sábado, 19 de março de 2016

Crepúsculo

Alto-cúmulos esparsos. O Saturno caladinho. Um Crescente a subir ao plenilúnio. Andorinhas no alpendre. Papoilas de asas abertas, vermelhonas. Maias brancas a tapetar a encosta...
O que é que tu querias mais? Um poeta novo?! Melancólico?! Talvez... 


Poema
O primeiro verso [este] é-nos oferecido.
Valerá mesmo a pena procurar sempre
o segundo [este]?

Pré-língua
Quando o caminho era
carreiro
seguia entre silvas,
paralelo à ribeira, 
antes da curva.
Depois, como uma falésia sem mar.
Lá ao fundo,
o pequeno cemitério
rodeado de muros
por todos os lados.

Quando o cordel era 
nagalho
pendia na loja fria
junto à parede bruta de pedra
anos a fio
à espera de ser útil.

Quando os maus eram 
velhacos
escondiam-se, bêbados,
nas sombras.

Ex-lugar
Da glória antes, só a fachada
e janelas sem janelas.
No corpo oco, a penumbra a céu aberto.
Uma lareira que não recorda já o fogo.
Ninhos de pássaros que nada sabem
ou querem saber.

Fim
E às dez horas da manhã,
no café do bairro,
dois velhos dizem "até amanhã",
como se nada fosse.
Fico subitamente triste, 
como num dia que chegou ao fim
antes de ter começado.

Veneza

(Publicado pela primeira vez em Paris, em 1881, por Salomão Sáraga, amigo de Antero)
[Rialto]
Seguindo um figurino então em voga, Antero de Quental também viajou entre reflexões"à roda do seu quarto". O proveito é hoje nosso. Já ele, acabou suicidado.  Sem surpresa.
- Da Introdução: «(...) À sombra delas [as igrejas nacionais], muito na sombra é verdade, mas tolerados em todo o caso, viviam Judeus e Mouros, raças inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares tanto deveram, e cuja expulsão tem quase as proporções duma calamidade nacional.(...)»
- Da Viagem: «Veneza, apesar de decadente, é ainda bela - talvez a mais bela entre todas as cidades da Europa meridional. E, seguramente, entre todas elas, a mais pitoresca, a mais original e a mais plácida, daquela placidez nobre a que os italianos chamam soave austero. Esta placidez, este sossego é um dos maiores encantos da antiga capital dos Doges. O viajante, cansado e aturdido pelo tumulto vulgar das grandes cidades modernas, experimenta, ao entrar em Veneza, sensação igual à do caminheiro, que, depois dum dia de sol e fadiga, se espreguiça indolentemente num banho tépido e perfumado. Veneza, em despeito das transformações inevitáveis por que tem passado, é ainda e será sempre uma cidade semi-oriental, por conseguinte cidade de repouso suave e de indolente cismar.
Apesar da sua posição marítima, nunca mais será um centro, um empório comercial: por causa da sua excepcional edificação lacustre, jamais se transformará numa cidade industrial. Ficará eternamente, com os seus canais, as suas cúpulas bizantinas, as suas gôndolas e os seus bandos de pombas mansas e familiares, como uma relíquia encantadora de um mundo extinto e a terra preferida pelos artistas, pelos poetas, pelos cismadores amigos de um silêncio cheio de imagens e pensamentos. Esta cidade tem uma fisionomia única: latina e bizantina, ao mesmo tempo ocidental e oriental, cristã e maometana, juntaram-se nela e fundiram-se numa harmonia graciosíssima os génios mais diversos.Mole e voluptuoso, como o Oriente, vivo e caprichoso, como Ocidente, o génio de Veneza participa dos mais opostos, mas é só semelhante a si mesmo. É isto que a torna única. (...)
Durante toda a Idade-Média, Veneza, constituída o centro, pode bem dizer-se, do comércio do mundo, negociava directamente com Constantinopla, o Egipto, a Síria, as Ilhas do Mediterrâneo, os portos do Mar Negro, a Ásia Menor e toda a Europa Ocidental; indirectamente, por meio das caravanas dos Árabes e Siríacos, dum lado, do outro lado por meio das grandes feiras do Reno, onde comcorriam os negociantes das cidades Hanseáticas, com a Pérsia, a Mongólia, a Índia, a Arábia, os povos do Báltico, a Polónia e a Rússia. (...)
A instituição dos Doges não altera essa primitiva liberdade. O Doge é magistrado e não senhor. Se se mostra tirano, expulsam-no, tonsuram-no ou executam-no. (...)»
[Impresso na Europres em Setembro de 2015]

Maria Afonso, a poetisa nova dos Fóios além à serra da Malcata, diz assim:

«as nossas casas têm bonitos entardeceres - dizes

quando eu abro a janela e tu corres para o terraço
é como se nos olhássemos nos olhos

há uma leveza inesperada que nasce 
de palavras soltas - canela, morno ou meiguice

e as cores são as mãos duma alquimia
murmurante»
[(eu diria que nevava), Maria Afonso, Ed. CanalSonora, Tavira, 2016]

O tempo que era dinheiro!

Vamos lá ver! Não se pode dizer que seja perda de tempo assistir a uma palestra sobre O Jornalismo no Século XXI. O problema vem depois.
O palestrante vem duma universidade, tem mestrados pós-Bolonha, etcetera e tal. E começa a declarar que "a imprensa escrita terminará em 2028". Foi um americano que o disse, logo portanto é verdade.
Traz o pensamento organizado, não improvisa nem hesita. Além do mais tem uma boa dicção, factor não despiciendo. Ilustra o discurso oral com diagramas que projecta num ecrã, cita autores americanos, tem um guião que faz lembrar uma lição à turma. É terminante e é definitivo nas afirmações que faz, que assume como tiradas definitivas. Resumindo: muito embora não pareça, em matéria tão friável, padece duma arrogância muito em voga: aquela dos néscios que só carregam pela boca.
Perante um auditório que é pouco dado à polémica, explica-nos o conceito do "jornalismo do cidadão", (a informação construída de comentários de leitores), mas conclui que todas as experiências conhecidas lá por fora redundaram em fracassos.
Amalgama alegremente informação com conhecimento, sem distinguir os conceitos. E acredita seriamente que "um milhão sabe mais que um", não se estará mesmo a ver?.
Lamenta que o jornalismo destrate a nossa língua, porque a conhece tão mal. E escamoteia que uma coisa arrasta a outra.
A globalização não se discute, nem os seus processos e objectivos. E as novas tecnologias deixarão para trás a imprensa escrita, porque a digitalidade é nova e impiedosa. 
A exploração de recursos, a sobre-população, a exaustão ambiental, a escassez de águas e solos, a entropia da complexidade crescente, a sobrecarga de redes, isso não lhe tira o sono.
Mas donde é que este homem veio e onde vive?! Dum anfiteatro universitário, onde multiplica a ignorância, se não a iliteracia, num crescimento que é exponencial?
É então que damos por mal-empregado o tempo, que é dinheiro. Porque os papagaios todos da escola de Chicago bem fariam em tomar consciência disto, e integrá-lo.

G. F. Händel

Concerto nº4 para órgão e orquestra.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Radicalismos, exageros, tresleituras


Por sorte minha dei comigo incluído neste programa da Biblioteca, de encontros com alunos das escolas EBS e Secundárias da cidade. O pretexto é a obra do autor, mas a ementa é variável: a língua e a literatura, e a natureza do texto, e o papel da arte na nossa vida, e a importância do leitor, e a diferença entre a arte literária e os pepinos do mercado, mais o passatempo e as variadas funções que tem a literatura, mais a grande solidão do ecrã do Facebook. 
Foi no seguimento de um desses encontros que surgiu no jornalinho da Escola este texto duma professora. Fico contente! Porque ler e escrever é sempre escrever e ler. Tudo o resto são cantigas.
«Foi na biblioteca. 
E em que outro lugar nos poderíamos encontrar com a leitura mais uma vez?
Em que outro lugar poderíamos entender a mensagem de mudança que um livro pode trazer?
J C tentou trazer essa mensagem à nossa escola. O escritor é um pouco radical. Notou-se isso mesmo logo pela sua apresentação. "Eu podia falar da grande satisfação que sinto por estar aqui, mas isso não interessa a ninguém. Emoções, estados de alma... Não é isso que move o mundo. O que move o mundo são as coisas objectivas, palpáveis." (...)
Segundo o escritor, existem períodos de racionalidade e períodos de irracionalismo. Nós encontramo-nos numa época de irracionalismo.
Porquê?
No meio de todos os seus exageros e radicalismos, acho que entendi a sua mensagem. O autor entende a arte como algo utilitário, algo que deve ter uma função. Deve ser algo que mova o mundo. (...)
Eu não penso que seja algo assim tão linear. Todas as épocas têm grandes pensadores. Todos nós temos um grande pensador dentro de nós. Ser homem é isso mesmo: pensar. Mas por vezes não damos voz a esses pensamentos. Somos invadidos pelo silêncio. (...)»

Ora de radicalismos, esta professora apenas sabe da missa inteira a metade. Talvez não possa saber, e daí as tresleituras. É professora duma escola secundária, isso lhe basta para fazer dela uma santa. Caso soubesse do resto... fazia-nos um milagre!

[ADENDA FUNDAMENTAL: Por imprecisão de informação, imputei este texto a uma professora da Escola. Mas venho a saber que se trata duma aluna. Lamentando a embrulhada, e sem razões para alterar qualquer palavra, alegro-me em duplicado. E saúdo a sua autora.]

Advertência a sonolentos confusos, a cínicos que azedaram, a onanistas vaidosos

Civilização, direitos do homem, liberdade, democracia, estado de direito, cidadania, dever dos habitantes da cidade, só existem em conjunto, ao mesmo tempo.
Berrar, barafustar, protestar, não aceitar, insultar e mesmo disparar, é obrigação moral e ética na sua preservação.
Fora deste quadro só há paleio de cona: um sono tranquilo antes, e no fim dele um duro ranger de dentes.