terça-feira, 21 de novembro de 2017

Se tivesse sido um bicho...

Quanto mais tempo passa por mim e eu por ele, quanto mais oiço e conheço das esquecidas artes musicais; mais funda é a  minha convicção de que Johann Sebastian Bach foi um génio. Se tivesse sido um bicho, era um gato.
Pois que o protejam os deuses, e nos dêem a nós ouvido e tempo para o usufruir.

O último maçarico-esquimó

No longínquo Natal de 1977 fui presenteado em Berlim com a edição alemã desta novela notável, do biólogo canadiano Fred Bodsworth, falecido há uns anos. Como ela nunca existiu em versão portuguesa, traduzi-a mais tarde. E um dia decidi com um amigo proceder a uma edição feita por uns italianos.
É belíssima literatura para ambientalistas, espíritos preocupados com a extinção das espécies e outros leitores exigentes.

"Viaja sem descanso, do Árctico para Sul, levado pelo desejo de encontrar uma companheira. Luta encarniçadamente com o frio e a neve, com a chuva e os temporais, vence o Atlântico num voo ininterrupto de 60 horas, recobra novas forças no Orinoco e avança, procurando sempre, até à Patagónia. Mas o Verão passa e ele continua sozinho. E quando a esperança já quase lhe morreu aparece a desejada. Saúdam-se, entusiasmados, e iniciam juntos o regresso a casa. (...)".

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Licas

O Licas é o amigo mais composto que já fiz no autocarro. Logo que chego à paragem lá vem ele oferecer-me o pato de borracha, a melhor prenda que  tem.
Traz sempre o mesmo casaco, mas não cheira a mofo antigo nem a tabaco frio. Nunca empata o corredor, nem abusa do espaço do parceiro com a vastidão das cadeiras. Não se fica a ruminar a chicla de boquinha aberta. Não se enfeita com pregos nas orelhas, a ver se inventa uma personalidade. Não clama contra os políticos, que são todos uns ladrões. Não pára em segunda fila, nem avança no semáforo o seu Porsche Cayenne, obrigando o autocarro a uma travagem brusca. Nem se põe a publicar, em alta voz, as histórias da cunhada, que é uma cabra.
A dona do Licas apareceu esta manhã por trás da sebe, a compor o cinto do roupão. Vinha dizer-me que o bicho tem seis anos e que não se chama assim. Mas nem ela sabe do que fala nem é para aqui chamada.

domingo, 19 de novembro de 2017

Identidade

O meu cartão de identidade militar deixou de existir, basta-me um cidadão.
A licença de porte de arma depende agora dos critérios subtis dum agente da PSP.
A única coisa que resta é um cartão de saúde de reformado, pago a 3,5% mensais do valor da reforma.
É como se não tivessem existido anos de aviador em várias Áfricas, tão contingentes e perigosos como ficou visto.
Cá por mim, estes políticos futricas podem ir tranquilamente à bardamerda!

sábado, 18 de novembro de 2017

Sinais

Agora sei que ela passou, que os deuses dela a acolheram e a protegem.
Era uma noite sonhada, álgida, fria, estava ele deitado numa estranha cama e eu ao lado.
Ela chegou, abriu a porta e trouxe um riso muito doce. Cuidou dele, para mim sorriu.
Foi uma luz que entrou, e apaziguou o mundo.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Bijagós

Em Bubaque havia uma baía e uma praia. E um cozinheiro cabo-verdiano que servia arroz de chabéu.
O arroz era das bolanhas da Bambadinca, e o chabéu eram os frutos das palmeiras. O resultado era um manjar dos deuses.
Eu tinha sofrido uma hipóxia mofina, que um regulador preguiçoso me causara. E se não tivesse atrás de mim o Vasquez que me levou para o chão, as coisas podiam ter sido bicudas. Que o chabéu, só por si, não faz milagres.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Ingombota?!

"Auá!, nem a gente toda que está trabalhar lá na barragem ia encher essas ruas. O menino fala ali é o largo da Mutamba, mas não pode. Verdade que era ainda monandengue, mas lembrava bem esses tempos com as suas amigas da Ingombota, desciam até aos Coqueiros. Onde que estava o jardim com a estátua sem pessoa? E as grandes mulembas?"
Do que se trata aqui é de saber qual é a cidade onde existe um Largo das Ingombotas. E o que será ele isso.
As escolhas não são muitas.