segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Feira d'ano

Nesse tempo a feira de S. Bartolomeu durava três dias e era o centro da vida de toda a região. Nela se pagavam as rendas das courelas, se compravam ou se vendiam gados, se levava uma camisa nova, uma blusa de chita para a filha, um par de tamancas para a patroa… Agora a feira dura mais que uma semana. Mostram-se máquinas e carros e artistas e diversões e passeia-se avenida abaixo avenida acima.
Eu era ainda um cachopo, mal me lembro. Estava com a minha avó materna, debaixo dos freixos grandes, e resolvemos comprar um melão que vinha do Ribatejo. Havia ali um monte deles. Mas o que ela comprou já estava tocado e eu refilei:
- Ó avó, este melão metade está estragado! E vai ela, com a doçura que só ela tinha:
- Temos de ajudar a viver o homenzinho, que remédio!
De facto, muito embora não pareça, outro remédio não há.

domingo, 5 de agosto de 2018

Betadine

O homem levantou-se, reuniu os apetrechos de pesca e chamou o filho. De caminho meteu na bolsa uma embalagem de Betadine.
É um pescador inveterado. Mas aprecia a pesca e não os peixes dela. Esses devolve-os à água. Pega no Betadine, lambuza com ele as beiçolas feridas pelo anzol, e lá vai o peixito a rabiar.
O filho acompanha-o, para aprender a respeitar a natureza.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

T'arrenego bicho mau!

Os direitolas andam aí a exigir honras de Panteão aos restos de Sá Carneiro, que deus haja. Não foi ele mais que uma espécie de D. Sebastião, o tal que ficou na história não pelo pouco que fez, mas pelo muito que havia de fazer, se não tivesse morrido tão cedo.
Do mal o menos, bem pior foi a múmia do Cavaco, que andou pelo poder uns belos trinta anos. Um partido como o PPD, (a quem o poder caiu no regaço um dia, graças às graças da santa madre igreja e à cretinice dos eleitores indígenas), só podia presentear-nos com políticos dessa estirpe.
Mas houve aí bem pior! Lembremos só as manobras do pantomineiro Relvas, que levaram ao governo o Passos da Tecnoforma, e uma gaja das finanças que era a ignorância em pessoa, e outra gaja da Justiça que andou a fechar tribunais… T'arrenego, bicho mau!
Os CTT eram uma empresa eficaz e séria. Pois chegou essa canalha, privatizou aquilo, passou tudo a patacos, e hoje em dia é o que se vê. Phoska-se! 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O mulataz

A Aninhas foi com duas irmãs encontrar-se com o irmão, que estava rico no Congo. E um dia deixou-se levar pelas hormonas e achou-se debaixo dum preto. Lá teve um filho mulato. E voltou à aldeia por imposição do irmão, que não queria essas misturas.
O mulataz veio parar à Torre. Porém a Aninhas não queria que lhe chamasse mãe, não fossem os patrícios pensar o que não deviam.
O rapaz cresceu, e como todos os pretos pelava-se pela aguardente dos brancos. Voltava tarde a casa e sempre bêbado. A Aninhas não gostava de o ver nessa figura e não queria abrir-lhe a porta.
- Se não me abres vou dizer que és minha mãe!
A cirrose tomou conta dele e resolveu depressa a maka.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Num país profundo

No deprimido burgo são de notar três coisas:
- abundam os gabinetes de estética, onde as damas pintam coloridas nails de mãos e pés;
- abundam as tascas que servem copos de vinho, onde eles apanham carraspanas;
- e abundam os carros de tripas ferrugentas que os alemães distribuem, apodrecidos pelo sal das estradas de inverno.
O burgo ao lado é ainda mais insignificante, embora os autarcas de agora o tenham promovido a cidade. É um muito antigo cenóbio de frades beneditos, e tem ao meio uma avenida de quilómetro. Lá dentro vive um dentista que tem um Ferrari vermelho, e acelera com ele cá e lá. É que o resto das estradas não serve para aquela máquina.

domingo, 15 de julho de 2018

Fim do dia

Os estorninhos voam como torpedos, mas são poucos. Lembro-me de ver um dia o cume dum cabeço todo pintado de negro.
As pombas migrantes voltaram a aparecer mas os bandos são pequenos. Porque os pombais já ruíram.
As andorinhas vão na segunda criação e alargaram o condomínio do alpendre. Há um terceiro casal que construiu um ninho e se instalou.
Os gatos são os que ficam mais contentes quando me vêm chegar. Põem-se a jogar às escondidas no meio dos agapantos e comovem-me.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Natureza

Devem ser os netos do corvo vaidoso, daquela história do queijo da velha que o tinha a secar ao sol. Andam aqui à beira da represa, na relva onde os pescadores lançam o isco à truta e os banhistas se bronzeiam.
Mas eu vinha era à procura da raposeta, que muitas vezes vem aqui matar a sede. E logo que ela apareceu, os corvos levantaram voo. Não lhes agradava nada ter que repetir a história do avô que era vaidoso.