sábado, 24 de junho de 2017

Tradições



Passou a noite em que os tripeiros se divertem a trocar marteladas na cabeça à custa do S. João, hoje em dia com sotaque chinês.
Mas têm pouca sorte, já que alguém determinou o lógico: proibir o lançamento de balões de mecha a arder, essas bombas voadoras que caem ninguém sabe onde e incendeiam pinhais.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Fugir a salto

Os caçadores de cachalotes, de que extraíam um óleo finíssimo, vinham em tempos da América procurá-los às ilhas dos Açores.
E os pescadores locais não estavam autorizados a entrar nos barcos americanos, nem eles podiam acolhê-los.
Mas havia uma falésia numa ilha, donde os açoreanos saltavam directamente para dentro do barco americano. Foi um arranjo desses que levou uma grande comunidade açoreana para a América.
Os modos mudaram com os tempos. Mas a fala assim ficou.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Capelas

Em entrevista à TSF, Helder Macedo põe os pontos nos is: critica acerbamente a pobre contribuição de Luiz Pacheco para a literatura, esse cultor de excessos variados.  
Deixemos passar as velas votivas da capelinha surrealista!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Anacronismos ou cegueira histórica?!

"(...) Há, porém, relatos de alguns visitantes estrangeiros, surpreendidos com uma situação que era, para eles, pouco familiar.
O nobre flamengo Jan Taccoen, senhor de Zillebeke, quando em 1514 passou por Lisboa a caminho de Jerusalém, teve oportunidade de ver chegar um navio "carregado de especiarias" que sob a coberta trazia cerca de 300 escravos negros, homens, mulheres e crianças. Ficou chocado com o facto de todos virem completamente nus, mas também não lhe deixou boa impressão a forma como depois foram tratados. Saídos do navio, foram agrupados na praia, e aí ao sol de Abril foi-lhes dado de comer em grandes gamelas, um espécie de trigo cozido, uma massa mole. Não tinham colheres, e o grupo que rodeava cada uma das gamelas usava as mãos para levar os alimentos à boca.
Acabada a comida, foram obrigados a ir lavar as gamelas ao Tejo, as quais em seguida foram enchidas de água doce. No entanto, a única forma que tinham de chegar à água era ajoelhando-se, e bebendo como animais. (...)
O prazentim Giuli Landi, quando passou pela capital portuguesa cerca de 1525, não deixou de reparar no modo de comerciar os escravos africanos. "Na compra e na venda dos escravos empregam muito cuidado, pois não basta para os compradores verificar a sua destreza e a sua galhardia, fazendo-os andar e correr, querem também ver se têm algum defeito nos seus corpos, e se lhes faltam dentes, por estarem convencidos de que aqueles a quem faltam dentes são mais fracos para o trabalho, por lhes faltarem os instrumentos de comer, de onde lhes vêm as forças. Ao exporem os escravos para vendê-los, costumam untá-los com azeite, para que os seus corpos pareçam mais lustrosos e mais belos. (...)
A praça da cidade que Sassetti refere era provavelmente o Largo do Pelourinho Velho, um dos topos da cosmopolita Rua Nova dos Mercadores, que corresponderia hoje ao quarteirão definido pelas ruas do Comércio, da Madalena, da Alfândega e dos Fanqueiros. (...)"
Os indígenas locais que ainda hoje sustentam que a aberração do tráfico escravo era fruto normal do tempo, limpem as mãos à parede! É que não há pior cego que aquele que não quer ver. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Publicidade

* Quem quiser comprar um escravo preto, com idade de 16 anos, sem achaques, sabe cozinhar, capaz para todo o serviço, vá a casa de Ricardo King, morador na Calçada do Correio-Mor. Gazeta de Lisboa, 16 de Março de 1724
* Quem quiser comprar escravos e escravas boçais que vieram nesta monção de Cacheu, podem-nos vir ver à casa de Patrício Nolan, no meio da Rua das Flores. Gazeta de Lisboa, 14 de Agosto de 1727
* Quem quiser comprar uma preta pode falar a José Rodrigues Charneca, cabo da ronda, morador na Calçada de Santo André. Correio Mercantil e Económico de Portugal, 8 de Maio de 1787
* Quem tiver para vender algum escravo preto, fale na loja da gazeta...
* Quem quiser comprar uma mulata da idade de 22 anos, que sabe muito bem coser, engomar, fiar, fazer meia e cozinhar, fale com Manuel Alberto Colaço, capitão de Infantaria agregado à primeira Plana...
* Pretende-se comprar um escravo de 12 até 16 anos de idade...
Comentários para quê?!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Comércios

2 - Fora de considerações de ordem moral e de critérios históricos, o pensamento que aqui se apoia é este: nenhum povo moralmente são resiste a séculos de desbragado tráfego de seres humanos.  
" (...) Não nos deve espantar esta importância da Carreira da Índia no transporte de escravos para Portugal. Como tivemos oportunidade de referir quando tratámos dos escravos índios, acontecia assim desde praticamente a abertura da Rota do Cabo e o volume de saídas só teve tendência para aumentar, à medida que, no séc. XVII, as mercadorias de luxo deixaram de ser suficientes para satisfazer a tonelagem das armadas.
Os escravos transportados, além de asiáticos das mais variadas origens, eram também africanos da costa oriental, resultado dum comércio que já era anterior à chegada dos portugueses e que estes continuaram.
Além disso, no regresso ao reino, por motivos justificados ou inventados, alegando por exemplo problemas técnicos ou de falta de água, as frotas procuravam fazer escala em Moçambique ou em Angola, reabastecendo-se aí de mercadoria humana em troca dos tecidos asiáticos. (...)
As frotas de 1665 e 1667 fizeram mesmo o pleno, parando em Moçambique, em Angola e na cidade da Baía. (...) Aproveitando esta paragem tripulantes e particulares vendiam na cidade baiana alguns dos escravos trazidos nas naus da Índia, prática de que há notícia desde 1698. (...) No caso dos escravos trazidos do Brasil, alguns já crioulos, quase sempre acompanhavam funcionários, militares ou emigrantes portugueses de regresso à pátria. (...)
Alguns dos proprietários podiam trazer, embora não fosse comum, dez ou mais cativos, e parte deles por certo eram vendidos a terceiros. Em 1727, um comerciante de escravos com loja no Bairro Alto mandava anunciar na Gazeta de Lisboa: Quem quiser comprar escravos e escravas boçais que vieram nesta monção de Cacheu, podem-nos vir ver à casa de Patrício Nolan (britânico?), no meio da Rua das Flores. (...)
O abastecimento do mercado português em mão de obra cativa passou a fazer-se em grande parte pela reprodução física dos escravos residentes, na esmagadora maioria de origem africana, tendo o fornecimento a partir do exterior deixado de ser regular e tornando-se irrelevante na maior parte dos anos. Só isso permitiu que, em 1761, o marquês de Pombal pudesse avançar coma proibição da entrada de novos escravos em Portugal, sem protestos dos comerciantes."

domingo, 18 de junho de 2017

Apocalipse segundo S. João

O fogo de dimensões bíblicas tomou conta da vida, sem que qualquer de nós possa fazer-lhe frente ou escapar-lhe.
O resultado é aterrador. Nenhum dos outros evangelistas o referiu, mas está aí. E a única explicação racional que me chega é a dum amigo que o não diz, mas o escreve.
"A complexidade crescente da organização da vida ... a energia das telecomunicações... a gestão das redes... custa mais do que o que traz.
Recolhe-te à tua pobre dimensão e confia. Chegaram tempos em que é melhor ser gato!

A hecatombe por partes



1 - Escravos chinas
" (...) Macau tinha-se tornado, aliás, uma placa giratória no comércio de escravos (sempre com predominância do sexo feminino) e aí eram comprados e vendidos não apenas jovens chineses mas também outros que eram trazidos do Japão e de Timor.
Lavados à Índia, entre outros destinos, foi a partir de Goa a bordo das naus da carreira da Índia que alguns desses escravos foram embarcados para Portugal no séc. XVI. Mas continuaram a chegar durante os sécs. XVII e XVIII, apesar das proibições régias que procuravam interditar o transporte de escravos nesses navios. Os escravizados eram em geral trazidos por militares e altos funcionários régios que, uma vez em Lisboa, ou os mantinham na sua companhia ou os ofertavam, como prenda de prestígio, a amigos e superiores, ou simplesmente os vendiam a quem desse mais. (...)
Em 1730, Francisco de Melo e Castro, que vinha de Goa como capitão-mor da nau da Índia (nessa altura já era só uma nau que fazia a rota do Cabo) trazia consigo três jovens chineses. Morreu, no entanto, pouco tempo após a sua chegada a Lisboa, e arrolados os seus bens os jovens foram vendidos como escravos em leilão público, tendo tido destinos muito diferentes.
Agostinha, provavelmente a mais velha dos três, protestou, enquanto pôde, que era uma pessoa livre (de facto o tráfico de chineses estava formalmente proibido). (...)
O moço china Pedro foi comprado pelo padre Manuel Monteiro, do Rio de Janeiro, que estava de passagem por Lisboa. (...)
Finalmente a Domingas, vendida no mesmo leilão, perdeu-se-lhe o rasto, dizendo alguns que teria sido levada para o Alentejo.
Sem falar na atração sexual que as jovens chinesas despertavam, pelo misto de proximidade e exotismo, os escravos chinas eram considerados leais, inteligentes e trabalhadores. (...)
A maioria dos escravos chineses concentrava-se em Lisboa. Mas havia também escravos chineses noutros pontos do território, sobretudo no Alentejo. Em 1562, D. Maria Vilhena, rica proprietária de Évora, deixava no seu testamento, entre outros escravos de diversas origens, António, china azemel, uma espécie de almocreve.
Em 1771, Manuel Saldanha de Albuquerque, 1º conde de Ega, que tinha sido vice-rei da Índia, mantinha ao seu serviço, no seu palácio da Ajuda em Lisboa, vários escravos, entre os quais um escravo china.

sábado, 17 de junho de 2017

Budas contentinhos



80% da literatura é linguagem, há-de ser verdade, se foi um mestre que o disse. Terei lido este romance no Natal de 2010, e já não recordava por que gostei tanto dele. Fui revê-lo.
A tradução é de luxo. O discurso narrativo, oralizante, é um calão adolescente que às vezes roça o vernáculo, sem nunca fazer disso uma bandeira. Distingue-se claramente o que é real do que é artificialidade narrativa.
É isto a América criativa e inovadora, eficaz, competitiva. A dar lições aos mestres da Europa. Então aos bonzos indígenas que cá temos... esses budas contentinhos... deus nos livre!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Perdas e ganhos

Lê-se Camilo, hoje, por função ou por castigo. Por isso não se entendem os critérios que levaram estes eruditos a colocar o Amor de Perdição no Plano Nacional de Leitura.
Se eles soubessem o que andam a fazer, e aquilo em que se gasta a canalhada, reformavam-se e toda a gente ganhava!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Mafia

Esta casa já foi da família do coronel Prata Dias, um barbaças antigo que apoiou o Gomes da Costa no 28 de Maio do século passado. Quando ele veio lá de Braga pôr Lisboa em sentido e a República na ordem. O coronel foi o primeiro responsável pela censura instaurada por tal tropa.
Agora é apenas a vivenda Dias. E deixou de ser propriedade inalianável do lar de São Sebastião, essa coisa que ninguém chegou a ver depois que apareceu dinamitada a casa branca. A placa que o dizia desapareceu entretanto.
O físico e o mental estão em consonância numa personalidade. E o Dias parece ter saído dum filme de mafiosos da Sicília. Baixote, metido no sobretudo, não enganava ninguém.
Criou-se aí, entre fomes, e foi parar a França no seu tempo. Mas não se gastou nas obras de Champigny. Fazia-se de correio que trazia para Portugal o salário que os colegas queriam mandar às mulheres. Muitas vezes era roubado no caminho, ao que fazia constar, o dinheiro é que nem sempre chegava às destinatárias.
Um dia regressou a Portugal e trouxe maquinarias. Vieram aí uns franceses à procura delas, mas não encontraram nada, que tudo estava em porto seguro. O mafioso instalou-se à beira-mar, montou negócios de extracção de areias, encalacrou a Volvo com maquinarias e calotes. E começou a comprar tudo o que aparecia à venda. Foi o caso da vivenda da família Prata Dias.
Quem então o visitava muito, a altas horas, era um escroque de Aguiar da Beira, que era ministro do biltre do Cavaco a quem fazia os discursos. O escroque vinha aí encharcar-se em conhaques raros, enquanto planeava investimentos ruinosos, ia à caça com o Bourbon de Espanha para os sertões e arruinava o BPN.
Quando se meteu na heroína da Colômbia, o mafioso mandava mulas a Paris, de comboio, a entregar encomendas. E quando a Judiciária meteu o nariz nisso, foi passar um tempo em África, a deixar amainar os ventos.
Agora ficou velho e achacado, e o futuro é incerto.

É galo!

As lombas pelos caminhos e um semáforo na aldeia são a marca mais moderna dos autarcas de agora. Terras onde alma-viva não existe voltam de repente a abrilhantar o mapa.
Já no concelho da Guarda, que fica para lá dos montes e muito longe da civilização, elas alastraram às estradas principais. Ainda por cima sem adequada sinalização.
Vai um condutor no seu vagar, e de repente cai-lhe em cima o tejadilho, planta-lhe um hematoma na cabeça. Um galo, também se diz!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Camões e os portugueses

No passado 10 de Junho assisti na Guarda, na biblioteca Eduardo Lourenço, a uma leitura de um actor que veio de Lisboa para nos ler o discurso que o Jorge de Sena aqui fez, quando foi convidado pelo Eanes para cá vir, nas comemorações do 10 de Junho de então.
Ao chegar à biblioteca, mesmo não sendo cardeal, tive direito a passadeira vermelha estendida no passeio. É que o município da Guarda, essa corja de arrivistas, gasta dinheiro em panasquices mas é-lhe indiferente que o edifício da BMEL meta água. Para reparar isso não há dinheiro!
O discurso que o Jorge de Sena então fez foi lido pelo actor. E eu, que do Sena conheço pouco sem me interessar o resto, fiquei estupefacto com o discurso dele. Tão sóbrio quanto exacto e contundente. Não admira que o seu conteúdo tenha sido deliberadamente esquecido por toda a comunicação social da altura, fora do termo da cidade.
Nunca ouvi nenhum catedrático falar de Camões e dos portugueses conforme Sena o fez. Ainda bem que finalmente o ouvi. Se conseguir obter uma cópia do discurso, não deixará de vir parar aqui.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Refinado

O ariano Temer, ainda presidente do Brasil, não recebeu o Marcelo nem o Costa, na recente visita ao Rio de Janeiro, no dia 10 de Junho.
Com isso ele procede como um cafre vulgar, repudiando o pai e a história. E assume-se como o filho da puta refinado, que nunca deixou de ser.

domingo, 11 de junho de 2017

Felizmente!

Digo-o sem dramatismos: a Guarda do rei Sancho Povoador mete pena.
Caída nas unhas duns paraquedistas oportunistas e outros istas, serve apenas para eles construírem currículo.
O Verão está aí, com os visitantes que traz. Mas o município, repetindo o gesto, entrega o miolo da cidade (ruas, praças e jardins) a uns pseudo-artistas que reeditam o simpósio internacional de arte contemporânea. Enquanto empestam o ambiente com obras, passadeiras coloridas pelas ruas e poeiradas imundas.
Vazias e incomodadas, as lojinhas fecham. Felizmente a Sé e o Sancho Povoador lá continuam. E o cu da Guarda também!

sábado, 10 de junho de 2017

Dia da pátria

Nesse tempo, numa encarnação antiga, o 10 de Junho era a festa da pátria, que desfilava no Terreiro do Paço.
Na tribuna havia uns almirantes de peito medalhado, e duma janela onde o fariseu-mor cantava o Angola é Nossa, ouvia-se uma voz de falsete que mandava avançar para África rapidamente e em força. O resto não era nada connosco.
Havia quem desmaiasse na formatura antes do desfile, se da emoção patriótica ou da inclemência do sol nunca o saberemos. O pior papel cabia às viúvas e aos órfãos juvenis, pobres deles, de peitos picados pelos alfinetes das cruzes de guerra póstumas ao peito.
E ainda faltava tanto para o 25 de Abril!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Leis da Natureza

Li-o aí pelo Natal de 1993, e já não me lembrava por que gostei tanto dele. Fui revê-lo. E espanta-me que o seu autor, apoiante directo e jovem de Salvador Allende, tenha revelado esta costela narrativa, depois do tempo que passou nas mãos dos torcionários.
O universo de toda a acção é a floresta amazónica. E é através das aventuras do velho Antonio José Bolívar Proaño que o leitor se embrenha nesse mundo: os índios xuares, os colonos derrotados pela floresta, os garimpeiros do ouro nas fronteiras do Perú, a onça, as formigas legionárias, os pequenos javalis saínos, os macacos micos, a anaconda, e os fotógrafos americanos que a floresta dizima.
A narrativa acaba com o encontro final do velho Proaño e da onça solitária, a quem um branco tinha matado os filhos.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Feriados religiosos

A agenda não diz nada, que é pagã. Mas dizem que vem aí a festa do corpo de deus, e que é feriado.
Ninguém explica o que uma tal coisa seja, embora seja sabida a sua longa tradição religiosa. No Memorial do Convento, José Saramago dá-nos uma ideia.

"(...) Passa a procissão entre filas de povo, e quando passa rojam-se pelo chão homens e mulheres, arranham a cara uns, arrepelam-se outros, dão-se bofetões todos, e o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz para este lado e para aquele, enquanto um acólito balouça o incensório. Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.
Nas janelas só há mulheres, é esse o costume. Os penitentes vão de grilhões enrolados às pernas, ou suportam sobre os ombros grossas barras de ferro, passando por cima delas os braços como crucificados, que desferem para as costas chicotadas com as disciplinas, feitas de cordões em cujas pontas estão presas bolas de cera dura, armadas de cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibem verdadeiro sangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tanto pelos motivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos se não soubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo.
Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo amador sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de- rosa, ou verde, ou amarela, lilás se não vermelha ou cor do céu, é aquele o seu homem e servidor que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não podendo falar, berra como touro em cio, mas se às mais mulheres da rua, e a ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergastada foi em jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do corpo feminil grande assuada, e possessas, frenéticas, as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o estralejar dos rabos do chicote, que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. Está o penitente diante da janela da amada, em baixo na rua, e ela olha-o dominante, talvez acompanhada de mãe ou prima, ou aia, ou tolerante avó, ou tia azedíssima, mas todas sabendo muito bem o que se passa, por experiência fresca ou recordação remota, que Deus não tem nada que ver com isto, é tudo coisa de fornicação, e provavelmente o espasmo de cima veio em tempo de responder ao espasmo de baixo, o homem de joelhos no chão, desferindo golpes furiosos, já frenéticos, enquanto geme de dor, a mulher arregalando os olhos para o macho derrubado, abrindo a boca para lhe beber o sangue e o resto. Parou a procissão o tempo bastante para se concluir o acto, o bispo abençoou e santificou, a mulher sente aquele delicioso relaxamento dos membros, o homem passou adiante, vai pensando, aliviadamente, que daqui para a frente não precisará vergastar-se com tanta força, outros o façam para gáudio doutras."
S isto é a procissão do corpo de deus, para quê mais palavreado?

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo.
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Isto era o que dizia o mestre Caeiro, mas a vantagem é minha. Porque vejo a mesma coisa enquanto, sossegado, me sento à mesa na dona Rosa:
Há um casal que fala francês (ela), e lê cuidadosamente uma versão do Bedecker, enquanto ele bebe um belo vinho português a bon marche;
Há duas testemunhas de Jeová (dois homens), um dos quais bebe vinho às escondidas;
Há um casal de sefarditas que vieram de longe, reconhecer as origens distantes. Ele tem a idade de quem foi à guerra dos seis dias e desfez os palestinos; ela é nova, com ar de quem se chateia com a vida do colonato...

terça-feira, 6 de junho de 2017

Bambochatas


Num país em que muito pouca gente se leva a sério, (e menos ainda o tempo do leitor)todas as bambochatas são poucas. Como se as indígenas não chegassem, importam-se lá de fora. É a pica de um sabor cosmopolita.
É o caso desta bambochata que chega de França: uma grande peça de prestidigitação literária, numa sociedade do simulacro.
Não te cuides, não, leitor!

"(...) A seguir à aula de Francês, o professor pede-lhe que fique. Depois de os outros alunos saírem, ele pergunta-lhe se está tudo bem. Se tem problemas em casa. Não quer ser indiscreto, quer apenas saber se está tudo bem.
O professor está diante dela, encara-a. Procura um sinal. Ela baixa os olhos.
Ele diz-lhe que se ela não conseguir falar, talvez possa escrever. Para ela mesma. Ela gosta de escrever, não é? Ela não diz nada. Ela pensa muito alto naquelas palavras que não quer dizer, ela pensa o mais alto possível para que ele as oiça, serei tão feia, tão ridícula, tão diferente, tão curvada, tão mal penteada, tão má? Tenho medo de enlouquecer. Tenho medo e não sei se esse medo existe, se tem um nome. FIM."
Phoska-se!!!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Luz ao fundo do túnel

" (...) e lembro-me de Alcácer-Quibir e do rei Sebastião, do terramoto desta cidade de Lisboa, de D. Pedro V, o Hamlet português, e do seu mestre Herculano, cujo soberbo túmulo contemplei esta mesma tarde nos Jerónimos, e por último volta a pairar sobre mim o enigmático e triste sorriso de Eça de Queirós.
Entretanto vão e vêm as pessoas desta cidade cosmopolita; parecem contentes, riem, gesticulam, acodem aos seus negócios ou às suas distrações. E contudo Portugal, esta mesma terra, é um povo triste. (...)
Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Querem talvez viver, sim, mas para quê? Vale mais não viver.
Suicidou-se Antero de Quental, (...) suicidou-se também Soares dos Reis, o grande escultor português da estátua do Desterrado. Suicidou-se Camilo Castelo Branco, o escritor mais popular aqui, o dos terríveis sarcasmos, o que viveu e lutou sozinho, mantendo erguida contra todos a bandeira do ultra-romantismo. Suicidou-se também Mouzinho de Albuquerque, em quem muitos esperavam ver ressurgir algum dos heróis antigos da epopeia camoniana. Suicidou-se Trindade Coelho, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, e mesmo o caso de Buíça, o regicida, não foi em rigor um suicídio? (...)
Dentro duns dias, a 1 de Dezembro, vão celebrar a restauração da sua nacionalidade, de terem sacudido a soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte voltarão a falar de bancarrota e de intervenção estrangeira. Pobre Portugal". (Miguel de Unamuno)

"A verdade é que na sociedade portuguesa a noção da sua personalidade colectiva, o sentimento de vida nacional, o sentimento de pátria, se quiserem, não existe sobrepondo-se a todos os outros sentimentos de interesse individual. Existe apenas o sentimento e o espírito intolerante da seita, existe apenas o interesse da quadrilha, mascarados por um messianismo avariado, de ínfima qualidade.
Um dos aspectos mais típicos da vida portuguesa e um dos seus males mais funestos é a sua prodigiosa fertilidade messiânica. A cada passo surge um homem que se sente com envergadura e ventre de messias. Por cada messias que aborta, pululam inesgotavelmente centos de messias, toda uma falperra de messias. E enquanto a nação rola à aventura, de messianismo em messianismo, a sociedade portuguesa, lentamente, infatigavelmente, vai-se dissolvendo e desagregando. (...)
Quatro quintas partes do povo português não sabem ler nem escrever, quer dizer: sabem falar incompletissimamente. A palavra escrita é imprescindível para a vida social moderna. Actualmente ela é o instrumento usual mais importante da sociabilidade. (...)". (Manuel Laranjeira)

O espírito construtivo português dissolveu-se, desde o tempo dos reis povoadores, com a gesta gloriosa, uma obra do maior filho da puta que a nossa história alberga: o infante do chapéu grande, que destruiu a ínclita geração pelas utopias do mar, usando os tesouros dos Templários enquanto mestre da Ordem de Cristo.
Destruiu os irmãos todos, um a um: Duarte, esse melancólico, que nunca ultrapassou a cobardia de ter abandonado o irmão nas masmorras de Fez; Pedro, esse príncipe das sete partidas que trouxe do seu grand-tour pela Europa um espírito já não medieval mas renascentista, e acabou atraído e liquidado em Alfarrobeira, por uns fidalgotes parasitas; e Fernando, a quem chamaram santo para o calar.
Desde a Índia, dissolvida a alma e envenenado o povo, a pátria nunca mais se encontrou.
Talvez se comece a ver, hoje, ao longe, uma luzinha na escuridão do túnel!

domingo, 4 de junho de 2017

Delicadezas

Quando chega a sua hora, ainda de noite, entra no quarto e salta-me para a cama.
O seu primeiro gesto é meter uma unhita no braço.
Se eu não acordo, arrisca-me no pulso o seu dentito.
Aí acordo e vou abrir-lhe os dispensadores da comida.
Mas onde é que este melro aprendeu as boas maneiras, em vez de me saltar à jugular?

sábado, 3 de junho de 2017

O da Joana!

Ainda hoje, quando chega o Verão, a história se repete: a fábrica dos queijos, com o seu lago de efluentes a céu aberto, empesta o ambiente, mata as faunas do Távora e impede os camponeses de usar nas hortas as águas da corrente.
E no entanto Trancoso, através do Tribunal Europeu do Ambiente, já anunciou nos jornais a instalação dum projecto-piloto de cidade biológica. Mas isso foi há muitos anos, quando isto era o da Joana!
"(...) Aqui há uns anos, numa feliz conjugação astral, veio à fala o presidente da câmara com dois cidadãos do mundo. Eram eles um brasileiro de lusas raízes, arquitecto e compositor, entre mais dotes, e um Barbas de méritos prováveis de quem nada se apurou. Logo os três se deram conta de não existir no país uma entidade que congregasse os labores de artistas, filósofos, pensadores e cientistas. E consideraram Trancoso o lugar ideal para uma contínua reflexão sobre os males do planeta, através da arte, da ciência e das novas tecnologias. Os três criaram a FACTO logo ali, como quem diz a Fundação para as Artes, Ciências e Tecnologias - Observatório.
Os objectivos da FACTO eram a promoção de projectos de carácter transdisciplinar, transcultural, transnacional e intermediático. Seja lá isso o que for, em boa hora lhe deram nascimento, que assim veio a ter lugar o primeiro encontro internacional de arte e ciência, a que chamaram o Espírito da Descoberta. Um tal espírito visava promover um momento de informação e debate, gerando uma visão mais ampla, diversificada e profunda de algumas das mais fascinantes descobertas da ciência e das propostas da arte, questionando a sua natureza, os seus fins e o universo humano nelas envolvido. (...)
O Espírito da Descoberta cedeu passo às Origens do Futuro, muito embora pareça ao viajante, em linguagem mais terrena, que à tal fome de aventuras visionárias se ajuntou aqui a mais singela vontade de comer. (...)
A plateia, porém, não chega a duas dúzias de presenças exóticas, as mais delas personagens da própria encenação. Mistura-se nas conversas o linguajar brasileiro com um inglês de várias latitudes, alguém atarefado nos serviços de apoio fala um português fluente. Mas a tradução simultânea permite ultrapassar a babélica confusão. (...)
Isto fica a pensar o viajante, que ainda não imagina a dimensão verdadeira da sandice. Porque os dois encontros anuais da FACTO, para o ano hão-de ser quatro. Dado que anda o planeta mergulhado em ondas de simetria e assimetria, nada como devotar-se a câmara de Trancoso a discutir as magnas questões da Ruptura e Tradição, mecenando conclaves de sumidades internacionais em educação, sistemas cognitivos, design, teoria e história da arte, matemática, arquitectura, música, filosofia da ciência, neurologia e dança.
E não vá tanta coisa parecer pouco, há-de o Segundo Encontro Internacional de Arte e Ciência esquartejar o tema das Sociedades de Alto e Baixo Poder. E por haver neste lugar remoto largas famas e melhores tradições visionárias e esotéricas, aqui terá lugar um Encontro Internacional de Arte e Alquimia, onde será chamada a capítulo a Alchimiarte, sociedade de ilustres que em Locarno se ocupam das relações entre uma coisa e outra, desde há séculos.
Hão-de fazer do Bandarra um cabalista, há-de justificar-se-lhe um museu. E finalmente - pois que em toda a acção do Tribunal Europeu do Ambiente está francamente presente a ideia da liberdade, resgatada no seu significado clássico, de onde emana uma dinâmica Paideia, em que cada pessoa é responsável pelo desígnio dos seus próprios limites - hão-de voltar as Origens do Futuro, para pôr em pratos limpos a questão. (...)".

[PORTUGALMENTE - Peregrinação da Lapa a Riba-Côa, Ed. Âncora, Lisboa,]

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Primatas

O distrito de Aveiro tem em marcha um programa voltado para a educação dos meninos do pré-escolar no uso da bicicleta. Só para ver se põem alguma ordem no mundo.
Justamente a bicicleta foi o meio de transporte usado por dois cabrõezitos de Moncorvo, que foram às gravuras dos Piscos, no baixo-Côa, danificar irreparavelmente uma figura humana, picotada numa fraga pelo menos há 10 mil anos.
Pau no lombo e uma cela na cadeia é o que esta gente precisa há muito tempo!

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Crónica de uma morte anunciada

 
Sempre foi a minha novela preferida do García Márquez. Num tempo diegético de 24 horas, o autor tem artes de meter lá dentro uma filosofia, um modo de ver o mundo e os valores duma vida.

"No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros.
"Sonhava sempre com árvores", disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando 27 anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata. "Na semana anterior tinha sonhado que ia sozinho num avião de papel de estanho que voava sem tropeçar por entre as amendoeiras", disse-me. Tinha uma reputação bastante bem ganha de intérprete certeira dos sonhos alheios, desde que lhos contassem em jejum, mas não descobrira qualquer augúrio aziago nesses dois sonhos do filho, nem nos restantes sonhos com árvores que ele lhe contara nas manhãs que precederam a sua morte.
Santiago Nasar também não reconheceu o presságio. Dormira pouco e mal, sem despir a roupa, e acordou com dores de cabeça e com um sedimento de estribo de cobre na boca, e interpretou-os como estragos naturais da farra de casamento, que se tinha prolongado até depois da meia-noite. E mais ainda: as muitas pessoas com quem se encontrou desde que saiu de casa às 6.05 até ser despedaçado como um porco uma hora depois, recordavam-no um bocado sonolento mas de bom humor, e a todas comentou de modo fortuito que fazia um dia lindo. (...)
Angela Vicario, a bela rapariga que se tinha casado no dia enterior, fora devolvida a casa dos pais porque o marido tinha descoberto que ela não era virgem. (...)
Eram gémeos: Pedro e Pablo Vicario. Tinham vinte e quatro anos, e pareciam-se tanto que custava trabalho distinguir um do outro. (...) Embora não tivessem parado de beber desde a véspera da festa, já não estavam bêbados ao fim de três dias, parecendo antes sonâmbulos tirados do sono. Tinham adormecido com as primeiras auras do amanhecer, depois de quase três horas de espera no estabelecimento de Clotilde Armenta, e aquele era o seu primeiro sono desde sexta-feira. (...) Então agarraram ambos no rolo de jornais, e Pedro Vicario começou a levantar-se.
- Pelo amor de Deus - murmurou Clotilde Armenta.  - Deixem isso para depois, mesmo que seja só por respeito ao senhor bispo." (...)
Pedro Vicario, o mais resoluto dos irmãos, suspendeu-a pela cintura e sentou-a à mesa da sala de jantar.
- Vá, menina - disse-lhe tremendo de raiva -: diz-nos lá quem foi.
Ela demorou tão só o tempo necessário para dizer o nome. Procurou-o nas trevas, encontrou-o à primeira vista entre tantos e tantos nomes confundíveis deste mundo, e deixou-o espetado na parede com o seu dardo certeiro, como a uma borboleta sem vontade própria cuja sentença estava escrita desde sempre.
- Santiago Nasar - disse. (...)".
[Edições O Jornal, Lisboa, 1983]