sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Os negreiros e os nazis (honni soit)

Esse paraplégico mental mal sabe o que fazer do Deutsche Bank e do sistema financeiro alemão. Isto alguns anos depois de lhes andar a encher a bandurra à custa da penúria dos Untermenschen do Sul.
Entretanto vai fazendo a festa aqui, e apanha as canas além. Excita o grelo das galdérias do rating, em joguinhos conhecidos que ainda não esquecemos. E depois põe-lhes água na fervura, manifestando preocupação e tristeza pela subida dos juros. 
Bom era o Passos, sabemos, que reduzia o povo ao desespero e não pestanejava. Mas já aprendemos também que os negreiros e os nazis sempre se entenderam bem.

Donde é que emana

Esta harmonia compostinha que algures ouvi?

Estilhaços 15

Mais que um estilhaço, a questão da TAP é uma verdadeira granada armadilhada que o bando de marginais irresponsáveis do governo do Passos deixou de herança ao governo do Costa.
1 - Depois de indigitado pelo Cavaco para formar governo como partido mais votado, o Passos executou a privatização da empresa pública (através do mercenário Sérgio Monteiro, alegando a sua difícil situação financeira) já depois de o seu governo da semanada ter sido recusado pela Assembleia da República. Isto é, já depois de ter deixado de ser uma hipótese meramente académica.
2 - Como empresa privada, a administração da TAP tem (entre outros)  o direito de fazer as opções de gestão que mais lhe interessam, sem ingerências do governo legítimo. Quer quanto a rotas, aeronaves em uso, políticas de relações laborais, etc.
3 - Foi assim que suprimiu sete rotas a partir de Lisboa e quatro rotas a partir do Porto (Barcelona, Milão, Roma e Bruxelas).
4 -  Sentindo prejudicados os interesses da Região Norte em benefício da capital, o autarca Rui Moreira reage desabridamente, com palavras de cacique de bairro suburbano, demagogo e populista. Mas nem tudo em tais palavras será injusto. Há intensas relações entre empresários do Norte (do calçado, do têxtil, do vestuário, do turismo...), sobretudo com a Itália; e há o papel central que o aeroporto de Pedras Rubras desempenha no Noroeste peninsular, em relação a Vigo, Santiago e a Coruña. Daí ser muito importante preservar o hub do Porto.
5 - O discurso de Moreira encontra eco amplificado nos círculos tripeiros, marcados por velhos complexos regionalistas que a história atesta, muitas vezes com justificação. E abre campo a todos os demagogos, sempre prontos a explorar o filão da capital imperial.
6 - O Costa e o seu governo tentam restringir os danos. Propõem-se reverter a torpe negociata dos bisnetos de negreiros, reduzindo ao mínimo possível os direitos de indemnização da administração privada e dos milhões já injectados na TAP. A base foi uma parceria publico-privada na propriedade da empresa, com a gestão em mãos privadas. Isto é, o governo não pode interferir na gestão das rotas. E se quiser anular o contrato celerado, não são conhecidos os limites da indemnização exigida por reversão mais alargada.
7 - E aí quem calará os burocratas da Europa, a Comissão, o Eurogrupo, os servidores do Pacto de Estabilidade, o nazi paraplégico da cadeira de rodas, os especuladores dos juros da dívida, e os legalistas do défice, e as hienas das agências de rating?
8 - E internamente quem vai silenciar os revanchistas que perderam o poder, e os mercenários duma imprensa que está nas mãos da direita, e ainda não se cansaram de trombetear que o Costa chefia um governo ilegítimo? Quem vai calar os bloquistas, e o comité central, para quem o controlo da TAP é soberania nacional?
9 - A tropa dos marginais Passos e Portas já tinha posto em guerra uns portugueses contra os outros, os novos contra os velhos, os privados contra os públicos, os que emigram e os que ficam. Com esta granada sem cavilha vão pôr Norte contra Sul, os que vão à praia e os que ficam em casa, os que têm carro e os que vão a pé, os que têm um camião e os que o não têm. Não se vê como é que o Costa vai descalçar a contento uma tamanha bota. Porque, em eleições a prazo breve, uma maioria de eleitores imbecis, privados de raciocínio e manipulados pelos media, devolverá o poder aos sipaios e bisnetos de negreiros. No final vencerão os vencedores, e terá razão esta Cassandra.

Cleptocratas velhos, cleptocratas novos

« (...) Em muitos estados africanos com recursos naturais, as indústrias do petróleo e mineira estabeleceram-se antes da independência, antes de as nações recém-formadas terem oportunidade de desenvolverem instituições para orientar o bem comum, e de limitar o poder arbitrário. Quando foram descobertos campos de petróleo gigantes no Mar do Norte, em 1969, a Noruega e o Reino Unido tinham em funcionamento as instituições para mitigar a força destrutiva do dinheiro do petróleo. O mesmo não se passou com países como a Nigéria, onde a Shell já extraía petróleo antes de os governantes coloniais britânicos partirem. "Os britânicos e os outros foram como os conquistadores espanhóis", disse-me Gbadebo-Smith, um nigeriano erudito que se licenciou em medicina dentária antes de estudar na Kennedy School of Government em Harvard. "Os poderes coloniais montaram uma máquina, uma máquina para extrair recursos. Quando se foram embora, passou para os líderes seguintes, como o ADN. Em muitos países, os militares tomaram o poder para capturar receitas. É incrivelmente difícil mudar essa estrutura. Os parceiros estrangeiros permanecem com os seus colaboradores. É como um vírus, transmitido do regime colonial para os governantes pós-independência. E estes extractores são o oposto de uma sociedade que é governada para o bem comum, para benefício público."
O arquétipo destes extractores, aqueles que usam a conquista de recursos naturais para promover o poder político e vice-versa, foi Cecil Rhodes. Chegando às planícies centrais daquilo que viria a tornar-se a África do Sul, durante o frenesim de diamantes da década de 1870, Rhodes ascendeu de pequeno garimpeiro a senhor do comércio de diamantes. Fundou a de Beers e, quando foi descoberto ouro mais a norte dos campos de diamantes, lançou a Gold Fields of South Africa, que ainda figura entre as maiores empresas de extracção de ouro, com minas desde a Austrália ao Peru. (...)
Rhodes morreu em 1902, humilhado pelo seu apoio ao desastroso Jameson Raid em território boer. W.T.Stead, o grande jornalista cruzado da Inglaterra vitoriana, chamou a Cecil Rhodes "o primeiro de uma nova dinastia de Reis do Dinheiro, que evoluíram nos últimos tempos para se tornarem os verdadeiros governantes do mundo moderno". Essa descrição ecoa pelo século que se seguiu e continuou pelo novo milénio. A Areva no Níger, a Shell na Nigéria, a Glencore no Congo - estas e outras como elas replicam, com o seu poder absoluto sobre as nações africanas, os impérios que vieram antes delas. (...) Em Angola, outro executivo que tinha observado o grupo Queensway (chinês) a penetrar nos círculos mais próximos do poder e depois lançar a sua expansão pelo continente, disse-me: "Tem tendências megalómanas. É como o Rhodes, tentando conquistar a África outra vez". "Eles são uma companhia imperialista à moda antiga. Têm direitos sobre os minerais e contactos ao mais alto nível nos governos corruptos, o que lhes dá o direito de tirarem o que querem".

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Medalhas à repimpina!

À medida do agraciador, dos agraciados e do patrono de todos.

Rituais

Era uns anitos mais velho e tinha mãos criativas. E sabia fazer coisas fascinantes. Lembro-me dele, numa tarde debaixo do telheiro, a fazer um papagaio de papel: uma estrela de canas de flauta presa por atilhos de cordel, folhas d'O Século coladas com farinha, um rabo comprido urdido de papelotes, e uma guita, grosseira e compridona, que ele fazia dos canudos dos foguetes e enrolava num pau. Quando aquilo estava pronto grimpávamos às fragas. E era uma alegria ver o papagaio a subir ao sol, levado pela aragem.
Muitos anos depois, dedicou-se a refazer carros antigos, motores muito cansados, frisos que não existiam. Saíam-lhe das mãos como se fossem novos. Até que também ele ficou velho, ficou adoentado, apanhou uma pneumonia e foi-se embora.
Os velórios na igreja são aqui obrigatórios, e os funerais ainda mais, porque não há desobrigas da precária humana condição. O destino ainda comanda, neste céu que já foi de papagaios. E ao vê-lo irreconhecível, inerte e descolorido, coberto de rendas brancas e rodeado de flores, eu respeito os rituais. Mas quando partir um dia, não quero atravessar o rio pela mão do barqueiro mítico. Quero cruzá-lo sozinho, a ouvir a noite inteira as ondulações de Bach. Enquanto regresso ao cálcio, ao nitrogénio, ao carbono original.

Paisagens

Viajo duzentos e cinquenta quilómetros de autocarro para fazer um exame. Dentro da sopa, de manhã à noite.
Não sendo Portugal mais que bonitas paisagens, se não tivermos o céu, o horizonte, o sol... não resta nada. E o Porto, então, nem falar.
Mais vale emigrar para o Alto-Volta, onde há calor do deserto e umas palmeiras ao longe. Como hoje os entendo bem, os andarilhos do Infante do chapéu!