sexta-feira, 3 de junho de 2016

Mais uma

Finalmente encontro o stand da editora, parque acima. E encontro em Lisboa a luz de sempre e os jacarandás em flor. Ao fundo o Tejo a sugerir frescuras, epopeias.
Aproveito e folheio A Mulher que Venceu Don Juan, que está ali no escaparate. É um romance de Teresa Martins Marques, anunciada como doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Logo o que leio na contra-capa me põe de pé atrás. Mais uma que pontifica nos comentários do fècebuque, que não se dão ao cuidado de poupar na cretinice. O resto só me confirma as primeiras impressões.
Sem distinções de classe ou condição, o romancinho é uma colecção de histórias recolhidas numa casa-abrigo da APAV, entre uma série de mulheres vitimadas por vigaristas, chulos machistas, alguns podres de ricos e outros proxenetas, todos eles criminosos vampiros das mulheres. Para a nossa doutorada são todos Don Juan.
Poupo-vos à exibição das chagas, corrigindo:
Para Don Juan, o melhor dos amantes, a mulher é a figura onde a sensibilidade, a sensualidade e o prazer se reúnem até ao paroxismo. É o centro da beleza e da harmonia, o templo dum prazer que não conhece limites. É essa sedução que motiva Don Juan e o faz pisar a escarpa do delírio.
Num discurso básico e prosaico, infinitamente maçador, a ilustre doutorada constrói o seu romancinho sobre a vulgata comum, o equívoco, a ignorância e os atavismos do vulgo. No fim apõe descaradamente a sua assinatura, adensando a escuridão. Uma vergonha!

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Chegada

Desembarco e vou tomar um café. Ele é obeso e está sentado ao balcão, à frente dum hamburger com ovo a cavalo, num mar de batatas fritas.
- Ai, só me apetece ganir!
- É arranjar umas orelhas e um rabo!
- Isso queria eu mas a mulher não deixa. Que já tem um lá em casa!

Equívocos marginais das praxes "académicas"

Anda aí à solta uma seita juvenil de marginais assassinos. São os pseudo-doutores das universidades cavaquistas mexerucas, essas que não têm existência nem a substância dela. E os seus frequentadores buscam afirmação e personalidade através do terror e do poder desbragado. É o costume das sociedades doentes.
Já fizeram vítimas impunes numa praia alentejana, aqui foi em Famalicão. E as reitorias querem é dividendos e propinas.

Don Juan

Anda nele um Don Juan aprisionado, que tenta domesticar à espadeirada dum racionalismo positivista. Mas os mitos são friáveis, resistentes, movediços e pouco utilitários. O que neles parece nunca é, e a realidade é o que menos parece.
Este filme, em que o Depp é Don Juan e o Brando é psiquiatra, é uma fita divertida e interessantíssima, sempre a saltar da ironia da paródia para o discurso da seriedade. E ambos acabam a inverter os seus papéis: Don Juan, cujo carácter tem traços de delírio com intromissões edipianas, sai do mito para não ficar internado no hospital psiquiátrico, condenado aos químicos e à loucura. E o psiquiatra reformado entra no mito enquanto Don António de Flores, à beirinha do delírio.
Boa era a ataraxia do Ricardo Reis, que via distanciado as Lídias e as Neeras e se limitava ao espectáculo do mundo, contente quase e bebedor tranquilo. Mas esse só tinha vida real dentro dum papel impresso.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ausência

Foi então que o quinteiro se esqueceu de fechar o poleiro das galinhas. Era do que andava à espera a raposeta, senhora de muita treta.
Nessa noite não houve sobreviventes, salvo um pato que gostava do luar. Ficou no tanque, toda a noite a bolinar.

Embondeiros

Em 1968 passei a tarde na Feira do Livro ao fundo da avenida, à espera dum avião que me levou cinco dias até chegar a Luanda. A pátria precisava lá de mim, que me queria baptizar a ferro e fogo numa antiga sé do Congo. Pelos vistos não tinha pressa! E eu comprei o Miguel Angel Astúrias das Lendas da Guatemala e a Terra de Neve do Yasunari Kawabata, que me acompanharam na aventura.
Nesse tempo havia literaturas que desciam à avenida nas tardes de sol. Hoje marcam rendez-vous com os leitores nos jardins do parque, lá ao cimo. E eu passo outra vez a tarde na Feira, sentado na banca duma editora que me pediu a presença. Entretanto leio a Carta de Achamento do Pero Vaz de Caminha, a anunciar a um rei que era Venturoso as novas que tinha achado. Eu já ouvira falar muito da Carta a uns académicos do discurso épico, sobre a importância que tinha. Mas nunca a tinha lido como agora, assim de cabo a rabo, que a comprei na banca ali ao lado.
Acabo a rir-me dos pobres académicos que se alimentam de mitos. A Carta só diz ao rei que os índios se mostram nus, e exibem vergonhas invejáveis sem terem vergonha delas. Que são crédulos e pacíficos, e têm casas de palha, e desconhecem os gados, e comem muitos inhames que os alimentam redondos e bonitos. Que não escondem segundas intenções, bem ao contrário dos súbditos de sua majestade. E se manifestam prontos a aceitar a fé cristã, tão depressa o rei lhes mande as cruzes suficientes para os trazer ao redil e às luzes da salvação. E não diz mais novidades do que isso.
Eu converso meia hora com um leitor, que me leu e gostou muito. Sem vaidadezinhas eu fico orgulhoso mas não lho confesso, porque respeito o autor e o leitor. E vou dar uma volta pela Feira, lá onde estão jacarandás em flor que o Vaz de Caminha trouxe, e são da cor da paixão.
Pela Feira há matas de embondeiros, transformados em pasta de papel. E os leitores passam plácidos, à sombra deles, porque agora são consumidores. Lêem pouco mas têm à discrição páginas e páginas ilustradas de bonecos, para recrearem a vista. Literatura a sério vê-se pouca, deixou de vir à avenida apanhar sol. E os embondeiros fariam mais falta nas paisagens do mundo do que nos escaparates das editoras de agora. Sacrificados aos tempos, para não dizer imolados ao mercado.
A tarde chega ao fim e eu vou à vida, a namorar frases e as palavras delas, e o mistério musical que levam dentro.

Escola

Tinha uma neta que era uma princesa moura, mais bonita do que o sol. Mas um dia vieram uns cruzados e tomaram conta dela.
Foram metê-la nas mãos duns jesuítas, uns tipos que batem muito no peito. E um dia vão fazer dela uma fufa.