sábado, 31 de dezembro de 2016

Este assombro só pode chegar à terra

vindo dum céu comum, universal!

Guardiões

Moram p'ra lá dos Hermínios, a serra-mãe, até à fronteira leonesa e castelhana. As aldeias em que habitam estão desertas, e os velhos sobreviventes dependem da gentileza das meninas da Assistência. 
Não é a primeira vez que isto acontece na história dos tempos, os idiotas do pugresso é que o não sabem. São eles os guardiões duma fronteira antiga, perdida no nevoeiro. Tão velha que nem os europeus hoje a conhecem. 
Entre sinais antigos e símbolos modernos, os filhos deles emigraram para a Europa reformada, acreditando que está nela a salvação. Não é verdade!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Al Berto

Parece que Lucrécio dizia...

O olhar saboreia o morno vinho
envolve teus cabelos, bebe no teu rosto, adormece
dormente onde tu e as aves vêm pernoitar
aqui sentado, neste restaurante de praia
mosquitos, árvores reclinadas, talvez palmeiras envelhecidas como eu
a paisagem é um plano a preto e branco de filme neo-realista
pregos ferrugentos, madeiras soltas, a boca rente às areias
resíduos calcários de passos pelas ervas altas
águias, soberbas e lentas

(o puto move-se, apertado nas calças finas, como se tivesse o corpo e os movimentos forrados por uma película em matéria finíssima, transparente, deixando contudo aperceber as modulações do seu corpo-rebuçado)

bebo, apetece-me gritar no horizonte do meu filme mudo
embriagado e desfeito, olho
aves irradiando luz, cordas enceradas pela transpiração das mãos
as vozes dos homens numa rebentação distante da ressaca
as vozes dos homens puxando os barcos: só o mar das outras terras é que é belo
em grande plano
ocupando-me por completo o écran desfocado dos olhos
o algodão pobre da tua camisa, as unhas roídas
os dedos duros engordurados, o buço macio
despontando num desafio que eu aceito

espero que a noite venha com seus ínfimos sóis, e solte transparentes borboletas cobertas de mel
parece que só assim, dizia Lucrécio
tua imagem permanecerá perto de mim, e a doçura do teu nome insinuar-se-á
gota a gota, junto ao coração

[O Medo, Ed. Assírio e Alvim, Lisboa, Dez 97]

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Gorda


«(...) Logo senti o meu coração cheio de amor pelo passarinho que me era concedido e aceitei. Comecei a gerar um pardalinho minúsculo e frágil na aurícula direita do meu coração. Andei assim os meses necessários com o coração batendo devagar para não assustar o passarinho. Nunca dormia voltada para o lado esquerdo para não apertar o menino. Nos princípios de Março, mais ou menos por essa altura, senti um aperto cardíaco. Uma dor muito aguda. Encolhi-me. Não conseguia respirar, que aflição! Abri a boca, abri, abri, agoniada, mal disposta, que confusão de sensações, e o pardalinho veio-me à garganta, envolto em sangue. 
Puxei-o para fora com o polegar e o indicador, e ali estava o mais belo filho deste mundo, perfeitinho como qualquer mãe deseja. O biquinho. As patinhas. As asinhas húmidas. Os olhinhos fechados. Sacudindo-se cheio duma vida que desponta. Que felicidade, o meu filho! Embrulhei o menino num paninho de algodão, limpei-o com muito cuidado e aconcheguei-o numa caixinha de sapatos forrada a trapos, muito quentinha. O menino foi crescendo com o meu amor e atenção. Não lhe atribuí nome, pois sabia que, sendo meu, não me pertencia, mas ao mundo. Chamava-lhe só Passarinho, o meu passarinho, o meu amor que não podia prender. (...)
Fechei a janela, voltei para dentro, e pensei que Deus deveria estar contente com o meu serviço. Oferecera-me o passarinho e retirara-se, deixando-me entregue à minhas mãos aprendizes.
Na sequência da aparição de Mark Ruffalo engravidei efectivamente nos anos que se seguiram, por duas vezes. Estive quase sempre grávida, real ou mentalmente, excluindo os dias passados na maca, na maternidade do hospital, à espera da raspagem dos abortos espontâneos, cuja concretização ia passando de turno para turno. (...)»

A despautérios destes, a que chamam imaginação criadora, deve chamar-se roubo ao tempo exíguo do leitor. Servem para quê? Para o impedir de dar tempo e atenção ao que merecia tê-los? Antes o Caderno de Memórias Coloniais!

terça-feira, 27 de dezembro de 2016