sábado, 21 de outubro de 2017

Olarila!

O pivot que pisca o olho é também o escritor que mais publica, e mais leitores tem nas estatísticas. É ele a mais cabal demonstração de que os milagres existem. Até o milagre de a literatura ser um logradouro onde tudo cabe.
Por exemplo: "achei que havia um mistério muito interessante relacionado com a vida: como é que a matéria inerte se torna matéria viva, com consciência, depois volta a ser matéria inerte, depois de novo matéria viva". "Uma partícula, o bosão de Higgs, que cria a matéria. Pensei que era um bom tema para um livro. Nessa altura já tinha feito a minha tese de doutoramento, para a qual tive que estudar física quântica, por causa da questão da verdade". "A espécie humana vai desaparecer. Vamos extinguir-nos lentamente. Por opção. Por preguiça". Olarila!
"Há boatos de que não sou eu que escrevo o livro, que tenho um escritor-fantasma, que recorro a uma equipa. Criou-se uma certa mitologia. Acaba por ser engraçado e até lisonjeiro".

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Freeport

Este nome ainda te diz alguma coisa? Foi  a primeira caravela em que pretenderam naufragar o Sócrates no mar da Palha.
Era ele ministro do ambiente dum governo qualquer, e tinha recebido não sei quê, de não sei quem, para licenciar o Freeport em Alcochete. Por causa do ambiente, das salinas, e coisa e tal.
Já havia envelopes cheios de massa, passados por baixo da mesa, e um cabrão de Setúbal viu isso muito bem.
Foi depois disso que veio a grande artilharia, e super-juízes, e magistrados canalhas, e condenações na praça pública...
Talvez se fodam, se chegarmos lá!

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sem-sura

No tempo em que os animais falavam, dona Cristas tinha sobre a agricultura e as florestas um supino saber.
Tanto assim que, durante uns anos, quem quisesse uma plantação de eucaliptos à porta era só pedir por boca.
A verdade verdadinha é que ela falava da matéria com um floreado sotaque de tia. Mas enfim...
Agora quem a ouvir é para anunciar moções de censura ao governo do Costa. Ou será sem-sura?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O ventríloquo

O Coelho, esse fantasma ventríloquo ( p'ra não dizer esse facínora), diz que o governo do Costa não tem mais oportunidades.
De que coisa é que esse filho da puta estará a falar?
Na barafunda da tragédia em que Portugal se encontra, o Costa manda-os foder e tem razão.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ecrãs


Na época da grande depressão americana do século passado, em que os camponeses, brancos ou negros, eram espoliados pela escumalha dos bancos, Bonnie e Clyde lançaram mão dos grandes argumentos: as armas. Duvido de que fossem criminosos.
Arthur Penn deixou-nos este filme surpreendente, dum tempo em que se fazia cinema. Hoje já não. Hoje há zombies, e alliens, que só têm dois dedos. P´ra picar em ecrãs.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Romízio

Durante a guerra civil espanhola as galinhas eram um excelente pitéu para anarquistas, comunistas e franquistas, que as passavam ao estreito, enquanto defendiam as portagens das muitas guadarramas. E foi assim que, no fim da guerra, não havia ovos em Castela.
Então vinham arreeiros, de aldeia em aldeia, comprá-los a Portugal até fazerem carga.
Um dia chegaram às Moreirinhas, ao cair da tarde, e entraram na taberna para matar a galga. A taberneira serviu-lhes um guisado de coelho. Mas a eles parecia-lhes gato, ou romízio, como diziam.
A cozinheira jurou, sem os ter convencido. E eles pouco se importaram. Mataram a galga e foram à vidinha.

domingo, 15 de outubro de 2017

O pior

Foi neste aviãozinho primitivo que voei sozinho pela primeira vez, em 1964. A euforia que senti sobre a ria de Aveiro não se descreve.
O pior é o que veio a seguir.

sábado, 14 de outubro de 2017

O violinista

Se Portugal não fosse para cá dos Pirinéus, cantaria outro galo. Assim, faz-se o que se pode. E eu, que nunca fui mais do que um tocador de rabecão, lembro-me do violinista.
Um dia os americanos, de olhos postos nos negócios da Nato, construíram um novo modelo de avião de caça e intersecção, que não passou dos ensaios.
Chamaram ao Texas pilotos de todos os países interessados nos negócios da Nato, e puseram-nos a experimentar o protótipo do F20. Acima de 4 g's o animal entrava em vibração e desenhava no céu um immelmann gracioso. Por sua alta recreação. Os indígenas clientes da Nato calaram-se, respeitosos.
O violinista fez um relatório em que apontava a limitação, disse o que tinha a dizer. E os americanos, com o trabalhinho feito, quiseram dar-lhe um coche de presente. Ele mandou-os foder, apanhou um avião e regressou a Lisboa. Acabou preterido nas promoções.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sócrates?

Quando se junta uma poderosa corporação de magistrados e uma elite de políticos corruptos, vai tudo pró caralho.
O ariano Temer e uns juízes amestrados fazem o resto, lá como cá. A Dilma Roussef e o Lula presidente que o digam.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Urso amestrado

Curiosos são os jovens escreventes indígenas. Incapazes de ver a realidade nacional, despicienda para eles, voam para o estrangeiro em busca de inspiração.
O Peixoto anda pela Tailândia, o Hugo-Mãe pela Islândia, o Tavares pela Índia, se não for por onde calha. Mas esse já tem o Nobel garantido, de formas que outro galo canta.
Certas criativas mais incipientes inspiram-se em ladrões, em detectives, em cenas de tribunais. E juram que hão-de inventar o cânone do policial portuga. 
O leitor desprevenido é o urso amestrado de serviço.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Kusturica

O filme é o Gato Branco - Gato Preto.
Entre mil e uma preciosidades, a cena dum porco a comer a chapa de contraplacado dum Trabant com motorzinho a dois tempos, é inesquecível. Só quem os não conheceu.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Fogo!

Nunca acreditei que a onda abrasadora dos incêndios tivesse mão política. Mas, ao que se vê, dificilmente pode ser outra coisa, já que outra alternativa lhes não resta.
Só nos resta começar a disparar contra parasitas, inúteis e videirinhos. A ver se ganhamos alguma normalidade.

domingo, 8 de outubro de 2017

Cavacada


O DN trouxe há tempos notícias da participação deste filho de Boliqueime na universidade de Verão do PPD. E desvendava o topete desta múmia, que devia ter passado a vida a medir litros de gasóleo numas bombas.
Mas os portugueses acharam por bem fazer dele o mais durável político que por aí andou: vinte anos como primeiro-ministro e dez como presidente. Eles lá sabem.
Um certo dia a VISÃO desfraldou a bronca: o PPD sempre foi uma súcia de vigaristas profissionais, empenhadíssimos em governar a vida mais do que em servir o país. Veja-se do Dias Loureiro, o Relvas, o vigarista da Tecnoforma, o Durão Barroso e mais compinchas.
O labrego de Boliqueime fez o seu papel, certos magistrados encarregaram-se de engaiolar o Sócrates, e por trancos e barrancos chegámos aqui.
Mas o grande baile tiveram-no há dias, um dia tinha que ser.

sábado, 7 de outubro de 2017

Em pratos limpos

O Seguro de má memória e o Coelho de memória péssima, juntaram-se em tempos à esquina para acabar com o Serviço Militar Obrigatório.
No fundo, o que ambos queriam era evitar mostrar o cu ao sargento da junta médica. E foi assim que tramaram a vida à tropa e à pátria.
Isto numa altura em que os países ilustrados da Europa, abandonado o modelo da triste América do Vietname, pensam seriamente em pôr a coisa em pratos limpos.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Ó Jirómino! Já era tempo de abandonares a tecla da vitimização!

 

"(...) Não se pode omitir o quadro de hostilização que acompanhou a intervenção do PCP e da CDU ao longo dos últimos meses e da sua negativa influência na afirmação do nosso trabalho, da nossa obra (...).
Falou ainda duma "campanha sistemática de ataque anticomunista que, com pretextos diversos, procurou avivar preconceitos, atribuir ao PCP posicionamentos e valores que não são seus, e de uma acção persistente de desvalorização do papel do PCP na vida política nacional, silenciando as suas actividades e iniciativas (...)
" Vimos uma intervenção do PS a desenvolver uma acção a partir dos seus candidatos e alguns dirigentes partidários, particularmente concentrada em municípios de maioria CDU, de ataque à gestão da CDU baseada em argumentos falsos e muitas vezes ofensivos (...).
Não há, na Europa ocidental, um partido comunista que mantenha a natureza do PCP. Como se Portugal fosse uma aldeia de gauleses. Mas não é. E os heróis das lutas de há meio século fazem parte da história mas já cá não estão.

Jorge Listopad

Listopad não tinha o estatuto de catedrático. Era um homem que vinha das artes e do teatro, e dava-nos lições acessórias sempre pertinentes.
Para ele, fosse drama ou tragédia, o Frei Luís de Sousa era uma peça mais que perfeita. E podia facilmente ser observada a partir da perspectiva de qualquer personagem: o velho Telmo, Manuel de Sousa Coutinho, Madalena, a atormentada Maria, o romeiro da sala dos retratos... e até o discreto aio Miranda. Andava por ali, mirava a intriga, silenciava. E ajudava a entender.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Refrescamento

Era o tempo em que o Ângelo Correia trazia no bolso a novidade do Passos Coelho e da Tecnoforma, a quem o Relvas garantia encomendas e serviços. O país inteiro formou-se em aeromodelismo.
O próprio Relvas licenciou-se em equivalências, com a especialidade de facilitador, que trouxe dum sertão.
A Maria Luís Albuquerque largamente explanou o que é a estupidez e a incompetência. E acabou a passar a agenda de contactos de ministra a uma fauna de ingleses manhosos, que faziam fortuna a especular com dívidas públicas.
Eu sei que já não te lembras. Mas foi assim, mais ou menos.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Árvores e bichos

O Francisco José Viegas (que um dia meteu o pé na poça para ser um transitório secretário de estado) é o encenador das aventuras do inspector Jaime Ramos, que me não entusiasmam.
Recentemente ouvi-o dizer que, muito perto do seu Pocinho natal, tem um refúgio campestre só para usufruir das árvores.
Se acrescentar uns bichos, muito me comove.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Olha só!

 

O ar do bicho é mesmo de galaroz sem crista. Tudo aparências.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Naufrágio

O Álvaro Amaro é fruto dum PPD inverniço. E veio de Gouveia para fazer o enterro da Guarda, antes de partir à conquista de Coimbra.
Mas em Coimbra houve baile. E foi assim que o Amaro ganhou num tabuleiro e perdeu noutro. É o que sucede aos fracos amadores de simultâneas.
O distrito naufragou definitivamente, perante a concorrência.

sábado, 30 de setembro de 2017

Castrati, celibato e ignomínia

Para manter o timbre juvenil de contra-tenor, aristocratas e bispos nunca hesitaram: cortam-se os tomates ao menino e é um descanso.
Já no que respeita ao celibato, a coisa fia mais fino. Os cardeais de sapato vermelho não abdicam da tradição e da ignomínia. O celibato é para respeitar, porque é preciso dedicar tudo ao serviço divino.
É assim que os padres católicos engendram filhos às ninhadas, que são todos sobrinhos, afilhados e o caralho. Há dioceses na América que entram em falência.
Os pastores reformados têm família, mulher, humana natureza. Não sei o que disso pensa o papa Francisco, e também não sei como é que o conclave elegeu um bárbaro desses, dum sertão qualquer, a mando do santo espírito.
Toda esta ignomínia um dia custa caro ao Vaticano.

domingo, 24 de setembro de 2017

Ladrar à lua

Cada coisa tem seu tempo: uma máquina, uma obra, qualquer vida.
Todas as coisas têm um limite, além do qual se tornam sofrimento. Os mesmos deuses morrem quando chega o tempo, como as vozes das estrelas que há no firmamento. Lentamente fenecem, esgotadas.
É este o tempo de parar de ladrar e deixar a lua em paz.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Nobel

 

Tarde começou ele, mas acontece. E com tal força que daqui partiu meia dúzia de romances que puseram a Europa a ler-nos na década de oitenta. Desde os ecos de Camões que tal não acontecia, até chegar o Pessoa.
Mas já estava tudo aqui, na cabeça do autor e nas fábulas dos camponeses de Monte Lavre.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Jorge Luís Borges

 
Não há como ler quem sabe. Tudo o resto são conversas.
 
José Maria Eça de Queirós
 
O Mandarim
 
Nos finais do séc. XIX, Groussac pôde escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época.
Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre. Em 1869 acompanhou o seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egipto para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações lêem e relêem. Três anos depois ingressou na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muito diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Emile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras: fala-lhes um discípulo de Flaubert.
Cada oração que Eça de Queirós publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica. Um das personagens é um demónio; a outra, a partir duma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.
No ano final do séc. XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Desaba o mundo? E o que é que isso tem?!

Desde que um génio, já no ocaso, lhe prometeu o Nobel, o Gonçalo vive nas suas sete quintas. Deixa correr o marfim.
E constrói as suas fábulas a la Gregor Samsa, como o bom Kafka. Só lhe falta uma ruela em Praga e a paciência dos leitores.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Malhadinhas

"Provecto dos anos, uma tarde ergueu-se do borralho e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho de marmeleiro. Andava há dias a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados. Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara, codejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago, farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E - o Justo Juiz lhe perdoe as facadas, que as não deu em nenhum santo - nem se sentiu a atravessar as alpodras duma margem para a outra do negro rio."
Lisboa, 1922

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Agosto

Toda a vida assim foi. Quando a trampa em Portugal é muita, ou nele falta, monta-se um intercâmbio com o Brasil.
Fáxavor vão-se foder. Uns e outros!

domingo, 17 de setembro de 2017

Jorge de Sena, Camões e outros exilados 3

 
"(...) E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida; o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler.
E há mais e pior: quando no liceu líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados, que vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. (...)
Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas. (...) Estes deuses, na dialética camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra , e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. (...)
Porque para o amor Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é para ele a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor não há heróis, nem há homens dignos desse nome. (...)
Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para o bem e para o mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África.(...)
Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, o desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento, e a sensualidade mais desbragada. Leiam-no e amem-no."
(1977)

sábado, 16 de setembro de 2017

Raposeta pintalegreta, senhora de muita treta!

 
"No dia seguinte começou o curso. Foram objecto da primeira lição os inimigos da raposa, que são três. O inverno rigoroso, o bicho-homem e os cães. E a dona professora explicou: (...)
 
II
 
O homem é aquele bicho de duas pernas que parece que não tem medo de nada e tem medo de tudo, que quer saber tudo e não sabe nada, e por isso é mau, cruel e caprichoso. Inferior a nós na corrida, no faro e no ardil, inventou para nos combater as armas de fogo, as ratoeiras de ferro e os cães ensinados."
 
Vasta obra do Aquilino será hoje dispensável. Mas o Romance da Raposa e o Malhadinhas serão sempre irrecusáveis!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Livros das férias, do pe. Anselmo Borges

" (...) Durante o primeiro milénio houve inclusivamente papas casados. Foi o papa Gregório VII, no séc. XI, que impôs ao mesmo tempo essa obrigatoriedade e o centralismo papal. Mesmo assim, foi só no concílio de Trento, no séc. XVI, que foi ratificado com carácter universal, obrigatório para todos os padres no ocidente.
Paulo VI empenhou-se a favor do celibato opcional, sem o conseguir. João Paulo II (o polaco) previu a abolição com estas palavras: Sinto que acontecerá, mas que não seja eu a vê-la.
Os escândalos sucederam-se. Diz-se que no concílio de Constança (1914-1918) compareceram 700 prostitutas. Houve papas filhos de papas. Depois da lei do celibato obrigatório, nos sécs. XV e XVI, foram vários os papas que geraram filhos, quer já papas, quer na sua condição anterior de bispos.(...)
Há hoje mais de cem mil padres casados, que formaram família e tiveram de abandonar o sacerdócio. E eu pergunto porque é que a igreja não aproveita tantos deles, que queriam e têm qualidades para o exercício do ministério."
[in DN]

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O surpreendente caso da múmia paralítica da quinta da Coelha, e da vivenda Mariani, e da travessa do Possolo

A manhosa abencerragem que os indígenas portugas mais tempo suportaram no governo lá foi fazer uma perninha na universidade de verão do PPD.
A todos mais nos valera ter ela passado a vida a medir gasóleo numas bombas de Boliqueime. Mas os deuses são assim, caprichosos, imprevisíveis, impiedosos.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Passerelle

Mais que tudo, este belíssimo filme é uma passerelle onde a África oriental desfila, em todo o esplendor de faunas e paisagens. Só quem a conheceu.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Zangam-se as comadres...

Tudo começou por obra e graça deste esquerdalho, mal repeso dos velhos tempos de brasa, que criou corpo no grupo do grande feiticeiro da rua da Palma. Era uma salgalhada onde entrava a AOC, talvez fosse a UDP, seria a LCI? Era um tal que muito mais tarde haveria de prever este axioma: recusar o PEC 4 será já começar a sair da crise. Viu-se.
Hoje o esquerdalho confunde alegremente o ensaio com a literatura, amalgama na molhada o Zé Gil com o Eduardo Lourenço. Não foi autor por acaso, deus nos livre. E nunca editaria o José Rodrigues dos Santos, (esse pivot televisivo que pisca o olho!) e é de longe o escritor mais prolífico e lido em Portugal. 
Num português macarrónico, acha ele que a Balada da Praia dos Cães está ao nível do Memorial do Convento. E que o G. M. Tavares pode ajudar a chamar a atenção para a importância da obra de Agustina, tão esquecida ela anda. A imbecilidade distraída dos leitores possibilita tudo o resto.
Perante isto, Guilherme Valente, editor da Gradiva, tomou-se de brios e espingardeou. Confessa ele que "alguns (editores) trabalham hoje para os chamados grandes grupos, ou patrões, que procuram apenas o retorno financeiro dos investimentos". Diz que há devoluções dramáticas, e armazéns de livros que nem a preço de custo se venderiam. E assim vai diminuindo a diversidade na edição e na exposição, e desaparecendo os leitores. "Tudo em relação de causalidade implicante com a redução dos níveis de leitura - na universidade quase não se lê. Devido em parte, mas sobretudo à devastação educativa dos últimos 40 anos, em que não foi construída a escola que nunca tivemos, para enfrentar o que neste mundo novo foi afastando os jovens - e os adultos agora, até, digamos, 50 anos - do interesse pelo conhecimento e, logo, pela leitura" .
Olhando em frente (ou atrás), no panorama literário português recorda ele Redol, Abelaira, Rodrigues Miguéis e Camilo. Apostaria mesmo Eça.
Não te ponhas tu a pau, leitor, e depois queixa-te!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Dá-me música!


Jorge de Sena, Camões e outros exilados

 
(Cont.)
 "Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repetida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido ou D. Sebastião. (...)
Sejamos francos e brutais. Há neste momento milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles e deseja recordar-se deles. Mas o país, na situação económica em que se encontra e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha (...). Há quem diga e quem pense que celebrações como esta são uma compensação para a perda ou derrocada do império oferecida ao sentimento popular, e que isso das Comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. (...) O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido, é um imperativo imarcessível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura que foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. (...)
Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo é prestar homenagem a um reacionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas (...) Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não  tivesse escrito Os Lusíadas. (...) E o ter sido usado, manipulado e treslido como Camões o foi é um dos preços que a grandeza paga neste mundo. " (Pág. 280).


domingo, 10 de setembro de 2017

Hermenêuticas

"Tanto do meu estado me acho incerto
Que em vivo ardor tremendo estou de frio."
[Lírica de Camões]
Leitura de qualquer cafre: o poeta está com uma aguda crise de paludismo! Quem o contraditará?

sábado, 9 de setembro de 2017

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

La Folia



terça-feira, 15 de agosto de 2017

Pontal

Podia ser uma pontada, que tantas vezes dá até um dia. Mas não. É o Pontal, onde esta cáfila de facínoras se reúne para a entremeada, tentando fazer-se ouvir. Duas mil almas penadas.
Todos os anos é a mesma merda. E o filho da puta do mestre de cerimónias faz por desconhecer que o Siresp foi em tempos aprovado pelo pau-mandado do Daniel Sanches.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

'Tão foi assim!

A dada altura o Guterres, bom espírito mas mau governante, declarou o pântano e foi-se embora. Com ele foi o Sócrates, seu ministro, que resolveu depois ir a Paris, buscar à Sorbonne os trunfos intelectuais que não tinha. E quando voltou tinha à espera a matilha das leis, essa corporação sinistra, para lhe tratarem da saudinha.
O PS ficara nas mãos de Seguro, um comparsa juvenil do Passos Coelho em vários objectivos. E foi altura de entrar em acção essa eminência intelectual do Relvas, que viera analfabeto do sertão e em três tempos se fez doutor.
O Relvas tratou de levar o Passos Coelho a São Bento, interrompendo um futuro brilhante no teatro Politeama a voltear zarzuelas. E a certa altura, seguro de que as grandes negociatas passavam pelos municípios, resolveu agir, avançando para uma reforma administrativa.
Foi então que o Rua, de Viseu, depois de açular o povo aos fiscais do ambiente, do alto da Associação Nacional de Municípios Portugueses lhe levantou a voz: vai-te foder e tira as patas daí, porque o lóbi autárquico foi sempre a grande força do PPD. E assim era.
O desgraçado Relvas extinguiu mil e tal freguesias, meteu o rabo entre as pernas e foi tratar da vidinha, como facilitador de negócios. É por onde tem andado, não se sabe bem com que sucesso. Nem interessa.
Voltam agora as autárquicas, enquanto o país arde inapelavelmente. Ninguém sabe ao certo o que fazer dele, enquanto prosseguem as negociatas. O povo emigra. É assim há 500 anos.

domingo, 13 de agosto de 2017

Homem velho e mulher nova dão filhos até à cova!

 
O apressado primarismo indígena resumiu A Cidade e as Serras a umas favas com chouriço em Tormes. E no entanto está lá muito mais que isso. Até a estirpe dos Jacintos ressurgiu da decadência!
Por pouco se diria que lá cabe metade do nosso séc. XIX, se não toda a nossa história. Que o resto pouco contou, e muito menos conta.
 
"(...) O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:
- Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim amarelado e enfezadito, porque... Que quer Vossa Excelência? Malcomido! muita miséria... Quando há o bocadito de pão é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!
Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
- Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome? (...)".

sábado, 12 de agosto de 2017

Verão

Publicado há meia dúzia de anos, mais parece que foi hoje. Nem o linguajar francês de além-Pirinéus mudou de acento. 
" (...) Saudoso já de alguma realidade, vai acabar o seu dia na feira, onde anda tudo numa roda-viva em azáfamas de última hora. Já está montada a tômbola das rifas, à entrada, para distribuir ursinhos de peluche e batedeiras eléctricas a quem acertar na lotaria.
Logo depois vem o poço da morte, andam a acabar-lhe a escadaria. Entre braços de carrocéis voadores , pistas de engenhos de choque e as diversões costumeiras, sente o viajante a falta dos espelhos aldrabões da sua infância distante, e do comboio fantasma, e da rampa do canhão. Terão passado de moda, que já estão aqui as quinquilharias de plástico, e as barracas das bonecas matrafonas que vieram das fábricas chinesas, e os colares e os couros e as missangas que chegaram do Magrebe. Há balcões ambulantes de churros e farturas, e está pronta a exposição dos automóveis, tanto novos como usados. E também a das máquinas industriais e agrícolas, que tanta falta fariam nesses campos. (...)"
[Portugalmente, Peregrinação da Lapa a Riba-Côa, Jorge Carvalheira, Lx 2012, pág. 137]

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Feira de Agosto

Há um sobressalto na paisagem. Do céu fugiu a cor. A brisa bate à porta. Vem entrando Saturno, o melancólico.

Jordi Savall

Folías de Espanha. https://www.youtube.com/watch?v=5Frq7rjEGzs

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Primavera indecisa

Tenho à espera a Feira Cabisbaixa atrás dum microfone, a Feira do O'Neill, a feira de nós todos, que um cego encomendou à biblioteca sonora. Mas encontro no jardim de São Lázaro a Primavera a hesitar.
As camélias já andam pelo chão e a Primavera a hesitar, incham os botões dos rododendros e a Primavera a hesitar, os rebentos das tílias a explodir e a Primavera a hesitar, os velhos da sueca, são quinhentos, a improvisar a banca e a Primavera a hesitar,  a mimosa das coxas tentadoras a faltar-me no passeio o riso quotidiano, bons-dias
mimosinha, e os dentitos de marfim, o drapejar da pestana, o peito da mimosa a faltar-me os olhos, as formas arredondadas a morder-me no ventre e os pombos num badanal, a mulher desdentada a pedir-me um cigarro, a levar dois para a amiga encostada na esquina, a solicitar-me o favor dum lume, a mesura brejeira a agradecer-me, a aventurar se gosto de ir ao quarto e eu a dizer-lhe que não, um trunfo a cair na mesa a esquartejar a manilha e os pombos amotinados, e a mimosa que lá vem dobrando a esquina num riso de Gioconda a tentar-me de longe, os pés que já não comando na direcção dela, um instinto a farejá-la, a correr-lhe a garupa, o flanco acolchoado, o lago misterioso, quanto vale o teu riso, mimosinha, a Primavera ainda a hesitar e eu a deslizar-lhe a nota na palma acetinada, um roçagar de leve, uma aflição de seda...
E vou-me então à Feira Cabisbaixa, à Feira do O'Neill, à feira de nós todos, que um cego precisa dela, e a Primavera enfim se decidiu.
(a publicar)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Controlanços

Desde que os filhos da puta que mandam na Internet me forçaram a migrar do Windows 7 para o Windows 10, perdi 80% das capacidades na utilização desta selva.
A verdade é que só preciso dela para receber correio electrónico e alimentar um blogue pré-histórico, e cá me vou arranjando.
Mas se o que eles pretendem é controlar as coisas, bem podiam dedicar-se a controlar a puta que os pariu. Estou certo que já lhes dava muito que fazer.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Jorge de Sena, Camões e outros exilados 1

No dia 10 de Junho de 1977 Jorge de Sena foi convidado para fazer, numa escola secundária da Guarda, o discurso de celebração das comunidades portuguesas.
Foi um discurso notável, com variados ecos na cidade. Mas caiu no mais absoluto silêncio para lá do termo dela.
E como não?! Se nunca se ouviu falar deste Camões e deste Portugal aos catedráticos dele!

"É para mim uma honra insigne ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões e ao dedicar-se o Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões e de residente no estrangeiro.
Com efeito, em 1978 cumprem-se 30 anos sobre a primeira vez que em público me ocupei de Camões, iniciando o que tem sido um contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno, que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor e feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal. (...)
Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua, que é uma das seis grandes línguas do mundo, e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu, ele é uma pedra de toque para portugueses, porque tentar vê-lo como ele foi, e não como as pessoas querem que ele seja, é um escândalo. (...)
Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar - aqueles emigrantes que eu tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. (...)
Seja o que seja continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959 (...).Democrata como sou, não falo em nome de ninguém sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa - um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas - deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta sob a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. (...)"

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sazonalidades

Cercado pelas muralhas que o rei Lavrador mandou erguer há muito, o burgo só teve vida a sério há 500 anos, quando os judeus expulsos de Castela o fizeram viver enquanto cá estiveram.
No séc. XIX sofreu alguns sobressaltos, quando o excesso de população indígena fez reviver a feira de São Bartolomeu, que durava três dias e regia a vida toda da província.
Hoje tem outra vez um simulacro de vida durante o mês de Agosto, quando a ele regressam quantos trabalham na Europa. Isto enquanto se casam e descasam.
É então que os restaurantes não têm mãos a medir, nem chegam para as encomendas.

domingo, 6 de agosto de 2017

Só lendo

 
Romance da última fase do Eça, publicado em 1899, um ano antes da sua morte.
Se não tivesse sido cônsul por esse mundo (Havana, Inglaterra, Paris) nada do que Eça criou em literatura teria existido. Ficaria soterrado na indigência miguelista indígena.
O leitor ainda hoje encontra aqui um verdadeiro pitéu. Só lendo!
"(...) Desventurado Príncipe! (Jacinto) Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava então pelas salas (do 202 dos Campos Elísios),lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afeições e sem ocupações. Estes desafeiçoados e desocupados passos monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, à Biblioteca de ébano, onde acumulara Civilização nas máximas proporções, para gozar nas máximas proporções a delícia de viver. Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe solicitavam as mãos, enterradas nas algibeiras das pantalonas de seda, numa inércia de derrota. Anulado, bocejava com descoroçoada moleza. E nada mais instrutivo e doloroso do que este supremo homem do séc. XIX, no meio de todos os aparelhos reforçadores dos seus órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as forças Universais, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos séculos - estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de viver"." (pág.74)

sábado, 5 de agosto de 2017

The horror! The horror!

 
Está lá tudo: os crimes da guerra do Vietname, os erros dos franceses em Diem Bien Phu, a borracha do seringal brasileiro, o atoleiro que não acha fim. Só não vê quem não quer ver, que é o mais fácil.

 
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Verduras

 
"Somos só verdes vimes que um vento verga."
Quem isto disse, a páginas 55 desta obra, foi um capelão militar católico, personagem trágica que usou aqui voz poética mais que profética.
Vezes há em que os deuses põem em vozes humanas o que eles próprios não querem dizer.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Curadores e criadores

Uns curam, outros criam, é a função que lhes compete a todos. Porque a uns chamaram curadores e a outros criadores. E o fundamental nisto é o que se diz, muito mais do que se faz.
À sombra do Eça (um bom avatar convém sempre!) juntam-se assim uns e outros. Inventa-se um festival, o povo quer é pitança, o sucesso é garantido.
Não sei bem se foi o Camarneiro ou outro da mesma laia, que eles são todos parecidos. Uns põem o Parati feminino a soluçar, outros pedem colo porque o pai um dia lhes faleceu, a comoção é enorme. E a vida segue.
"A gastronomia é bastante presente, sobretudo nos meus últimos livros. Desde os meus primeiros livros que se come muito. Quando um prato resulta particularmente bem, se calhar predispõe-me depois a criar. Uma boa refeição e um bom vinho ajudam-me a lançar para a escrita."
Podia-lhes dar para muito pior, verdade seja dita. E a literatura, a arte... que merda afinal vem a ser essa?!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Micro-histórias do Fernando Venâncio, farto de aturar gajos prolixos

O ouvinte de si próprio

Nunca chegou à voz, menos ainda ao palco. Ignora como a genial piada soaria em boca alheia.
Vez por outra, ouvem-no gargalhar, alta noite. "Mais um com os copos", pensam, e às vezes dizem.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dona Elvira

Não sei onde é que ele foi buscar o vezo de fura-bolos. Mas tinha-o. Nem sei onde é que foi desencantar o apelido de Guinemer.
Um dia previu a falência dos moleiros milenares, que usavam a mó alveira para fazer farinha. E construiu a moagem, movida a gasóleo, para a farinha não faltar. Depois a farinha começou a vir de longe, em sacos, e ele foi para a África.
Dona Elvira estava casada com ele, e todos os dias subia a ladeira da Sobreposta para ir dar escola a Casteição. Ao fim da tarde descia e regressava a casa.
Quando o Guinemer partiu para a África, foi com ele. Até se saber mais tarde que acabou debaixo dum tractor, que um preto fez empinar e cambulhou.
A Dona Elvira só voltou na ponte aérea de 75, uma coisa que nunca aceitou bem.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Curtos

Outono

Caem as folhas. Devagar. Aplicadas. Mas isso nem é o pior. Caem, também, os livros dos amigos na caixa do correio.
Trazem um abraço, às vezes beijos, e mesmo algum (sim, nunca fiando) protesto de amizade. Depois, pelas entrelinhas (falo ainda da dedicatória), a lembrança de quão agradável leitor vou ser.
Gosto do Outono. Mas não assim. Para ler os amigos, roubo no cinema, roubo no sono, roubo na preguiça. Chego à Primavera lido mas definhado. Houve momentos de suave aperto, de doce amargura. Mas pouco ri, muito pouco, não é mal lembrá-lo.
Os amigos não têm piedade. E, hão-de ver, para o ano voltarão, os sacanas, como se nada tivessem conseguido.
Fernando Venâncio

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em boa hora

Há muitos anos, no Porto, fiz trabalho voluntário no armazém do Banco Alimentar, ali a Perafita. Ainda acreditava em gambozinos, pus-me a jeito.
O armazém recebia camiões de latas (tomate, frutas e leguminosas) que chegavam de Alcobaça. E sempre que uma lata era maltratada na cadeia de enchimento, acabava rejeitada.
A empresa disponibilizava todo esse material, que lhe aligeirava os impostos. Por isso o levavam a Perafita.
Logo à entrada do grande portão do hangar havia o Tarrafal. Era um espaço murado de alta rede, onde iam parar estes e outros donativos. Que só eram postos à disposição das instituições consumidoras quando eram libertados pelo responsável do Tarrafal.
Encostadas à altíssima parede, empilhavam-se paletes de embalagens que aguardavam a triagem. Mas numa manhã, um dia...
Não sei donde me chegou a inspiração. Parei o trabalho, saí do Tarrafal, e fui ter com a máquina de café que estava lá ao fundo, num desvão.
A certa altura ouviu-se um terramoto, um sobressalto, o que foi, o que não foi... Era uma rima de paletes de 500 kgs que tinha desabado, mesmo no sítio em que eu estava a trabalhar.
Olhei para aquilo, falei com o Vasco António, e nunca mais entrei no Tarrafal. Ofereci-me como leitor, na sonora de São Lázaro. Em boa hora!

domingo, 23 de julho de 2017

O quê?

Se não existisse música e pintura e poesia, a arte para que servia?
O que é que um homem fazia?

quinta-feira, 20 de julho de 2017

País?! O caralho! Uma seita!!!

Toda a gente sabe o que nunca foi segredo: o PPD estaria hoje a dormir sossegado nos braços do fascismo, se a história lhe não tivesse caído, de escantilhão, no colo.
Mas caiu. E o PPD adaptou-se, ajustou-se, aggiornou-se, sempre à medida das necessidades. Veja-se o caso de Manuel Pinto.
Chegou a ter previsto o Finalmente Hotel, no terreiro das freiras de Trancoso. Mas os fundos para construir o hotel foram parar a outro lado, e o Pinto desistiu. Chamou o Cavaco e abriu o lar dos velhos no Reboleiro.
Agora rebenta a bronca: o genro dele, advogado mestre de vigaristas, fingiu a morte num acidente de jeep, fingiu uma cremação inexistente e fugiu para o Brasil. O que vem a seguir está na telenovela em marcha. Basta ir vendo os média da corda, porque nem é preciso  imaginação.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Lições dos bichos

Um adulto na Polónia

As cegonhas brancas de S. Pedro já partiram: a da torre sineira, a dos freixos altos, todas. Comeram os sapos-conchos que havia nas redondezas, deram carta de alforria aos filhos e lá foram. Até ao ano que vem.
Os casais são irrepreensivelmente fiéis, uma vez acasalados nunca mais se separam.
Contava-se mesmo o caso, numa aldeia lá para a Europa de Leste, em que uma fêmea se feriu numa asa, impedindo-a de voar. Quando lhes chegou o tempo, o macho partiu e a fêmea ficou na aldeia.
Os camponeses protegeram-na durante o longo inverno, e ela esperou até que o macho voltasse. Fizeram criação e ele voltou a partir. E ela voltou a ficar.
Por certo hoje já nenhum deles existe. Ficou a lenda, o exemplo, a edificação.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Máquina de fazer espanhóis

Vou à estação de comboios esperar alguém que chega. E lá acaba por chegar, com uma hora e tal de atraso. Volto a casa a altas horas.
A solução aqui é tornar-nos espanhóis. Basta perguntar ao Hugo-Mãe como é que funciona a máquina de os fazer. Porque isto assim não é vida que chegue a netos!

domingo, 16 de julho de 2017

Texto curto

Maré-vaza

Gostava muito dele e ainda gosto, que havemos de fazer do coração. Durante um ano foi quem me matou a fome. Saíra um dia do Porto Brandão e fez-se um homem, nascido de pescadores.
Hoje trabalha as mil figuras que há na pedra, habita num palacete com robínias muito antigas, navega num iate às costas do Brasil. Sou o primeiro marítimo da família que não sai para o mar a ver se mata a fome. 
Eu gostava muito dele e ainda gosto. Mas pica-me no olfacto um travo de maré-vaza, quando vou ali ao Parque dos Poetas.

Primavera indecisa

Tenho à espera a Feira Cabisbaixa atrás dum microfone, a Feira do O'Neill, a feira de nós todos, que um cego encomendou à biblioteca sonora. Mas encontro no jardim de São Lázaro a Primavera a hesitar.
As camélias já andam pelo chão e a Primavera a hesitar, incham os botões dos rododendros e a Primavera a hesitar, os rebentos das tílias a explodir e a Primavera a hesitar, os velhos da sueca, são quinhentos, a improvisar a banca e a Primavera a hesitar, e a mimosa das coxas tentadoras a faltar-me no passeio, o riso quotidiano, bons-dias mimosinha, e os dentitos de marfim, o drapejar da pestana, o peito da mimosa a faltar-me nos olhos, as formas arredondadas a morder-me no ventre e os pombos num badanal, a mulher desdentada a pedir-me um cigarro, a levar dois para a amiga encostada na esquina, a solicitar-me o favor dum lume, a mesura brejeira a agradecer-me, a aventurar se gosto de ir ao quarto e eu a dizer-lhe que não, um trunfo a cair na mesa a esquartejar a manilha e os pombos amotinados, e a mimosa que lá vem dobrando a esquina num riso de Gioconda a tentar-me de longe, os pés que já não comando na direcção dela, um instinto a farejá-la, a correr-lhe a garupa,o flanco acolchoado, o lago misterioso, quanto vale o teu riso mimosinha, a Primavera ainda a hesitar e eu a deslizar-lhe a nota na palma acetinada, um roçagar de leve, uma aflição de seda...
E vou-me então à Feira Cabisbaixa, à Feira do O´Neill, à feira de nós todos, que um cego precisa dela, e a Primavera enfim se decidiu.

[A publicar]

sábado, 15 de julho de 2017

O Garré, isso o que é?!

Assucede! Venho para casa tarde e a más horas, e oiço o pivot da rádio 2 falar do festival do Garré, não sei que mais. Do Garré?! Isso o que é?!
Isto após consumir horas dum tempo precioso a ouvir falar dumas coisas a que chamam literatura, e que não passam da telenovela que o Correio da Manha publica em fascículos há um mês. Basta juntá-los, resumi-los, dar-lhes um fio narrativo dito trágico, e apresentá-los como coisa nova: um casalinho, a menina, a droga, um criminoso, a polícia, a condenação.
Merda para a nossa vida, digo eu!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Só dele?!

Titanic
Há-de parecer que ainda tenho acções na companhia de Southampton mas não é verdade. Apenas me confunde que uma bactéria nova dê cabo do gigante em menos dum fósforo.
O navio, mordido por um iceberg, dormia há 73 anos no Atlântico Norte, a 3,8 kms de profundidade, com pouca luz e elevada pressão.
Mas uma bactéria nova, a halomonas titanicae, ameaça dar conta dele numa dúzia de anos. Só dele?!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O feno e os potros de Yorkshire

Escuta, vou falar-te do rapazito que o Álvaro de Campos tanto julgou amar. Era inglês, naturalmente, e tinha dezasseis ou dezassete anos quando o encontrou em Londres, numas férias do último ano de Glasgow. Frederik era o quinto filho dum pastor de almas de York, estudava arte dramática, e levava uma vida que não se poderia dizer fácil, pois a mesada do pai, quando havia necessidade de meias-solas nos sapatos, obrigava a apertar o cinto. Álvaro, sentindo que o rapaz estava em apuros, convidava-o frequentemente para jantar. Mas não era apenas essa a razão.
Como dispunham de tempo, passavam algumas tardes estendidos na relva de Hampstead, mas não iam além de algumas carícias, com receio de serem surpreendidos. Freddie falava do feno e dos potros de Yorkshire como se neles começasse o paraíso, e o outro ia-lhe revelando alguns segredos dos versos de Shakespeare e de Walt Whitman; um dia falou-lhe mesmo duns assomos de sensualidade que, nos sombrios corredores do liceu, havia sentido por uma espécie de rapariga, antes de ir para Glasgow; mas amar alguém assim era a primeira vez que lhe acontecia, acabou por dizer numa voz escura, quase espessa, que não era a sua. Ao despedir-se, Freddie pediu-lhe que passasse pelo seu quarto na manhã seguinte. Apesar da casa estar deserta a essas horas, o medo quase impedia que o amor lhe baixasse ao corpo. Foi numa dessas manhãs, quando o rapazito começou a recitar Shall I compare thee to a summer's day?/Thou art more lovely and more temperate..., que o Álvaro lhe mostrou como deveriam ler-se versos de Shakespeare, ou de quem quer que fossem: com a naturalidade que tem o correr da água e o ritmo da fala. Isso Frederik nunca mais o esqueceria.
Não me perguntes como soube eu tudo isto, seria muito indiscreto da tua parte.

[Eugénio de Andrade, O rapazito de York, pág. 408]

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Rai de país!

Do DN de ontem: "Vocês têm sorte, que a lei não permite. Senão seriam todos executados". "Vamos acabar com vocês, com a vossa raça e com o vosso bairro de merda". "Vocês africanos têm de morrer. Deviam ser todos esterilizados".
A PSP actua como se vê, nos bairros cheios de pretos. País fora, em freguesias e pequenos municípios, o feudo é da GNR, na aplicação de coimas aos condutores indígenas.
A arbitrariedade é a mesma, porque a função é só uma: extorquir coimas aos cidadãos, com razão e sem nenhuma. Fazem currículo.
É um terror que atemoriza muitos. O país perde, não pouco!

terça-feira, 11 de julho de 2017

Spassiba, Irina!

Num velho arranha-céus colonial morava Irina, uma mulher muito branca que dava aulas na universidade. Ao lado vivia Ngo Diem, um velho vietnamita que cozia os feijõezitos de soja num fogareiro a petróleo. Portugueses, por junto, não eram mais de cinquenta. E tudo o resto eram negros, herdeiros da escravaria.
Eu não me sentia responsável por nada disso, e as mulheres negras não me diziam nada. Mas o comissário proibia as visitas de portugas, por razões de segurança. Um dia resolvi forçar a nota e visitar Irina.
Ela ofereceu-me uma cassete do Vladimir Visotsky, copiada do gravador duma búlgara que morava no patamar de baixo. Era uma voz muito rude e muito funda, duma garganta arranhada por fumo de cigarros e vodka de batata.
Sem perceber uma palavra da música, passei muito tempo a ouvi-la. Tempos depois sumiu-se-me a cassete, alguém a terá levado. Mas não levaram as canções do Visotsky.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Despojos

 
A nossa triste história está escrita. Nós é que não queremos lê-la!
 
" (...) Os homens moviam-se sem necessidade de ordens, os transmissões montavam os rádios, os condutores preparavam os guinchos de reboque, os enfermeiros tentavam retirar os corpos do interior da torre blindada.
Puxaram o corpo meio esmagado do furriel do esquadrão de cavalaria a escorrer sangue e espuma da boca, desceram-no desarticulado da velha lata para os braços do Bento que pegou nele ao colo como a um menino, a cara de criança em corpo de gigante a enfrentar do outro a face branca da morte, sem acreditar que já não estivesse vivo, deitou-o docemente à sombra dum arbusto compondo-lhe os membros, voltou pelo mesmo caminho na sua passada de urso cansado com a espingarda, que parecia um brinquedo, pendurada às costas, à espera de o mandarem fazer mais algum serviço.
- O apontador da metralhadora também está morto, esmagado pela torre que saiu dos encaixes. O condutor é que não sei, não se pode passar para o seu lugar - explicou um dos que tentava enfiar-se dentro da Fox. - Pelo menos os pés devem estar desfeitos.
- Para já é preciso tirar do buraco esse caixão com rodas! (...)
O pequeno alentejano passou por cima dos restos de carne em massa e do sangue fresco misturado com óleo engolindo os vómitos, agachou-se para não bater com a cabeça nos ferros amolgados, espremeu-se contra os restos do metralhador e do furriel (...)."
 
"(...) Eu sou administrador do concelho e presidente da Câmara, este é o meu secretário. O assunto que nos traz é, digamos, delicado, grave. É que soldados, julgo que da sua companhia, cometeram desacatos na cidade, faltaram ao mais elementar respeito que todos os portugueses devem à nossa História... (...)
- Penduraram, veja só, um garrafão de vinho vazio na mão da estátua do Camões que se encontra na marginal lendo os Lusíadas virado para a Índia, e colocaram um chapéu de palha roto na cabeça do Infante D. Henrique, que está no Largo da Alfândega! Eu, como autoridade administrativa venho exigir em nome do povo da cidade (...)".

domingo, 9 de julho de 2017

Torre de Moncorvo

O destino era a aldeia do Larinho, onde um editor ia apresentar uma nova edição. Porque nem tudo em Portugal acontece na cidade ou a 50 Kms do mar. Há quem resista, por uma qualquer razão. Foi assim que eu fui parar a Torre de Moncorvo. 
A igreja matriz é quase uma sé. É certo que as talhas barrocas não são fulgurantes, e são de barro pintado. Mas há para lá do transepto um cadeiral de bispos que dá que pensar.
Ali ao lado, o museu do ferro da serra do Reboredo foi uma surpresa. Lembro-me muito bem, numa incarnação há muitos anos, de quando fui o capitão vermelho e transportei, de jeep ou de Renault 4, um gabinete inteiro de técnicos, (engenheiros, topógrafos, desenhadores, porta-miras e outras gentes), que tinham chegado de África e era preciso pôr a trabalhar. Tempos de brasa!
O plano seria retomar a exploração do ferro da serra do Reboredo e transportá-lo para Sines, onde uma siderurgia se ocuparia dele. O transporte previa-se de comboio, sendo preciso ligar a estação do Pocinho a Vila Franca das Naves.
Em Sines ainda deve haver um terminal ferroviário vastíssimo, por certo inacabado. A mim só me competia andar abaixo e acima, ao serviço daquela gente toda.
Certa vez trazia um engenheiro timorato, sentado no R 4 no lugar do pendura. Saímos do Pocinho e íamos para Lisboa. Mas ao chegar a Celorico da Beira o homem foi à estação, comprou um bilhete e foi de comboio para Lisboa.
Tranquilamente, eu continuei sem pendura no velho Renault 4.

sábado, 8 de julho de 2017

Tancos, há meio século

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O Pereira era açoreano, e treinava auto-rotações com um aluno num taxiway secundário, como manobra de emergência. A geringonça punha o focinho no ar, como um guarda-chuva que roda por si, e vinha descendo controladamente até chegar ao chão. Em frente não havia visibilidade.
Foi então que o Brito, sempre cheio de pressa, precisou de descolar na direcção contrária. Saiu a rapar, e se a torre lhe interditou a manobra, não ficou notícia disso. O Pereira acabou por desabar mesmo em cima do Brito.
Nunca vi um ilhéu transformado num torresmo com tamanha eficácia. Era um negro pedaço minúsculo, e um ferimento de alma que se não descreve. Terá sido entregue à mãe numa urna fechada, e ainda bem.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

É uma alegria!

Os agravos, para não dizer as agressões, os roubos, os desfalques de património, praticados contra os militares e a Pátria nas últimas décadas, não têm descrição.
Pagaremos por isso um alto preço, todos. Ricos e pobres!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Só mais uma, do Lobo Antunes!

Os pobrezinhos
Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, além de serem obviamente pobres, deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbados, e sobretudo manterem-se orgulhosamente fiéis à tia a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria.
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.
O plural de pobre não era pobres. O plural de pobre era "esta gente". No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio em que os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas, junto à estrada militar (...). E as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito, que esta gente tem piolhos. (...)
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros.
- O que é que o menino quer, esta gente é assim. (...)
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. (...)
Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados. Tanto mais que no Almanaque da Sãozinha se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos.
Creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão, que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis."

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Atentados


D. Carlos
Príncipe Luís Filipe
No dia 1 de Fevereiro de 1908, a las cinco de la tarde, o bragança rei D. Carlos e o príncipe Luís Filipe foram vindimados no Terreiro do Paço pelo Buíça e o Costa, dois membros da Carbonária. Os adiantamentos à Casa Real e o ultimato inglês a propósito do mapa cor-de-rosa foram o enquadramento da coisa.
A 28 de Junho de 1914, em Serajevo, capital da Bósnia, morreu o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império austro-húngaro, e a mulher Sofia de Hoenberg. O atentado foi levado a cabo por Gavrilo Prinzip, e tinha como objectivo a criação da Grande Sérvia.
Foi neste quadro que deflagrou a 1ª guerra mundial, que deu como fruto 15 milhões de mortos.
Não se pretende aqui estabelecer qualquer relação entre uma coisa e outra. Apenas foi assim.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Cá se fazem!

Há muitos anos, quando abriram a estrada nova, que do Largo seguia para Norte, para a Senhora da Cabeça, para Penedono e Lamego, vieram aí para a aldeia uns técnicos das obras. À falta de melhor chamaram-lhe fiscais. E um deles terá lançado os olhos às moças que punham roupa a corar nas lajas da fontana.
Uma delas era a Fátima, da numerosa ninhada do Vasco das Neves, a outra era filha do Zé Barbeiro e chamava-se Lurdes.
Que beberagem deram elas ao fiscal não o sabemos hoje, e já cá não anda a Gracinda do Casimiro, esse Fernão Lopes dos tempos medievais. Sabemos só que o pobre do fiscal morreu a expelir da boca uns vermes esquisitos. E ontem foi a enterrar a Fátima do Vasco.
Tinha um bisneto a cargo, um rapazola duns dezoito anos, ninguém sabe quem cuidava mais de quem; se o Miguel da bisavó, se a bisavó do Miguel. Davam a mão um ao outro.
A mãe do rapazola foi levada pela heroína, uma coisa que entrou aí no mercado para salvação dos pobres.
Eu não sei o que vai ser da vida do Miguel, nem lho pude perguntar. Vinha num comboio que chegou atrasado ao funeral, e eu tinha mais que fazer.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Parece!

O mundo move-se (parece!) à medida da capacidade de armazenamento do iPhone. Começou em 4,8 gigas e já vai em 256.

O uso da net pode ter o mesmo efeito que o álcool
Os jovens não são educados para a empatia e não estão preparados para a resiliência, para lidar com a adversidade. Estão numa idade em que a importância do grupo se sobrepõe à família. Esse trabalho tem de ser feito numa idade precoce. (...)
O que explica essa falta de noção?
O efeito de desinibição que estas tecnologias têm sobre muitas pessoas é um bocado como o álcool. Depois de beber uns copos, as pessoas começam a fazer e a dizer coisas que noutras circunstâncias não diriam ou fariam. Para algumas pessoas, a utilização da internet tem o mesmo efeito que o álcool. (...)
[in DN de 29/6/17]