Paul Krugman é prémio Nobel da Economia. Isso não lhe garante entrada no meu céu, mas por alguma razão será. Esteve em Lisboa, que já conhecera em 76. Nessa altura (deixou dito) dificilmente alguém acreditaria que Portugal era um país da Europa. A quem assentar a carapuça, limpe as beiçolas a tal guardanapo!
Lamenta a sorte dos povos da Europa, dirigidos por elites que não poupa. As quais introduziram erradamente uma moeda única, sem condições para a aplicar. Porém agora... é tarde!
Os portugueses, muito em particular, de economia frágil e friável, têm sido massacrados por servidores conhecidos da norma da austeridade. É um erro estarem no Euro. Mas sair agora dele seria uma catástrofe.
É aqui que entra o PCP e o seu comité central, advogados do abandono do Euro a todo o custo. A considerarem "sagradas" as pretensões de abolirem de imediato as portagens das SCUT, a subida do salário mínimo para 600€, e os absurdos do tratado orçamental, pondo em risco o equilíbrio das contas. Tão depressa acenam ao governo com a cenoura dum apoio, como o fustigam com um tacticismo descarado, que não fazem parte dele.
As reais catástrofes do povo pouco lhes importam, a história já o mostrou. Determinantes são os despachos duma múmia, e os dogmas de missal que ela deixou. Nisto andamos, e a burra sempre a deitar-se!
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Zink
Vi-o há dias, num encontro que teve com leitores. E justifico a sua actividade literária, mais do que a aprecio. O meu registo é outro.
Conheço bem os seus narradores, muitos deles facetos, irrequietos, sarcásticos. Mas não o via, como autor, desde há trinta e tal anos. E enquanto seu leitor, ensinou-me agora muitas coisas. Coisa que raro acontece.
Entendo a importância que ele dá ao marketing dos objectos da literatura, mas não a levo a sério. Porque há uma contradição sem solução entre o mercado dos livros e a arte literária que ande neles. O editor de sucesso é hoje um que agencie lucros, vendas, dividendos. Sob pena de levar, do patrão, com a tábua no cu! Importa-lhe o ar-do- tempo, as modas dele, mais do que vagas literariedades. Muito longe vão os tempos em que o editor era uma marca de água. Procurava a qualidade e orientava o leitor.
O Zink é um autor humilde, qualidade importante em quem escreve. Gostei de o ouvir dizer que tem dívidas, para com figuras e autores que ocuparam lugar na sua formação ao longo dos anos. Já discordo muito dele quando fala do Nobel, e do prémio do Saramago em 98.
Ora o Saramago começou aos sessenta anos a produzir a obra que lhe valeu o Nobel. Não seguiu modas, saiu da sua cabeça, que o autor construiu com leituras da biblioteca do palácio Galveias, que era onde tinha livros.
Foi essa arte de narrar surpreendente, que Saramago trouxe com o Levantado do Chão, o Memorial, o Ricardo Reis, o Evangelho, a Viagem a Portugal, a Cegueira (e poucos mais), que lhe mereceu o Nobel. Apoiada na outra novidade, que foram meia dúzia de romances de Lobo Antunes, puseram a Europa a ler-nos. A Europa desconhecia-nos como criadores das artes literárias. A partir de então passou a reconhecer-nos. Nos feiras literárias internacionais, os editores portugueses deixaram de ir como exclusivos compradores de direitos. Passaram a fazê-lo como vendedores deles.
Isso deu-nos substância cultural, significado, valor.
Zink surpreendeu-me com a quantidade de escritores que temos, merecedores do Nobel! Falou do Cardoso Pires, da Hatherly, do Cláudio, da Agustina, e de outros, além do Antunes. Todos serão escritores que nos adornam a cultura, mas não são tão coloridos como o Zink os pinta.
Na literatura portuguesa houve um Camões, que não recebeu o Nobel porque no seu tempo ainda nem suecos havia. Houve um Eça, quando já havia suecos mas não havia Nobel. Houve um Pessoa que não ganhou o prémio porque fedia a aguardente e não ligava puto a ninguém. Viveu para as artes poéticas e para a Ofelinha, uma figurita que retirou duma ode, pô-la numa mesa e deu-lhe corda. Entretinha-se a vê-la dar aos bracitos. Depois veio o Saramago, claro! Que os suecos serão loiros, mas parvos é que não são. O Zink é um espírito generoso, se não for relativista e marqueteiro.
(Continua)
Suão
- Vento a Sul, augúrios bons, notícias do solstício!
- Más novas só do BANIF, que da finança já se não espera nada.
- 55% dos empregos perdidos em Portugal resultam da deslocalização; na Holanda, são 0,1%. Mas não se pode ter tudo, sol e sul!
- Más novas só do BANIF, que da finança já se não espera nada.
- 55% dos empregos perdidos em Portugal resultam da deslocalização; na Holanda, são 0,1%. Mas não se pode ter tudo, sol e sul!
Nostalgias
Caminho pelas ruas da manhã, entre muros, e silêncios, e portais, e escadarias de pedra. Algumas já foram casas, foram vidas, foram fomes. Foram fúrias, desesperos, foram choros e paixões...
Hoje são ecos de ausências, rostos que viveram nelas. Ecos de mim, nostalgias...
Inteiros só os mundos dos poetas, dos guardadores de rebanhos, é Caeiro que o atesta. Não pensava nem sentia. Casas são casas, ruínas. E pedras são Natureza.
Hoje são ecos de ausências, rostos que viveram nelas. Ecos de mim, nostalgias...
Inteiros só os mundos dos poetas, dos guardadores de rebanhos, é Caeiro que o atesta. Não pensava nem sentia. Casas são casas, ruínas. E pedras são Natureza.
XXIV
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver.
Saber ver sem estar a pensar.
Saber ver quando se vê.
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa. (...)
[Poemas de Alberto Caeiro, Ed. Ática, Lx]
domingo, 13 de dezembro de 2015
Cordas
Silêncio puro na cerração da névoa. Saturno assentou seus arraiais.
Uma toada ruge, num minuto, algures. Se não for um avião no corredor aéreo, é este o gemer das esferas do cosmos.
Um tiro seco, além na cumeada, uma lebre acordou estremunhada.
Há outros mundos, para lá deste mistério?!
Há sempre! Ali mesmo, nas cordas desta harpa!
Uma toada ruge, num minuto, algures. Se não for um avião no corredor aéreo, é este o gemer das esferas do cosmos.
Um tiro seco, além na cumeada, uma lebre acordou estremunhada.
Há outros mundos, para lá deste mistério?!
Há sempre! Ali mesmo, nas cordas desta harpa!
Excerto
(...)
Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.
(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coifées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cómoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la...
Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
Definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima).
Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas as emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os motivos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insónia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeámos, a rosa,
A madeira indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstracta das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!
(...)
[Poesias de Álvaro de Campos, Ed. Arcádia, Lx]
Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.
(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coifées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cómoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la...
Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
Definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima).
Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas as emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os motivos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insónia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeámos, a rosa,
A madeira indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstracta das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!
(...)
[Poesias de Álvaro de Campos, Ed. Arcádia, Lx]
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