domingo, 27 de março de 2022
quinta-feira, 17 de março de 2022
Cândida
Vive além naquela casa grande, ao fundo da vereda. Mas nunca gostou de morar fora do povo, aqui no descampado. E agora ainda por cima está sozinha, desde que enviuvou.
Antigamente a vida era diferente e até os dias lhe pareciam mais pequenos, sempre numa fona entre a cozinha e a horta, o asseio da casa e as lixaradas que o vento juntava no pátio. Mas agora tornaram-se tão grandes, e tão pesados às vezes, que malos consegue suportar. Só a poder de tristeza e solidão.
Metade da casa não perece sua, fechou a porta que dá para o corredor e nem lá entra. Só para se defender. As latas das sardinheiras que rodeiam o pátio ficam semanas sem uma atenção. O que lhes vale é serem resistentes e saberem esperar. Agora tem muita pena, mas foi assim que as sécias lhe morreram.
Esta lembrança das sécias deixa-as numa aflição, fá-la sentir-se culpada da morte do marido naquela manhã. Ele em frente do espelho, a deixar de ver no queixo a espuma da barba, a queixar-se das tonturas. Ela chegou a correr, e ele dobrado por cima do lavatório, ele a estender a mão à procura da parede, ele a pedir-lhe que lhe limpe um suor frio na testa. E ela a ficar ali atarantada, a telefonar ao cunhado em vez de ligar para as ambulâncias, o cunhado a tirar o carro da garagem, a levar o irmão ao consultório do médico, e o médico sem atentar no que fazia, sem perceber o que se estava a passar, sem o despachar logo para as urgências, o médico a escrever uma carta vagarosa para os colegas do hospital, a mandá-lo seguir no carro do cunhado em vez de reclamar os bombeiros, o tempo a passar e os dois a gastá-lo na sala de espera, sem que nenhuma enfermeira reparasse nele, sem que a menina da bata lhe adivinhasse o nome e viesse chamá-lo, senhor Manuel dos Santos.
Ah, se ela tivesse aprendido que havia ambulâncias quando se deixa de ver a espuma da barba em frente do espelho, se ela tivesse escrito num papel o telefone dos bombeiros, se ela ao menos soubesse conduzir, Talvez o Manel não tivesse morrido de abandono, cercado de tanta gente, ali à entrada das urgências do hospital da cidade!
O certo é que o marido lhe morreu, porque o tempo foi demais. Tão comprido o tempo dele, nesse dia, conforme o dela é hoje, que só a poder de tristeza e solidão lhe consegue resistir.
A casa, grande demais, ambos a ganharam na Alemanha, há trinta anos atrás. Deixaram o filho em casa do avô e ala moleiro. Bem lhe custou, como mãe. E mais lhe custaria se soubesse o que sabe hoje, porque a criação do filho não foi bem o que devia. Sobre o mais, era aquela língua tão arrevesada que nunca foi capaz de lhe meter o dente. Mas os peixes na fábrica também não falavam, os peixes que ela amanhou anos a fio, a metê-los nas latas e nos frascos sem dizer uma palavra. Para já não falar do frio, que lhe incendiava os dedos, na água onde nadavam barbatanas e tripas. De vez em quando havia quem metesse uma krankada, mas ela nunca o fez. E se não fossem as férias que vinham em Agosto não se tinha aguentado. A bem dizer, ainda hoje não sabe se valeu a pena tanto sacrifício.
Mas este ano já prometeu à Dulce que não vai ficar aqui sozinha. Quando as vindimas vierem, já prometeu à Dulce e à Armandina que há-de ir com elas para o Doiro. Há-de apanhar, madrugada, a camionete que as vai levar e trazer. Não será lá grande coisa. Mas pode ser que as férias em Agosto aconteçam outra vez.
Apostila: As férias em Agosto não voltaram a acontecer. Nem o Doiro lhe valeu. Ontem o povo levou-a para o cemitério.
terça-feira, 1 de março de 2022
Cicatrizes
Em Maio de 68 os generais mandaram-me para a guerra de Angola. E eu lá fui. A viagem era num velho DC6, um quadrimotor decrépito que se arrastava costa abaixo, guiando-se pelos padrões que os velhos navegadores tinham semeado nas praias.
O primeiro percalço aconteceu antes da partida. Às onze da noite, no aeroporto, os passageiros foram informados de que a partida sofrera um atraso de 24 horas. Eu lá dormi numa pensão qualquer, e o dia seguinte passei-o na Feira do Livro, que na altura acontecia na avenida da Liberdade. Comprei lá um livro dum japonês e outro dum sul-americano, um Miguel Angel qualquer. Dois prémios Nobel, nem mais.
E lá partimos, num grande estrondo por cima do Areeiro, que começava a dormir. Alheado e imprevidente, não tratei do farnel. E o que me valeu foi o salame de chocolate que a Mitina levava. (A Mitina era a mulher dum camarada que também fora mobilizado).
Quando aterrámos nos Espargos, na ilha do Sal, a tripulação informou-nos de que havia uma avaria num dos motores. Era preciso que a TAP trouxesse de Lisboa uma peça sobresselente. Tínhamos que esperar.
Nós encontrámos refúgio na enfermaria, onde dormimos duas noites. Os restantes passageiros desenrascaram-se como puderam. Na parte de trás do avião acampava um grupo de marinheiros. Mais à frente havia mulheres com filhos, e cheiro a papas e fraldas. O sol inclemente encarregava-se do resto.
Mas a peça lá chegou e acabámos por partir. Na escala da Bissalanca não chegámos a sair. Apenas nos inundou a bafósia inclemente da Guiné. E finalmente aterrámos em Luanda.
Os generais hesitaram uma semana e finalmente decidiram. Mandaram-nos para o Negage, onde só havia aeronaves que nunca conhecêramos. Nunca tínhamos feito exercícios de tiro, e lá acabámos por aprender alguma coisa com os alferes milicianos que lá estavam. O tecto da base aérea era um firmamento com as estrelas do hemisfério sul. E no grande hotel do Negage, ocupado pela Força Aérea, havia uma messe com música de luxo. Foi lá que eu conheci o Jacques Loussier, e as suas versões ligeiras do Sebastian Bach.
Um dia, passado um ano, acabou-se-me o gás. Destruí um avião e acabei no hospital. Os médicos lá fizeram o que sabiam. E eu acabei evacuado para Lisboa, com as cicatrizes que ainda guardo.
sábado, 12 de fevereiro de 2022
Metamorfoses
Copiando descaradamente as velhas tácticas da operação nó cego, que a seu tempo reduziram a pó o planalto dos macondes, desencadeei uma série de campanhas que me permitiram ultrapassar a crise dos pulgões amotinados. Porém, após a euforia da vitória, dei conta do estado lastimoso em que me ficara o terraço, quem tenha andado nas trincheiras da flandres saberá do que estou a falar.
Ora este era o pequeno património que me restava da família, e guardava para mim um vasto significado emotivo, a despeito de algum desvalor intrínseco. Pedi o parecer dum paisagista, o qual em boa hora me aconselhou a reconversão agrícola do espaço. Sem ajuizar, por certo, das metamorfoses a que me ia sujeitar.
Havia que fazer opções. E não sei se foi a antiga preocupação de dar de comer a um milhão de portugueses, ou se foi a minha costela clássica a lembrar-me que nem só os deuses merecem um bom vinho. O facto é que não demorei a plantar uns bacelos que arranjei no mercado, após o que tratei de me associar a uma destas agremiações da lavoura de qualidade, que há muito me habituara a reverenciar.
Logo na primavera, estavam os bacelos a abrolhar os primeiros gomos, começaram a sair-me coelhos da cartola. Havia um qualquer instituto no ministério da agricultura, que pagava generosamente o arranque das cepas. E eu, moderno empreendedor, tinha que ser pragmático. Meti os catrapilos a arrotear o terraço, e ainda me sobrou capital para investir num parque de máquinas. Comecei logo por um jipe samurai de tracção integral, e passei a deslocar-me ao centro da cidade em viatura própria, liberto das indigestões da carris.
Eu era agora um empreendedor, como já foi dito, e tinha o terraço devoluto. Frequentava os seminários da grape, à procura de entender, entre o tinto e o patanegra alentejanos, os meandros daquilo que toda a gente chamava a política agrária global. Durante três anos, e enquanto, salvo seja, ia apalpando o terreno, apostei na cultura das oleaginosas, que funcionava de modo tão simples quanto surpreendente. Eu lançava as sementes à terra, e garantia logo a correspondente subvenção. Porém, sendo os gastos da colheita superiores ao valor do produto, o destino da plantação era mirrar-se lentamente, até se desfazer ao vento. Ficava eu livre de trabalhos vãos, enquanto o fundo de garantia se encarregava de manter-me em equilíbrio os orçamentos.
Esta espécie de pousio havia de ter como efeito uma notável melhoria dos solos, a tal ponto que me abalancei à cultura de frutas mais especiosas. Apresentei um projecto de plantação, cuja subvenção a fundo perdido incluía um sistema de rega científico, inventado por judeus do deserto. Embora mais adequadas às neblinas da nova zelândia, as plantas resistiram à escassez de águas e mostravam considerável vigor.
Passados três anos, a primeira produção foi tão fecunda que o mercado recusou absorvê-la por inteiro. A situação era de vera catástrofe, não havia estações de armazenamento para acolher tanta fruta, esgotou-se a capacidade nacional de produção de embalagens. Apoiado pela grape, exigi a intervenção do governo. E a resistência obstinada do ministro, a quem alguns jornais chegaram a imputar infames antipatriotismos, acabou por ser-lhe fatal às coronárias e à carreira política.
Mas não há fartura que em fome não venha a dar. No ano seguinte, chegou em maio uma tardia onda de geadas negras, e as belas promessas dos pomares foram-se murchando e acabaram mirradas. Reclamei do governo a declaração de calamidade, e consegui apoios de emergência que me pouparam à falência.
Mas ficara-me da fruta um sabor desconsolado, depois de ver como a geada perturbara o estado vegetativo dos pomares. Ainda fiz umas podas extraordinárias, umas empas de recurso, ainda apliquei umas caldas de aquecimento, mas nada valeu a pena. E eu era agora um empreendedor, volto a dizê-lo propositadamente, tinha que fazer opções sustentadas de investimento.
Foi assim que me entreguei à produção de leite. Apresentei os planos num instituto do ministério, e logo e logo vieram uns catrapilos a instalar a pastagem, quando nos estábulos se faziam já as últimas afinações dos equipamentos de automatização. Chegaram por fim umas dúzias de vacas frísias, que eram um consolo para a vista.
Foram dois anos que me deixaram saudades. Isto antes de os tipos de bruxelas reduzirem drasticamente o subsídio à produção, e antes de os galegos terem entrado no mercado, parecia a dada altura que o rio minho se fizera leite.
Foi por então que tive que vender a casa de férias no algarve, antes de entregar um projecto de reconversão à produção de carne, que me evitou males maiores. Em boa hora se foram as frísias e vieram as charolesas. Havia no ministério um fundo de apoio por cabeça, e os técnicos agrícolas vinham controlar os efectivos, volta não volta. Eu recebia-os pela manhã, na adega, com tinto e patanegra da amareleja, e a tarde passavam-na no terraço, embrenhados em observações de campo. Dava uma trabalheira transferir nessas noites o efectivo para a marquise, onde eu tinha montado um cenário de pastagens alpinas, a vistoriar no dia seguinte. Mas as contagens finais resultavam generosas, e foi graças a elas que a exploração floresceu.
Um dia fui ajeitar o penso às charolesas, e dei com elas a dançar a polca, cheias de cortesias. O veterinário fez-me o diagnóstico à mesa do café, as vacas tinham enlouquecido. Estalara a moda na inglaterra, quando os cientistas quiseram obrigá-las a comer os antepassados.
Caiu-me oqueixo de estupefação, e fiquei dois minutos a benzer-me. Mas o homem logo adiantou que estava criado um fundo para abate. E eu aproveitei-me dele para trocar o todo-o-terreno e abandonar o ciclo produtivo.
Por uns tempos ainda estive tentado a reconverter-me à floresta, usando um fundo de modernização. Mas tenho-me limitado a ver arder as matas dos vizinhos.
sábado, 29 de janeiro de 2022
O Pavelca
Era eu ainda um ganapo quando o Pavelca apareceu na aldeia. Era um puto loiro, de estranhos olhos azuis, que vivia em casa do padre. Passado algum tempo já ele arranhava a nossa língua, já tomava parte nas nossas brincadeiras.
Um dia desapareceu, terá ido para a América, se ainda hoje por lá anda. E eu demorei muitos anos até perceber tudo.
Em 1956 houve uma bronca na terra dele, que era a Hungria. Os tipos de Moscovo entraram por ali dentro e impuseram as suas leis. Milhares de húngaros deram à sola, ou mandaram os filhos para local seguro. E o Pavelca, apenas um exemplo, veio parar à aldeia.
Tanto barulho para nada.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
Manias
Fiquei algo pasmado quando o vi aparecer à primeira consulta, confesso que não reconheci nele o tipo de paciente que se dispõe a pagar o meu tempo. Era um homem na casa dos quarenta, e tinha um ar frágil e consumido. Vestia uma bata de sarja azul, dessas de operário, e trazia semeadas no cabelo desgrenhado aparas de madeira. Quando me disse que era carpinteiro tive as minhas dúvidas. Porque a profissão deixou-me esta costela de detective, e vi-lhe as mãos demasiado finas para afagos de enxó e de garlopa. Rocei de vagar a palma no queixo, e mandei-o deitar-se na marquesa.
Não foi preciso desbravá-lo muito, logo se pôs a relatar uma viagem ao egipto, há uns vinte e tal anos. Fora uma teimosia da mulher, boa tecedeira e cardadora de lãs, mas de um alevantado vezo que sempre lhe trouxera inquietações, como quem trouxesse na barriga um rei qualquer. Um dia ela apareceu a dizer que tinham de partir sem demora, era preciso poupar a criança à perseguição dos inocentes, para cumprir a voz do profeta e salvaguardar-lhe o desígnio transcendente.
Alugaram um solípede caríssimo, mas a viagem foi cheia de percalços e acabou por durar uma eternidade. Volta não volta ela dizia que era preciso calçar ao asno os cascos ao contrário, assim estava escrito, para confundir os perseguidores. O pobre do animal é que já não estava capaz de tais subtilezas, fez o que pôde para adequar o passo às profecias, mas as constantes mudanças de solias complicavam-lhe a andadura. Voltaram a casa os quatro sãos e salvos, depois de atravessarem o deserto, sabe deus como.
De resto, ele sempre olhara para este filho com algum desconforto, desde que a aparadeira confirmara a virgindade da mãe, na altura do parto. Mas os problemas com ele estavam só a começar. Desde cedo se mostrou um superdotado, atraía multidões com enigmáticas parábolas abrangentes, e ultimamente começara a constar que tinha poderes. Transformava a água em vinho, e matara a fome à multidão com meia dúzia de pães e um par de peixes do lago.
Eu não sou apostólico nem romano, e já vi muitos abismos do mundo. Não costumo perder as estribeiras com os relatos dos pacientes, mas não assim com este. Fiz logo entrar a equipa da camisa-de-forças, e mandei-o internar imediatamente. Imagino o que não seria, ter que repetir tudo outra vez.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
Era uma vez...
Era uma vez uma família muito pobre. Vivia numa aldeia em que as noites eram escuras, e mais longas ainda quando a fome se punha a cantar nas barrigas, antes de chegar a manhã.
Certa noite, num serão de pão escasso, lembrou-se o pai de contar uma história. E vai ele, que bom seria, mulher, termos dinheiro para comprar uma cabra. Havíamos de levá-la à vez a pastar pelos caminhos, para ela encher a barriga dos botões de silvas bravas, quando o sol, na primavera, constrói jardins nas paredes. E quando anoite chegasse, e a cabra voltasse a casa, íamos colher-lhe o leite, e as noites seriam longas, e a família cresceria, já viste mais alegria. Mas eu não gosto de leite, tornou o filho mais novo. E quando o outono chegar, e as silvas ficarem duras, subo ao freixo do valado, e domais dourado ramo se há-de fartar nosso gado, disse o outro, confiado. Mas eu não gosto de leite, insistiu o desgraçado.
Numa breve conclusão, perde o pai o seu vagar, e ali mesmo obriga o revel e obstinado filho a engolir duas grandes tigelas de leite na companhia dos irmãos, que assim dormiram toda a santa noite, de barriguinha calada.
É claro que tudo isto aconteceu num tempo muito antigo, enquanto havia milagres e cabras que davam leite.