quinta-feira, 21 de junho de 2018

País fodido

Há dias fui à cidade, comprar umas calças de verão para esconder as vergonhas. O carro era uma barcaça da Índia, grande com´ó caraças. Estacionei-o dez minutos perto da loja, e quando voltei tinha uma multa no vidro.
A papeleta da multa mandava-me comparecer na esquadra da polícia. E eu lá fui, no dia seguinte, para evitar males maiores. Parei a um quilómetro da esquadra, numa cidade atravancada de latas ferrugentas. Mas consegui lá chegar.
O agente informou-me que o assunto era tratado na esquadra da GNR, na estação dos comboios. Eles é que sabiam se a infração me custaria trinta, ou sessenta euros. Dependia da quantidade de passeio ocupado pela viatura.
Eu não fazia ideia onde era a GNR, e tinha mais que fazer do que andar à procura dela. De modo que optei por mandá-los foder e fui à minha vida.

terça-feira, 19 de junho de 2018

E assim foi

Ensonado, o rouxinol dormiu numa videira. Durante a noite uma gavinha cresceu e prendeu a pata do rouxinol. Para se ver livre, o rouxinol virou-se para a virgem e logo ficou solto.
Porém sujeito a repetir toda a noite no silvado: Nossa senhora disse, disse, disse, que não dormisse, que não dormisse, que não dormisse… E assim foi!

domingo, 17 de junho de 2018

Favas

No rés-do-chão a estação de correios ainda lá está. E no 1º andar havia quartos para dormir, num tempo em que mais nada havia. Passei aqui uma noite.
Ao lado passava a linha do comboio, e ainda passa. Os comboios, sempre retardatários, são iguais aos que trouxeram o Jacinto, que vinha de Paris a Tormes. Na essência, nada mudou, nem as favas!

terça-feira, 12 de junho de 2018

Muito a propósito...

Neste troço de estrada uma placa limita os 50 Kms. E eu não consigo imaginar a velocidade a que passou o grande filho da puta que atropelou este gato. Tinha que ser.
O bicho ficou estendido no alcatrão. E o condutor foi depressa para casa estender os pés à lareira, porque o cabrão do inverno veio para ficar. Como tudo o que é mau!

terça-feira, 5 de junho de 2018

O marrafinha

O pai tinha partido para a África longínqua, a cumprir um destino que era o mesmo, desde há séculos. E nunca mais deu sinal de vida. Os três ganapos ficaram nas mãos da mãe, que era tecedeira, e pouco tinha para lhes dar além da fome.
O garoto foi servir como pastor para uma aldeia distante, e a patroa aviava-lhe a merenda numa meia das dela. Ele aguentou-se algum tempo. Mas um dia fartou-se, abandonou o gado e regressou a casa. Chegou ao fim de três dias.
Alguém o encaminhou para Matosinhos, onde foi servir de marçano numa loja. E tudo quanto podia mandava-o para casa, para ajudar a mãe e os irmãos. O tempo em que ele próprio ensaiaria as aventuras de África ainda vinha longe. Mas já estava traçado.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Arroz de chabéu

No labirinto dos Bijagós havia a ilha de Bubaque. Era uma estância balnear improvisada que permitia um dia ou dois de folga: nos alertas, nos bombardeamentos, na fuga aos Strela russos, naquele absurdo todo.
Em Bubaque instalara-se um cabo-verdeano que mantinha alojamentos primários e cozinhava um excelente arroz de chabéu. O chabéu eram as bagas das palmeiras e davam ao cozinhado o tom amarelado do açafrão. Um tinto do Cartaxo, que vinha em garrafões, compunha o repasto.
Isto foi assim há muitos anos. Tão absurdo que mal dá para acreditar, mas foi.