terça-feira, 30 de agosto de 2016

A Música da Fome

boa América, que gerou a maior crise financeira desde há cem anos, lá segue tranquila. Enquanto a triste Europa, gerida por elites serventuárias da Nato em troca duas migalhas, escraviza hoje os povos europeus, sobretudo os do Sul, através da austeridade.

Da contra-capa: "Publicado em França dias antes de Le Clézio ser galardoado com o prémio Nobel, A Música da Fome é um romance com uma forte carga autobiográfica, onde o autor narra a decadência duma família oriunda da ilha Maurícia exilada em Paris durante os turbulentos anos 30 e a Segunda Guerra Mundial, anos marcados pela inconsciência dos cidadãos e dos políticos, pelo anti-semitismo e pelo sofrimento gerado pela guerra."

O preâmbulo é todo ele um testamento: «Conheço a fome, sofri-a. Criança, no fim da guerra, faço parte dos que correm pela estrada ao lado dos camiões dos Americanos, estendo as mãos para apanhar embalagens de chewing-gum, chocolates, sacos de pão que os soldados arremessam pelo ar. Criança, sinto tanta sede de gordura que bebo o azeite das latas de sardinha, lambo, deliciado, a colher de óleo de fígado de bacalhau que a minha avó me dá para me fortalecer. Preciso tanto de sal que como às mancheias os cristais de sal cinzento do frasco da cozinha.
Criança, comi pela primeira vez pão branco. Não o pão de miolo do padeiro - pão escuro, esse, feito de farinha deteriorada e serradura, que quase me matou quando eu tinha três anos. Antes um pão quadrado, feito numa forma com farinha de força, leve, odorífera, de miolo tão branco quanto o papel em que escrevo. E, ao escrever, cresce-me água na boca, como se o tempo não tivesse passado e eu continuasse intimamente ligado à minha primeira infância. A fatia de pão macio, fofo, que meto na boca e mal a engulo peço mais, mais, e se a minha avó não o guardasse no armário fechado à chave, poderia devorá-lo todo num instante, até me enjoar. Nunca outra coisa me deixou tão satisfeito, não voltei a comer nada que tanto me agradasse, que assim me saciasse a fome. (...)
Esta fome está dentro de mim. Não posso esquecê-la. Contém uma luz intensa que me impede de esquecer a infância. Sem ela, não teria com certeza conservado a memória desses tempos, desses anos tão longos, em que nos faltava tudo. (...)»

A estrutura do romance comporta quatro fases, na vida da família retornada: Na primeira fase, em Paris, Ethel tem dez anos e segue pela mão do tio-avô Soliman, que tem oitenta. Ele foi médico militar no Congo francês. E quando o pai de Ethel morreu, foi Soliman que assumiu o encargo da sua educação. 
A segunda fase é a queda da família na miséria, por erros de Alexandre, o pai de Ethel; é a retirada de Paris para Nice. 
A terceira é a fome e o silêncio colaboracionista do Pétain de Vichy perante a ocupação alemã. 
A última é o adeus à França, o adeus ao passado, o adeus a Paris. É o casamento e a partida de Ethel para o Canadá.

Do texto: «Os últimos compassos do Bolero são tensos, violentos, quase insuportáveis. O som sobe, enche a sala, agora toda a assistência está de pé, olha para o palco onde os bailarinos rodopiam, aceleram o movimento. (...) A minha mãe, quando me contou a estreia do Bolero, falou-me da sua emoção, dos gritos, dos aplausos e dos assobios, do tumulto. Algures na mesma sala, encontrava-se um homem que ela nunca conheceu, Claude Lévi-Strauss. Como ele, muito mais tarde, a minha mãe confiou-me que aquela música mudara a sua vida. 
Agora compreendo porquê. (...) O Bolero não é uma peça musical como as outras. É uma profecia. Conta a história duma raiva, duma fome. (...)»
Discurso de luxo, tradução sem reparos de maior, por Isabel St. Aubin. Editou a Dom Quixote em Julho 2009. Um mimo raro para o leitor.
[Les uns et les autres]

Compte-rendu

Está visto, não aprecio espólios! Acumulei aí numas estantes uns milhares de volumes a que já não voltaria. Empacotei-os e dei-os. Nem me dei à trabalheira de os carregar. Trouxe apenas os que me seriam úteis.
Encontrei fotografias numa caixa. Emoldurei meia-dúzia, uma delas dum grupo que era um curso de pilotos.
Os dois primeiros morreram na Ota, onde íamos às quartas-feiras da nossa pré-história, fazer os primeiros voos. Um deles já era alferes miliciano, tinha umas centenas de horas, voava o Chipmunk muito bem. Tropeçaram nas neblinas duns fios de alta-tensão e não voltaram.
O Barbeitos foi mais tarde, no dinossauro dum T-33 da Ota, em fase mais avançada. O fogareiro apagou-se, havia sinais de fogo, o instrutor ordenou a ejecção. O pára-quedas é que não abriu. E o Barbeitos esmagou-se no solo, sentado numa cadeira que devia estar vazia.
O Pereira era ilhéu, já tinha milhares de horas de helicóptero e dava instrução em Tancos. Treinava aterragens em auto-rotação, ali à vista da torre. Mas foi-lhe passar por baixo um major que tinha pressa, e descolou mesmo do taxi-way. O ilhéu caiu-lhe em cima, tiraram-no lá de dentro era um torresmo.
Do grupo inteiro só um viveria o 25 A a pulmões cheios, com afterburner e pós-combustão. E mudanças de raiz. 
Hoje escreve quando lhe dá na gana, pois quem não tem história não existe. Os espólios dela é que se tornam pesados! Mas já tenho a horta à espera.

António Guerreiro

Ipsilon: Consideracoes-de-um-impotente.
«Na perspectiva dos “analistas” ou “comentadores”, o final do discurso que Passos Coelho proferiu no Pontal é, pura e simplesmente, um arrazoado absurdo, apto a ser parodiado. Mas se o lermos como sintoma de um inconsciente político marcado por uma formação de sentido que se exprime na dicotomia potência/impotência, então esse discurso é cheio de significado. Tem a eloquência do sintoma, da fala sobredeterminada por uma força que o falante não controla. Dessa emergência descontrolada, a parte mais significativa é esta: “Podemos mais do que aquilo que é difícil”. Não é uma afirmação de poder mas de potência, que pode – ou não – passar ao acto. E assim Passos Coelho trouxe involuntariamente à luz, por antífrase, uma questão fundamental da política contemporânea: a questão da impotência. A impotência é o pressuposto que domina a política na sua forma actual de acção gestionária. É porque ela – a impotência política – está hoje no lugar de princípio e nunca tinha sido experimentada com tão elevado teor,  que quem chega precisa de começar por uma declaração de guerra: “Yes, we can”, proferiu Obama; “podemos mais do que aquilo que é difícil”, diz Passos Coelho. É tão importante o princípio da impotência que toda a alternativa passa obrigatoriamente pela conjugação do verbo “poder”, como está bem patente no movimento político espanhol Podemos. Após quatro anos de governação, sabemos hoje muito bem que o “podemos” do ex-primeiro-ministro significa a impotência imposta como estratégia de salvação. Tal impotência política, tornada um amor fati, uma adesão às coisas como elas são, como elas serão e como devem ser (chama-se a isto a “política das coisas”), tem ao seu serviço uma impotência teórica e ideológica (sob a forma do “não há alternativa”) e conduz toda a acção política em obediência a esse princípio, erigido como forma de governação. A impotência foi a grande arma do governo de Passos Coelho, um instrumento que ele utilizou com júbilo, evocando os constrangimentos económicos e financeiros como medida de uma experiência eufórica e redentora da impotência. Já a impotência da Esquerda socialista e social-democrata, em toda a Europa, é de outro tipo: habitada pela má consciência, desenvolveu manhas e argúcias para não deixar que o “podemos” pereça,  impotente e sem glória. Esta Esquerda gere o binómio poder/impotência por ciclos: dá ares de virilidade na oposição e verga-se ao princípio da impotência – embora fazendo os possíveis por não o admitir  –  quando está no poder. Este sentimento de impotência generalizado, vivido de maneira diferente consoante se trate da Esquerda ou da Direita, traz à ordem do dia um importante neologismo de Artaud: a palavra impoder. E se quisermos pesquisar na tradição literária as formas semânticas e conceptuais que iluminam o nossos tempo, talvez o “impolítico” Thomas Mann, o das Considerações publicadas em 1918, seja uma figura obrigatória. É certo que devemos desconfiar e ser muito prudentes no exercício que consiste em traçar analogias explicativas entre uma época passada e o presente. Mas a “revolução conservadora”, em cuja constelação se inscreveu Thomas Mann, na sua primeira fase de escritor, projecta-se com alguma verosimilhança num tempo que é o nosso. São do “impolítico” Thomas Mann estas palavras: “A antipolítica é também ela uma política, já que a política é uma força terrível: basta apenas saber que existe e já estamos dentro dela, perdemos para sempre a inocência”. Acrescentemos: a impotência política é também ela um poder terrível.Considerações dum impotente".
«Na perspectiva dos “analistas” ou “comentadores”, o final do discurso que Passos Coelho proferiu no Pontal é, pura e simplesmente, um arrazoado absurdo, apto a ser parodiado. Mas se o lermos como sintoma de um inconsciente político marcado por uma formação de sentido que se exprime na dicotomia potência/impotência, então esse discurso é cheio de significado. Tem a eloquência do sintoma, da fala sobredeterminada por uma força que o falante não controla. Dessa emergência descontrolada, a parte mais significativa é esta: “Podemos mais do que aquilo que é difícil”. Não é uma afirmação de poder mas de potência, que pode – ou não – passar ao acto. E assim Passos Coelho trouxe involuntariamente à luz, por antífrase, uma questão fundamental da política contemporânea: a questão da impotência. A impotência é o pressuposto que domina a política na sua forma actual de acção gestionária. É porque ela – a impotência política – está hoje no lugar de princípio e nunca tinha sido experimentada com tão elevado teor,  que quem chega precisa de começar por uma declaração de guerra: “Yes, we can”, proferiu Obama; “podemos mais do que aquilo que é difícil”, diz Passos Coelho. É tão importante o princípio da impotência que toda a alternativa passa obrigatoriamente pela conjugação do verbo “poder”, como está bem patente no movimento político espanhol Podemos. Após quatro anos de governação, sabemos hoje muito bem que o “podemos” do ex-primeiro-ministro significa a impotência imposta como estratégia de salvação. Tal impotência política, tornada um amor fati, uma adesão às coisas como elas são, como elas serão e como devem ser (chama-se a isto a “política das coisas”), tem ao seu serviço uma impotência teórica e ideológica (sob a forma do “não há alternativa”) e conduz toda a acção política em obediência a esse princípio, erigido como forma de governação. A impotência foi a grande arma do governo de Passos Coelho, um instrumento que ele utilizou com júbilo, evocando os constrangimentos económicos e financeiros como medida de uma experiência eufórica e redentora da impotência. Já a impotência da Esquerda socialista e social-democrata, em toda a Europa, é de outro tipo: habitada pela má consciência, desenvolveu manhas e argúcias para não deixar que o “podemos” pereça,  impotente e sem glória. Esta Esquerda gere o binómio poder/impotência por ciclos: dá ares de virilidade na oposição e verga-se ao princípio da impotência – embora fazendo os possíveis por não o admitir  –  quando está no poder. Este sentimento de impotência generalizado, vivido de maneira diferente consoante se trate da Esquerda ou da Direita, traz à ordem do dia um importante neologismo de Artaud: a palavra impoder. E se quisermos pesquisar na tradição literária as formas semânticas e conceptuais que iluminam o nossos tempo, talvez o “impolítico” Thomas Mann, o das Consideraçõespublicadas em 1918, seja uma figura obrigatória. É certo que devemos desconfiar e ser muito prudentes no exercício que consiste em traçar analogias explicativas entre uma época passada e o presente. Mas a “revolução conservadora”, em cuja constelação se inscreveu Thomas Mann, na sua primeira fase de escritor, projecta-se com alguma verosimilhança num tempo que é o nosso. São do “impolítico” Thomas Mann estas palavras: “A antipolítica é também ela uma política, já que a política é uma força terrível: basta apenas saber que existe e já estamos dentro dela, perdemos para sempre a inocência”. Acrescentemos: a impotência política é também ela um poder terrível.»

segunda-feira, 29 de agosto de 2016