quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Abraços de urso

As eleições provocaram estrupido e rasgar de vestes, tristezas muitas, pois natural. E depois vêm as réplicas.
Já o Relvas, de memória má, tinha aproveitado para latir. Mas o que se não imaginava era que, lá dos fundos ensombrados da quinta da Coelha, viesse ainda uma voz cavernícola, de múmia manhosa, a chamar à peluda a cainçada.
Ainda por cima dando como exemplo o exemplo triste duma extinta ministra das finanças, esse espantalho que o vento já varreu.
Cães a ladrar, enfim...
https://www.youtube.com/watch?v=8rTq_AEdCo8

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Menina e Rubinho

Esta menina, com doze anos e três irmãos mais novos, desce pela mão da mãe o portaló dum vapor colonial, na Rocha do Conde de Óbidos. Nasceu e fez-se o que é numa província ultramarina, onde o Verão e a liberdade eram eternos. Hoje acaba de chegar a um país vago e tristonho, num dia de inverno frio, e há-de apanhar um comboio ronceiro, com bancos de madeira, que vai partir para o Norte.
Quando ela chegar ao Porto, estão a dar-se em casa de Rubinho os últimos retoques na árvore de Natal, cuja montagem dura há uma semana.
Daqui a um tempo, quando Rubinho for a férias na Granja, esta menina vai chegar no comboio todas as manhãs, e venderá saquinhas de pipocas pela praia fora, para ajudar a mãe a manter a família. Anos mais tarde, quando Rubinho andar entretido a descobrir a vida no peito acolchoado duma senhora inglesa, há-de afagar a menina as frieiras dos dedos, por causa da água gelada do tanque onde lava a roupa das camas dos hóspedes, para ajudar a mãe a manter a família.
Quando Rubinho for para a universidade, onde estão à espera dele os mestres que lhe hão-de explicar o pensamento dos filósofos, irá esta menina à escola técnica nocturna, porque as horas do dia são para ajudar a mãe a manter a família.
Um dia havemos nós de ler as memórias de Rubinho, e adentrar-nos com ele nos meandros do surrealismo. O que nos valia a pena era aprender a sustentar uma família. Mas o mundo é o que é, se não for antes o que fazem dele.

domingo, 22 de setembro de 2019

Ao sol

Nessa altura viviam em Berlim dez mil chilenos refugiados, mas só conheci dois deles. Eram irmãos, e estávamos os três ao sol dum jardim, muito perto do Berliner Ensemble e do Brecht. Um deles sugeriu ir nessa noite ao teatro, mas achei a proposta impertinente. Como é que se pode acompanhar a intriga, não sabendo da língua uma palavra?!
Eu não conhecia a língua, menos ainda o que um palco nos pode mostrar sem ela. E levaria muitos anos a aprendê-lo. Mais do que eles podiam gastar à minha espera. Dei ao mais novo umas botas que me ficavam escassas, e nunca mais nos tornámos a ver.

sábado, 21 de setembro de 2019

Até pr´ó ano!!!

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Foi então que a comadrona, a mais sabida nestes calendários, decretou que era tempo de partir. 
Lá vai ela! 
As outras foram atrás. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Lembranças

Estavas tão tétrica
Tão meditabunda
Que eu medi-te a bunda
Com uma fita métrica.

(de autor não lembrado)

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Bilitrona

Na altura eu era novato mas lembro-me muito bem. Quando terminei o curso num novo avião, em Monte Real, o comandante informou-me: - Vais ser mobilizado para a Guiné!
Confesso que os joelhos me tremeram. Mas os outros companheiros eram mais novos que eu, que já tinha feito uma comissão. E era preciso render um capitão que já levava uns meses de mata-bicho.
O que por lá se passou é hoje história, salvo um pormenor que o tempo não levou. Em Lisboa não havia coca-cola, que o botas a proibia. Mas em Bissau, logo à saída da base, um cartaz descomunal anunciava: TUDO VAI MELHOR COM COCA-COLA GRANDE!
Que merda é esta?! - rosnaram os meus botões. Viu-se depois, mas era tarde demais.