sábado, 12 de fevereiro de 2022

Metamorfoses

Copiando descaradamente as velhas tácticas da operação nó cego, que a seu tempo reduziram a pó o planalto dos macondes, desencadeei uma série de campanhas que me permitiram ultrapassar a crise dos pulgões amotinados. Porém, após a euforia da vitória, dei conta do estado lastimoso em que me ficara o terraço, quem tenha andado nas trincheiras da flandres saberá do que estou a falar.

Ora este era o pequeno património que me restava da família, e guardava para mim um vasto significado emotivo, a despeito de algum desvalor intrínseco. Pedi o parecer dum paisagista, o qual em boa hora me aconselhou a reconversão agrícola do espaço. Sem ajuizar, por certo, das metamorfoses a que me ia sujeitar.

Havia que fazer opções. E não sei se foi a antiga preocupação de dar de comer a um milhão de portugueses, ou se foi a minha costela clássica a lembrar-me que nem só os deuses merecem um bom vinho. O facto é que não demorei a plantar uns bacelos que arranjei no mercado, após o que tratei de me associar a uma destas agremiações da lavoura de qualidade, que há muito me habituara a reverenciar.

Logo na primavera, estavam os bacelos a abrolhar os primeiros gomos, começaram a sair-me coelhos da cartola. Havia um qualquer instituto no ministério da agricultura, que pagava generosamente o arranque das cepas. E eu, moderno empreendedor, tinha que ser pragmático. Meti os catrapilos a arrotear o terraço, e ainda me sobrou capital para investir num parque de máquinas. Comecei logo por um jipe samurai de tracção integral, e passei a deslocar-me ao centro da cidade em viatura própria, liberto das indigestões da carris.

Eu era agora um empreendedor, como já foi dito, e tinha o terraço devoluto. Frequentava os seminários da grape, à procura de entender, entre o tinto e o patanegra alentejanos, os meandros daquilo que toda a gente chamava a política agrária global. Durante três anos, e enquanto, salvo seja, ia apalpando o terreno, apostei na cultura das oleaginosas, que funcionava de modo tão simples quanto surpreendente. Eu lançava as sementes à terra, e garantia logo a correspondente subvenção. Porém, sendo os gastos da colheita superiores ao valor do produto, o destino da plantação era mirrar-se lentamente, até se desfazer ao vento. Ficava eu livre de trabalhos vãos, enquanto o fundo de garantia se encarregava de manter-me em equilíbrio os orçamentos.

Esta espécie de pousio havia de ter como efeito uma notável melhoria dos solos, a tal ponto que me abalancei à cultura de frutas mais especiosas. Apresentei um projecto de plantação, cuja subvenção a fundo perdido incluía um sistema de rega científico, inventado por judeus do deserto. Embora mais adequadas às neblinas da nova zelândia, as plantas resistiram à escassez de águas e mostravam considerável vigor.

Passados três anos, a primeira produção foi tão fecunda que o mercado recusou absorvê-la por inteiro. A situação era de vera catástrofe, não havia estações de armazenamento para acolher tanta fruta, esgotou-se a capacidade nacional de produção de embalagens. Apoiado pela grape, exigi a intervenção do governo. E a resistência obstinada do ministro, a quem alguns jornais chegaram a imputar infames antipatriotismos, acabou por ser-lhe fatal às coronárias e à carreira política.

Mas não há fartura que em fome não venha a dar. No ano seguinte, chegou em maio uma tardia onda de geadas negras, e as belas promessas dos pomares foram-se murchando e acabaram mirradas. Reclamei do governo a declaração de calamidade, e consegui apoios de emergência que me pouparam à falência.

Mas ficara-me da fruta um sabor desconsolado, depois de ver como a geada perturbara o estado vegetativo dos pomares. Ainda fiz umas podas extraordinárias, umas empas de recurso, ainda apliquei umas caldas de aquecimento, mas nada valeu a pena. E eu era agora um empreendedor, volto a dizê-lo propositadamente, tinha que fazer opções sustentadas de investimento.

Foi assim que me entreguei à produção de leite. Apresentei os planos num instituto do ministério, e logo e logo vieram uns catrapilos a instalar a pastagem, quando nos estábulos se faziam já as últimas afinações dos equipamentos de automatização. Chegaram por fim umas dúzias de vacas frísias, que eram um consolo para a vista.

Foram dois anos que me deixaram saudades. Isto antes de os tipos de bruxelas reduzirem drasticamente o subsídio à produção, e antes de os galegos terem entrado no mercado, parecia a dada altura que o rio minho se fizera leite.

Foi por então que tive que vender a casa de férias no algarve, antes de entregar um projecto de reconversão à produção de carne, que me evitou males maiores. Em boa hora se foram as frísias e vieram as charolesas. Havia no ministério um fundo de apoio por cabeça, e os técnicos agrícolas vinham controlar os efectivos, volta não volta. Eu recebia-os pela manhã, na adega, com tinto e patanegra da amareleja, e a tarde passavam-na no terraço, embrenhados em observações de campo. Dava uma trabalheira transferir nessas noites o efectivo para a marquise, onde eu tinha montado um cenário de pastagens alpinas, a vistoriar no dia seguinte. Mas as contagens finais resultavam generosas, e foi graças a elas que a exploração floresceu.

Um dia fui ajeitar o penso às charolesas, e dei com elas a dançar a polca, cheias de cortesias. O veterinário fez-me o diagnóstico à mesa do café, as vacas tinham enlouquecido. Estalara a moda na inglaterra, quando os cientistas quiseram obrigá-las a comer os antepassados.

Caiu-me oqueixo de estupefação, e fiquei dois minutos a benzer-me. Mas o homem logo adiantou que estava criado um fundo para abate. E eu aproveitei-me dele para trocar o todo-o-terreno e abandonar o ciclo produtivo.

Por uns tempos ainda estive tentado a reconverter-me à floresta, usando um  fundo de modernização. Mas tenho-me limitado a ver arder as matas dos vizinhos.

sábado, 29 de janeiro de 2022

O Pavelca

Era eu ainda um ganapo quando o Pavelca apareceu na aldeia. Era um puto loiro, de estranhos olhos azuis, que vivia em casa do padre. Passado algum tempo já ele arranhava a nossa língua, já tomava parte nas nossas brincadeiras.

Um dia desapareceu, terá ido para a América, se ainda hoje por lá anda. E eu demorei muitos anos até perceber tudo.

Em 1956 houve uma bronca na terra dele, que era a Hungria. Os tipos de Moscovo entraram por ali dentro e impuseram as suas leis. Milhares de húngaros deram à sola, ou mandaram os filhos para local seguro. E o Pavelca, apenas um exemplo, veio parar à aldeia.

Tanto barulho para nada.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Manias

Fiquei algo pasmado quando o vi aparecer à primeira consulta, confesso que não reconheci nele o tipo de paciente que se dispõe a pagar o meu tempo. Era um homem na casa dos quarenta, e tinha um ar frágil e consumido. Vestia uma bata de sarja azul, dessas de operário, e trazia semeadas no cabelo desgrenhado aparas de madeira. Quando me disse que era carpinteiro tive as minhas dúvidas. Porque a profissão deixou-me esta costela de detective, e vi-lhe as mãos demasiado finas para afagos de enxó e de garlopa. Rocei de vagar a palma no queixo, e mandei-o deitar-se na marquesa.

Não foi preciso desbravá-lo muito, logo se pôs a relatar uma viagem ao egipto, há uns vinte e tal anos. Fora uma teimosia da mulher, boa tecedeira e cardadora de lãs, mas de um alevantado vezo que sempre lhe trouxera inquietações, como quem trouxesse na barriga um rei qualquer. Um dia ela apareceu a dizer que tinham de partir sem demora, era preciso poupar a criança à perseguição dos inocentes, para cumprir a voz do profeta e salvaguardar-lhe o desígnio transcendente.

Alugaram um solípede caríssimo, mas a viagem foi cheia de percalços e acabou por durar uma eternidade. Volta não volta ela dizia que era preciso calçar ao asno os cascos ao contrário, assim estava escrito, para confundir os perseguidores. O pobre do animal é que já não estava capaz de tais subtilezas, fez o que pôde para adequar o passo às profecias, mas as constantes mudanças de solias complicavam-lhe a andadura. Voltaram a casa os quatro sãos e salvos, depois de atravessarem o deserto, sabe deus como.

De resto, ele sempre olhara para este filho com algum desconforto, desde que a aparadeira confirmara a virgindade da mãe, na altura do parto. Mas os problemas com ele estavam só a começar. Desde cedo se mostrou um superdotado, atraía multidões com enigmáticas parábolas abrangentes, e ultimamente começara a constar que tinha poderes. Transformava a água em vinho, e matara a fome à multidão com meia dúzia de pães e um par de peixes do lago.

Eu não sou apostólico nem romano, e já vi muitos abismos do mundo. Não costumo perder as estribeiras com os relatos dos pacientes, mas não assim com este. Fiz logo entrar a equipa da camisa-de-forças, e mandei-o internar imediatamente. Imagino o que não seria, ter que repetir tudo outra vez.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Era uma vez...

Era uma vez uma família muito pobre. Vivia numa aldeia em que as noites eram escuras, e mais longas ainda quando a fome se punha a cantar nas barrigas, antes de chegar a manhã.

Certa noite, num serão de pão escasso, lembrou-se o pai de contar uma história. E vai ele, que bom seria, mulher, termos dinheiro para comprar uma cabra. Havíamos de levá-la à vez a pastar pelos caminhos, para ela encher a barriga dos botões de silvas bravas, quando o sol, na primavera, constrói jardins nas paredes. E quando anoite chegasse, e a cabra voltasse a casa, íamos colher-lhe o leite, e as noites seriam longas, e a família cresceria, já viste mais alegria. Mas eu não gosto de leite, tornou o filho mais novo. E quando o outono chegar, e as silvas ficarem duras, subo ao freixo do valado, e domais dourado ramo se há-de fartar nosso gado, disse o outro, confiado. Mas eu não gosto de leite, insistiu o desgraçado.

Numa breve conclusão, perde o pai o seu vagar, e ali mesmo obriga o revel e obstinado filho a engolir duas grandes tigelas de leite na companhia dos irmãos, que assim dormiram toda a santa noite, de barriguinha calada.

É claro que tudo isto aconteceu num tempo muito antigo, enquanto havia milagres e cabras que davam leite.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Sinais

Não tenho lembrança de alguma vez ter visto tão baixo o nível de água da barragem. Dela se alimentam a vila inteira e as aldeias todas do município. Por este andar, lá tem que voltar a malta toda a encher a cantarinha na fonte de mergulho.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Sinais

Na aldeia terminou a campanha das castanhas. Há cinquenta anos saíam daí comboios delas, vinham ranchos de mulheres de longe para as apanhar. Os soitos cobriam toda a encosta e as árvores duravam séculos. Aos poucos foram morrendo, da tinta, do cancro americano, da nova vespa das galhas. Os ouriços já nem abrem ao toque do martelo de madeira, que perdeu utilidade. Recolhem-se em grandes  baldes, passam-se num moinho tocado a tractor, quem o tiver. Escolhem-se os frutos e devolvem-se ao campo os ouriços vazios. Uma trabalheira.

As castanhas já não têm a qualidade antiga, depressa criam bicho. E quem planta castanheiros novos logo vê secar metade. Um jogo de cabra-cega, uma tramoia. Tudo sinais dum mundo que já foi.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Famas boas

A dona Belisanda tinha a dimensão duma catedral gótica, o próprio nome o dizia. Numa sala duma casa da aldeia albergava cinquenta ganapos, da primeira à quarta classe. Cuidava-lhes da higiene física e da limpeza mental. E não hesitava em mandar um infractor lavar os pés no ribeiro que passava próximo. 

Ainda hoje não entendo como ela fazia aquilo. Primeiro dava a aula da primeira classe. Depois era a da segunda. Por fim lá chegavam os da terceira e da quarta. E mantinha tudo em ordem.

Numa pequena horta, à entrada, havia um damasqueiro. E não há notícia de que alguma vez um ratoneiro tivesse metido a mão à fruta. Lá atrás, no cabanal, alguns perús grasnavam de horas em quando. Mas quem cuidava deles era a criada, a Maria, que os calava com urtigas cozidas. Muitas vezes eu lhas trouxe, que havia muitas lá no quintal, debaixo da nogueira grande.

Um dia, pelo Natal, ia eu na quarta classe, a mestra claudicou. Adoeceu de surpresa. E a ganapada viu nisso uma prenda de Natal. Temendo, porém, uma baixa demorada, e o atraso de um anito, os meus pais resolveram conversar com a professora da Torre, ali a três quilómetros. E ela aceitou receber-me. De formas que eu ia todos os dias, pela estrada velha, de sacola ao ombro, e uma cabacinha com refresco de café, que a minha mãe me dava sempre de presente.

Nesse tempo os castanheiros do Vale Azedo ainda não tinham morrido. E eu lá ia, todo contente na sua companhia, metendo o nariz em todo o lado. Um dia descobri, debaixo dum silvado, um ninho de perdiz com uma catrefada de ovos. E passei a visitá-lo todas as manhãs. Até que alguém armou um laço com pelo de cavalo, no corredor da entrada. A perdiz enjeitou o ninho, e os ovos lá ficaram. 

Os meus novos colegas, vendo-me de cabacinha, cuidaram que era vinho. E passaram a olhar-me como um homem. Mas um dia, algum mais aventureiro achou-me distraído e foi-me ao vinho. Não faltou nada para uma risada. E assim se desfizeram as minhas boas famas.