sábado, 10 de dezembro de 2016

Tarde

Um bom pivot da televisão - o orelhudo é um exemplo excelente - diria sorridente: "a Lapa teve uma tarde solarenga!"
Aqui se corrige, como se valesse a pena: "a Lapa teve uma tarde soalheira!"
Isso é o que devia ser dito. Porque são coisas diversas!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Viajantes

Da excelente Viagem a Portugal, transcreve-se a chegada de Saramago à Guarda:
«Se o viajante fosse a exame, sairia reprovado. Exame de viajante, entenda-se, que outros, talvez sim, talvez não. Chegar à Guarda passada a uma da manhã, a um sábado, isto em Março, que é alta estação de neve na serra, e confiar no patrono dos viajantes para lhe ter um quarto vago, é incompetência rematada. Aqui lhe disseram que não, além ninguém veio abrir, acolá nem vale a pena tocar a campainha. Voltou ao primeiro hotel, como é possível, tão grande edifício e não haver sequer um quarto. Não havia. O frio, lá fora, era de transir. O viajante podia ter pedido a esmola dum sofá na sala de espera, para esperar a manhã e um quarto despejado, mas sendo pessoa com o seu orgulho entendeu que esta sua tão grava imprevidência merecia punição, e foi dormir dentro do automóvel. Não dormiu. Envolvido em tudo quanto podia fazer vezes de agasalho, trincando bolachas para enganar o apetite nocturno e aquecer ao menos os dentes, foi a mais mísera criatura do Universo durante as longas horas do seu pessoal Inverno polar. Estava clareando a manhã, dificilmente clareando, e o frio apertava, quando foi posto em terrível dilema: ou humilhar-se a pedir enfim abrigo na sala de espera tépida, ou sofrer a humilhação de ver os madrugadores espreitarem pelas janelas, a ver se lá dentro estava um homem ou pingente gelado. Escolheu a humilhação mais aconchegada, não se lhe pode levar a mal. Quando enfim, tendo saído muito cedo uma algazarra de espanhóis que tinham vencido esta Aljubarrota, ficou livre um quarto, o viajante mergulhou na água mais quente do mundo, e depois entre lençóis. Dormiu três horas de profundo sono, almoçou e foi ver a cidade. (...»
(Círculo de Leitores e Ed. Caminho, Lx 1985)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O amante de Lady Chatterley

Finais da 1ª Guerra; uma elite inglesa rotinada, humanamente esgotada, exaurida, doente, nos seus feudos industriais e agrícolas. A salvação só pode estar cá em baixo. 
Lady Chatterley (cujo marido, lord Clifford, saiu inválido da guerra), repara um dia no guarda-caça. Nas costas dele que se lava ao ar livre, entre as galinhas. E fica tão perturbada com a visão do tronco masculino, que tem pesadelos nessa noite.
O filme é a descoberta do desejo, da sexualidade, da vida, do prazer, da natureza, da alegria e da energia; e é gradualmente que a Lady mergulha num vulcão que nunca sentiu. Os encontros na cabana evoluem para um relacionamento erótico e sexual intenso, à beira da paixão. É ela que conduz esses encontros, porque o couteiro se coíbe; e ela fá-lo sempre com uma delicadeza extrema.
O patrão, além de ser um déspota, é um cretino altivo e sobranceiro. Um traço de que, ainda hoje, padecem quase todos.
Sobre novela de D. H. Lawrence, 1926, proibido em 1928.

Muxima

Valdemar Bastos. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Fernando Trueba


Fernando é um desertor da guerra civil de Espanha que depois de andar a monte, durante um mês, encontra Don Manolo que lhe dá abrigo e amizade. Com a visita das suas quatro filhas, Don Manolo pede a Fernando para partir. Mas quando este as conhece, muda de ideias. Deixa-se ficar...
Rodado em território português (linha do Oeste), o filme foi vencedor do Oscar da Academia Melhor Filme Estrangeiro 1994. A ver, onde o encontrares: na Fnac, na Feira da Ladra, nos ciganos, que sei eu?!
Versão deficiente, manhosa como é costume, tens aqui.

A gesta gloriosa

Então os generais do Estado Maior promoveram-me a tenente, mandaram-me para Angola e marcaram-me lugar num DC-6. Era o melhor que havia. Dos aviões que me esperavam no Congo não conhecia nenhum. Nunca ensaiara quaisquer manobras de tiro, e tudo o que fizera em Alcochete eram adaptações com granadas de artilharia. As espoletas de percussão rebentavam nas copas da floresta. Por isso as granadas tinham no nariz um longo tubo cheio de trotil. Ia chegar o tempo de aprender.
A partida seria ao fim da tarde e era Maio. Mas adiaram o voo, por um problema qualquer. Eu improvisei uma pensão, não disse nada a ninguém. E fiquei com o dia livre, marcada que estava nova tentativa para a noite seguinte. Passei a tarde na feira do livro, avenida abaixo comprei a Terra de Neve, do japonês Kawabata, e avenida acima as Lendas da Guatemala, do Miguel Ángel Astúrias. Um já tinha o prémio Nobel, o outro estava para o ter. Não poderei afirmar que fui para a guerra mal acompanhado.
O velho quadrimotor descolou à meia-noite, fez tremer o Areeiro, e lá foi pelo mar abaixo, seguindo a rota duns marinheiros antigos. Eu adormeci logo que pude, quando acordei passara o Bojador. Mas um Nobel não se come, e eu sentia a fome dos antigos marinheiros, que também não pensaram no farnel. Quem me valeu ali foi a Mitina, mulher dum companheiro de aventuras, alminha previdente e caridosa que trazia numa bolsa um salame de cacau. Ao romper da manhã aterrávamos no Sal, e constou que havia a bordo uma avaria. Claudicara uma peça qualquer num dos motores, que a TAP nos traria de Lisboa.
As instalações da Força Aérea no Sal eram exíguas, para aquela tropa toda. É certo que lá ao fundo, disfarçado numa duna, havia um hotel de madeira. Mas era espaço restrito das tripulações civis que faziam escala nos Espargos. E foi assim que o velho DC-6 se viu transformado em tenda de campanha.
Na cauda ficava a zona de marinheiros e soldados. À frente havia mulheres, cavalheiros respeitáveis, e crianças, e bebés. Só um restrito grupo de privilegiados encontrou lugar nuns catres disponíveis, que havia na enfermaria. Foi o meu caso, durante dois dias. E quando se levantou aquele acampamento, o avião cheirava a fraldas, a paparocas azedas e a caravelas antigas.
Aterrámos em Bissau a meio duma tarde que era um forno. Fizemos ali aguada, e foi então que me penetrou na alma o eflúvio das calmarias do golfo, que nunca mais me saiu. Anos depois voltaria a encontrá-lo, mas não nos antecipemos, por enquanto ainda é cedo.
Que já estamos em Luanda, e vão mandar-nos para o Norte, para manter os bacongos em respeito. Lá voaremos aviões que nunca vimos, em missões que nunca praticámos. Mas quem nos conhece a História, há-de saber que estamos sempre a tempo.
Passado um ano esmurrei o focinho, quer dizer, bati com as trombas no chão. Literalmente. Passei dois meses numa enfermaria, depois dos médicos terem feito o milagre de não me deixar morrer. E o regresso a Lisboa, a remendar o resto, foi já num avião moderno, que vai num pé e já regressa noutro. Para que se leve até ao fim o faduncho da gesta gloriosa.