quarta-feira, 28 de junho de 2017

O negócio dos garanhões, ou como se aniquila um povo

" (...) Os mais ricos têm escravos de ambos os sexos, e há indivíduos que fazem bons lucros com a venda dos filhos das escravas nascidos em casa. Chega-me a parecer que os criam como pombas para levar ao mercado. (...) (Clenardo)
"Quando chegou ao tema dos escravos, o eclesiástico deixou turvar de lubricidade o olhar.
Tem o duque de Bragança criação de escravos mouros, alguns dos quais são reservados unicamente para fecundação de grande número de mulheres, como garanhões, tomando-se registo deles como das raças de cavalos em Itália. Deixam essas mulheres ser fecundadas por quem quiser, pois a cria pertence sempre ao dono da escrava e diz-se que são bastantes as grávidas. Não é permitido ao mouro garanhão cobrir as grávidas, sob pena de 50 açoites.
Rebanhos de fêmeas como este há muitos em Portugal e nas Índias, somente para a venda de crias. Creio que muitos têm inveja desses mouros garanhões."

Rendimento mínimo

" (...) Nestes prados da quinta dos cavalos não há cavalos nenhuns. Só João vai caminhando pela berma da estrada e o viajante pára ao lado dele. Não sendo velho é uma figura antiga, delida pelo tempo ou pela vida. E há nele uma servitude primitiva que este viajante já julgava extinta.
De manhã tirou-se de cuidados e foi à vila ao médico espanhol, à boleia dum vizinho. Em breve se despachou e agora não há transportes, não tem remédio senão voltar a pé. Tem a mãe à espera em casa, já muito velha, e ainda mais achacada do que ele. Há mais irmãos, mas desgarraram todos, depois que voltaram de Angola. Foram para lá quando eram pequenos, cresceram  nos colonatos do Cunene. Havia o gado e aquelas terras grandes... Agora o que lhe vale é o rendimento mínimo.
Quando o carro estaca no meio do povo, ali à beira dum salgueiro-chorão, João ainda não acreditou que o viajante parou na estrada e o trouxe para casa. O que lhe vale é o rendimento mínimo. E ao vê-lo assim, a afastar-se cabisbaixo, convence-se o viajante de que deu boleia a um símbolo de alguma coisa maior. (...)"
(Portugalmente - Peregrinação da Lapa a Riba-Côa, Jorge Carvalheira, Ed. Âncora, pág.141]

terça-feira, 27 de junho de 2017

Despersonalização

" E a esse propósito é inevitável citar o flamengo Clenardo que, vindo da Europa do Norte no início do séc. XVI, não podia deixar de se espantar com o panorama peculiar que encontrou nas cidades portuguesas.
"Mal pus os pés em Évora, julguei-me transportado a uma cidade do inferno; por toda a parte topava negros. Os escravos pululam por toda a parte. Todo o serviço é feito por negros e mouros cativos. Portugal está a abarrotar com essa raça de gente. Estou em crer que em Lisboa há mais escravos e escravas do que portugueses livres de condição. (...)
"É incontestável a presença de escravos nos campos de quase todo o país, mas particularmente nos do Alentejo e do Algarve, em tarefas agrícolas ou pastoris. (...)"
" (...) As várias formas de marginalização moral do escravo somavam-se ao processo de despersonalização, que começava pela forma como era nomeado. Os que chegavam de fora recebiam no baptismo um nome cristão, sendo obrigados a abandonar o seu nome original, aquele que os unia à sua cultura ancestral. O que não tem nada de inocente; o processo que podemos chamar de desculturação é uma das componentes da despersonalização. (...)"
"Fugiu a João Cosme Dantas, morador à Cruz dos Quatro Caminhos, um escravo por nome João Rodrigues, rapaz que terá de idade 15 anos, que veio na nau da Índia e dizia que era de Macau. Foi comprado em Moçambique. É espigadote e magro, bem feito e de olhos grandes. (...)"

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Feitiçarias


" (...) Florinda Maria, de origem angolana, farta de trabalhar e de ser surrada pela sua senhora, lembrou-se de fazer um feitiço que aprendera com o pai e com "umas pretas da sua terra". Fez um boneco de trapos negros, espetou-o com alfinetes, atou-o com cordas de viola e meteu-o dentro do colchão da dita sua senhora. Era a forma de lhe "condicionar a vontade, esperando torná-la mais amistosa no relacionamento. (...)
O escravo-copeiro Afonso de Melo valeu-se para isso do feiticeiro José Francisco que, depois de outras soluções sem sucesso lhe forneceu um bocado de um pau que devia mascar de manhã em jejum e depois cuspir no chão, no lugar onde o senhor viesse a pôr o pá esquerdo.
Domingos, escravo de João Costa Silva, recorria a meios mais pesados, tendo conseguido os favores do próprio demónio, com quem ia falar ao Vale de Cavalinhos, clássico lugar de encontro da feitiçaria lisboeta. (...)
A origem das bolsas de mandinga parece ser o território mandinga da Alta Guiné, islamizado no séc. XIII. A islamização, com a consequente valorização da palavra escrita, estará na origem da introdução de pequenos textos de carácter sagrado, escritos em árabe, num tipo de bolsa já antes utilizado como talismã pelas populações locais. (...)
Essa adaptabilidade foi, provavelmente, uma das razões do seu sucesso em Portugal, onde as bolsas de mandinga se tornaram populares não só entre escravos e forros africanos, mas também entre brancos livres. (...).

domingo, 25 de junho de 2017

Ó Peixoto!

A gente sabe que a tua especialidade não é produzir literatura mas antes pedir colo. É que há sempre uns peitos femininos que se deixam comover, porque não sabem do resto.
Ultimamente fizeste umas passagens baixas à Coreia do Norte, e andaste por lá à procura de inspiração. Só tu e o comité central da festa do Avante! Mas não nos contaste nada do que lá se passa. Mormente aquele caso do jovem norte-americano que foi preso (como é que ele se chamava?!), esteve 17 meses no chilindró e acabou por ser libertado e devolvido à América.
Só que, coitado, sofreu tratos tais na cela, que trouxe de lá lesões cerebrais irrecuperáveis, por virtude duns mimos que lhe deram. Morreu pouco depois de chegar à América.
E tu, Peixoto, se calhar morreste-me também. Se fosses à bardamerda já se não perdia tudo!

Mestre

Os computadores e eu
 
"Uma tarde em Marimba, na Baixa do Cassanje, no ano da guerra de 1973, mostrei ao soba Macau (Sebastião José de Mendonça Macau) um boneco da minha filha Zezinha, então bebé, um veado de pano que se puxava um cordelzinho na barriga e soltava uns guinchos rachados. O soba ergueu às copas das mangueiras a bengala do seu poder, largou a fugir aterrado, e eu comecei a rir até que de súbito entendi e o riso se me secou na garganta. Joguei em pânico o tenebroso veado ao chão e desatei a correr atrás do soba pelo capim fora.
Aquele homem velho de infinita sabedoria, capaz de fazer navegar o seu povo incólume entre a tirania da polícia e as exigências do MPLA, percebeu mais depressa que eu a infinita perversidade das máquinas, mesmo as ocultas, nas tripas de algodão de um animalzinho de brincar. (...)
Percebera que as máquinas e os aparelhos nos detestam e que a condição da nossa sobrevivência consiste em nos afastarmos deles, não os ligarmos à corrente, não lermos os manuais de instruções com diagramas explicativos em oito línguas diferentes todas elas incompreensíveis, não cedermos ao desafio de carregarmos em nenhum botão.
No que me diz respeito não sei mexer num único desses símbolos do progresso, do aspirador ao apara-lápis, do micro-ondas ao blequendeker, do vídeo ao saca-rolhas, que levanta a pouco e pouco duas pérfidas asinhas de metal. (...)
Julgo não ter medo da morte, não ter medo do dentista, não ter medo da lepra, não ter medo dos políticos, mas tenho medo dos computadores. (...) Já me engoliram um romance inteiro, já me transformaram capítulos em poesia experimental, já retiraram ossos aos meus parágrafos, reduzindo-os a um puré de adjectivos. Por isso escrevo à mão. (...)
E os computadores imagino-os rugindo numa jaula de circo, sonolentos e de unhas de fora, só possíveis de enfrentar de botas altas, alamares e chicote na mão, obedecendo a contragosto às ordens de quem se aproxima deles, tocando-lhes com um pau para os obrigar à complicada proeza de uma frase escorreita. E nos momentos de inconsciência em que carrego numa tecla a pele escurece-me, os ombros curvam-se-me, a camisa dá lugar a um pano do Congo, os pés descalçam-se-me de meias e sapatos, os ruídos de África inundam a sala, ergo a bengala do meu poder às copas das mangueiras em que os morcegos se penduram todo o dia de cabeça para baixo e largo a fugir, aterrado, capim fora, na direcção do rio onde os crocodilos dançam à flor do lodo, à espera da imprevidência dum cabrito."
[Ninguém escreve uma crónica como o Lobo Antunes. Este campo é dele.]

sábado, 24 de junho de 2017

Tradições



Passou a noite em que os tripeiros se divertem a trocar marteladas na cabeça à custa do S. João, hoje em dia com sotaque chinês.
Mas têm pouca sorte, já que alguém determinou o lógico: proibir o lançamento de balões de mecha a arder, essas bombas voadoras que caem ninguém sabe onde e incendeiam pinhais.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Fugir a salto

Os caçadores de cachalotes, de que extraíam um óleo finíssimo, vinham em tempos da América procurá-los às ilhas dos Açores.
E os pescadores locais não estavam autorizados a entrar nos barcos americanos, nem eles podiam acolhê-los.
Mas havia uma falésia numa ilha, donde os açoreanos saltavam directamente para dentro do barco americano. Foi um arranjo desses que levou uma grande comunidade açoreana para a América.
Os modos mudaram com os tempos. Mas a fala assim ficou.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Capelas

Em entrevista à TSF, Helder Macedo põe os pontos nos is: critica acerbamente a pobre contribuição de Luiz Pacheco para a literatura, esse cultor de excessos variados.  
Deixemos passar as velas votivas da capelinha surrealista!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Anacronismos ou cegueira histórica?!

"(...) Há, porém, relatos de alguns visitantes estrangeiros, surpreendidos com uma situação que era, para eles, pouco familiar.
O nobre flamengo Jan Taccoen, senhor de Zillebeke, quando em 1514 passou por Lisboa a caminho de Jerusalém, teve oportunidade de ver chegar um navio "carregado de especiarias" que sob a coberta trazia cerca de 300 escravos negros, homens, mulheres e crianças. Ficou chocado com o facto de todos virem completamente nus, mas também não lhe deixou boa impressão a forma como depois foram tratados. Saídos do navio, foram agrupados na praia, e aí ao sol de Abril foi-lhes dado de comer em grandes gamelas, um espécie de trigo cozido, uma massa mole. Não tinham colheres, e o grupo que rodeava cada uma das gamelas usava as mãos para levar os alimentos à boca.
Acabada a comida, foram obrigados a ir lavar as gamelas ao Tejo, as quais em seguida foram enchidas de água doce. No entanto, a única forma que tinham de chegar à água era ajoelhando-se, e bebendo como animais. (...)
O prazentim Giuli Landi, quando passou pela capital portuguesa cerca de 1525, não deixou de reparar no modo de comerciar os escravos africanos. "Na compra e na venda dos escravos empregam muito cuidado, pois não basta para os compradores verificar a sua destreza e a sua galhardia, fazendo-os andar e correr, querem também ver se têm algum defeito nos seus corpos, e se lhes faltam dentes, por estarem convencidos de que aqueles a quem faltam dentes são mais fracos para o trabalho, por lhes faltarem os instrumentos de comer, de onde lhes vêm as forças. Ao exporem os escravos para vendê-los, costumam untá-los com azeite, para que os seus corpos pareçam mais lustrosos e mais belos. (...)
A praça da cidade que Sassetti refere era provavelmente o Largo do Pelourinho Velho, um dos topos da cosmopolita Rua Nova dos Mercadores, que corresponderia hoje ao quarteirão definido pelas ruas do Comércio, da Madalena, da Alfândega e dos Fanqueiros. (...)"
Os indígenas locais que ainda hoje sustentam que a aberração do tráfico escravo era fruto normal do tempo, limpem as mãos à parede! É que não há pior cego que aquele que não quer ver. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Publicidade

* Quem quiser comprar um escravo preto, com idade de 16 anos, sem achaques, sabe cozinhar, capaz para todo o serviço, vá a casa de Ricardo King, morador na Calçada do Correio-Mor. Gazeta de Lisboa, 16 de Março de 1724
* Quem quiser comprar escravos e escravas boçais que vieram nesta monção de Cacheu, podem-nos vir ver à casa de Patrício Nolan, no meio da Rua das Flores. Gazeta de Lisboa, 14 de Agosto de 1727
* Quem quiser comprar uma preta pode falar a José Rodrigues Charneca, cabo da ronda, morador na Calçada de Santo André. Correio Mercantil e Económico de Portugal, 8 de Maio de 1787
* Quem tiver para vender algum escravo preto, fale na loja da gazeta...
* Quem quiser comprar uma mulata da idade de 22 anos, que sabe muito bem coser, engomar, fiar, fazer meia e cozinhar, fale com Manuel Alberto Colaço, capitão de Infantaria agregado à primeira Plana...
* Pretende-se comprar um escravo de 12 até 16 anos de idade...
Comentários para quê?!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Comércios

2 - Fora de considerações de ordem moral e de critérios históricos, o pensamento que aqui se apoia é este: nenhum povo moralmente são resiste a séculos de desbragado tráfego de seres humanos.  
" (...) Não nos deve espantar esta importância da Carreira da Índia no transporte de escravos para Portugal. Como tivemos oportunidade de referir quando tratámos dos escravos índios, acontecia assim desde praticamente a abertura da Rota do Cabo e o volume de saídas só teve tendência para aumentar, à medida que, no séc. XVII, as mercadorias de luxo deixaram de ser suficientes para satisfazer a tonelagem das armadas.
Os escravos transportados, além de asiáticos das mais variadas origens, eram também africanos da costa oriental, resultado dum comércio que já era anterior à chegada dos portugueses e que estes continuaram.
Além disso, no regresso ao reino, por motivos justificados ou inventados, alegando por exemplo problemas técnicos ou de falta de água, as frotas procuravam fazer escala em Moçambique ou em Angola, reabastecendo-se aí de mercadoria humana em troca dos tecidos asiáticos. (...)
As frotas de 1665 e 1667 fizeram mesmo o pleno, parando em Moçambique, em Angola e na cidade da Baía. (...) Aproveitando esta paragem tripulantes e particulares vendiam na cidade baiana alguns dos escravos trazidos nas naus da Índia, prática de que há notícia desde 1698. (...) No caso dos escravos trazidos do Brasil, alguns já crioulos, quase sempre acompanhavam funcionários, militares ou emigrantes portugueses de regresso à pátria. (...)
Alguns dos proprietários podiam trazer, embora não fosse comum, dez ou mais cativos, e parte deles por certo eram vendidos a terceiros. Em 1727, um comerciante de escravos com loja no Bairro Alto mandava anunciar na Gazeta de Lisboa: Quem quiser comprar escravos e escravas boçais que vieram nesta monção de Cacheu, podem-nos vir ver à casa de Patrício Nolan (britânico?), no meio da Rua das Flores. (...)
O abastecimento do mercado português em mão de obra cativa passou a fazer-se em grande parte pela reprodução física dos escravos residentes, na esmagadora maioria de origem africana, tendo o fornecimento a partir do exterior deixado de ser regular e tornando-se irrelevante na maior parte dos anos. Só isso permitiu que, em 1761, o marquês de Pombal pudesse avançar coma proibição da entrada de novos escravos em Portugal, sem protestos dos comerciantes."

domingo, 18 de junho de 2017

Apocalipse segundo S. João

O fogo de dimensões bíblicas tomou conta da vida, sem que qualquer de nós possa fazer-lhe frente ou escapar-lhe.
O resultado é aterrador. Nenhum dos outros evangelistas o referiu, mas está aí. E a única explicação racional que me chega é a dum amigo que o não diz, mas o escreve.
"A complexidade crescente da organização da vida ... a energia das telecomunicações... a gestão das redes... custa mais do que o que traz.
Recolhe-te à tua pobre dimensão e confia. Chegaram tempos em que é melhor ser gato!

A hecatombe por partes



1 - Escravos chinas
" (...) Macau tinha-se tornado, aliás, uma placa giratória no comércio de escravos (sempre com predominância do sexo feminino) e aí eram comprados e vendidos não apenas jovens chineses mas também outros que eram trazidos do Japão e de Timor.
Lavados à Índia, entre outros destinos, foi a partir de Goa a bordo das naus da carreira da Índia que alguns desses escravos foram embarcados para Portugal no séc. XVI. Mas continuaram a chegar durante os sécs. XVII e XVIII, apesar das proibições régias que procuravam interditar o transporte de escravos nesses navios. Os escravizados eram em geral trazidos por militares e altos funcionários régios que, uma vez em Lisboa, ou os mantinham na sua companhia ou os ofertavam, como prenda de prestígio, a amigos e superiores, ou simplesmente os vendiam a quem desse mais. (...)
Em 1730, Francisco de Melo e Castro, que vinha de Goa como capitão-mor da nau da Índia (nessa altura já era só uma nau que fazia a rota do Cabo) trazia consigo três jovens chineses. Morreu, no entanto, pouco tempo após a sua chegada a Lisboa, e arrolados os seus bens os jovens foram vendidos como escravos em leilão público, tendo tido destinos muito diferentes.
Agostinha, provavelmente a mais velha dos três, protestou, enquanto pôde, que era uma pessoa livre (de facto o tráfico de chineses estava formalmente proibido). (...)
O moço china Pedro foi comprado pelo padre Manuel Monteiro, do Rio de Janeiro, que estava de passagem por Lisboa. (...)
Finalmente a Domingas, vendida no mesmo leilão, perdeu-se-lhe o rasto, dizendo alguns que teria sido levada para o Alentejo.
Sem falar na atração sexual que as jovens chinesas despertavam, pelo misto de proximidade e exotismo, os escravos chinas eram considerados leais, inteligentes e trabalhadores. (...)
A maioria dos escravos chineses concentrava-se em Lisboa. Mas havia também escravos chineses noutros pontos do território, sobretudo no Alentejo. Em 1562, D. Maria Vilhena, rica proprietária de Évora, deixava no seu testamento, entre outros escravos de diversas origens, António, china azemel, uma espécie de almocreve.
Em 1771, Manuel Saldanha de Albuquerque, 1º conde de Ega, que tinha sido vice-rei da Índia, mantinha ao seu serviço, no seu palácio da Ajuda em Lisboa, vários escravos, entre os quais um escravo china.

sábado, 17 de junho de 2017

Budas contentinhos



80% da literatura é linguagem, há-de ser verdade, se foi um mestre que o disse. Terei lido este romance no Natal de 2010, e já não recordava por que gostei tanto dele. Fui revê-lo.
A tradução é de luxo. O discurso narrativo, oralizante, é um calão adolescente que às vezes roça o vernáculo, sem nunca fazer disso uma bandeira. Distingue-se claramente o que é real do que é artificialidade narrativa.
É isto a América criativa e inovadora, eficaz, competitiva. A dar lições aos mestres da Europa. Então aos bonzos indígenas que cá temos... esses budas contentinhos... deus nos livre!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Perdas e ganhos

Lê-se Camilo, hoje, por função ou por castigo. Por isso não se entendem os critérios que levaram estes eruditos a colocar o Amor de Perdição no Plano Nacional de Leitura.
Se eles soubessem o que andam a fazer, e aquilo em que se gasta a canalhada, reformavam-se e toda a gente ganhava!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Mafia

Esta casa já foi da família do coronel Prata Dias, um barbaças antigo que apoiou o Gomes da Costa no 28 de Maio do século passado. Quando ele veio lá de Braga pôr Lisboa em sentido e a República na ordem. O coronel foi o primeiro responsável pela censura instaurada por tal tropa.
Agora é apenas a vivenda Dias. E deixou de ser propriedade inalianável do lar de São Sebastião, essa coisa que ninguém chegou a ver depois que apareceu dinamitada a casa branca. A placa que o dizia desapareceu entretanto.
O físico e o mental estão em consonância numa personalidade. E o Dias parece ter saído dum filme de mafiosos da Sicília. Baixote, metido no sobretudo, não enganava ninguém.
Criou-se aí, entre fomes, e foi parar a França no seu tempo. Mas não se gastou nas obras de Champigny. Fazia-se de correio que trazia para Portugal o salário que os colegas queriam mandar às mulheres. Muitas vezes era roubado no caminho, ao que fazia constar, o dinheiro é que nem sempre chegava às destinatárias.
Um dia regressou a Portugal e trouxe maquinarias. Vieram aí uns franceses à procura delas, mas não encontraram nada, que tudo estava em porto seguro. O mafioso instalou-se à beira-mar, montou negócios de extracção de areias, encalacrou a Volvo com maquinarias e calotes. E começou a comprar tudo o que aparecia à venda. Foi o caso da vivenda da família Prata Dias.
Quem então o visitava muito, a altas horas, era um escroque de Aguiar da Beira, que era ministro do biltre do Cavaco a quem fazia os discursos. O escroque vinha aí encharcar-se em conhaques raros, enquanto planeava investimentos ruinosos, ia à caça com o Bourbon de Espanha para os sertões e arruinava o BPN.
Quando se meteu na heroína da Colômbia, o mafioso mandava mulas a Paris, de comboio, a entregar encomendas. E quando a Judiciária meteu o nariz nisso, foi passar um tempo em África, a deixar amainar os ventos.
Agora ficou velho e achacado, e o futuro é incerto.

É galo!

As lombas pelos caminhos e um semáforo na aldeia são a marca mais moderna dos autarcas de agora. Terras onde alma-viva não existe voltam de repente a abrilhantar o mapa.
Já no concelho da Guarda, que fica para lá dos montes e muito longe da civilização, elas alastraram às estradas principais. Ainda por cima sem adequada sinalização.
Vai um condutor no seu vagar, e de repente cai-lhe em cima o tejadilho, planta-lhe um hematoma na cabeça. Um galo, também se diz!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Camões e os portugueses

No passado 10 de Junho assisti na Guarda, na biblioteca Eduardo Lourenço, a uma leitura de um actor que veio de Lisboa para nos ler o discurso que o Jorge de Sena aqui fez, quando foi convidado pelo Eanes para cá vir, nas comemorações do 10 de Junho de então.
Ao chegar à biblioteca, mesmo não sendo cardeal, tive direito a passadeira vermelha estendida no passeio. É que o município da Guarda, essa corja de arrivistas, gasta dinheiro em panasquices mas é-lhe indiferente que o edifício da BMEL meta água. Para reparar isso não há dinheiro!
O discurso que o Jorge de Sena então fez foi lido pelo actor. E eu, que do Sena conheço pouco sem me interessar o resto, fiquei estupefacto com o discurso dele. Tão sóbrio quanto exacto e contundente. Não admira que o seu conteúdo tenha sido deliberadamente esquecido por toda a comunicação social da altura, fora do termo da cidade.
Nunca ouvi nenhum catedrático falar de Camões e dos portugueses conforme Sena o fez. Ainda bem que finalmente o ouvi. Se conseguir obter uma cópia do discurso, não deixará de vir parar aqui.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Refinado

O ariano Temer, ainda presidente do Brasil, não recebeu o Marcelo nem o Costa, na recente visita ao Rio de Janeiro, no dia 10 de Junho.
Com isso ele procede como um cafre vulgar, repudiando o pai e a história. E assume-se como o filho da puta refinado, que nunca deixou de ser.

domingo, 11 de junho de 2017

Felizmente!

Digo-o sem dramatismos: a Guarda do rei Sancho Povoador mete pena.
Caída nas unhas duns paraquedistas oportunistas e outros istas, serve apenas para eles construírem currículo.
O Verão está aí, com os visitantes que traz. Mas o município, repetindo o gesto, entrega o miolo da cidade (ruas, praças e jardins) a uns pseudo-artistas que reeditam o simpósio internacional de arte contemporânea. Enquanto empestam o ambiente com obras, passadeiras coloridas pelas ruas e poeiradas imundas.
Vazias e incomodadas, as lojinhas fecham. Felizmente a Sé e o Sancho Povoador lá continuam. E o cu da Guarda também!

sábado, 10 de junho de 2017

Dia da pátria

Nesse tempo, numa encarnação antiga, o 10 de Junho era a festa da pátria, que desfilava no Terreiro do Paço.
Na tribuna havia uns almirantes de peito medalhado, e duma janela onde o fariseu-mor cantava o Angola é Nossa, ouvia-se uma voz de falsete que mandava avançar para África rapidamente e em força. O resto não era nada connosco.
Havia quem desmaiasse na formatura antes do desfile, se da emoção patriótica ou da inclemência do sol nunca o saberemos. O pior papel cabia às viúvas e aos órfãos juvenis, pobres deles, de peitos picados pelos alfinetes das cruzes de guerra póstumas ao peito.
E ainda faltava tanto para o 25 de Abril!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Leis da Natureza

Li-o aí pelo Natal de 1993, e já não me lembrava por que gostei tanto dele. Fui revê-lo. E espanta-me que o seu autor, apoiante directo e jovem de Salvador Allende, tenha revelado esta costela narrativa, depois do tempo que passou nas mãos dos torcionários.
O universo de toda a acção é a floresta amazónica. E é através das aventuras do velho Antonio José Bolívar Proaño que o leitor se embrenha nesse mundo: os índios xuares, os colonos derrotados pela floresta, os garimpeiros do ouro nas fronteiras do Perú, a onça, as formigas legionárias, os pequenos javalis saínos, os macacos micos, a anaconda, e os fotógrafos americanos que a floresta dizima.
A narrativa acaba com o encontro final do velho Proaño e da onça solitária, a quem um branco tinha matado os filhos.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Feriados religiosos

A agenda não diz nada, que é pagã. Mas dizem que vem aí a festa do corpo de deus, e que é feriado.
Ninguém explica o que uma tal coisa seja, embora seja sabida a sua longa tradição religiosa. No Memorial do Convento, José Saramago dá-nos uma ideia.

"(...) Passa a procissão entre filas de povo, e quando passa rojam-se pelo chão homens e mulheres, arranham a cara uns, arrepelam-se outros, dão-se bofetões todos, e o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz para este lado e para aquele, enquanto um acólito balouça o incensório. Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.
Nas janelas só há mulheres, é esse o costume. Os penitentes vão de grilhões enrolados às pernas, ou suportam sobre os ombros grossas barras de ferro, passando por cima delas os braços como crucificados, que desferem para as costas chicotadas com as disciplinas, feitas de cordões em cujas pontas estão presas bolas de cera dura, armadas de cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibem verdadeiro sangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tanto pelos motivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos se não soubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo.
Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo amador sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de- rosa, ou verde, ou amarela, lilás se não vermelha ou cor do céu, é aquele o seu homem e servidor que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não podendo falar, berra como touro em cio, mas se às mais mulheres da rua, e a ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergastada foi em jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do corpo feminil grande assuada, e possessas, frenéticas, as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o estralejar dos rabos do chicote, que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. Está o penitente diante da janela da amada, em baixo na rua, e ela olha-o dominante, talvez acompanhada de mãe ou prima, ou aia, ou tolerante avó, ou tia azedíssima, mas todas sabendo muito bem o que se passa, por experiência fresca ou recordação remota, que Deus não tem nada que ver com isto, é tudo coisa de fornicação, e provavelmente o espasmo de cima veio em tempo de responder ao espasmo de baixo, o homem de joelhos no chão, desferindo golpes furiosos, já frenéticos, enquanto geme de dor, a mulher arregalando os olhos para o macho derrubado, abrindo a boca para lhe beber o sangue e o resto. Parou a procissão o tempo bastante para se concluir o acto, o bispo abençoou e santificou, a mulher sente aquele delicioso relaxamento dos membros, o homem passou adiante, vai pensando, aliviadamente, que daqui para a frente não precisará vergastar-se com tanta força, outros o façam para gáudio doutras."
S isto é a procissão do corpo de deus, para quê mais palavreado?

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo.
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Isto era o que dizia o mestre Caeiro, mas a vantagem é minha. Porque vejo a mesma coisa enquanto, sossegado, me sento à mesa na dona Rosa:
Há um casal que fala francês (ela), e lê cuidadosamente uma versão do Bedecker, enquanto ele bebe um belo vinho português a bon marche;
Há duas testemunhas de Jeová (dois homens), um dos quais bebe vinho às escondidas;
Há um casal de sefarditas que vieram de longe, reconhecer as origens distantes. Ele tem a idade de quem foi à guerra dos seis dias e desfez os palestinos; ela é nova, com ar de quem se chateia com a vida do colonato...

terça-feira, 6 de junho de 2017

Bambochatas


Num país em que muito pouca gente se leva a sério, (e menos ainda o tempo do leitor)todas as bambochatas são poucas. Como se as indígenas não chegassem, importam-se lá de fora. É a pica de um sabor cosmopolita.
É o caso desta bambochata que chega de França: uma grande peça de prestidigitação literária, numa sociedade do simulacro.
Não te cuides, não, leitor!

"(...) A seguir à aula de Francês, o professor pede-lhe que fique. Depois de os outros alunos saírem, ele pergunta-lhe se está tudo bem. Se tem problemas em casa. Não quer ser indiscreto, quer apenas saber se está tudo bem.
O professor está diante dela, encara-a. Procura um sinal. Ela baixa os olhos.
Ele diz-lhe que se ela não conseguir falar, talvez possa escrever. Para ela mesma. Ela gosta de escrever, não é? Ela não diz nada. Ela pensa muito alto naquelas palavras que não quer dizer, ela pensa o mais alto possível para que ele as oiça, serei tão feia, tão ridícula, tão diferente, tão curvada, tão mal penteada, tão má? Tenho medo de enlouquecer. Tenho medo e não sei se esse medo existe, se tem um nome. FIM."
Phoska-se!!!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Luz ao fundo do túnel

" (...) e lembro-me de Alcácer-Quibir e do rei Sebastião, do terramoto desta cidade de Lisboa, de D. Pedro V, o Hamlet português, e do seu mestre Herculano, cujo soberbo túmulo contemplei esta mesma tarde nos Jerónimos, e por último volta a pairar sobre mim o enigmático e triste sorriso de Eça de Queirós.
Entretanto vão e vêm as pessoas desta cidade cosmopolita; parecem contentes, riem, gesticulam, acodem aos seus negócios ou às suas distrações. E contudo Portugal, esta mesma terra, é um povo triste. (...)
Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Querem talvez viver, sim, mas para quê? Vale mais não viver.
Suicidou-se Antero de Quental, (...) suicidou-se também Soares dos Reis, o grande escultor português da estátua do Desterrado. Suicidou-se Camilo Castelo Branco, o escritor mais popular aqui, o dos terríveis sarcasmos, o que viveu e lutou sozinho, mantendo erguida contra todos a bandeira do ultra-romantismo. Suicidou-se também Mouzinho de Albuquerque, em quem muitos esperavam ver ressurgir algum dos heróis antigos da epopeia camoniana. Suicidou-se Trindade Coelho, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, e mesmo o caso de Buíça, o regicida, não foi em rigor um suicídio? (...)
Dentro duns dias, a 1 de Dezembro, vão celebrar a restauração da sua nacionalidade, de terem sacudido a soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte voltarão a falar de bancarrota e de intervenção estrangeira. Pobre Portugal". (Miguel de Unamuno)

"A verdade é que na sociedade portuguesa a noção da sua personalidade colectiva, o sentimento de vida nacional, o sentimento de pátria, se quiserem, não existe sobrepondo-se a todos os outros sentimentos de interesse individual. Existe apenas o sentimento e o espírito intolerante da seita, existe apenas o interesse da quadrilha, mascarados por um messianismo avariado, de ínfima qualidade.
Um dos aspectos mais típicos da vida portuguesa e um dos seus males mais funestos é a sua prodigiosa fertilidade messiânica. A cada passo surge um homem que se sente com envergadura e ventre de messias. Por cada messias que aborta, pululam inesgotavelmente centos de messias, toda uma falperra de messias. E enquanto a nação rola à aventura, de messianismo em messianismo, a sociedade portuguesa, lentamente, infatigavelmente, vai-se dissolvendo e desagregando. (...)
Quatro quintas partes do povo português não sabem ler nem escrever, quer dizer: sabem falar incompletissimamente. A palavra escrita é imprescindível para a vida social moderna. Actualmente ela é o instrumento usual mais importante da sociabilidade. (...)". (Manuel Laranjeira)

O espírito construtivo português dissolveu-se, desde o tempo dos reis povoadores, com a gesta gloriosa, uma obra do maior filho da puta que a nossa história alberga: o infante do chapéu grande, que destruiu a ínclita geração pelas utopias do mar, usando os tesouros dos Templários enquanto mestre da Ordem de Cristo.
Destruiu os irmãos todos, um a um: Duarte, esse melancólico, que nunca ultrapassou a cobardia de ter abandonado o irmão nas masmorras de Fez; Pedro, esse príncipe das sete partidas que trouxe do seu grand-tour pela Europa um espírito já não medieval mas renascentista, e acabou atraído e liquidado em Alfarrobeira, por uns fidalgotes parasitas; e Fernando, a quem chamaram santo para o calar.
Desde a Índia, dissolvida a alma e envenenado o povo, a pátria nunca mais se encontrou.
Talvez se comece a ver, hoje, ao longe, uma luzinha na escuridão do túnel!

domingo, 4 de junho de 2017

Delicadezas

Quando chega a sua hora, ainda de noite, entra no quarto e salta-me para a cama.
O seu primeiro gesto é meter uma unhita no braço.
Se eu não acordo, arrisca-me no pulso o seu dentito.
Aí acordo e vou abrir-lhe os dispensadores da comida.
Mas onde é que este melro aprendeu as boas maneiras, em vez de me saltar à jugular?

sábado, 3 de junho de 2017

O da Joana!

Ainda hoje, quando chega o Verão, a história se repete: a fábrica dos queijos, com o seu lago de efluentes a céu aberto, empesta o ambiente, mata as faunas do Távora e impede os camponeses de usar nas hortas as águas da corrente.
E no entanto Trancoso, através do Tribunal Europeu do Ambiente, já anunciou nos jornais a instalação dum projecto-piloto de cidade biológica. Mas isso foi há muitos anos, quando isto era o da Joana!
"(...) Aqui há uns anos, numa feliz conjugação astral, veio à fala o presidente da câmara com dois cidadãos do mundo. Eram eles um brasileiro de lusas raízes, arquitecto e compositor, entre mais dotes, e um Barbas de méritos prováveis de quem nada se apurou. Logo os três se deram conta de não existir no país uma entidade que congregasse os labores de artistas, filósofos, pensadores e cientistas. E consideraram Trancoso o lugar ideal para uma contínua reflexão sobre os males do planeta, através da arte, da ciência e das novas tecnologias. Os três criaram a FACTO logo ali, como quem diz a Fundação para as Artes, Ciências e Tecnologias - Observatório.
Os objectivos da FACTO eram a promoção de projectos de carácter transdisciplinar, transcultural, transnacional e intermediático. Seja lá isso o que for, em boa hora lhe deram nascimento, que assim veio a ter lugar o primeiro encontro internacional de arte e ciência, a que chamaram o Espírito da Descoberta. Um tal espírito visava promover um momento de informação e debate, gerando uma visão mais ampla, diversificada e profunda de algumas das mais fascinantes descobertas da ciência e das propostas da arte, questionando a sua natureza, os seus fins e o universo humano nelas envolvido. (...)
O Espírito da Descoberta cedeu passo às Origens do Futuro, muito embora pareça ao viajante, em linguagem mais terrena, que à tal fome de aventuras visionárias se ajuntou aqui a mais singela vontade de comer. (...)
A plateia, porém, não chega a duas dúzias de presenças exóticas, as mais delas personagens da própria encenação. Mistura-se nas conversas o linguajar brasileiro com um inglês de várias latitudes, alguém atarefado nos serviços de apoio fala um português fluente. Mas a tradução simultânea permite ultrapassar a babélica confusão. (...)
Isto fica a pensar o viajante, que ainda não imagina a dimensão verdadeira da sandice. Porque os dois encontros anuais da FACTO, para o ano hão-de ser quatro. Dado que anda o planeta mergulhado em ondas de simetria e assimetria, nada como devotar-se a câmara de Trancoso a discutir as magnas questões da Ruptura e Tradição, mecenando conclaves de sumidades internacionais em educação, sistemas cognitivos, design, teoria e história da arte, matemática, arquitectura, música, filosofia da ciência, neurologia e dança.
E não vá tanta coisa parecer pouco, há-de o Segundo Encontro Internacional de Arte e Ciência esquartejar o tema das Sociedades de Alto e Baixo Poder. E por haver neste lugar remoto largas famas e melhores tradições visionárias e esotéricas, aqui terá lugar um Encontro Internacional de Arte e Alquimia, onde será chamada a capítulo a Alchimiarte, sociedade de ilustres que em Locarno se ocupam das relações entre uma coisa e outra, desde há séculos.
Hão-de fazer do Bandarra um cabalista, há-de justificar-se-lhe um museu. E finalmente - pois que em toda a acção do Tribunal Europeu do Ambiente está francamente presente a ideia da liberdade, resgatada no seu significado clássico, de onde emana uma dinâmica Paideia, em que cada pessoa é responsável pelo desígnio dos seus próprios limites - hão-de voltar as Origens do Futuro, para pôr em pratos limpos a questão. (...)".

[PORTUGALMENTE - Peregrinação da Lapa a Riba-Côa, Ed. Âncora, Lisboa,]

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Primatas

O distrito de Aveiro tem em marcha um programa voltado para a educação dos meninos do pré-escolar no uso da bicicleta. Só para ver se põem alguma ordem no mundo.
Justamente a bicicleta foi o meio de transporte usado por dois cabrõezitos de Moncorvo, que foram às gravuras dos Piscos, no baixo-Côa, danificar irreparavelmente uma figura humana, picotada numa fraga pelo menos há 10 mil anos.
Pau no lombo e uma cela na cadeia é o que esta gente precisa há muito tempo!

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Crónica de uma morte anunciada

 
Sempre foi a minha novela preferida do García Márquez. Num tempo diegético de 24 horas, o autor tem artes de meter lá dentro uma filosofia, um modo de ver o mundo e os valores duma vida.

"No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros.
"Sonhava sempre com árvores", disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando 27 anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata. "Na semana anterior tinha sonhado que ia sozinho num avião de papel de estanho que voava sem tropeçar por entre as amendoeiras", disse-me. Tinha uma reputação bastante bem ganha de intérprete certeira dos sonhos alheios, desde que lhos contassem em jejum, mas não descobrira qualquer augúrio aziago nesses dois sonhos do filho, nem nos restantes sonhos com árvores que ele lhe contara nas manhãs que precederam a sua morte.
Santiago Nasar também não reconheceu o presságio. Dormira pouco e mal, sem despir a roupa, e acordou com dores de cabeça e com um sedimento de estribo de cobre na boca, e interpretou-os como estragos naturais da farra de casamento, que se tinha prolongado até depois da meia-noite. E mais ainda: as muitas pessoas com quem se encontrou desde que saiu de casa às 6.05 até ser despedaçado como um porco uma hora depois, recordavam-no um bocado sonolento mas de bom humor, e a todas comentou de modo fortuito que fazia um dia lindo. (...)
Angela Vicario, a bela rapariga que se tinha casado no dia enterior, fora devolvida a casa dos pais porque o marido tinha descoberto que ela não era virgem. (...)
Eram gémeos: Pedro e Pablo Vicario. Tinham vinte e quatro anos, e pareciam-se tanto que custava trabalho distinguir um do outro. (...) Embora não tivessem parado de beber desde a véspera da festa, já não estavam bêbados ao fim de três dias, parecendo antes sonâmbulos tirados do sono. Tinham adormecido com as primeiras auras do amanhecer, depois de quase três horas de espera no estabelecimento de Clotilde Armenta, e aquele era o seu primeiro sono desde sexta-feira. (...) Então agarraram ambos no rolo de jornais, e Pedro Vicario começou a levantar-se.
- Pelo amor de Deus - murmurou Clotilde Armenta.  - Deixem isso para depois, mesmo que seja só por respeito ao senhor bispo." (...)
Pedro Vicario, o mais resoluto dos irmãos, suspendeu-a pela cintura e sentou-a à mesa da sala de jantar.
- Vá, menina - disse-lhe tremendo de raiva -: diz-nos lá quem foi.
Ela demorou tão só o tempo necessário para dizer o nome. Procurou-o nas trevas, encontrou-o à primeira vista entre tantos e tantos nomes confundíveis deste mundo, e deixou-o espetado na parede com o seu dardo certeiro, como a uma borboleta sem vontade própria cuja sentença estava escrita desde sempre.
- Santiago Nasar - disse. (...)".
[Edições O Jornal, Lisboa, 1983]

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Deus nos pertuja!

O agente da GNR mandou à oficina um carro da corporação. E, uma vez reparado, voltou lá para o levar.
O mecânico quis fazer um teste de estrada na companhia do cliente, como é de norma. Entraram ambos no carro e o mecânico apertou o cinto antes mesmo de arrancar.
Reparo do patoléu: ó mestre, não é preciso esse cuidado! Então não estou eu aqui?!

terça-feira, 30 de maio de 2017

Ser lúcido

Às duas da manhã regressava eu a casa, vindo do Pátio do Seabra onde fora comemorar o aniversário dum amigo dilecto. Na 2ª circular um funcionário da TAP, encharcado em cocaína, entrou pelo panzer dentro e arrancou-lhe a roda direita à frente, mandando para a oficina outros três carros. A polícia nem lhe fez o teste adequado. Mas a Mercauto, ali a Sete Rios, em dois meses pôs aquilo num brinquinho.
No dito aniversário, dum mestre de cultura que tive na literatura da Uninova, estava ela. Era assistente, dava-nos o Gil Vicente, mas sentia-se insegura. E lá no meio das galinhas cacarejantes das humanidades, que eram as minhas colegas, era eu o seu apoio.
Ela andava em depressão, às mãos dum professor que se ia servindo dela enquanto divagava sobre o Cadornega. E um dia o psiquiatra chegou a receitar-lhe equitação terapêutica, que ela ia tomar à praça de Vila Franca.
Um dia não aguentou e engoliu o frasco inteiro das pílulas. Passou-se, sem eu dar conta.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Pão e laranjas

 À falta de pretexto melhor, hoje é feriado municipal. Comemora-se a batalha de S. Marcos, quando há 900 anos o alcaide de Trancoso, o de Linhares, o de Celorico e o de Ferreira de Aves esperaram pela hoste dos castelhanos que tinham ido a saquear Viseu.
Os chefes fidalgos, enquadrando grupos de campónios locais armados de chuços, dizimaram os castelhanos que voltavam a Castela com uma luzida récua a arrecadar o saque. A maior parte foi morta e aprisionada. E D. João I de Castela teve que reunir forças para voltar a invadir o reino, a caminho de Aljubarrota, onde ele próprio viria a sucumbir.
O povo ouve hoje discursos patriotas e faz um piquenique no planalto, porque deixou por uma vez os castelhanos a pão e laranjas. O mundo é que mudou, e as leis dele, e não há produtividade que resista!

domingo, 28 de maio de 2017

Lembranças

O Círculo de Leitores já não existe. Mas eu era sócio em 1970, e foi através dele que conheci Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Alexandre Soljenitsin. Nunca mais me esqueci da importância que tinha uma migalha de pão para conservar a vida, nos campos de degredo do Stalin.
Eu morava então ali ao Califa, e aguardava lá por um transporte que me levava à Ota, onde me esperavam aviões da guerra da Coreia. Tão velhos, coitados deles, que já tinham fissuras na estrutura e limitações de manobra. Um dia o Barbeitos ejectou-se com fogo no motor, a cadeira não se separou do paraquedas e ele morreu esfacelado mas sentado.
Eu aproveitava os transportes para dormir, e às vezes também dormia quando estava de serviço na torre móvel. 
Do que veio a seguir nos Bijagós o melhor é nem falar. Nem sei porque é que me fui agora lembrar disto!

sábado, 27 de maio de 2017

Mestre

 
"Encontramos Safo já viúva e com uma filha. Intrigada pela fama de um certo jovem de beleza irresistível, e sequiosa de viver novamente o amor, Safo enamora-se de Fáon, um velho barqueiro de Mitilene que as artes mágicas da deusa Afrodita transformaram no mais belo rapaz que alguma vez existiu. Dizem que o seu olhar é de luz mas a sua alma é de gelo.
O drama reside em que a alma ardente e jovem de Safo, presa no invólucro da velhice, ama o corpo jovem de Fáon, que encerra um espírito velho e desapaixonado. Mas Safo parece ignorar essa diferença e entrega-se sem reservas à paixão pelo homem da barca de olho fenício." (da contracapa)
25 anos após os aclamados A CASA DO PÓ e A SALA DAS PERGUNTAS, Fernando Campos, da universidade de Coimbra, deixou-nos ainda A ROCHA BRANCA, romance de 2011.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Revolução ou cultura?

 
Este álbum do Sgt. Pepper's, surgido em 1967, transformou radicalmente o mercado da música ligeira.
Nada voltaria a ser igual, com o aparecimento dos Jefferson Airplane, os Doors, os Pink Floid, os Procol Harum, os Bee Gees, os Moody Blues e os Rolling Stones.
Parece fácil mas não foi. Os Beatles gastaram 700 horas do melhor estúdio de gravação de Londres e 40 músicos entre os quais um cravista, para apresentar isto. Entretanto ouvia-se por cá o António Calvário.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Última tentação

Então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pera pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustração.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Poço sem fundo

Não sei bem o que a vida seria, sem música, sem literatura e sem pintura. Uma das minhas frustrações há-de ser partir um dia para a eternidade sem levar um instrumento musical, para lá tocar. Ainda assim imagino o que ela será, passada entre cus de anjinhos loiros e cânticos de louvor.
Era eu pouco mais que infante, na mão dos jesuítas (chamo-lhes assim!), quando obtive permissão para passar os intervalos em frente duma pauta de música, em vez dos jogos. Havia em cada sala uma organeta de pedais, que simulava um órgão. Passado um tempo e já se ouvia cá fora um arremedo duma sonata de Bach. Havia quem passasse e fosse ver. A nossa vida é mesmo um poço sem fundo!

Revolução

O Rogério afirmou, convicto:
- É para sexta-feira. Sem falta.
- Sexta-feira? - espantou-se o Antunes, sem perceber lá muito bem.
Sim, claro. Sexta-feira - insistiu o Rogério. - Saimos prá rua. Está tudo combinado. O que é preciso é a ditadura do proletariado. Então não te disseram nada?
- Não tenho estado por cá estes últimos dias - retorquiu o Antunes, um pouco enfiado. - Mas vamos fazer o quê, na sexta-feira? Confesso que só ouvi falar vagamente nisso. Não tenho estado cá, já te disse.
O Rogério franziu o sobrolho.:
- Que diabo, homem! A revolução. Que querias que fosse?
- Ah, pois! - O Antunes pareceu aliviado. De repente sobressaltou-se:
- Mas olha que sexta-feira é já depois de amanhã. Achas que há tempo?
- Está tudo preparado - acalmou-o o Rogério. - A Tucha traz-nos as metralhadoras na quinta-feira à noite, depois do jantar. Na sexta, às oito, oito e um quarto da manhã juntamo-nos com o nosso núcleo.
O Antunes parecia um pouco desconectado:
- Mas há bastante gente?
- Claro, homem, claro. Temos os camponeses e os operários connosco. É a tomada do poder. Rápida, fulgurante, sem dar tempo a qualquer recção revisionista. É tiro e queda, é o que eu te digo.
- E temos bombas? - perguntou o Antunes, já entusiasmado.
- Temos, evidentemente.
- Bastantes?
- Ó Antunes, esse teu anarquismo latente ainda dá cabo de ti. São bastantes, sim.
- Então vou.
O Antunes esfregou as mãos, encantado, e saiu batendo com a porta.
Na quinta-feira a distração era geral e os grandes chefes partidários continuavam a descompor-se mutuamente, com excelente eficácia. Tudo óptimo. Mas na sexta-feira começou a chover a potes, logo de madrugada. E não parou mais. E esta, hein!
Foram todos para a discoteca do Martinelli, no carro do Jonas. Ouvir canções revolucionárias cubanas e música chilena.
Por sinal que a música chilena é bem bonita.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Boneco

"São no entanto os portugueses que estão de parabéns neste dia e são, sobretudo, os portugueses quem hoje quero felicitar". (O laparoto, hoje, no DN)

Ó Láparo, cá por mim vai felicitar o caralho! Percebeste ou faço-te um boneco?

Cravo

Então quando o Verão chegava, a Casa de Mateus distribuía em Vila Real a cultura musical pelos municípios da região. Recebia revoadas de músicos que enviava pelo distrito. E foi assim que em Amarante conheci o mestre do cravo, Gustav Leonhardt, na igreja de S. Gonçalo.
À noite, os espectáculos musicais eram na eira, num anexo agrícola da Casa. Ouvi lá a dona moderna da zarzuela espanhola, Alicia de la Rocha.
Mais tarde as coisas mudaram, os artistas deixaram de vir, a música enclausurou-se na Internet e desapareceu dos nossos verões. Só nos ficou aquele inesquecível luar nocturno e algumas constelações no céu.

Mário Henrique-Leiria

"O MÁGICO ENCANIZADO

- Então que é que você quer que eu faça? - retorquiu zangado o Samuel. - Naturalmente pensa que posso mesmo fabricar coelhos, não?
- Mas, ó Sam, isso de só tirar caramelos e chaves velhas do chapéu , não dá nada. Ninguém acredita, que diabo! Um caramelo, uma chave, ora bolas, então que magia é essa?
-E você paga o coelho? E olha que o coelho, às vezes, até sai correndo que ninguém mais o apanha.
Fizemos um acordo. Eu fornecia os coelhos, as fitas coloridas, até mesmo as bandeiras patrióticas, tudo o que fosse necessário para surdir do chapéu. Depois era com o Samuel isso do espanto popular.
E deu resultado. Lá íamos.
O Sam esmerava-se, saía tudo daquele chapéu magnífico e tubular. A mulher dele, em cuecas e um sutien americano, dava o apoio conveniente e as crianças funcionavam, trazendo a mesa de pés dourados e o saco preto dos mistérios e pasmos.
Mas houve certa altura em que verifiquei, com alguma reserva, que embora as fitas, as bandeiras das pátrias e até os caramelos e as chaves continuassem a sair em abundância, coelhos nenhum.
Deixei seguir, porque a assistência lá ia aplaudindo e eu também tinha o meu número com aquela bendita onça que só me dava dores de cabeça e arranhões razoáveis. Deixei seguir mesmo.
E de coelhos nada.
Foi então que notei que as crianças do Sam tinham um aspecto muito saudável e anafado.
Quando a onça resolveu ficar mais bonitinha e deixou de me dar ralações, achei que era altura de inquirir.
- Vamos lá saber, ó Sam. Estou pagando coelho e mais coelho, todos os que você pede e, nestes últimos dias, não tenho visto surdir nenhum desse chapéu desgraçado. Que diabo anda você fazendo com eles?
E, ostensivamente, mirei os três filhos do mágico que, rechonchudos, pasmavam para a nossa conversa.
O Samuel não gostou. Achou abuso.
- O número agrada ou não? - retorquiu, enfezado.
- Bem, não se trata disso. O que é preciso é fazer sair coisas graúdas do chapéu, coisa que pareça que não cabem lá, coelhos, por exemplo.
- Se o caso é esse, de coisas graúdas, não se preocupe você com os coelhos. Não se preocupe, é o que digo, que hoje à noite vai ver.
E afastou-se, encanizado.
À noite a função correu como de costume. O trapézio funcionou certo. a minha onça não me arranhou excessivamente, os palhaços esbofetearam-se com a dignidade devida e chegou o número do Sam.
Começaram a sair as fitas e as bolas. Aplausos. Vieram os caramelos atirados p+ara a assistência. Mais aplausos, o chapéu parecia inesgotável. E então, ó coisa inaudita, primeiro um, depois outro, finalmente o terceiro, os três filhos do Sam, sorridentes e saudáveis, saíram também, lentamente, com extrema precisão, daquele chapéu alucinante."

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Estes dias tempestuosos

" (...) Por mais negro que se apresente o futuro imediato, nem tudo está perdido. A humanidade dá-de sobreviver pela fé e a esperança, o amor e o sofrimento de um punhado de homens que se encontram em todos os campos, dispersos por todos os partidos e em todas as nações, os homens que dizem: "a despeito de tudo, aconteça o que acontecer, eu creio". São eles a raiz sagrada, o contingente salvador. É nos seus corações que está guardada a força que alentará a ressurreição, quando a aurora dissipar os terrores da noite. (...)
O mundo não se destrói ou cai, com descobrimentos e invenções, nem com o tropel dos exércitos ou o estrondear produzido pelos aviões de bombardeamento. O mundo levanta-se ou tomba em virtude das leis da vida (...)".  

Regabofe

A quantidade de sindicatos da PSP tende para um infinito irracional. E cada um deles tem direito a ausência do trabalho para actividades sindicais. Alguns deles têm apenas um filiado, que é também (claro!) dirigente nacional.
Um dia lixam-se e depois queixam-se.

domingo, 21 de maio de 2017

Ilusões

Hoje ninguém se lembra disso, nem os próprios. Mas houve um tempo em que os retornados, os maiores iludidos pela história, voltaram ao cais de embarque trazidos pela ponte aérea internacional.
Em todos os municípios encontro o bairro deles, feito de casas de madeira da solidariedade sueca. Eu passo, e penso, e concluo.

Há cem anos

Foi assim, em festa engalanada, que há cem anos chegou o ligeirinho pela primeira vez a Duas Igrejas, que ficou a estação terminal.
É que já houve um tempo em que se inovou em Portugal! E eu ainda tive o privilégio de fazer no ligeirinho uma grande parte da viagem.

sábado, 20 de maio de 2017

Tempos

Já não sei onde  é que li. Que uma universitária de Braga (?) acabou em cuecas num autocarro dos STCP do Porto, cavalgada pelo namorado impaciente. O resto dos colegas alheou-se, compreendeu. E o motorista nem viu.
Mas alguém pôs imagens no fècebuk, porque hoje morreram as privacidades. O Correio da Manha deu-lhes eco, é do que vive. E a minha alma fica parva, ela que não é puritana penitente.
Eu não sei se isto é verdade. Se o for, em vez de frequentar uma universidade, a esta pêssega fazia-lhe bem um servicito cívico, que já houve. Noutros tempos!

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Mário Henrique-Leiria


ANTI-PROVÉRBIO

Usando do direito lhe é conferido pelo provérbio, o Gato estava muito bem escondido atrás da porta, com o rabo de fora.
Passou o Cão. Viu aquilo e disse:
- Olha uma salsicha! - E zás, deu-lhe logo uma dentada.
- Irra que é bruto. O senhor não vê que isso é o meu rabo! - Informou o Gato, abespinhado.
- Ora essa, - retorquiu o Cão - quem tem uma salsicha com um gato na ponta, não a põe de fora. - E seguiu o seu caminho.
                           Donde se conclui que a lógica deverá ser: rabo escondido com gato de fora.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Psicopatas

" (...) A moderna psicanálise permite-nos compreender, em certa medida, as perigosas consequências do instinto de domínio. O europeu degenera facilmente nos domínios tropicais.
É incontestável que entre os milhares de jovens europeus que partem todos os anos para servirem como administradores, agrónomos, organizadores e feitores se encontra uma pequena minoria de idealistas, que prestam real auxílio à população nativa. Mas poucos são capazes de subtrair-se à influência desmoralizadora do meio em que se acham. Raros resistem à terrível tentação dos poderes quase ilimitados de que o homem branco desfruta ali.
Além disso, em vez de melhorar, o nível intelectual e moral dos homens que vão para as colónias baixa constantemente, porque um número sempre maior é exigido. Observadores conscienciosos do sistema colonial africano (...) anotaram o facto de que uma alta percentagem dos guardas das plantações perdem o seu equilíbrio mental. Sob a influência da solidão, do tédio, do álcool, de condições sexuais e sociais anormais, eles transformam-se em psicopatas. O mesmo se dá com as tropas. Toda essa gente tem propensão para vingar-se dos seus padecimentos mentais em pobres criaturas indefesas. As vítimas não ousam queixar-se.
A raça dominante, os exércitos coloniais e as companhias de exploração são uma só coisa: trabalham de mãos dadas. Não há meio de escapar-lhes. Nenhum meio, excepto um gigantesco S. Bartolomeu, isto é, uma matança de todos os brancos.(...)
O homem branco, ao destruir o sossego mental do indígena, matou o seu próprio. Ambos são acossados pelo medo. (...).
A nossa expedição foi à África recolher danças e canções, porque os indígenas dançam e cantam cada vez menos. A arte nativa vai desaparecendo. A escultura em madeira tornou-se tão rara que conseguimos com dificuldade poucos espécimens. (...) A cobiça está transformando um continente inteiro num mundo de sangue e de lagrimas".
[Estes Dias Tumultuosos, Ed. Livros do Brasil, Lisboa, 1946]

Vidas


Isto anda tudo ligado, o mais difícil é juntar as pontas!
Entre esta narrativa do espanhol Javier Cercas, que em 2014 conheceu o sucesso, e o cartapácio do Pierre van Paassen holandês, que fui descobrir num alfarrabista do Porto em tempos idos, editado em Lisboa em 1946: as dores de dentes dos potentados industriais europeus depois da 1ª guerra mundial; os inícios do pós-guerra civil espanhola e as atrocidades do generalíssimo Franco; os charnegos miseráveis; o lúmpen dos subúrbios de Girona, o bairro do chino, o Gafitas que seria advogado de sucesso...
Mal comparado e com elementos novos, parecem os tempos de hoje. Quem dera que os nossos escribas caseiros se deixassem de merdas e aprendessem alguma coisa! 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Nasceu há 150 anos



If...

Se uma cidade, capital de distrito, constrói um centro comercial enorme em oito pisos, que só funciona à custa de escadas rolantes e dois elevadores, com um dispêndio absurdo de energia;
Se além disso o dito monstro destruir a cintura de muralhas medievais, com um anexo de vigas e ferralhas modernistas que ficou devoluto e não tem destino comercial visível;
Se os pavimentos das ruas e os passeios dos peões são um mar de riscos permanentes  para os utentes mais idosos;
Se os jardins e árvores e torreões da cidade são um pasto onde repoltreia uma corja de autarcas paraquedistas, que vieram de longe a construir currículo;
Se os cidadãos do burgo assistem a isto tudo na maior das indiferenças...
Então a cidade só pode ter o destino que a espera: a irrelevância, o abandono, a desertificação.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Poder local democrático.

Convenhamos que o nome era algo possidónio: Centro de Investigação Gastronómica! Tratava-se dum velho lagar de azeite abandonado à ruína, ali à curva do rio, um lugar bem aprazível. A cozinha servia velhos sabores, antigas iguarias que os lagareiros usavam ao almoço, nos intervalos da faina.
Não havendo empresários futricas com capacidade para o reconstruir, a câmara tomou isso a seu cargo. E fê-lo bem. O interior era em pedra, da decoração constavam antigas mós, equipamentos e prensas que vieram do Rossio ao Sul do Tejo. 
Em vez de concessionar o restaurante, a câmara explorou-o durante vários anos, pendurado no orçamento. Os clientes começaram a afluir e eram bem servidos.
Um dia a câmara decidiu concessioná-lo. Mas colocou a fasquia tão alta que nenhum privado lhe pegou. O pessoal foi para a rua e o restaurante fechou, aguardando uma ruína nova.
Agora, quinhentos quilómetros em volta não há restaurante onde valha a pena ir. E aumentou a desertificação do interior, neste tristonho país.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Parasitas

(clicar)
 
" (...) Os parasitas das forças policiais, com a autoridade discricionária que lhes foi conferida, conseguem aterrorizar os cidadãos. Só num país estruturalmente autoritário e tristemente xenófobo é que há tanta gente a achar que um polícia, só por ser polícia, tem de ser obedecido, e pode agredir quando, como, e quem lhe apetece."

Mário Henrique-Leiria

O REPOUSO DO GUERREIRO
 
Depois de ter andado bastante tempo de um lado para o outro, voltou a casa, já com 50 anos.
Trazia um bicho. Uma panterazinha negra de seis meses, cheia de ternura, amizade e dentes.
Então resolveu ficar sentado, olhando a televisão, os livros, alguma música e várias bebidas.
Três anos depois, ou talvez um pouco mais, não estou agora certo, alguns amigos acharam graça ir visitá-lo.
Foram.
Bateram à porta.
Apareceram dois meninos a abri-la. Dois meninos escuros, com dentes eficazes e sorriso amigo. Rosnavam ternamente.

domingo, 14 de maio de 2017

Parasitas

O cabrão do cuco anda num frenesi. Está doido por deixar um ovo no ninho duma pássara ingénua.
Do ovo há-de nascer um monstro de que a pássara se ocupa. Ele ficará a destruir-lhe a ninhada, enquanto o cuco vai à vida dele.
Mas para o ano há-de voltar. E voltará outra vez, enquanto durarem as ingenuidades da pássara.
O resto agora é só mutatis mutandis.

sábado, 13 de maio de 2017

Alienação

 
À primeira olhas para a idolatria e a superstição de Fátima e sorris.
Se mergulhares mais, interrogas-te à segunda.
Mais fundo ainda, entendes a alienação de séculos de inquisição e jesuitismo farisaico.
Acabas finalmente por chegar à explicação deste fadário secular, com a cobiça da pimenta. Pois chegaste ao tempo em que nos levaram a deixar de ser o povo que já fomos. Ao serviço de elites de farsantes.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Diagnóstico

" (...) Encontrar dois alemães na Legião Estrangeira nada tinha de extraordinário, a falar verdade. No tempo da República de Weimar nada menos de sessenta por cento do pessoal daquela brigada, eternamente em campanha, eram rapazes alemães. (...)
Eram de Stettin, ambos sub-tenentes na Legião, com dois anos de serviço em Marrocos contra os cabilas do Riff em seus assentamentos e três anos na Síria, para onde tinham vindo no tempo da revolta dos drusos. Um deles possuía a Croix de Guerre com diversas palmas douradas e o outro a Legião de Honra, conquistada au péril de la vie, dizia ele risonhamente. (...)
A conversa derivou para a Alemanha, a pobreza a que estavam reduzidos os parentes dos dois oficiais, a inflação, a acção de Herman Mueller  no Ministério dos Estrangeiros, o Presidente Hindenburgo e o nascente partido nacional-socialista. (...)
Nós perguntámos aos nossos dois companheiros por que se haviam alistado na Legião Estrangeira. Os legionários não gostam de falar nesse assunto. Esses homens têm em geral algum motivo oculto, completamente alheio ao desejo sentimental de aventura e romance, como gostam de imaginar os leitores de certo tipo de novelas. Essa unidade guerreira, cujo lema doméstico é Marche ou crève, unidade votada à missão impopularíssima de esmagar a resistência dos movimentos nacionalistas e patrióticos, perdeu há muito tempo o seu prestígio romântico. (...) E com efeito se Djemal Paxá pudesse oferecer-lhes pilhagem mais abundante do que os ingleses, eles teriam lutado do nosso lado. Mas nem a Turquia nem a Alemanha possuíam o ouro com que os ingleses carregavam caravanas inteiras, para conservarem a aliança dos xeques. (...)
Entretanto os operários dos populosos bairros de Wedding e Berlin-Ost tinham, por sua própria iniciativa, começado a rechaçar as tropas de assalto nas ruas. O instinto do povo não o enganava: chegara o momento de lutar, e lutar com afinco. Os operários exigiam acção. Mas nos círculos superiores do partido marxista reinava uma confusão inimaginável. (...) Os telegramas de Moscovo tinham recomendado cautela. - Que venha Hitler! Nós seguiremos Hitler! - disse Herr Thaelmann, repetindo o diagnóstico da situação feito por Stalin. (...)"
(Pág. 193 e seg.)