deu saúde a 50 milhões de americanos, que não têm meios de pagar um seguro.
Porém, who cares?!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017