sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mensário

"O Bartolomeu não sabe explicar por que tomou a decisão de subir ao chiado, naquele dia à tarde. Certo está apenas de já não guardar esperanças no peito, à medida que ia subindo a rua nova do almada. Dormia há três meses nas arcadas do ministério das finanças, que os pombos ainda respeitavam. Esmolava no sul e sueste, quotidianamente posto em risco pelas avalanches de pernas que desaguavam de cacilhas, e aventurava-se a um almoço na económica dos anjos quando as forças lhe deixavam subir a avenida, o que era raro. Nesse dia trepou ao chiado como quem vai de férias.
Olhai as aves do céu, que não semeiam nem colhem! Soletrou o cartaz pendurado ao cimo das escadas da igreja dos mártires, que no íntimo sentiu como sua, porém sem cogitar o milagre que ali estava à espera. Atravessou o guarda-vento, tacteou ao longo da parede e lançou ao dedos à pia de água benta, num gesto que desenterrou duma memória antiga. E foi quando a mão direita lhe transitava, canhestra, entre o pai e o espírito santo, que os olhos se afizeram à obscuridade e decifraram o peixe picotado no lioz da coluna, mesmo por cima do tanque.
Pouco dado a leituras cabalísticas, o bartolomeu ficou surpreendido. Mas logo saltou da surpresa para o espanto, quando viu o peixe desprender-se da  pedra e mergulhar na água benta, num encarpado perfeito.
Arqueou as sobrancelhas, roçou um punho nos olhos, não queria acreditar. Procurou assento num dos bancos corridos, e ali ficou, de queixo nas mãos, enquanto a fresca atmosfera da nave central lhe assentava lentamente na cumeada dos ombros. À saída foi espreitar a concha da água benta. O pequeno dorso do peixe evolucionava lá dentro, a lavrar, cuidadoso, as lodagens do fundo.
Oito dias depois regressou à igreja, e lá encontrou o vulto escuro a remexer as águas. Mas o que via agora eram dois palmos de lombada sólida e carnuda, de barbatana inchada, abrindo as guelras ávidas ao maná da água benta. Logo ali capturou o robalo a mãos ambas, fê-lo desaparecer no bolso e foi tratar do jantar.
No dia seguinte foi à igreja de são roque e saiu-lhe uma carpa enorme. Na sé teve direito a salmão. Nos jerónimos ia-se empanturrando de besugos, de linguados, de azevias. O bartolomeu tem o futuro assegurado. Levará muitos anos a percorrer as pias de água benta de lisboa. Depois há-devir o porto, santarém, a idolátrica braga... E o bartolomeu olhará sem cobiça os pássaros do céu, enquanto for correndo as capelas do minho, à espera duma lampreia.
[O MENSÁRIO DO CORVO, Jorge Carvalheira, 2002]

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Epílogo

"(...) O entulho resultante do projecto de demolição acabou como material de construção para a graciosa avenida beira-mar, ao longo das praias do Flamengo e Botafogo. Aí os burgueses cariocas passavam as tardes passeando ao longo do paredão restaurado, que um dia abrigara os pobres da terra.
As investidas do desenvolvimento do séc. XX enterraram esta momentânea elegância sob blocos e blocos de apartamentos e escritórios de construção desordenada. Registaram-se reviravoltas, escravos lançados na miséria depois da abolição das colinas sobranceiras ao Rio. O cenário outrora aprazível de mansões e solares tão apreciada por Da. Carlota, tornou-se refúgio dos que nada tèm: os pobres expulsos do centro. aglomerados de barracas cresceram pelos morros, numa manta de retalhos de casebres  e ruas lamacentas. Eram as favelas , as sentinelas do novo Rio. Cercarão progressivamente os subúrbios mais ricos, ameaçando a elite que se criou. (...)
No meio dos arranha-céus e as frágeis casas de tijolo das favelas, permaneceram  vestígios desse período. (...) 
Talvez a mais viva lembrança da longa estada da corte nos trópicos seja a que encontramos nas prateleiras da Biblioteca Nacional, a reencarnação moderna da Biblioteca Real embarcada em Lisboa durante as Guerras Peninsulares . (...) Ao abrir uma caixa infestada pela formiga branca, Marrocos decreveu o seu conteúdo reduzido a vastos tapetes de pó. (...) Continua a ser uma soberba colecção de livros que inclui uma raríssima  Bíblia de Mogúncia em dois volumes datada de 1462, editada em Mainz. (...)
A palma mater de D. João, plantada com grande cerimonial, quando a corte ainda procurava ambientar-se em solo brasileiro, resistiu como um memorial da sua estada no Rio. Ficou de pé, mas secou e morreu.(...)".

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Fábulas

O mais certo é ter-lhe tomado medo. Mas fosse ele por ter chegado a velho, ou porque se cansou dos ruídos do mundo, o homem deitou-lhe as rédeas por cima e afastou-se. Comprou uma horta distante e fez nela uma mansarda debaixo do carvalho. Depois levantou a cerca à sombra da latada e soltou nela as galinhas. E assim viveram um tempo. O homem comia os ovos, e as galinhas catavam as minhocas e o milho que a horta dava.
A certa altura a raposa saltou a vedação. Avançou pelo terreiro, espaventou as galinhas, esganou logo a mais gorda e comeu-a. O homem assistiu àquilo tudo sentado no alpendre e não mexeu uma palha. As galinhas amontoaram-se ao canto, pasmadas pelo terror. E a raposa, aprisionada na cerca, ficou a fazer a digestão. Quando a fome lhe voltava, esgorjava outra galinha. E o homem assistia àquilo tudo sentado no alpendre.
Depois chegou a cegonha, deu duas voltas no ar e fez ninho na copa do carvalho. E em breve engordava os filhos com os sapos-conchos que havia nas redondezas, e eram muitos. Engordavam os filhos da cegonha, benza-os Deus, mas a barriga da raposa dava horas. Um dia começaram a pintar as uvas da parreira. E quanto mais ela pulava, a abocanhá-las, mais a barriga minguava.
Certa tarde passou lá por cima um corvo, trazia um queijo no bico, roubado à janela duma velha que o tinha a secar ao sol. Viu a raposa magrita, deu-lhe duas de conversa e foi-se embora. A raposa desfez-se ali em queixumes, mas o homem assistiu àquilo tudo sentado no alpendre e não mexeu uma palha.
Quando os filhos levantaram voo, foi a cegonha que ouviu os lamentos dela e deixou-se condoer. Fez umas papas do milho que a horta dava, meteu-as numa cabaça e baixou a partilhá-las com a raposa.  Logo ela as estendeu em cima duma laja, onde em tempos as galinhas debicavam o milho. E foi assim que a raposa se desforrou de misérias e a cegonha ficou a ver navios.
Foi então que o homem se levantou e veio abrir a porta do cerrado. Fatigara-se do mundo, quisera afastar-se dele, viera encontrá-lo em casa. E deste modo se dispôs a relatar as muitas fábulas dele.
[Ladrar à lua, a publicar]

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Clássicos e modernos

Com o modernismo a poética clássica soltou-se de fórmulas. É génio estreme. Entre um e a outra, venha o diabo e escolha!
 
Olá guardador de rebanhos
Aí à beira da estrada
Que te diz o vento que passa?
 
"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes
E que passará depois.
E a ti o que te diz?
 
Muita coisa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras coisas.
De memórias e de saudades
E de coisas que nunca foram.
 
Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira
E a mentira está em ti."

domingo, 10 de dezembro de 2017

O tempo e o uso dele

A produtividade deste nosso país é um espanto. Abrem-se os olhos ao horizonte e o que é que se vê? Se houver coisas a resolver, um homem está lixado. De reduzidos que estão, os dias úteis da semana não chegam para nada.
Dia 1 de Dezembro foi feriado e era sexta-feira; dia 8 sexta-feira era; a semana do pai natal é para desembrulhar as prendas; depois vem o ano novo, que calha à segunda-feira.
Quer dizer, se esperas correio urgente, se queres fazer uma operação já atrasada, se estás à espera dum serviço, podes esperar sentado.
Foda-se! - digo eu.

Charneca

Sabes o que é um forte, um fosso, um revelim, uma estacada? Se não fazes ideia, é sempre tempo de aprender.
Nesse tempo ir à Malpartida era um exercício físico e mental. Significava ir a pé. Passava-se por hortas e poços com noras mouras e hortelães activos.
Agora vai-se de carro, ligeirinho, não se vê nada lá fora. Também... não ficou lá nada!

sábado, 9 de dezembro de 2017

Império?!

(...) Beresford (que antes tinha sido feito conde Trancoso!) decidiu acompanhar os batalhões ao Rio de Janeiro e falar com D. João pessoalmente acerca do agravamento da situação em Portugal.
Em cartas privadas falava da sua apreensão acerca do futuro de Portugal. "O estado das coisas é realmente muito crítico", escreveu na véspera da partida para o Rio, e ninguém vê isso melhor do que eu. Não há perspectiva de qualquer tentativa para rectificar os abusos, que estão a afundar o próprio estado, e que deverão no final acabar por destruí-lo. E esse fim não está assim tão longe. Prevejo sérios riscos de agitação provocada pelo descontentamento popular."
[Império à deriva, Patrick Wilcken]

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Classicismo e rigor

Um soneto clássico obedece a uma fórmula. Só lhe falta o génio e a aplicação.

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A vaca sagrada

Num triângulo de jardim, debaixo dumas faias, está um perfil do pensador. É uma criação feliz do Leonel Moura, e reflecte sobre os tempos de S. Pedro.
A condição de filósofo e a ligação à Gulbenkian transformaram-no em membro do conselho de estado. E um paisano chamou-lhe vaca sagrada, num momento de grande inspiração.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Não sei quem é que este Marquês me lembra

Sem ele, nada hoje em Portugal seria o mesmo, por muito mau que seja. Particularmente a baixa pombalina de Lisboa nunca teria deixado de ser um labirinto de ruelas medievais, sem o Terreiro do Paço e outras pérolas.
Espírito estrangeirado criado na Europa, aproveitou o débil mental do pe. Malagrida para dar uma catanada no bando jesuíta. E, sabendo muito bem que nada em Portugal poderia mudar sem escavacar os ossos à aristocracia todo-poderosa, mandou montar em Belém um cadafalso onde não deixou um osso inteiro aos Távoras e aos duques de Aveiro.
Criou fama de déspota sanguinário e não se livrará dela. E acabou homiziado em Pombal, abrindo caminho à loucura da rainha Da. Maria.
Porque em Portugal não se faz o que deve ser feito, faz-se sempre o que convém.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Grafonolas

O miserável Catroga ainda existe e fala, quando lhe dão corda à vitrola. Em coro com o esquerdalho Louçã, que há anos afirmou na televisão: "recusar o PEC4 será já começar a sair da crise".
Viu-se!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Piolhosos

Nos primeiros anos do séc. XIX, a fuga da corte portuguesa de D. João VI para o Brasil, perante os maltrapilhos de Junot entrados por Almeida, foi uma débacle de misérias e sofrimento. Mas é preciso ir buscar a informação a autores estrangeiros.
O excesso de carga e passageiros foi fatal. Riquezas documentais incomensuráveis foram abandonadas na lama do porto de Lisboa. Os barcos  usados na viagem não pareciam apropriados. Metiam água copiosamente, o cordame era velho e os mastros e vergas estavam meio podres. O mastro principal do Medusa rachou e partiu-se. O mastro da mezena abateu, deixando o navio à deriva. O D. João de Castro perdeu o mastro. Perante uma praga de piolhos e a falta de água e higiene durante a viagem, as damas tiveram que ver as cabeleiras rapadas, para fugir à praga. Os cavalheiros deitavam ao mar as cabeleiras infestadas, e as senhoras, de Da. Carlota para baixo, faziam fila para rapar a cabeça. As damas de honor carecas reuniam-se no castelo da proa depois da sua provação. O couro cabeludo era então lavado e tratado com pós para eliminar os piolhos sobreviventes.
Isso marcou a iconografia histórica da imagem dos portugueses no Brasil. Todas as figuras femininas usavam turbante, para esconder as misérias.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Efeméride

Há muito tempo a manhã apareceu álgida, como a que hoje aí está. Mas alguma coisa tinha acontecido. Havia um rebento novo e era um pichas.
O meu pai foi a casa do Zé Barbeiro comprar marrã, para festejar. E não é que se festejou?
Demorei anos largos a provar a marrã.

Bem contada, a nossa vida já deu um célebre romance...

"A uns 50 quilómetros a Norte de Lisboa, para lá da Serra de Sintra, fica a vila de Mafra. As suas casas parecem miniaturas, diante duma enorme estrutura setecentista, um convento barroco construído durante o reinado de D. João V (1706- 1750) cujas colunas e abóbadas gigantescas são visíveis de quilómetros em redor. A imponente fachada, flanqueada por duas torres sineiras, domina a área, mas esconde a verdadeira dimensão do complexo, que se estende para trás, através de 40 mil m2 de celas de monges, capelas, aposentos e salões de banquete.
No entanto, o projecto começou de forma muito modesta, quando o rei ordenou a construção de um convento singelo, em acção de graças pelo nascimento dum herdeiro. Originalmente destinava-se a abrigar apenas treze frades franciscanos, e em 1717 só algumas centenas de pedreiros iniciaram a construção do edifício.
Sete anos mais tarde, doze mil camponeses acampavam numa área que em breve se tornou o maior estaleiro de obras da Europa. Em 1730 a força de trabalho aproximava-se dos 50 mil homens, o equivalente à população duma grande vila do séc. XVIII. Os custos cresceram, mas o tesouro real pagava tudo, encomendando mármores italianos em rosa, branco, azul, amarelo e negro. Os fabricantes de sinos de Liège e Antuérpia ficaram tão surpreendidos com o tamanho da encomenda recebida de Portugal que puseram em dúvida a quantidade. Mas a seu tempo mais duma centena de sinos seria forjada e transportada através da Europa até Portugal.
Percorrendo milhares de quilómetros através do Oceano Atlântico, até ao Brasil, e depois mais uns 500 Kms para o interior até à região hoje conhecida por Minas Gerais, encontrava-se a maior fonte de receitas para a extravagância de Mafra. Aí, nos primórdios do sistema colonial, homens, os seus escravos e ajudantes índios raspavam o solo, cavavam minas rudimentares e peneiravam as correntes, na primeira corrida ao ouro da era moderna. Nos primeiros anos as condições de vida eram horríveis - os campo auríferos situavam-se em território não desbravado, e as provisões eram insuficientes para as sucessivas vagas de prospectores. Mas, à medida que as obras de Mafra avançavam, o ouro em pó atravessava o oceano. Em breve diamantes e pedras preciosas eram desenterrados e embarcados para a Europa, indo as taxas alfandegárias referentes à sua venda encher os cofres da coroa.
Com entradas de dinheiro cada vez maiores, provenientes das colónias..."
[Patrick Wilcken, Ed.Civilizaçao, 2005]

sábado, 2 de dezembro de 2017

Rodada geral

FÁBULA
Entraram à noitinha na taberna, mandaram encher dois copos. Vinham de longe, quiseram impressionar.
- E aquela ribeira que passámos, onde havia um moinho no bico dum choupo?! -isto disse o moço ao almocreve.
- Não vá, senhor, sem resposta! Nesse lugar vi um dia dois machos eguariços, carregados de fanegas, a trepar choupo acima! - foi o que retorquiu um aldeão.
- Pois ontem mesmo topámos nós um ganapo de sete braços! Está aqui o moço que me não deixa em mentira!
- Minta mais a modo, meu amo! Que o rapaz de sete braços não chegámos a topá-lo! Vimos-lhe foi a camisa de sete mangas pendurada no estendal!
Veio rodada geral.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Conto

O conto é um sub-género do universo narrativo com características próprias, definidas pela estilística. É curto, e a história desenvolve-se sobre poucas personagens que evoluem e sofrem transformações pessoais. Hoje ninguém sabe o que é um conto canónico. Contam-se histórias, assinam-se e é tudo.

A NINFA
Eram os olhos a maior perdição dela. Tão grandes que nele cabia o mundo, tão escuros e fundos que lembravam o mar. Depois vinha a estampa límpida do rosto, debaixo da gaforina asa de corvo: o lábio húmido, a carnação macia, a flor da face cheia de mistério, a prometer abrir-se num sorriso que não chegava a abrir. O resto era o colo generoso, o ventre inquieto, as colunas das ancas a prometer abismos.
Ninguém sabe explicar como apareceu ali, criada na aldeia, aquela ninfa antiga. Olhava-se para ela e vinham à lembranças deusas primitivas da fertilidade. O mesmo nome, Pristila, era um sinal pagão.
Dava escola para os lados de Aveiro e vinha a casa sempre que podia. Chegava na carreira ao fim da tarde, porque o pai, atento à vida, a reclamava. A bem dizer, era a aldeia inteira que a reclamava.
Na vila sabia toda a gente que o Tunante não era boa rês. Era um vilão bastardo, que fazia deste mundo uma coutada de caça. E todos lhe guardavam respeitinho, mais por instinto primário de defesa do que por atributos que não tinha. A ninfa confundiu nele a brutidade grosseira com predicados de macho dominante. E quando vinha à vila, a passear, nem lhe escusava as momices atrevidas nem os avanços de bruto galaroz. E acabou, já mansa e confundida, a enlear-se no assédio do bargante.
No dia em que as férias começaram chegou a ninfa à vila, desceu da carreira ao fim da tarde. Um outra que vinha do comboio havia de pô-la em casa. Mas o Tunante estava à espera dela. Cercou-a de rapapés e cortesias, havia de lhe mostrar a loja nova, logo à entrada das muralhas.
A ninfa deixou-se conduzir. E quando veio a hora da carreira, à beirinha da noite, prometeu-lhe o Tunante que um amigo a levaria a casa, de carrinho, à moda das princesas. E ela logo se rendeu, enleada em semelhante gentileza. Tinha mesa posta e banquete preparado, bom presunto, melhor queijo, de vinho bastava-lhe um dedal, não estava habituada.
A princípio o Tunante foi cordato, coroou-a de rapapés, quis levá-la com bons modos. Penteou-lhe a gaforina, passeou-lhe as mãos no flanco, encheu-lhe o copo de vinho. E abriu-lhe um botão do peito, só para ter uma visão.
A ninfa aos poucos cedeu, o coração num galope. Dum lado o corpo inteiro a amotinar-se, o sangue a romper as veias, o ventre incendiado a extravasar. Doutro lado um grande medo, a cara dele a perder as feições, e um gesto tão poderoso que a assustava.
Quando quis despir-lhe a blusa, a ninfa ainda resistiu. Mordeu o lábio para evitar um grito, cruzou os braços no peito sublevado, refugiou-se no medo. E o Tunante deteve-se um momento, pareceu abandonar o campo de batalha. Foi ajeitar, ao canto, as mantas que lá tinha. Depois apagou a luz, ergueu numa braçada a ninfa amedrontada e foi estendê-la no chão.
Lá fora passaram socas a tropear na calçada. Porém a ninfa hesitou, reteve outra vez um grito. E já dois braços poderosos lhe sujeitavam o corpo, e as pernas brutas lhe apartavam as colunas, e rudes mãos lhe devassavam o peito. As socas na calçada voltaram a tropear, mas a ninfa retraiu-se. Conteve a respiração, não fosse ouvir-se lá fora o gragal que estilhaçava. Por três vezes entrou nela um vendaval, três vezes a desfolhou. Depois caiu uma escuridão desamparada, e um lago que arrefecia.
Por fim bateram à porta, era o outro que chegava. Aconchegou a ninfa no banco de trás do seu Volvo marreco e arrancou. Antes de a deixar em casa foi parar na carreteira dos moinhos do Alcaide, ninguém ali passava àquela hora.
O Tunante recolheu as mantas, fechou a porta da loja. Uma ninfa desfolhada dava casamento certo, era raspar-se um homem para o Brasil ou sujeitar-se aos códigos. Porém, em sendo o festim a meias, era ela assumida marafona e os códigos sossegavam. Cumprisse o amigo a sua parte e ficava o problema resolvido.
Quando o Outono chegou, depois das primeiras chuvas, o Tunante subiu para a camioneta e foi recolher à aldeia uns contratos de centeio. Bem o avisaram as sibilas, que desfizesse o negócio, que por lá tinha a morte prometida. Mas ela guardou a sovaqueira no casaco e lá subiu a encosta, a governar a vida. Um homem não saiu para outra coisa das mãos do criador.
O pai da ninfa já estava à espera dela, sentado no balcão. E quando o viu saltar da camioneta, de machado nas unhas foi-se a ele. O outro ficou surpreendido, não podia acreditar. Estendeu a mão à sovaqueira e pôs-se a ladear, queria ver se era verdade. Mas o homem trazia no carão a fúria dum deus irado, como quem chega duma tragédia antiga, o melhor era levar a coisa a sério. E desatou a correr.
As mulheres espreitavam à janela, havia gente que parava pelas hortas, a olhar, silenciosa. A própria tarde parou, a ver um homem cavalgar estrada abaixo, atrás doutro que fugia. Quando o sentia mais perto, virava o braço para trás e disparava. Disparou à passagem do ribeiro, e à horta da Teresa Côta, e à subida do negrilho, e à curva da fraga grande.
Agora chegámos nós à fundeira da encosta, e já cruzámos a estrada, e temos à nossa frente o açude da ribeira. Não nos sobra mais que um tiro, e já nos queima o pescoço o bafo dum deus irado. O Tunante apontou-lhe ao coração e disparou. E o machado, que lá vinha como um raio, enterrou-se-lhe no ombro.
Mas vem dalém um pastor, a correr em altos berros, vem salvar esta desgraça. O primeiro já está morto, nada podemos fazer. Para que no serve o segundo, um vagabundo. E num golpe de machado abriu-lhe a cabeça ao meio.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Ri-te, ri-te!

"O meu avô fazia tijolos
O meu pai fazia tijolos
Eu ando a fazer tijolos
E a minha casa onde está?"

[Fellini, Amarcord, operário poeta]

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Vindo do nada é mais longe

A casita era mais baixa, hoje nem parece a mesma. Tinha uma escada interior e uma cozinha de lastro. A lenha vinha da aldeia ao lombo da marquesa, e eu vivi nela seis meses de transição num colégio particular, quando deixei para trás o Cícero das Catilinárias e entrei no mundo profano.
A alma doce da minha avó materna fazia-me a comida, e a dona Adriana pôs-me em dia com as ciências naturais, que eu não tinha no currículo.
O Crespo tinha então, lá fora da muralha, uma construção anexa onde guardava um cavalo. Hoje transformaram-na em garagem, e o povo guarda lá dentro audis e beémes de barriga apodrecida pelo sal das estradas da Europa. Mas enquanto foi uma estrebaria, o doutor precisava dum palafreneiro. E eu servia às mil maravilhas.
Então disse-lhe o meu pai a única palavra certa duma vida: o rapaz diz que quer escrever livros!
O doutor achou que o mundo estava perdido. E o cavalo ficou sem palafreneiro.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Se foi deus que os engendrou, conforme consta, porque é que os não atura?!

Nunca vi tamanha violência concentrada. Um dia uma vaca leiteira não se ajeitava ao rego. Ele prendeu-a a um pinheiro e desatou à bastonada nela com um estadulho.
A pobre da vaca tanto puxou que estoirou a corda e fugiu para casa em pânico. E só a mulher lhe pôs a mão em cima.
Os deuses que o lá têm se encarreguem dele. Já que o engendraram.

Muitos anos depois, mutatis mutandis...
"Manuela Costa tinha 35 anos. Às 7H45 duma manhã de inverno apareceu no posto da GNR de Montemor-o-Velho  com a filha de 5 anos. O marido e pai da filha, de quem estava separada, fora de madrugada à casa onde vivia com os dois filhos (o casal também teve um rapaz, então com 13) espancara-a, e quando ela e a filha fugiram, de pijama, para o quintal, ameaçou ir buscar uma caçadeira para a matar.
Após registar a denúncia, a GNR chamou uma ambulância para levar Manuela ao hospital da Figueira da Foz. Pouco após o início da viagem de menos de 20 kms, surgiu um carro atrás da ambulância. Era o agressor. Este, após resistir a várias manobras do perseguidor para imobilizar a ambulância, decidiu voltar para o posto da GNR. Vários militares, alertados por um telefonema de Manuela, estavam no passeio para os receber. (...) Este disse-lhes, em tom sério e grave, que estivessem quietos, que saíssem dali senão os matava, e que sabia que a sua mulher estava dentro da ambulância. Atemorizados e temendo pelas suas vidas, não esboçaram qualquer gesto.
Dois tiros perfuraram-lhe os pulmões, fígado, traqueia e aorta. Projécteis atingiram também a criança no abdómen, num braço e numa perna. Manuela morreu.
Foda-se! - isto digo eu.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Romancistas



Entre romances e novelas, o que Manuel da Silva Ramos tem publicado conta-se às centenas. Hoje trouxe-o para casa à falta de melhor.
Um dia, há muitos anos, ouvi-lhe prometer um romance de mil páginas, ainda bem que não chegámos a tantas.
Este é um mergulho no nada, coisa que me não surpreendeu. Mas se pudesse metia ao bolso 14 euros que paguei à Parsifal e devolvia o trabalho. Porque a paciência tem limites.

"(...) A história da merda em Portugal ainda está por fazer. Neste capítulo a discrição é de rigor. Nem os vivos, nem os mortos falam do que fazem. Quanto aos escritores, que deviam naturalmente falar disso, ocultam-no, salvo quando têm cães. Sou o único tuga a falar da porcaria que se expulsa a pulso. O resto da população vive no segredo condescendente. Vou pois contar a história da merda desde os primórdios da nacionalidade (...)."

domingo, 26 de novembro de 2017

Retornados

Ainda há, por aí sobreviventes. E alguns se lembrarão de que voltaram dos destroços do império numa ponte aérea internacional, e vieram encontrar nas suas terras bairros de pré-fabricados suecos, para albergar os que acreditaram em tudo e chegaram aí sem nada.
A mim comovem-me.
Hoje já poucos se lembram. E a maior parte esqueceram, finalmente, o grande logro que a história lhes impingiu.

sábado, 25 de novembro de 2017

Dia da raça

Falam-nos dum passado de marinheiros audazes, em que nos fomos ao mar, a descobrir novos mundos que demos ao mundo velho.
Do mar trouxemos por junto uma epopeia de mitos, feita de deusas carnudas, e uns tantos heróis pintados, e adamastores de papel.
Arrenego um tal passado. Que ou não somos, agora, o que já fomos, ou  nunca fomos o que nos dizem que somos.
Levaram-nos, é o mais certo, a fingir o que não fomos. Se assim foi, nunca seremos o que nos dizem que somos.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ivões

Ouvi-a ao Barroco Esperança, no Ponte Europa. Mas a quem ela daria muito jeito era ao ministro da Educação: resolvia dramas grandes com pequenas soluções.
No tempo da puta da outra senhora, a educação do povo não se justificava. E às crianças bastava ler, e pouco, fazer umas contas básicas e pronto.
Por isso as professoras cediam lugar às regentes escolares, cujo saber mal dava para gastos domésticos. E era uma que dizia: já copeiam, já devedem, o pior são os ivões.
Dez e vai um; onze e vão dois; doze e vão três...
Verdade ou pura mentira, é do caraças!

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Cândida

Vive além naquela casa grande, ao fundo da vereda. Mas nunca gostou de morar fora do povo, aqui no descampado. E agora ainda por cima está sozinha, desde que enviuvou.
Antigamente a vida era diferente e até os dias lhe pareciam mais pequenos, sempre numa fona entre a cozinha e a horta, o asseio da casa e as lixaradas que o vento juntava no pátio. Mas agora tornaram-se tão grandes, e tão pesados às vezes, que mal os consegue suportar. Só a poder de tristeza e solidão.
Metade da casa não parece sua, fechou a porta que dá para o corredor e nem lá entra. Só para se defender. As latas das sardinheiras que rodeiam o pátio ficam semanas sem uma atenção. O que lhes vale é serem resistentes e saberem esperar. Agora tem muita pena, mas foi assim que as sécias lhe morreram.
Esta lembrança das sécias deixa-a numa aflição, fá-la sentir-se culpada da morte do marido naquela manhã. Ele em frente do espelho, a deixar de ver no queixo a espuma da barba, a queixar-se das tonturas. Ela chegou a correr, e ele dobrado por cima do lavatório, ele a estender a mão à procura da parede, ele a pedir-lhe que lhe limpe um suor frio na testa. E ela a ficar ali atarantada, a telefonar ao cunhado em vez de ligar para as ambulâncias, o cunhado a tirar o carro da garagem, a levar o irmão ao consultório do médico, e o médico sem atentar no que fazia, sem perceber o que se estava a passar, sem o despachar logo para as urgências, o médico a escrever uma carta vagarosa para os colegas do hospital, a mandá-lo seguir no carro co cunhado em vez de reclamar os bombeiros, o tempo a passar e os dois a gastá-lo na sala de espera, sem que nenhuma enfermeira reparasse nele, sem que a menina da bata lhe adivinhasse o nome e viesse chamá-lo, senhor Manuel dos Santos.
Ah, se ela tivesse aprendido que havia ambulâncias quando se deixa de ver a espuma da barba em frente do espelho, se ela tivesse escrito num papel o telefone dos bombeiros, se ela ao menos soubesse conduzir, talvez o Manel não tivesse morrido de abandono, cercado de tanta gente, ali à entrada das urgências do hospital da cidade!
O certo é que o marido lhe morreu, porque o tempo foi demais. Tão comprido o tempo dele, nesse dia, conforme o dela é hoje, que só a poder de tristeza e solidão lhe consegue resistir.
A casa, grande demais, ambos a ganharam na Alemanha, há trinta anos atrás. Deixaram o filho em casa do avô e ala moleiro! Bem lhe custou como mãe. E mais lhe custaria se soubesse o que sabe hoje, porque a criação do filho não foi bem o que devia. Sobre o mais, era aquela língua tão arrevesada que nuca foi capaz de lhe meter o dente. Mas os peixes na fábrica também não falavam, os peixes que ela amanhou anos a fio, a metê-los nas latas e nos frascos, sem dizer uma palavra. Para já não falar do frio, que lhe incendiava os dedos, na água onde nadavam barbatanas e tripas. De vez em quando havia quem metesse uma krankada, mas ela nunca o fez. E se não fossem as férias que vinham em Agosto não se tinha aguentado. A  bem dizer, ainda hoje não sabe se valeu a pena tanto sacrifício.
Mas este ano já prometeu à Dulce que não vai ficar aqui sozinha. Quando as vindimas vierem, já prometeu à Dulce e à Armandina que há-de ir com elas para o Doiro. Há-de apanhar, madrugada, a camionete que as vai levar e trazer. Não será lá grande coisa. Mas poder ser que as férias em Agosto aconteçam outra vez.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Primaveras

Em tempos que já lá vão, a dona NATO andou atarefada à caça do Kadhafi. Eram franceses, eram italianos, era o que houvesse. A imprensa da propaganda fazia de coro trágico, e o Kadhafi, que dormia numa tenda de amazonas, acabou sodomizado depois de morto, num esgoto qualquer.
Hoje a Líbia é um país absurdo, mas ainda há ecos dessas peripécias. Que a alguém sairão do pelo.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Se tivesse sido um bicho...

Quanto mais tempo passa por mim e eu por ele, quanto mais oiço e conheço das esquecidas artes musicais; mais funda é a  minha convicção de que Johann Sebastian Bach foi um génio. Se tivesse sido um bicho, era um gato.
Pois que o protejam os deuses, e nos dêem a nós ouvido e tempo para o usufruir.

O último maçarico-esquimó

No longínquo Natal de 1977 fui presenteado em Berlim com a edição alemã desta novela notável, do biólogo canadiano Fred Bodsworth, falecido há uns anos. Como ela nunca existiu em versão portuguesa, traduzi-a mais tarde. E um dia decidi com um amigo proceder a uma edição feita por uns italianos.
É belíssima literatura para ambientalistas, espíritos preocupados com a extinção das espécies e outros leitores exigentes.

"Viaja sem descanso, do Árctico para Sul, levado pelo desejo de encontrar uma companheira. Luta encarniçadamente com o frio e a neve, com a chuva e os temporais, vence o Atlântico num voo ininterrupto de 60 horas, recobra novas forças no Orinoco e avança, procurando sempre, até à Patagónia. Mas o Verão passa e ele continua sozinho. E quando a esperança já quase lhe morreu aparece a desejada. Saúdam-se, entusiasmados, e iniciam juntos o regresso a casa. (...)".

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Licas

O Licas é o amigo mais composto que já fiz no autocarro. Logo que chego à paragem lá vem ele oferecer-me o pato de borracha, a melhor prenda que  tem.
Traz sempre o mesmo casaco, mas não cheira a mofo antigo nem a tabaco frio. Nunca empata o corredor, nem abusa do espaço do parceiro com a vastidão das cadeiras. Não se fica a ruminar a chicla de boquinha aberta. Não se enfeita com pregos nas orelhas, a ver se inventa uma personalidade. Não clama contra os políticos, que são todos uns ladrões. Não pára em segunda fila, nem avança no semáforo o seu Porsche Cayenne, obrigando o autocarro a uma travagem brusca. Nem se põe a publicar, em alta voz, as histórias da cunhada, que é uma cabra.
A dona do Licas apareceu esta manhã por trás da sebe, a compor o cinto do roupão. Vinha dizer-me que o bicho tem seis anos e que não se chama assim. Mas nem ela sabe do que fala nem é para aqui chamada.

domingo, 19 de novembro de 2017

Identidade

O meu cartão de identidade militar deixou de existir, basta-me um cidadão.
A licença de porte de arma depende agora dos critérios subtis dum agente da PSP.
A única coisa que resta é um cartão de saúde de reformado, pago a 3,5% mensais do valor da reforma.
É como se não tivessem existido anos de aviador em várias Áfricas, tão contingentes e perigosos como ficou visto.
Cá por mim, estes políticos futricas podem ir tranquilamente à bardamerda!

sábado, 18 de novembro de 2017

Sinais

Agora sei que ela passou, que os deuses dela a acolheram e a protegem.
Era uma noite sonhada, álgida, fria, estava ele deitado numa estranha cama e eu ao lado.
Ela chegou, abriu a porta e trouxe um riso muito doce. Cuidou dele, para mim sorriu.
Foi uma luz que entrou, e apaziguou o mundo.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Bijagós

Em Bubaque havia uma baía e uma praia. E um cozinheiro cabo-verdiano que servia arroz de chabéu.
O arroz era das bolanhas da Bambadinca, e o chabéu eram os frutos das palmeiras. O resultado era um manjar dos deuses.
Eu tinha sofrido uma hipóxia mofina, que um regulador preguiçoso me causara. E se não tivesse atrás de mim o Vasquez que me levou para o chão, as coisas podiam ter sido bicudas. Que o chabéu, só por si, não faz milagres.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Ingombota?!

"Auá!, nem a gente toda que está trabalhar lá na barragem ia encher essas ruas. O menino fala ali é o largo da Mutamba, mas não pode. Verdade que era ainda monandengue, mas lembrava bem esses tempos com as suas amigas da Ingombota, desciam até aos Coqueiros. Onde que estava o jardim com a estátua sem pessoa? E as grandes mulembas?"
Do que se trata aqui é de saber qual é a cidade onde existe um Largo das Ingombotas. E o que será ele isso.
As escolhas não são muitas.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Pernada

O solar foi feito por etapas, visíveis na fachada. E eu ainda conheci o conde velho, que só acedeu à condesia pelo casamento com a condessa, vinda de longe. Mas um dia ela morreu, e o conde velho só se via na missa, debaixo da boina basca.
Antes disso o irmão do conde passou aqui uns meses. Seguindo uns ecos de direito de pernada, tratou de fazer um filho numa criada. Daí nasceu o Firmino, que passou a ter trabalho e salário certo. Ocupava-se da cerca e dos jardins, e era um privilégio seu, num tempo e num lugar em que isso era impensável.
Um dia entrei no solar, não sei a que despropósito. E vi o preto, à entrada do salão dele. Era de pau, e tinha uma carapinha.
Há uns anos uma tropa de meliantes veio aí numa noite de inverno, trouxe uma camioneta, e não ficou nada dentro do solar.
Agora o conde novo, homem de indústrias, quando aqui passa nunca vai lá dentro. Que lhe falta o preto!

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Governanças

Os estaleiros navais de Viana do Castelo eram uma empresa pública extinta pelo governo do triste Coelho, duma Coelha exótica que a figura mostra a fazer não sei o quê, e do iluminado tripeiro Aguiar Branco na Defesa.
A empresa tinha adquirido aço para a construção de dois navios asfalteiros destinados à Venezuela, que não chegaram a ser construídos.
O aço foi adquirido à Macedónia, sem cumprimento básico de regras quanto à qualidade do aço.
Resta ao governo do Costa tentar evitar que ele seja considerado sucata desvalorizada, para escapar ao pior.

domingo, 12 de novembro de 2017

O fiscal

Há muitos anos, quando um estado muito antigo resolveu pôr de lado as estradas medievais e construir uma nova a partir do largo, vieram para a aldeia uns fiscais de obras. E um deles depressa lançou olhos às cachopas da terra.
A Fátima e a Lurdes consultaram a bruxa, quem o sabe. E deram-lhe a beber umas tisanas de ervagens misteriosas. O facto é que o fiscal começou a definhar. Perdeu o vigor, meteu os olhos no bolso e acabou por morrer a lançar pela boca bichagens estranhas.
Eu não acredito em bruxas, nem falsas nem verdadeiras. Pero que las hay...

sábado, 11 de novembro de 2017

Rifão

"Do cerejo ao castanho bem me avenho.
Do castanho ao cerejo mal me vejo."
Trata-se agora de fazer a hermenêutica da coisa.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Mal contada

 
A padralhada resolveu erigir uma estátua ao Pe. António Vieira no largo de S. Roque, em Lisboa, onde em tempos se ia à missinha ouvir boa oratória. Suponho que foi à vida a figura do ardina que estava ali no largo.
O bom do padre protegia os índios, das missões dos jesuítas, contra os intentos dos bandeirantes. Mas estava-se nas tintas para os negros, que vinham de África agrilhoados, deitados nos convés dos negreiros.
A nossa história anda muito mal contada!.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Trapo

Tu é que não sabes, porque és muito novo. Mas já houve um tempo (eu vivi-o) em que a América mandava para Portugal trapo em fardos.
Eram roupas que os américas já não queriam, e desfaziam-se delas. Vendiam-se em Lisboa e cheiravam a Califórnia.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Javalis

[DN]
 
A tuberculose foi em tempos uma doença endémica entre os portugueses. Depois deixou de ser, em resultado dos progressos na medicina e na higiene. Mais tarde voltou a sê-lo. E agora são os javalis das caçadas que contribuem para isso. Os veterinários mal chegam para as encomendas.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Privilégios

A fidalguia bebeu sempre do fino, não punha à mesa esses vinhotes palhetos sem terroir. Por isso o solar tinha em Fontelas, vizinha da Régua, uma vinha de benefício.
Ele mesmo foi feito por etapas, visíveis na fachada. Ainda conheci o conde velho, que só teve direito a honras e acedeu à condesia através do casamento com a condessa, vinda de longe.
Mas um dia ela morreu e o conde velho só se via na missa, em lugar próprio, ou quando passava na rua debaixo da boina basca.
Muito antes o irmão do conde passou aqui uns meses. E, num simulacro de direito de pernada, tratou de fazer um filho numa criada. Veio a nascer o Firmino, que havia de ter no solar trabalho e salário certo. Ocupava-se da cerca e dos jardins, e isso era um privilégio raro, num tempo e num lugar em que isso era impensável.
Um dia, ainda cachopo, subi a escadaria, entrei no solar e vi o preto de pau, à entrada do salão dele. Mas há uns anos uma tropa de meliantes veio aí, numa noite de chuva, trouxe uma camioneta, e não ficou nada dentro do solar. Nem o preto da carapinha.
Agora o conde novo, homem de indústrias, quando aqui passa recusa-se a ir lá dentro.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Fellini irresistível

 
Há filmes que são bem feitos e nos encantam. Este é uma obra de arte que é obrigatório rever.
Itália dos anos trinta, fim do Inverno. Na praça faz-se uma fogueira dos trastes velhos, onde se queima "a velha". E a propósito desfila uma longa série de tipos e tradições populares hoje mortas: a malta juvenil e a escola, com destaque para o professor de grego; o advogado erudito, que explica a história e a arte pelas ruas, perante a geral indiferença; o poeta das obras, e o seu poema Tijolos; O meu avô assentava tijolos / o meu pai assentava tijolos / eu assento tijolos / e a minha casa onde está?!; as numerosas concubinas do emir turco, baixote, gordo e velho; a ascenção dum Mussolini minorca, em que tudo é a fingir, até a música dum gramofone, que uma noite no campanário debita a Internacional; o tio Teo, débil mental que está internado num hospital de malucos; sobe a uma árvore e fica lá horas a gritar voglio una donna; só uma freira anã o convence a descer.
 

sábado, 4 de novembro de 2017

Finch (harpa) e Keita (kora)

Aqui.

Sanssouci

 
Era mesmo aquilo que o nome diz, um lugar onde não havia preocupações. O imperador Frederico II fez dele um lugar assim, em Potsdam. 
Havia nele imitações de Versalhes, que foi o grande modelo. Tinha uma orangerie onde as laranjas não eram de Setúbal, uma galeria de pintura, e jogos de água em que nunca se deram batalhas navais. Voltaire andou muito por lá.
Nas redondezas, em Cecilienhof, reuniram-se os três da vida airada (Stalin, Truman e Churchill) para tratarem da saúde ao que restava de Hitler.
Em Portugal também houve ecos dessas rebaldarias. Em Queluz, uma rainha louca veraneava numa barcaça, na ribeira de Queluz. Até que o demo a levou.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Cafres

É surpreendente (se antes não for revoltante) que na discussão do OE para o próximo ano alguém estenda um microfone activo a uma figura de ignorante primária como a Maria Luís Albuquerque. Que critica o OE como quem sabe alguma coisa do ofício.
Ela que, depois de posta na alheta há uns anos, foi meter nas mãos duns ingleses especuladores em dívidas públicas a agenda que teve como ministra das finanças dum governo de cafres como o Coelho.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Farpas

Do Eça e da ramalhal figura, ainda está lá tudo, ou quasi. Mutatis mutandis. O que nos falta é lê-las e pensá-las.
"(...) Não se compra um livro de ciência, um livro de literatura, um livro de história. Lê-se Ponson du Terrail - emprestado. A indiferença do público reage sobre o escritor - a literatura extingue-se.
Nos teatros não se pede uma ideia: querem-se vistas, fatos ricos, mutações, mágicas. (...)
Os cafés são silenciosos, tristes. Meio deitados para cima das mesas, os homens tomam o café a pequenos golos, ou fumam calados. A conversação extinguiu-se. Ninguém possui ideias originais próprias. Há quatro ou cinco frases feitas de há muito, que se repetem. Depois boceja-se. (...)
Perdeu-se o sentimento de cidade e de pátria. (...) É uma nação talhada para a conquista, para a tirania, para a ditadura e para os domínios clericais.
(...) Vive-se na rua, ou no café. A casa aborrece e a família não nos interessa. As casas são pequenas, mal arejadas, sem conforto. O saguão é imundo, lúgubre, desmoralizador. A vida aparece como um cárcere. O burguês vai para o Grémio. O operário vai para a taberna.
Nas salas há uma mobília de mogno ou de murta, dura, lustrosa, pretensiosa, fria, quase inútil. (...) As mesas têm pó e vasos com flores de papel. Vê-se que aqui se não está senão de passagem, em acanhada cerimónia de gestos, de palavras e de ideias, mas que se não conversa, que se não discute, que se não ri, que se não existe, finalmente que se não vive em tais recintos. Se os mortos mobilassem os seus jazigos de família mobilavam-nos assim. (...)
Lisboa não se banha durante o inverno. Entrai nas três casas de banho que existem para uma população de 300 mil corpos. Achá-las-eis desertas. (...)
Nas aldeias, onde o quadro é mais compreensível e breve, observa-se que em cada freguesia é regra quase invariável que de todos os sujeitos o mais desordeiro é o regedor, o mais alegre o coveiro, o mais estúpido o mestre-escola, o mais estroina o cura. (...)"

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Dia de finados

Na nossa vida há anjos protectores, disfarçados de gente. Trazem-nos o mimo que os deuses nos negaram, por serem caprichosos. Muitas vezes têm vidas que nem parecem de gente. Mas foram-no, e deixam-nos lições e proveitos.
No tempo dela, se era Inverno, saía cedo de casa mais umas colegas, para os olivais da terra quente. Sendo Verão, iam apanhar garrobas para as colinas de Foz-Côa, uma lonjura. Ainda não havia as farinhas que há hoje, e os muitos gados chamavam-lhe um figo. Por lá ficavam semanas até voltarem a casa.
Bebiam água dos charcos, apanhavam sezões, e quando calhava regressavam a casa.
Os Crespos do Vitorino levaram-na de criada. E quando o velho Zé Ribeiro se sentiu  enganado pelo pessoal que lá tinha, puseram-no na rua. Foi assim que a Adelaide e a filha mais velha vieram para esta casa. A filha já era a feitora, embora nova. Por isso os Crespos não hesitaram. Livraram-se do feitor que lá tinham e meteram-na a ela.
Foi só através do casamento que o marrafinha lá entrou, vindo Matosinhos. Doutro modo nem pensar.
Adelaide morreu na década de sessenta, ninguém hoje sabe já de quê, andavam os netos a fazer pela vida em longes terras. Porque o mundo nunca foi doutra maneira.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Stalin manda

Clicar

E quem é que se admira?!

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Leiria

A FAMÌLIA

"Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pesca do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
E foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão

vamos pra casa
disse o esturjão!
[Mário-Henrique Leiria]

domingo, 29 de outubro de 2017

Gatos

Foi quando pude dormir no sótão duma casa de fidalgos, no centro de Viseu. Era a casa da Prebenda, e o simples nome diz tudo.
As magnólias e as camélias ramalhavam de noite. Eu a ouvi-las e a pensar nos doze gatos que dormiam em sofás, e comiam a pescada melhor que as criadas traziam do mercado.
Uma manhã, um dos filhos que tinha a minha idade perguntou-me qualquer coisa de aritmética. E ficou surpreendido por eu lhe ter adiantado a correcta resposta.
Eu deixei andar, esqueci o ramalhar nocturno das japoneiras e das magnólias, voltei a casa na camionete da carreira pela mão da minha mãe.
Mas isto era apenas o início da história. P'ra quê recordar o resto, doloroso e indigesto.

sábado, 28 de outubro de 2017

Ó marreco, olha o sonoro!

Era um tempo tão antigo que ainda havia dinossauros excelentíssimos. Nós éramos tão novatos que nem idade tínhamos para ir ao cinema. Por isso mostrávamos ao polícia as cédulas de amigos mais velhos, que atirávamos do segundo andar até entrarmos todos.
Subíamos para o segundo andar porque era mais barato. Por baixo havia o primeiro, o dos burgueses, e lá em baixo a plateia.
Os filmes eram projectados lá de cima, numas bobines enormes que faziam o que podiam. As fitas é que partiam muitas vezes, e a bobine lá ficava a rodar em seco, sem imagem nem som, enquanto o operador não dava conta.
Se ele tardava, ouvia-se uma voz: - Ó marreco, olha o sonoro!
A gargalhada era geral. Mas o cinema era assim, com actualidades do António Ferro lá pelo meio.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A cinturinha de vespa e o B52

Aquele tempo era bem pior que o de hoje, que já de si mais parece um acto trágico. Lembro-me dele só para me compensar.
A pista era uma bisarma, no cimo do planalto. Cabia nela um B52. Justamente o capitão já nos deixara dito que, no ano que findara, toda a esquadra fizera uso das capacidades de um B52 e meio. A malta, que só usava umas passarolas ligeiras em pistas de terra do mato, e um Texan vindo da África do Sul que transportava um armamento ridículo, não chegou a comover-se, à excepção do próprio capitão, que esse vibrava em falsete.
Na base aérea havia um alferes de artilharia, nunca ficou explicado que fazia ele ali. Era melómano e culto e miliciano, e isso explicará tudo.
Um dia trouxe a notícia de que a Olga Prats e o Bruno Pizzamillo davam um recital no cineteatro de Carmona, a capital do Uíge. E eu concluí que o melhor meio de transporte, para os 50 Kms de distância, era o Auster. Muito melhor do que os Land Rover de volante à direita que os sul-africanos boers tinham oferecido à esquadra. O capitão acedeu. E lá fui eu, à espera do recital.
Como cheguei cedo, passei por casa da cinturinha de vespa, uma donzela chorosa que saíra das mãos dum alferes do arre-macho que acabara a comissão. A mãe dela não interferiu, apenas se manteve atenta. E quando eu me dei conta estava a chegar o crepúsculo. Naquelas terras, o crepúsculo é um intermezzo.
Saí para a rua, chamei um táxi e corri ao aeroporto. Entrei na passarola sem qualquer inspecção prévia. Alinhei na pista, descolei sobre a roda esquerda e comecei a subir na escuridão. A dada altura acendi um isqueiro para ver a pressão do óleo. E fui subindo até me parecer altura de nivelar.
Rumei a sul e fui andando, guiado apenas pelo cantar do motor. Depressa ouvi as chamadas da torre, que queria saber de mim. Tranquilizei o rapaz, dei-lhe um tempo estimado de chegada, até que vi ao longe uma pista balizada por candeeiros de petróleo.
A aterragem foi um sossego, parecia mesmo um B52. O mecânico arrumou-me na placa e eu dirigi-me ao comando da esquadra.
O capitão lá estava à minha espera atrás da secretária, e eu nunca me senti como o fiel fiador daquele rei que não pagou as onças de ouro ao papa.
O capitão cedeu à corda que eu trazia ao pescoço e mandou-me dormir. E foi assim que perdi o recital da Olga Prats por troca duma cinturinha de vespa. E na manhã seguinte foi o companheiro de barraca que me acordou.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Violência doméstica

O troglodita dum juiz achou atenuantes para dois réus que violentaram em conjunto uma mulher porque era adúltera.
Este sacripanta vê-se que leu a santa bíblia. Mas esqueceu  o cristo que perdoou à Madalena. Tem o céu à espera, esse cabrão.
"Ela tinha oitenta e oito anos, ele era um pouco mais novo. E um dia rachou-a toda à bengalada, porque lhe deu pr'ali. Não havia adultério nenhum, nem sinais disso, apenas uma mania, uma doideira, uma cabeça de herege.
Ela passou um ano a recuperar, o corpo dos hematomas, um braço partido pelo rádio e pelo cúbito. Lá conseguiu, graças a outras mulheres.
Ela salvou-se, ele ficou a soletrar a bíblia."

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Sobreviver

Parte delas morreram no fogo. Outra parte abortaram por stress. As restantes não têm que comer.
O dono já lhes comprou uma tonelada de maçãs, para as enganar. O resto é palha que vem de Espanha, e custa 45 euros o fardo.
A produção de leite reduziu-se a metade. E o queijo da serra não chega para as encomendas.
Nesta versão, as personagens são cabras. Podiam bem ser ovelhas.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Li


 
O melhor será dizer quis ler. Porque apenas consegui passar os olhos por esta bambochata. E o mais grave é que trouxe p'ra casa uma coisa em tempos já lida, porque hoje em dia nada há que valha a pena.
"Elias a caminho de casa é como o cavalo do almocreve: passo batido, paragens certas, meditabundo. Vai. Se desce a Avenida, direcção ao Rossio, pára nuns pontos, se vem pelo Intendente pára noutros, sempre os mesmos. Seja qual for o trajecto tem sítios. Depois é que reconhece se está para norte ou para sul. (...)
É então que vê passar as três jaulas rolantes vindas não se sabe donde. De longe. Certamente da autoestrada do Norte, avenida do aeroporto abaixo, atravessando a cidade. São três transportes de circo, gradeados mas sem feras, que avançam de madrugada. Dentro deles viajam os tratadores com um ar estúpido, ensonado. Desfilam pelas ruas desertas, sentados no chão, pernas para fora, caras entre grades.
Elias deixa de cantar. Durante o resto do caminho pensa nos tratadores enjaulados a atravessarem a noite sobre rodas: o que mais o impressiona é que pareciam vaguear sem destino."
 

domingo, 22 de outubro de 2017

O do chapéu grande

Já estava dito, redito e escrito: o infante D. Henrique foi o maior filho da puta que existiu na história de Portugal. Um paranóico inútil, sempre do lado da aristocracia e dos seus interesses, contra o povo burguês e as ideias de futuro.
Só ele chegou para destruir a ínclita geração: o rei D. Duarte, esse melancólico que nunca ultrapassou o remorso de ter deixado o irmão D. Fernando a morrer nas masmorras mouras de Fez, por exigência do mesmo paranóico; o regente D. Pedro, o príncipe das sete partidas, que viajou para a Europa ainda medieval e dela regressou renascentista; esse que acabou atraído pela fidalguia a Alfarrobeira, onde o liquidaram para se apoderarem do poder e das suas benesses.
Nada disto é afirmado nos manuais dos escribas de serviço. Nem é preciso, porque tudo está no mito. E os portugueses não lêem, entretidos que estão em ir a pé a Fátima, à espera do futuro.

sábado, 21 de outubro de 2017

Olarila!

O pivot que pisca o olho é também o escritor que mais publica, e mais leitores tem nas estatísticas. É ele a mais cabal demonstração de que os milagres existem. Até o milagre de a literatura ser um logradouro onde tudo cabe.
Por exemplo: "achei que havia um mistério muito interessante relacionado com a vida: como é que a matéria inerte se torna matéria viva, com consciência, depois volta a ser matéria inerte, depois de novo matéria viva". "Uma partícula, o bosão de Higgs, que cria a matéria. Pensei que era um bom tema para um livro. Nessa altura já tinha feito a minha tese de doutoramento, para a qual tive que estudar física quântica, por causa da questão da verdade". "A espécie humana vai desaparecer. Vamos extinguir-nos lentamente. Por opção. Por preguiça". Olarila!
"Há boatos de que não sou eu que escrevo o livro, que tenho um escritor-fantasma, que recorro a uma equipa. Criou-se uma certa mitologia. Acaba por ser engraçado e até lisonjeiro".

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Freeport

Este nome ainda te diz alguma coisa? Foi  a primeira caravela em que pretenderam naufragar o Sócrates no mar da Palha.
Era ele ministro do ambiente dum governo qualquer, e tinha recebido não sei quê, de não sei quem, para licenciar o Freeport em Alcochete. Por causa do ambiente, das salinas, e coisa e tal.
Já havia envelopes cheios de massa, passados por baixo da mesa, e um cabrão de Setúbal viu isso muito bem.
Foi depois disso que veio a grande artilharia, e super-juízes, e magistrados canalhas, e condenações na praça pública...
Talvez se fodam, se chegarmos lá!

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sem-sura

No tempo em que os animais falavam, dona Cristas tinha sobre a agricultura e as florestas um supino saber.
Tanto assim que, durante uns anos, quem quisesse uma plantação de eucaliptos à porta era só pedir por boca.
A verdade verdadinha é que ela falava da matéria com um floreado sotaque de tia. Mas enfim...
Agora quem a ouvir é para anunciar moções de censura ao governo do Costa. Ou será sem-sura?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O ventríloquo

O Coelho, esse fantasma ventríloquo ( p'ra não dizer esse facínora), diz que o governo do Costa não tem mais oportunidades.
De que coisa é que esse filho da puta estará a falar?
Na barafunda da tragédia em que Portugal se encontra, o Costa manda-os foder e tem razão.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ecrãs


Na época da grande depressão americana do século passado, em que os camponeses, brancos ou negros, eram espoliados pela escumalha dos bancos, Bonnie e Clyde lançaram mão dos grandes argumentos: as armas. Duvido de que fossem criminosos.
Arthur Penn deixou-nos este filme surpreendente, dum tempo em que se fazia cinema. Hoje já não. Hoje há zombies, e alliens, que só têm dois dedos. P´ra picar em ecrãs.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Romízio

Durante a guerra civil espanhola as galinhas eram um excelente pitéu para anarquistas, comunistas e franquistas, que as passavam ao estreito, enquanto defendiam as portagens das muitas guadarramas. E foi assim que, no fim da guerra, não havia ovos em Castela.
Então vinham arreeiros, de aldeia em aldeia, comprá-los a Portugal até fazerem carga.
Um dia chegaram às Moreirinhas, ao cair da tarde, e entraram na taberna para matar a galga. A taberneira serviu-lhes um guisado de coelho. Mas a eles parecia-lhes gato, ou romízio, como diziam.
A cozinheira jurou, sem os ter convencido. E eles pouco se importaram. Mataram a galga e foram à vidinha.

domingo, 15 de outubro de 2017

O pior

Foi neste aviãozinho primitivo que voei sozinho pela primeira vez, em 1964. A euforia que senti sobre a ria de Aveiro não se descreve.
O pior é o que veio a seguir.

sábado, 14 de outubro de 2017

O violinista

Se Portugal não fosse para cá dos Pirinéus, cantaria outro galo. Assim, faz-se o que se pode. E eu, que nunca fui mais do que um tocador de rabecão, lembro-me do violinista.
Um dia os americanos, de olhos postos nos negócios da Nato, construíram um novo modelo de avião de caça e intersecção, que não passou dos ensaios.
Chamaram ao Texas pilotos de todos os países interessados nos negócios da Nato, e puseram-nos a experimentar o protótipo do F20. Acima de 4 g's o animal entrava em vibração e desenhava no céu um immelmann gracioso. Por sua alta recreação. Os indígenas clientes da Nato calaram-se, respeitosos.
O violinista fez um relatório em que apontava a limitação, disse o que tinha a dizer. E os americanos, com o trabalhinho feito, quiseram dar-lhe um coche de presente. Ele mandou-os foder, apanhou um avião e regressou a Lisboa. Acabou preterido nas promoções.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sócrates?

Quando se junta uma poderosa corporação de magistrados e uma elite de políticos corruptos, vai tudo pró caralho.
O ariano Temer e uns juízes amestrados fazem o resto, lá como cá. A Dilma Roussef e o Lula presidente que o digam.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Urso amestrado

Curiosos são os jovens escreventes indígenas. Incapazes de ver a realidade nacional, despicienda para eles, voam para o estrangeiro em busca de inspiração.
O Peixoto anda pela Tailândia, o Hugo-Mãe pela Islândia, o Tavares pela Índia, se não for por onde calha. Mas esse já tem o Nobel garantido, de formas que outro galo canta.
Certas criativas mais incipientes inspiram-se em ladrões, em detectives, em cenas de tribunais. E juram que hão-de inventar o cânone do policial portuga. 
O leitor desprevenido é o urso amestrado de serviço.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Kusturica

O filme é o Gato Branco - Gato Preto.
Entre mil e uma preciosidades, a cena dum porco a comer a chapa de contraplacado dum Trabant com motorzinho a dois tempos, é inesquecível. Só quem os não conheceu.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Fogo!

Nunca acreditei que a onda abrasadora dos incêndios tivesse mão política. Mas, ao que se vê, dificilmente pode ser outra coisa, já que outra alternativa lhes não resta.
Só nos resta começar a disparar contra parasitas, inúteis e videirinhos. A ver se ganhamos alguma normalidade.

domingo, 8 de outubro de 2017

Cavacada


O DN trouxe há tempos notícias da participação deste filho de Boliqueime na universidade de Verão do PPD. E desvendava o topete desta múmia, que devia ter passado a vida a medir litros de gasóleo numas bombas.
Mas os portugueses acharam por bem fazer dele o mais durável político que por aí andou: vinte anos como primeiro-ministro e dez como presidente. Eles lá sabem.
Um certo dia a VISÃO desfraldou a bronca: o PPD sempre foi uma súcia de vigaristas profissionais, empenhadíssimos em governar a vida mais do que em servir o país. Veja-se do Dias Loureiro, o Relvas, o vigarista da Tecnoforma, o Durão Barroso e mais compinchas.
O labrego de Boliqueime fez o seu papel, certos magistrados encarregaram-se de engaiolar o Sócrates, e por trancos e barrancos chegámos aqui.
Mas o grande baile tiveram-no há dias, um dia tinha que ser.

sábado, 7 de outubro de 2017

Em pratos limpos

O Seguro de má memória e o Coelho de memória péssima, juntaram-se em tempos à esquina para acabar com o Serviço Militar Obrigatório.
No fundo, o que ambos queriam era evitar mostrar o cu ao sargento da junta médica. E foi assim que tramaram a vida à tropa e à pátria.
Isto numa altura em que os países ilustrados da Europa, abandonado o modelo da triste América do Vietname, pensam seriamente em pôr a coisa em pratos limpos.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Ó Jirómino! Já era tempo de abandonares a tecla da vitimização!

 

"(...) Não se pode omitir o quadro de hostilização que acompanhou a intervenção do PCP e da CDU ao longo dos últimos meses e da sua negativa influência na afirmação do nosso trabalho, da nossa obra (...).
Falou ainda duma "campanha sistemática de ataque anticomunista que, com pretextos diversos, procurou avivar preconceitos, atribuir ao PCP posicionamentos e valores que não são seus, e de uma acção persistente de desvalorização do papel do PCP na vida política nacional, silenciando as suas actividades e iniciativas (...)
" Vimos uma intervenção do PS a desenvolver uma acção a partir dos seus candidatos e alguns dirigentes partidários, particularmente concentrada em municípios de maioria CDU, de ataque à gestão da CDU baseada em argumentos falsos e muitas vezes ofensivos (...).
Não há, na Europa ocidental, um partido comunista que mantenha a natureza do PCP. Como se Portugal fosse uma aldeia de gauleses. Mas não é. E os heróis das lutas de há meio século fazem parte da história mas já cá não estão.

Jorge Listopad

Listopad não tinha o estatuto de catedrático. Era um homem que vinha das artes e do teatro, e dava-nos lições acessórias sempre pertinentes.
Para ele, fosse drama ou tragédia, o Frei Luís de Sousa era uma peça mais que perfeita. E podia facilmente ser observada a partir da perspectiva de qualquer personagem: o velho Telmo, Manuel de Sousa Coutinho, Madalena, a atormentada Maria, o romeiro da sala dos retratos... e até o discreto aio Miranda. Andava por ali, mirava a intriga, silenciava. E ajudava a entender.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Refrescamento

Era o tempo em que o Ângelo Correia trazia no bolso a novidade do Passos Coelho e da Tecnoforma, a quem o Relvas garantia encomendas e serviços. O país inteiro formou-se em aeromodelismo.
O próprio Relvas licenciou-se em equivalências, com a especialidade de facilitador, que trouxe dum sertão.
A Maria Luís Albuquerque largamente explanou o que é a estupidez e a incompetência. E acabou a passar a agenda de contactos de ministra a uma fauna de ingleses manhosos, que faziam fortuna a especular com dívidas públicas.
Eu sei que já não te lembras. Mas foi assim, mais ou menos.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Árvores e bichos

O Francisco José Viegas (que um dia meteu o pé na poça para ser um transitório secretário de estado) é o encenador das aventuras do inspector Jaime Ramos, que me não entusiasmam.
Recentemente ouvi-o dizer que, muito perto do seu Pocinho natal, tem um refúgio campestre só para usufruir das árvores.
Se acrescentar uns bichos, muito me comove.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Olha só!

 

O ar do bicho é mesmo de galaroz sem crista. Tudo aparências.