terça-feira, 15 de agosto de 2017

Pontal

Podia ser uma pontada, que tantas vezes dá até um dia. Mas não. É o Pontal, onde esta cáfila de facínoras se reúne para a entremeada, tentando fazer-se ouvir. Duas mil almas penadas.
Todos os anos é a mesma merda. E o filho da puta do mestre de cerimónias faz por desconhecer que o Siresp foi em tempos aprovado pelo pau-mandado do Daniel Sanches.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

'Tão foi assim!

A dada altura o Guterres, bom espírito mas mau governante, declarou o pântano e foi-se embora. Com ele foi o Sócrates, seu ministro, que resolveu depois ir a Paris, buscar à Sorbonne os trunfos intelectuais que não tinha. E quando voltou tinha à espera a matilha das leis, essa corporação sinistra, para lhe tratarem da saudinha.
O PS ficara nas mãos de Seguro, um comparsa juvenil do Passos Coelho em vários objectivos. E foi altura de entrar em acção essa eminência intelectual do Relvas, que viera analfabeto do sertão e em três tempos se fez doutor.
O Relvas tratou de levar o Passos Coelho a São Bento, interrompendo um futuro brilhante no teatro Politeama a voltear zarzuelas. E a certa altura, seguro de que as grandes negociatas passavam pelos municípios, resolveu agir, avançando para uma reforma administrativa.
Foi então que o Rua, de Viseu, depois de açular o povo aos fiscais do ambiente, do alto da Associação Nacional de Municípios Portugueses lhe levantou a voz: vai-te foder e tira as patas daí, porque o lóbi autárquico foi sempre a grande força do PPD. E assim era.
O desgraçado Relvas extinguiu mil e tal freguesias, meteu o rabo entre as pernas e foi tratar da vidinha, como facilitador de negócios. É por onde tem andado, não se sabe bem com que sucesso. Nem interessa.
Voltam agora as autárquicas, enquanto o país arde inapelavelmente. Ninguém sabe ao certo o que fazer dele, enquanto prosseguem as negociatas. O povo emigra. É assim há 500 anos.

domingo, 13 de agosto de 2017

Homem velho e mulher nova dão filhos até à cova!

 
O apressado primarismo indígena resumiu A Cidade e as Serras a umas favas com chouriço em Tormes. E no entanto está lá muito mais que isso. Até a estirpe dos Jacintos ressurgiu da decadência!
Por pouco se diria que lá cabe metade do nosso séc. XIX, se não toda a nossa história. Que o resto pouco contou, e muito menos conta.
 
"(...) O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:
- Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim amarelado e enfezadito, porque... Que quer Vossa Excelência? Malcomido! muita miséria... Quando há o bocadito de pão é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!
Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
- Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome? (...)".

sábado, 12 de agosto de 2017

Verão

Publicado há meia dúzia de anos, mais parece que foi hoje. Nem o linguajar francês de além-Pirinéus mudou de acento. 
" (...) Saudoso já de alguma realidade, vai acabar o seu dia na feira, onde anda tudo numa roda-viva em azáfamas de última hora. Já está montada a tômbola das rifas, à entrada, para distribuir ursinhos de peluche e batedeiras eléctricas a quem acertar na lotaria.
Logo depois vem o poço da morte, andam a acabar-lhe a escadaria. Entre braços de carrocéis voadores , pistas de engenhos de choque e as diversões costumeiras, sente o viajante a falta dos espelhos aldrabões da sua infância distante, e do comboio fantasma, e da rampa do canhão. Terão passado de moda, que já estão aqui as quinquilharias de plástico, e as barracas das bonecas matrafonas que vieram das fábricas chinesas, e os colares e os couros e as missangas que chegaram do Magrebe. Há balcões ambulantes de churros e farturas, e está pronta a exposição dos automóveis, tanto novos como usados. E também a das máquinas industriais e agrícolas, que tanta falta fariam nesses campos. (...)"
[Portugalmente, Peregrinação da Lapa a Riba-Côa, Jorge Carvalheira, Lx 2012, pág. 137]

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Feira de Agosto

Há um sobressalto na paisagem. Do céu fugiu a cor. A brisa bate à porta. Vem entrando Saturno, o melancólico.

Jordi Savall

Folías de Espanha. https://www.youtube.com/watch?v=5Frq7rjEGzs

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Primavera indecisa

Tenho à espera a Feira Cabisbaixa atrás dum microfone, a Feira do O'Neill, a feira de nós todos, que um cego encomendou à biblioteca sonora. Mas encontro no jardim de São Lázaro a Primavera a hesitar.
As camélias já andam pelo chão e a Primavera a hesitar, incham os botões dos rododendros e a Primavera a hesitar, os rebentos das tílias a explodir e a Primavera a hesitar, os velhos da sueca, são quinhentos, a improvisar a banca e a Primavera a hesitar,  a mimosa das coxas tentadoras a faltar-me no passeio o riso quotidiano, bons-dias
mimosinha, e os dentitos de marfim, o drapejar da pestana, o peito da mimosa a faltar-me os olhos, as formas arredondadas a morder-me no ventre e os pombos num badanal, a mulher desdentada a pedir-me um cigarro, a levar dois para a amiga encostada na esquina, a solicitar-me o favor dum lume, a mesura brejeira a agradecer-me, a aventurar se gosto de ir ao quarto e eu a dizer-lhe que não, um trunfo a cair na mesa a esquartejar a manilha e os pombos amotinados, e a mimosa que lá vem dobrando a esquina num riso de Gioconda a tentar-me de longe, os pés que já não comando na direcção dela, um instinto a farejá-la, a correr-lhe a garupa, o flanco acolchoado, o lago misterioso, quanto vale o teu riso, mimosinha, a Primavera ainda a hesitar e eu a deslizar-lhe a nota na palma acetinada, um roçagar de leve, uma aflição de seda...
E vou-me então à Feira Cabisbaixa, à Feira do O'Neill, à feira de nós todos, que um cego precisa dela, e a Primavera enfim se decidiu.
(a publicar)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Controlanços

Desde que os filhos da puta que mandam na Internet me forçaram a migrar do Windows 7 para o Windows 10, perdi 80% das capacidades na utilização desta selva.
A verdade é que só preciso dela para receber correio electrónico e alimentar um blogue pré-histórico, e cá me vou arranjando.
Mas se o que eles pretendem é controlar as coisas, bem podiam dedicar-se a controlar a puta que os pariu. Estou certo que já lhes dava muito que fazer.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Jorge de Sena, Camões e outros exilados 1

No dia 10 de Junho de 1977 Jorge de Sena foi convidado para fazer, numa escola secundária da Guarda, o discurso de celebração das comunidades portuguesas.
Foi um discurso notável, com variados ecos na cidade. Mas caiu no mais absoluto silêncio para lá do termo dela.
E como não?! Se nunca se ouviu falar deste Camões e deste Portugal aos catedráticos dele!

"É para mim uma honra insigne ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões e ao dedicar-se o Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões e de residente no estrangeiro.
Com efeito, em 1978 cumprem-se 30 anos sobre a primeira vez que em público me ocupei de Camões, iniciando o que tem sido um contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno, que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor e feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal. (...)
Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua, que é uma das seis grandes línguas do mundo, e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu, ele é uma pedra de toque para portugueses, porque tentar vê-lo como ele foi, e não como as pessoas querem que ele seja, é um escândalo. (...)
Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar - aqueles emigrantes que eu tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. (...)
Seja o que seja continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959 (...).Democrata como sou, não falo em nome de ninguém sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa - um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas - deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta sob a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. (...)"

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sazonalidades

Cercado pelas muralhas que o rei Lavrador mandou erguer há muito, o burgo só teve vida a sério há 500 anos, quando os judeus expulsos de Castela o fizeram viver enquanto cá estiveram.
No séc. XIX sofreu alguns sobressaltos, quando o excesso de população indígena fez reviver a feira de São Bartolomeu, que durava três dias e regia a vida toda da província.
Hoje tem outra vez um simulacro de vida durante o mês de Agosto, quando a ele regressam quantos trabalham na Europa. Isto enquanto se casam e descasam.
É então que os restaurantes não têm mãos a medir, nem chegam para as encomendas.

domingo, 6 de agosto de 2017

Só lendo

 
Romance da última fase do Eça, publicado em 1899, um ano antes da sua morte.
Se não tivesse sido cônsul por esse mundo (Havana, Inglaterra, Paris) nada do que Eça criou em literatura teria existido. Ficaria soterrado na indigência miguelista indígena.
O leitor ainda hoje encontra aqui um verdadeiro pitéu. Só lendo!
"(...) Desventurado Príncipe! (Jacinto) Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava então pelas salas (do 202 dos Campos Elísios),lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afeições e sem ocupações. Estes desafeiçoados e desocupados passos monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, à Biblioteca de ébano, onde acumulara Civilização nas máximas proporções, para gozar nas máximas proporções a delícia de viver. Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe solicitavam as mãos, enterradas nas algibeiras das pantalonas de seda, numa inércia de derrota. Anulado, bocejava com descoroçoada moleza. E nada mais instrutivo e doloroso do que este supremo homem do séc. XIX, no meio de todos os aparelhos reforçadores dos seus órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as forças Universais, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos séculos - estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de viver"." (pág.74)

sábado, 5 de agosto de 2017

The horror! The horror!

 
Está lá tudo: os crimes da guerra do Vietname, os erros dos franceses em Diem Bien Phu, a borracha do seringal brasileiro, o atoleiro que não acha fim. Só não vê quem não quer ver, que é o mais fácil.

 
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Verduras

 
"Somos só verdes vimes que um vento verga."
Quem isto disse, a páginas 55 desta obra, foi um capelão militar católico, personagem trágica que usou aqui voz poética mais que profética.
Vezes há em que os deuses põem em vozes humanas o que eles próprios não querem dizer.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Curadores e criadores

Uns curam, outros criam, é a função que lhes compete a todos. Porque a uns chamaram curadores e a outros criadores. E o fundamental nisto é o que se diz, muito mais do que se faz.
À sombra do Eça (um bom avatar convém sempre!) juntam-se assim uns e outros. Inventa-se um festival, o povo quer é pitança, o sucesso é garantido.
Não sei bem se foi o Camarneiro ou outro da mesma laia, que eles são todos parecidos. Uns põem o Parati feminino a soluçar, outros pedem colo porque o pai um dia lhes faleceu, a comoção é enorme. E a vida segue.
"A gastronomia é bastante presente, sobretudo nos meus últimos livros. Desde os meus primeiros livros que se come muito. Quando um prato resulta particularmente bem, se calhar predispõe-me depois a criar. Uma boa refeição e um bom vinho ajudam-me a lançar para a escrita."
Podia-lhes dar para muito pior, verdade seja dita. E a literatura, a arte... que merda afinal vem a ser essa?!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Micro-histórias do Fernando Venâncio, farto de aturar gajos prolixos

O ouvinte de si próprio

Nunca chegou à voz, menos ainda ao palco. Ignora como a genial piada soaria em boca alheia.
Vez por outra, ouvem-no gargalhar, alta noite. "Mais um com os copos", pensam, e às vezes dizem.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dona Elvira

Não sei onde é que ele foi buscar o vezo de fura-bolos. Mas tinha-o. Nem sei onde é que foi desencantar o apelido de Guinemer.
Um dia previu a falência dos moleiros milenares, que usavam a mó alveira para fazer farinha. E construiu a moagem, movida a gasóleo, para a farinha não faltar. Depois a farinha começou a vir de longe, em sacos, e ele foi para a África.
Dona Elvira estava casada com ele, e todos os dias subia a ladeira da Sobreposta para ir dar escola a Casteição. Ao fim da tarde descia e regressava a casa.
Quando o Guinemer partiu para a África, foi com ele. Até se saber mais tarde que acabou debaixo dum tractor, que um preto fez empinar e cambulhou.
A Dona Elvira só voltou na ponte aérea de 75, uma coisa que nunca aceitou bem.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Curtos

Outono

Caem as folhas. Devagar. Aplicadas. Mas isso nem é o pior. Caem, também, os livros dos amigos na caixa do correio.
Trazem um abraço, às vezes beijos, e mesmo algum (sim, nunca fiando) protesto de amizade. Depois, pelas entrelinhas (falo ainda da dedicatória), a lembrança de quão agradável leitor vou ser.
Gosto do Outono. Mas não assim. Para ler os amigos, roubo no cinema, roubo no sono, roubo na preguiça. Chego à Primavera lido mas definhado. Houve momentos de suave aperto, de doce amargura. Mas pouco ri, muito pouco, não é mal lembrá-lo.
Os amigos não têm piedade. E, hão-de ver, para o ano voltarão, os sacanas, como se nada tivessem conseguido.
Fernando Venâncio

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em boa hora

Há muitos anos, no Porto, fiz trabalho voluntário no armazém do Banco Alimentar, ali a Perafita. Ainda acreditava em gambozinos, pus-me a jeito.
O armazém recebia camiões de latas (tomate, frutas e leguminosas) que chegavam de Alcobaça. E sempre que uma lata era maltratada na cadeia de enchimento, acabava rejeitada.
A empresa disponibilizava todo esse material, que lhe aligeirava os impostos. Por isso o levavam a Perafita.
Logo à entrada do grande portão do hangar havia o Tarrafal. Era um espaço murado de alta rede, onde iam parar estes e outros donativos. Que só eram postos à disposição das instituições consumidoras quando eram libertados pelo responsável do Tarrafal.
Encostadas à altíssima parede, empilhavam-se paletes de embalagens que aguardavam a triagem. Mas numa manhã, um dia...
Não sei donde me chegou a inspiração. Parei o trabalho, saí do Tarrafal, e fui ter com a máquina de café que estava lá ao fundo, num desvão.
A certa altura ouviu-se um terramoto, um sobressalto, o que foi, o que não foi... Era uma rima de paletes de 500 kgs que tinha desabado, mesmo no sítio em que eu estava a trabalhar.
Olhei para aquilo, falei com o Vasco António, e nunca mais entrei no Tarrafal. Ofereci-me como leitor, na sonora de São Lázaro. Em boa hora!

domingo, 23 de julho de 2017

O quê?

Se não existisse música e pintura e poesia, a arte para que servia?
O que é que um homem fazia?

quinta-feira, 20 de julho de 2017

País?! O caralho! Uma seita!!!

Toda a gente sabe o que nunca foi segredo: o PPD estaria hoje a dormir sossegado nos braços do fascismo, se a história lhe não tivesse caído, de escantilhão, no colo.
Mas caiu. E o PPD adaptou-se, ajustou-se, aggiornou-se, sempre à medida das necessidades. Veja-se o caso de Manuel Pinto.
Chegou a ter previsto o Finalmente Hotel, no terreiro das freiras de Trancoso. Mas os fundos para construir o hotel foram parar a outro lado, e o Pinto desistiu. Chamou o Cavaco e abriu o lar dos velhos no Reboleiro.
Agora rebenta a bronca: o genro dele, advogado mestre de vigaristas, fingiu a morte num acidente de jeep, fingiu uma cremação inexistente e fugiu para o Brasil. O que vem a seguir está na telenovela em marcha. Basta ir vendo os média da corda, porque nem é preciso  imaginação.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Lições dos bichos

Um adulto na Polónia

As cegonhas brancas de S. Pedro já partiram: a da torre sineira, a dos freixos altos, todas. Comeram os sapos-conchos que havia nas redondezas, deram carta de alforria aos filhos e lá foram. Até ao ano que vem.
Os casais são irrepreensivelmente fiéis, uma vez acasalados nunca mais se separam.
Contava-se mesmo o caso, numa aldeia lá para a Europa de Leste, em que uma fêmea se feriu numa asa, impedindo-a de voar. Quando lhes chegou o tempo, o macho partiu e a fêmea ficou na aldeia.
Os camponeses protegeram-na durante o longo inverno, e ela esperou até que o macho voltasse. Fizeram criação e ele voltou a partir. E ela voltou a ficar.
Por certo hoje já nenhum deles existe. Ficou a lenda, o exemplo, a edificação.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Máquina de fazer espanhóis

Vou à estação de comboios esperar alguém que chega. E lá acaba por chegar, com uma hora e tal de atraso. Volto a casa a altas horas.
A solução aqui é tornar-nos espanhóis. Basta perguntar ao Hugo-Mãe como é que funciona a máquina de os fazer. Porque isto assim não é vida que chegue a netos!

domingo, 16 de julho de 2017

Texto curto

Maré-vaza

Gostava muito dele e ainda gosto, que havemos de fazer do coração. Durante um ano foi quem me matou a fome. Saíra um dia do Porto Brandão e fez-se um homem, nascido de pescadores.
Hoje trabalha as mil figuras que há na pedra, habita num palacete com robínias muito antigas, navega num iate às costas do Brasil. Sou o primeiro marítimo da família que não sai para o mar a ver se mata a fome. 
Eu gostava muito dele e ainda gosto. Mas pica-me no olfacto um travo de maré-vaza, quando vou ali ao Parque dos Poetas.

Primavera indecisa

Tenho à espera a Feira Cabisbaixa atrás dum microfone, a Feira do O'Neill, a feira de nós todos, que um cego encomendou à biblioteca sonora. Mas encontro no jardim de São Lázaro a Primavera a hesitar.
As camélias já andam pelo chão e a Primavera a hesitar, incham os botões dos rododendros e a Primavera a hesitar, os rebentos das tílias a explodir e a Primavera a hesitar, os velhos da sueca, são quinhentos, a improvisar a banca e a Primavera a hesitar, e a mimosa das coxas tentadoras a faltar-me no passeio, o riso quotidiano, bons-dias mimosinha, e os dentitos de marfim, o drapejar da pestana, o peito da mimosa a faltar-me nos olhos, as formas arredondadas a morder-me no ventre e os pombos num badanal, a mulher desdentada a pedir-me um cigarro, a levar dois para a amiga encostada na esquina, a solicitar-me o favor dum lume, a mesura brejeira a agradecer-me, a aventurar se gosto de ir ao quarto e eu a dizer-lhe que não, um trunfo a cair na mesa a esquartejar a manilha e os pombos amotinados, e a mimosa que lá vem dobrando a esquina num riso de Gioconda a tentar-me de longe, os pés que já não comando na direcção dela, um instinto a farejá-la, a correr-lhe a garupa,o flanco acolchoado, o lago misterioso, quanto vale o teu riso mimosinha, a Primavera ainda a hesitar e eu a deslizar-lhe a nota na palma acetinada, um roçagar de leve, uma aflição de seda...
E vou-me então à Feira Cabisbaixa, à Feira do O´Neill, à feira de nós todos, que um cego precisa dela, e a Primavera enfim se decidiu.

[A publicar]

sábado, 15 de julho de 2017

O Garré, isso o que é?!

Assucede! Venho para casa tarde e a más horas, e oiço o pivot da rádio 2 falar do festival do Garré, não sei que mais. Do Garré?! Isso o que é?!
Isto após consumir horas dum tempo precioso a ouvir falar dumas coisas a que chamam literatura, e que não passam da telenovela que o Correio da Manha publica em fascículos há um mês. Basta juntá-los, resumi-los, dar-lhes um fio narrativo dito trágico, e apresentá-los como coisa nova: um casalinho, a menina, a droga, um criminoso, a polícia, a condenação.
Merda para a nossa vida, digo eu!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Só dele?!

Titanic
Há-de parecer que ainda tenho acções na companhia de Southampton mas não é verdade. Apenas me confunde que uma bactéria nova dê cabo do gigante em menos dum fósforo.
O navio, mordido por um iceberg, dormia há 73 anos no Atlântico Norte, a 3,8 kms de profundidade, com pouca luz e elevada pressão.
Mas uma bactéria nova, a halomonas titanicae, ameaça dar conta dele numa dúzia de anos. Só dele?!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O feno e os potros de Yorkshire

Escuta, vou falar-te do rapazito que o Álvaro de Campos tanto julgou amar. Era inglês, naturalmente, e tinha dezasseis ou dezassete anos quando o encontrou em Londres, numas férias do último ano de Glasgow. Frederik era o quinto filho dum pastor de almas de York, estudava arte dramática, e levava uma vida que não se poderia dizer fácil, pois a mesada do pai, quando havia necessidade de meias-solas nos sapatos, obrigava a apertar o cinto. Álvaro, sentindo que o rapaz estava em apuros, convidava-o frequentemente para jantar. Mas não era apenas essa a razão.
Como dispunham de tempo, passavam algumas tardes estendidos na relva de Hampstead, mas não iam além de algumas carícias, com receio de serem surpreendidos. Freddie falava do feno e dos potros de Yorkshire como se neles começasse o paraíso, e o outro ia-lhe revelando alguns segredos dos versos de Shakespeare e de Walt Whitman; um dia falou-lhe mesmo duns assomos de sensualidade que, nos sombrios corredores do liceu, havia sentido por uma espécie de rapariga, antes de ir para Glasgow; mas amar alguém assim era a primeira vez que lhe acontecia, acabou por dizer numa voz escura, quase espessa, que não era a sua. Ao despedir-se, Freddie pediu-lhe que passasse pelo seu quarto na manhã seguinte. Apesar da casa estar deserta a essas horas, o medo quase impedia que o amor lhe baixasse ao corpo. Foi numa dessas manhãs, quando o rapazito começou a recitar Shall I compare thee to a summer's day?/Thou art more lovely and more temperate..., que o Álvaro lhe mostrou como deveriam ler-se versos de Shakespeare, ou de quem quer que fossem: com a naturalidade que tem o correr da água e o ritmo da fala. Isso Frederik nunca mais o esqueceria.
Não me perguntes como soube eu tudo isto, seria muito indiscreto da tua parte.

[Eugénio de Andrade, O rapazito de York, pág. 408]

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Rai de país!

Do DN de ontem: "Vocês têm sorte, que a lei não permite. Senão seriam todos executados". "Vamos acabar com vocês, com a vossa raça e com o vosso bairro de merda". "Vocês africanos têm de morrer. Deviam ser todos esterilizados".
A PSP actua como se vê, nos bairros cheios de pretos. País fora, em freguesias e pequenos municípios, o feudo é da GNR, na aplicação de coimas aos condutores indígenas.
A arbitrariedade é a mesma, porque a função é só uma: extorquir coimas aos cidadãos, com razão e sem nenhuma. Fazem currículo.
É um terror que atemoriza muitos. O país perde, não pouco!

terça-feira, 11 de julho de 2017

Spassiba, Irina!

Num velho arranha-céus colonial morava Irina, uma mulher muito branca que dava aulas na universidade. Ao lado vivia Ngo Diem, um velho vietnamita que cozia os feijõezitos de soja num fogareiro a petróleo. Portugueses, por junto, não eram mais de cinquenta. E tudo o resto eram negros, herdeiros da escravaria.
Eu não me sentia responsável por nada disso, e as mulheres negras não me diziam nada. Mas o comissário proibia as visitas de portugas, por razões de segurança. Um dia resolvi forçar a nota e visitar Irina.
Ela ofereceu-me uma cassete do Vladimir Visotsky, copiada do gravador duma búlgara que morava no patamar de baixo. Era uma voz muito rude e muito funda, duma garganta arranhada por fumo de cigarros e vodka de batata.
Sem perceber uma palavra da música, passei muito tempo a ouvi-la. Tempos depois sumiu-se-me a cassete, alguém a terá levado. Mas não levaram as canções do Visotsky.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Despojos

 
A nossa triste história está escrita. Nós é que não queremos lê-la!
 
" (...) Os homens moviam-se sem necessidade de ordens, os transmissões montavam os rádios, os condutores preparavam os guinchos de reboque, os enfermeiros tentavam retirar os corpos do interior da torre blindada.
Puxaram o corpo meio esmagado do furriel do esquadrão de cavalaria a escorrer sangue e espuma da boca, desceram-no desarticulado da velha lata para os braços do Bento que pegou nele ao colo como a um menino, a cara de criança em corpo de gigante a enfrentar do outro a face branca da morte, sem acreditar que já não estivesse vivo, deitou-o docemente à sombra dum arbusto compondo-lhe os membros, voltou pelo mesmo caminho na sua passada de urso cansado com a espingarda, que parecia um brinquedo, pendurada às costas, à espera de o mandarem fazer mais algum serviço.
- O apontador da metralhadora também está morto, esmagado pela torre que saiu dos encaixes. O condutor é que não sei, não se pode passar para o seu lugar - explicou um dos que tentava enfiar-se dentro da Fox. - Pelo menos os pés devem estar desfeitos.
- Para já é preciso tirar do buraco esse caixão com rodas! (...)
O pequeno alentejano passou por cima dos restos de carne em massa e do sangue fresco misturado com óleo engolindo os vómitos, agachou-se para não bater com a cabeça nos ferros amolgados, espremeu-se contra os restos do metralhador e do furriel (...)."
 
"(...) Eu sou administrador do concelho e presidente da Câmara, este é o meu secretário. O assunto que nos traz é, digamos, delicado, grave. É que soldados, julgo que da sua companhia, cometeram desacatos na cidade, faltaram ao mais elementar respeito que todos os portugueses devem à nossa História... (...)
- Penduraram, veja só, um garrafão de vinho vazio na mão da estátua do Camões que se encontra na marginal lendo os Lusíadas virado para a Índia, e colocaram um chapéu de palha roto na cabeça do Infante D. Henrique, que está no Largo da Alfândega! Eu, como autoridade administrativa venho exigir em nome do povo da cidade (...)".

domingo, 9 de julho de 2017

Torre de Moncorvo

O destino era a aldeia do Larinho, onde um editor ia apresentar uma nova edição. Porque nem tudo em Portugal acontece na cidade ou a 50 Kms do mar. Há quem resista, por uma qualquer razão. Foi assim que eu fui parar a Torre de Moncorvo. 
A igreja matriz é quase uma sé. É certo que as talhas barrocas não são fulgurantes, e são de barro pintado. Mas há para lá do transepto um cadeiral de bispos que dá que pensar.
Ali ao lado, o museu do ferro da serra do Reboredo foi uma surpresa. Lembro-me muito bem, numa incarnação há muitos anos, de quando fui o capitão vermelho e transportei, de jeep ou de Renault 4, um gabinete inteiro de técnicos, (engenheiros, topógrafos, desenhadores, porta-miras e outras gentes), que tinham chegado de África e era preciso pôr a trabalhar. Tempos de brasa!
O plano seria retomar a exploração do ferro da serra do Reboredo e transportá-lo para Sines, onde uma siderurgia se ocuparia dele. O transporte previa-se de comboio, sendo preciso ligar a estação do Pocinho a Vila Franca das Naves.
Em Sines ainda deve haver um terminal ferroviário vastíssimo, por certo inacabado. A mim só me competia andar abaixo e acima, ao serviço daquela gente toda.
Certa vez trazia um engenheiro timorato, sentado no R 4 no lugar do pendura. Saímos do Pocinho e íamos para Lisboa. Mas ao chegar a Celorico da Beira o homem foi à estação, comprou um bilhete e foi de comboio para Lisboa.
Tranquilamente, eu continuei sem pendura no velho Renault 4.

sábado, 8 de julho de 2017

Tancos, há meio século

Resultado de imagem para french alouette helicopter
clicar
O Pereira era açoreano, e treinava auto-rotações com um aluno num taxiway secundário, como manobra de emergência. A geringonça punha o focinho no ar, como um guarda-chuva que roda por si, e vinha descendo controladamente até chegar ao chão. Em frente não havia visibilidade.
Foi então que o Brito, sempre cheio de pressa, precisou de descolar na direcção contrária. Saiu a rapar, e se a torre lhe interditou a manobra, não ficou notícia disso. O Pereira acabou por desabar mesmo em cima do Brito.
Nunca vi um ilhéu transformado num torresmo com tamanha eficácia. Era um negro pedaço minúsculo, e um ferimento de alma que se não descreve. Terá sido entregue à mãe numa urna fechada, e ainda bem.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

É uma alegria!

Os agravos, para não dizer as agressões, os roubos, os desfalques de património, praticados contra os militares e a Pátria nas últimas décadas, não têm descrição.
Pagaremos por isso um alto preço, todos. Ricos e pobres!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Só mais uma, do Lobo Antunes!

Os pobrezinhos
Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, além de serem obviamente pobres, deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbados, e sobretudo manterem-se orgulhosamente fiéis à tia a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria.
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.
O plural de pobre não era pobres. O plural de pobre era "esta gente". No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio em que os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas, junto à estrada militar (...). E as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito, que esta gente tem piolhos. (...)
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros.
- O que é que o menino quer, esta gente é assim. (...)
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. (...)
Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados. Tanto mais que no Almanaque da Sãozinha se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos.
Creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão, que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis."

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Atentados


D. Carlos
Príncipe Luís Filipe
No dia 1 de Fevereiro de 1908, a las cinco de la tarde, o bragança rei D. Carlos e o príncipe Luís Filipe foram vindimados no Terreiro do Paço pelo Buíça e o Costa, dois membros da Carbonária. Os adiantamentos à Casa Real e o ultimato inglês a propósito do mapa cor-de-rosa foram o enquadramento da coisa.
A 28 de Junho de 1914, em Serajevo, capital da Bósnia, morreu o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império austro-húngaro, e a mulher Sofia de Hoenberg. O atentado foi levado a cabo por Gavrilo Prinzip, e tinha como objectivo a criação da Grande Sérvia.
Foi neste quadro que deflagrou a 1ª guerra mundial, que deu como fruto 15 milhões de mortos.
Não se pretende aqui estabelecer qualquer relação entre uma coisa e outra. Apenas foi assim.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Cá se fazem!

Há muitos anos, quando abriram a estrada nova, que do Largo seguia para Norte, para a Senhora da Cabeça, para Penedono e Lamego, vieram aí para a aldeia uns técnicos das obras. À falta de melhor chamaram-lhe fiscais. E um deles terá lançado os olhos às moças que punham roupa a corar nas lajas da fontana.
Uma delas era a Fátima, da numerosa ninhada do Vasco das Neves, a outra era filha do Zé Barbeiro e chamava-se Lurdes.
Que beberagem deram elas ao fiscal não o sabemos hoje, e já cá não anda a Gracinda do Casimiro, esse Fernão Lopes dos tempos medievais. Sabemos só que o pobre do fiscal morreu a expelir da boca uns vermes esquisitos. E ontem foi a enterrar a Fátima do Vasco.
Tinha um bisneto a cargo, um rapazola duns dezoito anos, ninguém sabe quem cuidava mais de quem; se o Miguel da bisavó, se a bisavó do Miguel. Davam a mão um ao outro.
A mãe do rapazola foi levada pela heroína, uma coisa que entrou aí no mercado para salvação dos pobres.
Eu não sei o que vai ser da vida do Miguel, nem lho pude perguntar. Vinha num comboio que chegou atrasado ao funeral, e eu tinha mais que fazer.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Parece!

O mundo move-se (parece!) à medida da capacidade de armazenamento do iPhone. Começou em 4,8 gigas e já vai em 256.

O uso da net pode ter o mesmo efeito que o álcool
Os jovens não são educados para a empatia e não estão preparados para a resiliência, para lidar com a adversidade. Estão numa idade em que a importância do grupo se sobrepõe à família. Esse trabalho tem de ser feito numa idade precoce. (...)
O que explica essa falta de noção?
O efeito de desinibição que estas tecnologias têm sobre muitas pessoas é um bocado como o álcool. Depois de beber uns copos, as pessoas começam a fazer e a dizer coisas que noutras circunstâncias não diriam ou fariam. Para algumas pessoas, a utilização da internet tem o mesmo efeito que o álcool. (...)
[in DN de 29/6/17]

domingo, 2 de julho de 2017

O que é, e foi, essa merda do SIRESP?

Escrito por uma dessas jornalistas das que se agora usam (Valentina Marcelino), o DN de ontem dedica duas páginas confusas ao Siresp. E a coisa é, nem mais nem menos, do que uma rede de comunicações de emergência, que deverá funcionar em situações anormais. A prática, no entanto, mostra que há circunstâncias em que o telemóvel dum agente é mais eficaz do que essa merda. Porque o território ficou cheio de buracos negros, onde a cobertura é nula.
O já esquecido ministro Daniel Sanches, dos saudosos tempos do Cavaco, do BPN e quejandos, recebeu então uma única função: assinar o decreto constitutivo da primeira versão. Depois disso obnubilou-se e não mais se ouviu falar dele. Agora as coisas estoiram, é claro!

sábado, 1 de julho de 2017

Formalistas

O papel do formalismo na revolução de 1917
Enquanto os bolcheviques faziam a
revolução, os formalistas russos contavam
sílabas aos versos e procuravam
o narrador nos romances do século
dezanove. Não sei se as sílabas assobiavam
como as balas na rua, ou se o narrador
subia à tribuna do capítulo para gritar
a estranheza que, segundo os formalistas,
distinguia o discurso literário do outro. Então,
gritavam os revolucionários, há uma
distinção de classe entre o romance
e o mundo? Nós, que somos reais, e andamos
aqui aos tiros para nos libertarmos
da reacção, não passamos de criaturas
banais ao lado desses heróis narrativos
que só são diferentes porque nasceram
da cabeça dum escritor? Vamos mas é
pôr ordem nisto: nada de separar
literatura e revolução. Está
bem, disseram os formalistas. Vamos escrever
com fogo, pólvora, baionetas - fuzilando
a métrica, decapitando a estrofe, cortando
o narrador da sua realidade concreta. E deram
o argumento final ao citar assim Shakespeare
quando falou em "palavras, palavras, palavras",
contra os que só usavam a retórica, ignorando
a realidade. E concluíram: "Se em vez disso
tivesse dito "batatas, batatas, batatas", não teria
morto a fome a ninguém. O argumento
não convenceu os inimigos do formalismo,
e a revolução continuou, com uns a morrerem
por falta de batatas e outros a serem mortos
por se recusarem a engolir as palavras."

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Do 1º livro de crónicas do Lobo Antunes, 1995

" Porque são os domingos tão compridos, Filomena? Não tenho que estar às nove na Companhia, não tens de estar no infantário às oito e meia, levantamo-nos mais tarde, tomamos o pequeno-almoço no café, compramos os jornais, alugamos dois filmes no clube vídeo, ninguém dá ordens, ninguém nos exige nada, ninguém nos aborrece, e no entanto porque são os domingos tão compridos, Filomena, por que motivo é sempre a mesma hora no relógio, porque razão me apetece tanto qualquer coisa que nem sei o que é em vez de ficar contigo?
Eu que gosto de ti, palavra que gosto de ti, eu que devia sentir-me bem e não me sinto, não é mal-estar, não é angústia, é uma sensação vaga, um desconforto, uma inquietação que não entendo, e todavia não me concebo sem ti, gosto da tua cara, do teu corpo, casei contigo por amor, porque são os domingos tão compridos, Filomena?

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Panascada avulsa


Relações homoeróticas
" (...) O mito relativamente persistente de que não existiria homossexualidade em África antes da colonização europeia está hoje desmentido, sem margem para dúvidas, embora de vez em quando seja ainda levantado por alguns demagogos daquele continente. No espaço de influência portuguesa, essa questão tem sido desbravada pelo historiador brasileiro Liz Mott, que não só tem chamado a atenção para o infundado da versão excludente como tem vindo a sinalizar também a presença de homossexualismo entre a população escrava africana em Portugal e no Brasil.
A Inquisição portuguesa foi chamando a si, a partir de 1553, os processos envolvendo relações homoeróticas, substituindo-se aos tribunais civis e criminalizando o que, para a Igreja, era até aí apenas um pecado, sujeito portanto a penas exclusivamente espirituais. São os processos da Inquisição, instituição que considerava esse tipo de relacionamento sexual "crime nefando", que acabam por ser o principal testemunho sobre a sua prática em Portugal e no Brasil durante o Antigo Regime, sendo no entanto mudos sobre relações homoeróticas envolvendo escravas.
O Santo Ofício perseguia sobretudo os praticantes que davam demasiado nas vistas, ou por puro exibicionismo ou por demasiada promiscuidade. Escapa-nos assim, quase por completo, o eventual, o mais discreto, relacionamento homoerótico entre escravos e senhores, uma vez que estes últimos tinham garantidos não só o consentimento como o silêncio, pela situação de dependência dos cativos. O padre José Ribeiro Dias, natural de Braga mas sacerdote em Minas Gerais, sodomizou vários dos seus escravos, tendo acabado por ser denunciado por um deles em 1754. (...)"

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O negócio dos garanhões, ou como se aniquila um povo

" (...) Os mais ricos têm escravos de ambos os sexos, e há indivíduos que fazem bons lucros com a venda dos filhos das escravas nascidos em casa. Chega-me a parecer que os criam como pombas para levar ao mercado. (...) (Clenardo)
"Quando chegou ao tema dos escravos, o eclesiástico deixou turvar de lubricidade o olhar.
Tem o duque de Bragança criação de escravos mouros, alguns dos quais são reservados unicamente para fecundação de grande número de mulheres, como garanhões, tomando-se registo deles como das raças de cavalos em Itália. Deixam essas mulheres ser fecundadas por quem quiser, pois a cria pertence sempre ao dono da escrava e diz-se que são bastantes as grávidas. Não é permitido ao mouro garanhão cobrir as grávidas, sob pena de 50 açoites.
Rebanhos de fêmeas como este há muitos em Portugal e nas Índias, somente para a venda de crias. Creio que muitos têm inveja desses mouros garanhões."

Rendimento mínimo

" (...) Nestes prados da quinta dos cavalos não há cavalos nenhuns. Só João vai caminhando pela berma da estrada e o viajante pára ao lado dele. Não sendo velho é uma figura antiga, delida pelo tempo ou pela vida. E há nele uma servitude primitiva que este viajante já julgava extinta.
De manhã tirou-se de cuidados e foi à vila ao médico espanhol, à boleia dum vizinho. Em breve se despachou e agora não há transportes, não tem remédio senão voltar a pé. Tem a mãe à espera em casa, já muito velha, e ainda mais achacada do que ele. Há mais irmãos, mas desgarraram todos, depois que voltaram de Angola. Foram para lá quando eram pequenos, cresceram  nos colonatos do Cunene. Havia o gado e aquelas terras grandes... Agora o que lhe vale é o rendimento mínimo.
Quando o carro estaca no meio do povo, ali à beira dum salgueiro-chorão, João ainda não acreditou que o viajante parou na estrada e o trouxe para casa. O que lhe vale é o rendimento mínimo. E ao vê-lo assim, a afastar-se cabisbaixo, convence-se o viajante de que deu boleia a um símbolo de alguma coisa maior. (...)"
(Portugalmente - Peregrinação da Lapa a Riba-Côa, Jorge Carvalheira, Ed. Âncora, pág.141]

terça-feira, 27 de junho de 2017

Despersonalização

" E a esse propósito é inevitável citar o flamengo Clenardo que, vindo da Europa do Norte no início do séc. XVI, não podia deixar de se espantar com o panorama peculiar que encontrou nas cidades portuguesas.
"Mal pus os pés em Évora, julguei-me transportado a uma cidade do inferno; por toda a parte topava negros. Os escravos pululam por toda a parte. Todo o serviço é feito por negros e mouros cativos. Portugal está a abarrotar com essa raça de gente. Estou em crer que em Lisboa há mais escravos e escravas do que portugueses livres de condição. (...)
"É incontestável a presença de escravos nos campos de quase todo o país, mas particularmente nos do Alentejo e do Algarve, em tarefas agrícolas ou pastoris. (...)"
" (...) As várias formas de marginalização moral do escravo somavam-se ao processo de despersonalização, que começava pela forma como era nomeado. Os que chegavam de fora recebiam no baptismo um nome cristão, sendo obrigados a abandonar o seu nome original, aquele que os unia à sua cultura ancestral. O que não tem nada de inocente; o processo que podemos chamar de desculturação é uma das componentes da despersonalização. (...)"
"Fugiu a João Cosme Dantas, morador à Cruz dos Quatro Caminhos, um escravo por nome João Rodrigues, rapaz que terá de idade 15 anos, que veio na nau da Índia e dizia que era de Macau. Foi comprado em Moçambique. É espigadote e magro, bem feito e de olhos grandes. (...)"

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Feitiçarias


" (...) Florinda Maria, de origem angolana, farta de trabalhar e de ser surrada pela sua senhora, lembrou-se de fazer um feitiço que aprendera com o pai e com "umas pretas da sua terra". Fez um boneco de trapos negros, espetou-o com alfinetes, atou-o com cordas de viola e meteu-o dentro do colchão da dita sua senhora. Era a forma de lhe "condicionar a vontade, esperando torná-la mais amistosa no relacionamento. (...)
O escravo-copeiro Afonso de Melo valeu-se para isso do feiticeiro José Francisco que, depois de outras soluções sem sucesso lhe forneceu um bocado de um pau que devia mascar de manhã em jejum e depois cuspir no chão, no lugar onde o senhor viesse a pôr o pá esquerdo.
Domingos, escravo de João Costa Silva, recorria a meios mais pesados, tendo conseguido os favores do próprio demónio, com quem ia falar ao Vale de Cavalinhos, clássico lugar de encontro da feitiçaria lisboeta. (...)
A origem das bolsas de mandinga parece ser o território mandinga da Alta Guiné, islamizado no séc. XIII. A islamização, com a consequente valorização da palavra escrita, estará na origem da introdução de pequenos textos de carácter sagrado, escritos em árabe, num tipo de bolsa já antes utilizado como talismã pelas populações locais. (...)
Essa adaptabilidade foi, provavelmente, uma das razões do seu sucesso em Portugal, onde as bolsas de mandinga se tornaram populares não só entre escravos e forros africanos, mas também entre brancos livres. (...).

domingo, 25 de junho de 2017

Ó Peixoto!

A gente sabe que a tua especialidade não é produzir literatura mas antes pedir colo. É que há sempre uns peitos femininos que se deixam comover, porque não sabem do resto.
Ultimamente fizeste umas passagens baixas à Coreia do Norte, e andaste por lá à procura de inspiração. Só tu e o comité central da festa do Avante! Mas não nos contaste nada do que lá se passa. Mormente aquele caso do jovem norte-americano que foi preso (como é que ele se chamava?!), esteve 17 meses no chilindró e acabou por ser libertado e devolvido à América.
Só que, coitado, sofreu tratos tais na cela, que trouxe de lá lesões cerebrais irrecuperáveis, por virtude duns mimos que lhe deram. Morreu pouco depois de chegar à América.
E tu, Peixoto, se calhar morreste-me também. Se fosses à bardamerda já se não perdia tudo!

Mestre

Os computadores e eu
 
"Uma tarde em Marimba, na Baixa do Cassanje, no ano da guerra de 1973, mostrei ao soba Macau (Sebastião José de Mendonça Macau) um boneco da minha filha Zezinha, então bebé, um veado de pano que se puxava um cordelzinho na barriga e soltava uns guinchos rachados. O soba ergueu às copas das mangueiras a bengala do seu poder, largou a fugir aterrado, e eu comecei a rir até que de súbito entendi e o riso se me secou na garganta. Joguei em pânico o tenebroso veado ao chão e desatei a correr atrás do soba pelo capim fora.
Aquele homem velho de infinita sabedoria, capaz de fazer navegar o seu povo incólume entre a tirania da polícia e as exigências do MPLA, percebeu mais depressa que eu a infinita perversidade das máquinas, mesmo as ocultas, nas tripas de algodão de um animalzinho de brincar. (...)
Percebera que as máquinas e os aparelhos nos detestam e que a condição da nossa sobrevivência consiste em nos afastarmos deles, não os ligarmos à corrente, não lermos os manuais de instruções com diagramas explicativos em oito línguas diferentes todas elas incompreensíveis, não cedermos ao desafio de carregarmos em nenhum botão.
No que me diz respeito não sei mexer num único desses símbolos do progresso, do aspirador ao apara-lápis, do micro-ondas ao blequendeker, do vídeo ao saca-rolhas, que levanta a pouco e pouco duas pérfidas asinhas de metal. (...)
Julgo não ter medo da morte, não ter medo do dentista, não ter medo da lepra, não ter medo dos políticos, mas tenho medo dos computadores. (...) Já me engoliram um romance inteiro, já me transformaram capítulos em poesia experimental, já retiraram ossos aos meus parágrafos, reduzindo-os a um puré de adjectivos. Por isso escrevo à mão. (...)
E os computadores imagino-os rugindo numa jaula de circo, sonolentos e de unhas de fora, só possíveis de enfrentar de botas altas, alamares e chicote na mão, obedecendo a contragosto às ordens de quem se aproxima deles, tocando-lhes com um pau para os obrigar à complicada proeza de uma frase escorreita. E nos momentos de inconsciência em que carrego numa tecla a pele escurece-me, os ombros curvam-se-me, a camisa dá lugar a um pano do Congo, os pés descalçam-se-me de meias e sapatos, os ruídos de África inundam a sala, ergo a bengala do meu poder às copas das mangueiras em que os morcegos se penduram todo o dia de cabeça para baixo e largo a fugir, aterrado, capim fora, na direcção do rio onde os crocodilos dançam à flor do lodo, à espera da imprevidência dum cabrito."
[Ninguém escreve uma crónica como o Lobo Antunes. Este campo é dele.]

sábado, 24 de junho de 2017

Tradições



Passou a noite em que os tripeiros se divertem a trocar marteladas na cabeça à custa do S. João, hoje em dia com sotaque chinês.
Mas têm pouca sorte, já que alguém determinou o lógico: proibir o lançamento de balões de mecha a arder, essas bombas voadoras que caem ninguém sabe onde e incendeiam pinhais.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Fugir a salto

Os caçadores de cachalotes, de que extraíam um óleo finíssimo, vinham em tempos da América procurá-los às ilhas dos Açores.
E os pescadores locais não estavam autorizados a entrar nos barcos americanos, nem eles podiam acolhê-los.
Mas havia uma falésia numa ilha, donde os açoreanos saltavam directamente para dentro do barco americano. Foi um arranjo desses que levou uma grande comunidade açoreana para a América.
Os modos mudaram com os tempos. Mas a fala assim ficou.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Capelas

Em entrevista à TSF, Helder Macedo põe os pontos nos is: critica acerbamente a pobre contribuição de Luiz Pacheco para a literatura, esse cultor de excessos variados.  
Deixemos passar as velas votivas da capelinha surrealista!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Anacronismos ou cegueira histórica?!

"(...) Há, porém, relatos de alguns visitantes estrangeiros, surpreendidos com uma situação que era, para eles, pouco familiar.
O nobre flamengo Jan Taccoen, senhor de Zillebeke, quando em 1514 passou por Lisboa a caminho de Jerusalém, teve oportunidade de ver chegar um navio "carregado de especiarias" que sob a coberta trazia cerca de 300 escravos negros, homens, mulheres e crianças. Ficou chocado com o facto de todos virem completamente nus, mas também não lhe deixou boa impressão a forma como depois foram tratados. Saídos do navio, foram agrupados na praia, e aí ao sol de Abril foi-lhes dado de comer em grandes gamelas, um espécie de trigo cozido, uma massa mole. Não tinham colheres, e o grupo que rodeava cada uma das gamelas usava as mãos para levar os alimentos à boca.
Acabada a comida, foram obrigados a ir lavar as gamelas ao Tejo, as quais em seguida foram enchidas de água doce. No entanto, a única forma que tinham de chegar à água era ajoelhando-se, e bebendo como animais. (...)
O prazentim Giuli Landi, quando passou pela capital portuguesa cerca de 1525, não deixou de reparar no modo de comerciar os escravos africanos. "Na compra e na venda dos escravos empregam muito cuidado, pois não basta para os compradores verificar a sua destreza e a sua galhardia, fazendo-os andar e correr, querem também ver se têm algum defeito nos seus corpos, e se lhes faltam dentes, por estarem convencidos de que aqueles a quem faltam dentes são mais fracos para o trabalho, por lhes faltarem os instrumentos de comer, de onde lhes vêm as forças. Ao exporem os escravos para vendê-los, costumam untá-los com azeite, para que os seus corpos pareçam mais lustrosos e mais belos. (...)
A praça da cidade que Sassetti refere era provavelmente o Largo do Pelourinho Velho, um dos topos da cosmopolita Rua Nova dos Mercadores, que corresponderia hoje ao quarteirão definido pelas ruas do Comércio, da Madalena, da Alfândega e dos Fanqueiros. (...)"
Os indígenas locais que ainda hoje sustentam que a aberração do tráfico escravo era fruto normal do tempo, limpem as mãos à parede! É que não há pior cego que aquele que não quer ver. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Publicidade

* Quem quiser comprar um escravo preto, com idade de 16 anos, sem achaques, sabe cozinhar, capaz para todo o serviço, vá a casa de Ricardo King, morador na Calçada do Correio-Mor. Gazeta de Lisboa, 16 de Março de 1724
* Quem quiser comprar escravos e escravas boçais que vieram nesta monção de Cacheu, podem-nos vir ver à casa de Patrício Nolan, no meio da Rua das Flores. Gazeta de Lisboa, 14 de Agosto de 1727
* Quem quiser comprar uma preta pode falar a José Rodrigues Charneca, cabo da ronda, morador na Calçada de Santo André. Correio Mercantil e Económico de Portugal, 8 de Maio de 1787
* Quem tiver para vender algum escravo preto, fale na loja da gazeta...
* Quem quiser comprar uma mulata da idade de 22 anos, que sabe muito bem coser, engomar, fiar, fazer meia e cozinhar, fale com Manuel Alberto Colaço, capitão de Infantaria agregado à primeira Plana...
* Pretende-se comprar um escravo de 12 até 16 anos de idade...
Comentários para quê?!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Comércios

2 - Fora de considerações de ordem moral e de critérios históricos, o pensamento que aqui se apoia é este: nenhum povo moralmente são resiste a séculos de desbragado tráfego de seres humanos.  
" (...) Não nos deve espantar esta importância da Carreira da Índia no transporte de escravos para Portugal. Como tivemos oportunidade de referir quando tratámos dos escravos índios, acontecia assim desde praticamente a abertura da Rota do Cabo e o volume de saídas só teve tendência para aumentar, à medida que, no séc. XVII, as mercadorias de luxo deixaram de ser suficientes para satisfazer a tonelagem das armadas.
Os escravos transportados, além de asiáticos das mais variadas origens, eram também africanos da costa oriental, resultado dum comércio que já era anterior à chegada dos portugueses e que estes continuaram.
Além disso, no regresso ao reino, por motivos justificados ou inventados, alegando por exemplo problemas técnicos ou de falta de água, as frotas procuravam fazer escala em Moçambique ou em Angola, reabastecendo-se aí de mercadoria humana em troca dos tecidos asiáticos. (...)
As frotas de 1665 e 1667 fizeram mesmo o pleno, parando em Moçambique, em Angola e na cidade da Baía. (...) Aproveitando esta paragem tripulantes e particulares vendiam na cidade baiana alguns dos escravos trazidos nas naus da Índia, prática de que há notícia desde 1698. (...) No caso dos escravos trazidos do Brasil, alguns já crioulos, quase sempre acompanhavam funcionários, militares ou emigrantes portugueses de regresso à pátria. (...)
Alguns dos proprietários podiam trazer, embora não fosse comum, dez ou mais cativos, e parte deles por certo eram vendidos a terceiros. Em 1727, um comerciante de escravos com loja no Bairro Alto mandava anunciar na Gazeta de Lisboa: Quem quiser comprar escravos e escravas boçais que vieram nesta monção de Cacheu, podem-nos vir ver à casa de Patrício Nolan (britânico?), no meio da Rua das Flores. (...)
O abastecimento do mercado português em mão de obra cativa passou a fazer-se em grande parte pela reprodução física dos escravos residentes, na esmagadora maioria de origem africana, tendo o fornecimento a partir do exterior deixado de ser regular e tornando-se irrelevante na maior parte dos anos. Só isso permitiu que, em 1761, o marquês de Pombal pudesse avançar coma proibição da entrada de novos escravos em Portugal, sem protestos dos comerciantes."

domingo, 18 de junho de 2017

Apocalipse segundo S. João

O fogo de dimensões bíblicas tomou conta da vida, sem que qualquer de nós possa fazer-lhe frente ou escapar-lhe.
O resultado é aterrador. Nenhum dos outros evangelistas o referiu, mas está aí. E a única explicação racional que me chega é a dum amigo que o não diz, mas o escreve.
"A complexidade crescente da organização da vida ... a energia das telecomunicações... a gestão das redes... custa mais do que o que traz.
Recolhe-te à tua pobre dimensão e confia. Chegaram tempos em que é melhor ser gato!

A hecatombe por partes



1 - Escravos chinas
" (...) Macau tinha-se tornado, aliás, uma placa giratória no comércio de escravos (sempre com predominância do sexo feminino) e aí eram comprados e vendidos não apenas jovens chineses mas também outros que eram trazidos do Japão e de Timor.
Lavados à Índia, entre outros destinos, foi a partir de Goa a bordo das naus da carreira da Índia que alguns desses escravos foram embarcados para Portugal no séc. XVI. Mas continuaram a chegar durante os sécs. XVII e XVIII, apesar das proibições régias que procuravam interditar o transporte de escravos nesses navios. Os escravizados eram em geral trazidos por militares e altos funcionários régios que, uma vez em Lisboa, ou os mantinham na sua companhia ou os ofertavam, como prenda de prestígio, a amigos e superiores, ou simplesmente os vendiam a quem desse mais. (...)
Em 1730, Francisco de Melo e Castro, que vinha de Goa como capitão-mor da nau da Índia (nessa altura já era só uma nau que fazia a rota do Cabo) trazia consigo três jovens chineses. Morreu, no entanto, pouco tempo após a sua chegada a Lisboa, e arrolados os seus bens os jovens foram vendidos como escravos em leilão público, tendo tido destinos muito diferentes.
Agostinha, provavelmente a mais velha dos três, protestou, enquanto pôde, que era uma pessoa livre (de facto o tráfico de chineses estava formalmente proibido). (...)
O moço china Pedro foi comprado pelo padre Manuel Monteiro, do Rio de Janeiro, que estava de passagem por Lisboa. (...)
Finalmente a Domingas, vendida no mesmo leilão, perdeu-se-lhe o rasto, dizendo alguns que teria sido levada para o Alentejo.
Sem falar na atração sexual que as jovens chinesas despertavam, pelo misto de proximidade e exotismo, os escravos chinas eram considerados leais, inteligentes e trabalhadores. (...)
A maioria dos escravos chineses concentrava-se em Lisboa. Mas havia também escravos chineses noutros pontos do território, sobretudo no Alentejo. Em 1562, D. Maria Vilhena, rica proprietária de Évora, deixava no seu testamento, entre outros escravos de diversas origens, António, china azemel, uma espécie de almocreve.
Em 1771, Manuel Saldanha de Albuquerque, 1º conde de Ega, que tinha sido vice-rei da Índia, mantinha ao seu serviço, no seu palácio da Ajuda em Lisboa, vários escravos, entre os quais um escravo china.

sábado, 17 de junho de 2017

Budas contentinhos



80% da literatura é linguagem, há-de ser verdade, se foi um mestre que o disse. Terei lido este romance no Natal de 2010, e já não recordava por que gostei tanto dele. Fui revê-lo.
A tradução é de luxo. O discurso narrativo, oralizante, é um calão adolescente que às vezes roça o vernáculo, sem nunca fazer disso uma bandeira. Distingue-se claramente o que é real do que é artificialidade narrativa.
É isto a América criativa e inovadora, eficaz, competitiva. A dar lições aos mestres da Europa. Então aos bonzos indígenas que cá temos... esses budas contentinhos... deus nos livre!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Perdas e ganhos

Lê-se Camilo, hoje, por função ou por castigo. Por isso não se entendem os critérios que levaram estes eruditos a colocar o Amor de Perdição no Plano Nacional de Leitura.
Se eles soubessem o que andam a fazer, e aquilo em que se gasta a canalhada, reformavam-se e toda a gente ganhava!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Mafia

Esta casa já foi da família do coronel Prata Dias, um barbaças antigo que apoiou o Gomes da Costa no 28 de Maio do século passado. Quando ele veio lá de Braga pôr Lisboa em sentido e a República na ordem. O coronel foi o primeiro responsável pela censura instaurada por tal tropa.
Agora é apenas a vivenda Dias. E deixou de ser propriedade inalianável do lar de São Sebastião, essa coisa que ninguém chegou a ver depois que apareceu dinamitada a casa branca. A placa que o dizia desapareceu entretanto.
O físico e o mental estão em consonância numa personalidade. E o Dias parece ter saído dum filme de mafiosos da Sicília. Baixote, metido no sobretudo, não enganava ninguém.
Criou-se aí, entre fomes, e foi parar a França no seu tempo. Mas não se gastou nas obras de Champigny. Fazia-se de correio que trazia para Portugal o salário que os colegas queriam mandar às mulheres. Muitas vezes era roubado no caminho, ao que fazia constar, o dinheiro é que nem sempre chegava às destinatárias.
Um dia regressou a Portugal e trouxe maquinarias. Vieram aí uns franceses à procura delas, mas não encontraram nada, que tudo estava em porto seguro. O mafioso instalou-se à beira-mar, montou negócios de extracção de areias, encalacrou a Volvo com maquinarias e calotes. E começou a comprar tudo o que aparecia à venda. Foi o caso da vivenda da família Prata Dias.
Quem então o visitava muito, a altas horas, era um escroque de Aguiar da Beira, que era ministro do biltre do Cavaco a quem fazia os discursos. O escroque vinha aí encharcar-se em conhaques raros, enquanto planeava investimentos ruinosos, ia à caça com o Bourbon de Espanha para os sertões e arruinava o BPN.
Quando se meteu na heroína da Colômbia, o mafioso mandava mulas a Paris, de comboio, a entregar encomendas. E quando a Judiciária meteu o nariz nisso, foi passar um tempo em África, a deixar amainar os ventos.
Agora ficou velho e achacado, e o futuro é incerto.

É galo!

As lombas pelos caminhos e um semáforo na aldeia são a marca mais moderna dos autarcas de agora. Terras onde alma-viva não existe voltam de repente a abrilhantar o mapa.
Já no concelho da Guarda, que fica para lá dos montes e muito longe da civilização, elas alastraram às estradas principais. Ainda por cima sem adequada sinalização.
Vai um condutor no seu vagar, e de repente cai-lhe em cima o tejadilho, planta-lhe um hematoma na cabeça. Um galo, também se diz!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Camões e os portugueses

No passado 10 de Junho assisti na Guarda, na biblioteca Eduardo Lourenço, a uma leitura de um actor que veio de Lisboa para nos ler o discurso que o Jorge de Sena aqui fez, quando foi convidado pelo Eanes para cá vir, nas comemorações do 10 de Junho de então.
Ao chegar à biblioteca, mesmo não sendo cardeal, tive direito a passadeira vermelha estendida no passeio. É que o município da Guarda, essa corja de arrivistas, gasta dinheiro em panasquices mas é-lhe indiferente que o edifício da BMEL meta água. Para reparar isso não há dinheiro!
O discurso que o Jorge de Sena então fez foi lido pelo actor. E eu, que do Sena conheço pouco sem me interessar o resto, fiquei estupefacto com o discurso dele. Tão sóbrio quanto exacto e contundente. Não admira que o seu conteúdo tenha sido deliberadamente esquecido por toda a comunicação social da altura, fora do termo da cidade.
Nunca ouvi nenhum catedrático falar de Camões e dos portugueses conforme Sena o fez. Ainda bem que finalmente o ouvi. Se conseguir obter uma cópia do discurso, não deixará de vir parar aqui.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Refinado

O ariano Temer, ainda presidente do Brasil, não recebeu o Marcelo nem o Costa, na recente visita ao Rio de Janeiro, no dia 10 de Junho.
Com isso ele procede como um cafre vulgar, repudiando o pai e a história. E assume-se como o filho da puta refinado, que nunca deixou de ser.

domingo, 11 de junho de 2017

Felizmente!

Digo-o sem dramatismos: a Guarda do rei Sancho Povoador mete pena.
Caída nas unhas duns paraquedistas oportunistas e outros istas, serve apenas para eles construírem currículo.
O Verão está aí, com os visitantes que traz. Mas o município, repetindo o gesto, entrega o miolo da cidade (ruas, praças e jardins) a uns pseudo-artistas que reeditam o simpósio internacional de arte contemporânea. Enquanto empestam o ambiente com obras, passadeiras coloridas pelas ruas e poeiradas imundas.
Vazias e incomodadas, as lojinhas fecham. Felizmente a Sé e o Sancho Povoador lá continuam. E o cu da Guarda também!