Ir ao médico, sair do reduto, viajar de autocarro, ver mundo, eis um exercício esgotante.
Porque nada é tão indispensável como o vulgo ao longe.
Mas porém o vulgo ao perto só muito restritamente é suportável.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Dois metros dela...
O tosco de Boliqueime espera que o primeiro-ministro... O essencial das políticas que vigoraram em Portugal nos últimos trinta anos foi definido, ou condicionado, ou apadrinhado por ele. Que foi o verdadeiro Don Corleone da quadrilha que as tem executado. Agora, de saída, espera que no encontro de amanhã o Costa...
Por aqui também se espera que a terra lhe seja leve, em breve. Dois metros dela.
Por aqui também se espera que a terra lhe seja leve, em breve. Dois metros dela.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Quatro tópicos
(Cont)
Tivemos Camões (diz o professor palestrante), que mostrou à Europa um povo desbravador dos caminhos do mundo. Repete o lugar-comum e invectiva os Velhos do Restelo, que preferiram ficar a lamentar-se na Praia das Lágrimas. Tivemos mais tarde o Fernando Pessoa, esse dramático fragmentado. E o Cesário Verde, que o antecedeu. Tivemos o Vieira, mestre da oratória e artífice da língua. E o Fernão Lopes. E o Virgílio Ferreira, um precursor.
Entre quantos tivemos, o palestrante omite Saramago, e a diferença que vai da ironia ao humor, que ele estabeleceu. A ironia pretende significar o contrário do que afirma. É um exercício de alta inteligência e grande requinte estético. O humor, o sarcasmo, são altivez e agressividade, essa arma de combate prosaica.
Sublinha quatro tópicos na obra de VF:
- o individualismo (que ele ousou afirmar quando a miséria geral apelaria à solidariedade dos criadores da arte literária). Porém o palestrante, como bom intelectual, padece desse divórcio, frequente e sobranceiro, entre o artista e a realidade social. Por isso mesmo sobrevaloriza VF. É claro que desconhece, ou se alheia do absurdo a que conduz a atitude individualista. Na década de 70, foi Margareth Thatcher quem ousou afirmar que "não há sociedade, há apenas indivíduos". Em termos estritamente classistas não há dúvidas. Já em termos de pensamento social e de visão da vida, o individualismo é um absurdo que conduz as sociedades para a tragédia já visível;
- o segundo tópico é Deus, que os homens inventaram por fragilidade, mais que por sentimento religioso. Os portugueses serão fatalistas, mas não são religiosos nem dispensam Deus. Por isso Deus morreu;
- o terceiro tópico é o corpo, esse templo do individualismo;
- o quarto tópico é a morte inelutável do mesmo corpo. Da energia e da beleza dele, mormente no feminino.
E foi um VF visionário, que antecipou tudo isso!
Tivemos Camões (diz o professor palestrante), que mostrou à Europa um povo desbravador dos caminhos do mundo. Repete o lugar-comum e invectiva os Velhos do Restelo, que preferiram ficar a lamentar-se na Praia das Lágrimas. Tivemos mais tarde o Fernando Pessoa, esse dramático fragmentado. E o Cesário Verde, que o antecedeu. Tivemos o Vieira, mestre da oratória e artífice da língua. E o Fernão Lopes. E o Virgílio Ferreira, um precursor.
Entre quantos tivemos, o palestrante omite Saramago, e a diferença que vai da ironia ao humor, que ele estabeleceu. A ironia pretende significar o contrário do que afirma. É um exercício de alta inteligência e grande requinte estético. O humor, o sarcasmo, são altivez e agressividade, essa arma de combate prosaica.
Sublinha quatro tópicos na obra de VF:
- o individualismo (que ele ousou afirmar quando a miséria geral apelaria à solidariedade dos criadores da arte literária). Porém o palestrante, como bom intelectual, padece desse divórcio, frequente e sobranceiro, entre o artista e a realidade social. Por isso mesmo sobrevaloriza VF. É claro que desconhece, ou se alheia do absurdo a que conduz a atitude individualista. Na década de 70, foi Margareth Thatcher quem ousou afirmar que "não há sociedade, há apenas indivíduos". Em termos estritamente classistas não há dúvidas. Já em termos de pensamento social e de visão da vida, o individualismo é um absurdo que conduz as sociedades para a tragédia já visível;
- o segundo tópico é Deus, que os homens inventaram por fragilidade, mais que por sentimento religioso. Os portugueses serão fatalistas, mas não são religiosos nem dispensam Deus. Por isso Deus morreu;
- o terceiro tópico é o corpo, esse templo do individualismo;
- o quarto tópico é a morte inelutável do mesmo corpo. Da energia e da beleza dele, mormente no feminino.
E foi um VF visionário, que antecipou tudo isso!
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Diz quem sabe
António Feio era Mister deLuxe, Austin estava a cargo de José Pedro Gomes. Ambos me mostraram em palco, numa cave da Fontes Pereira de Melo, o que dizia Molero sobre o rapaz que resolveu um dia regressar ao bairro da sua meninice lisboeta.
Mister deLuxe já partiu há anos, agora é Austin em risco. Que a pneumonia grave não é um divertimento à volta dum bilhar.
Mister deLuxe já partiu há anos, agora é Austin em risco. Que a pneumonia grave não é um divertimento à volta dum bilhar.
Curiosidades
Continuação. A ler com filtro.
1 - (...) A 12 de Junho de 1985 era assinado em Lisboa o Tratado de Adesão de Portugal à CEE. (...) Medeiros Ferreira conta-nos como tudo se passou: "A entrada de Portugal na pequena Europa dos nove também tinha subjacente esta possibilidade de retirar meios financeiros do exterior para o desenvolvimento económico e social do país, além de facilitar a vinda de grandes investimentos privados. Tudo isto ocorreu com naturalidade até ao grande alargamento da União Europeia aos países de Leste. A entrada de roldão dos países que saíram da órbita soviética alterou por completo o centro de gravidade da União Europeia. E a crise financeira internacional a partir de 2008 revelou as fragilidades em que assentava a zona euro. A UE passou a exigir muito mais do que oferecia em troca. Daí que o seu prestígio e poder de atracção tenham decrescido nos últimos tempos."
2 - (...) Compare-se a elaboração do Tratado de Maastricht, ou a invenção do euro, com as negociações, no séc. XVIII, para a união federal que daria origem aos Estados Unidos. Qualquer pessoa pode ler com proveito uma série de 85 ensaios, publicados num jornal de Nova Iorque, destinados a persuadir o público dos estados americanos, independentes da Inglaterra, de que a ratificação duma Constituição era um gesto positivo. (...)
"Com igual prazer, noto igualmente que a Providência se dignou dar a este país unido um povo unido - um povo que descende dos mesmos antepassados, que fala a mesma língua, que professa a mesma religião, que acredita nos mesmo princípios de governo, muito semelhante nas suas maneiras e nos seus costumes (...)."
O que se passa na UE é diferente. (...) "Excepto num sentido muito geral, a cultura política europeia não pode ser olhada como uma unidade. Não há uma identidade da prática política ou legal, dos costumes e das tradições. Não há assim uma verdadeira base para o federalismo."
3 - (...) Não se deve tão pouco minimizar o facto de a União Europeia ter auxiliado nações, como Portugal, com um passado autoritário, Uma coisa é nascer-se num país como a Inglaterra, no qual o liberalismo e a democracia são de há muito respeitados, outra num país onde o clientelismo e o arbítrio abafaram a economia e a sociedade. (...)
Deveríamos deitar foguetes? Não, até porque o foguetório é o trabalho que a burocracia europeia melhor executa. Bruxelas gosta de secretismo (...). O instinto dos funcionários europeus é o de manter tudo dentro duma caixa-forte. Para eles, toda e qualquer crítica à organização mais não é do que um ataque dos media, infiltrados por lobbies anti-europeus. (...)
4 - Muito do que é negativo na UE deve-se à linguagem que os eurocratas usam, a qual reflecte o vazio das suas cabeças. Veja-se o Tratado de Lisboa: até os juristas, especializados em assuntos constitucionais, têm dificuldade em o entender.
Quando, em 2008, a Irlanda se preparava para o referendar, o representante irlandês na Comissão, Charles McCreevy, disse que, dos 4,2 milhões de habitantes do seu país, menos de 250 o tinham lido, e, desses, menos de 25 o tinham compreendido. (...)
5 - (...) Finalmente perguntei-lhe (a Durão Barroso) o que pensava da chamada Estratégia de Lisboa. Foi mais uma vez directo: "Era irrealista".
Quanto à crise económica e financeira, eis o que me disse: "Tudo começou nos Estados Unidos, onde se espalharam créditos tóxicos e onde ocorreram factos de natureza criminal. Os governos de entâo não queriam um supervisor comum. (...)"
1 - (...) A 12 de Junho de 1985 era assinado em Lisboa o Tratado de Adesão de Portugal à CEE. (...) Medeiros Ferreira conta-nos como tudo se passou: "A entrada de Portugal na pequena Europa dos nove também tinha subjacente esta possibilidade de retirar meios financeiros do exterior para o desenvolvimento económico e social do país, além de facilitar a vinda de grandes investimentos privados. Tudo isto ocorreu com naturalidade até ao grande alargamento da União Europeia aos países de Leste. A entrada de roldão dos países que saíram da órbita soviética alterou por completo o centro de gravidade da União Europeia. E a crise financeira internacional a partir de 2008 revelou as fragilidades em que assentava a zona euro. A UE passou a exigir muito mais do que oferecia em troca. Daí que o seu prestígio e poder de atracção tenham decrescido nos últimos tempos."
2 - (...) Compare-se a elaboração do Tratado de Maastricht, ou a invenção do euro, com as negociações, no séc. XVIII, para a união federal que daria origem aos Estados Unidos. Qualquer pessoa pode ler com proveito uma série de 85 ensaios, publicados num jornal de Nova Iorque, destinados a persuadir o público dos estados americanos, independentes da Inglaterra, de que a ratificação duma Constituição era um gesto positivo. (...)
"Com igual prazer, noto igualmente que a Providência se dignou dar a este país unido um povo unido - um povo que descende dos mesmos antepassados, que fala a mesma língua, que professa a mesma religião, que acredita nos mesmo princípios de governo, muito semelhante nas suas maneiras e nos seus costumes (...)."
O que se passa na UE é diferente. (...) "Excepto num sentido muito geral, a cultura política europeia não pode ser olhada como uma unidade. Não há uma identidade da prática política ou legal, dos costumes e das tradições. Não há assim uma verdadeira base para o federalismo."
3 - (...) Não se deve tão pouco minimizar o facto de a União Europeia ter auxiliado nações, como Portugal, com um passado autoritário, Uma coisa é nascer-se num país como a Inglaterra, no qual o liberalismo e a democracia são de há muito respeitados, outra num país onde o clientelismo e o arbítrio abafaram a economia e a sociedade. (...)
Deveríamos deitar foguetes? Não, até porque o foguetório é o trabalho que a burocracia europeia melhor executa. Bruxelas gosta de secretismo (...). O instinto dos funcionários europeus é o de manter tudo dentro duma caixa-forte. Para eles, toda e qualquer crítica à organização mais não é do que um ataque dos media, infiltrados por lobbies anti-europeus. (...)
4 - Muito do que é negativo na UE deve-se à linguagem que os eurocratas usam, a qual reflecte o vazio das suas cabeças. Veja-se o Tratado de Lisboa: até os juristas, especializados em assuntos constitucionais, têm dificuldade em o entender.
Quando, em 2008, a Irlanda se preparava para o referendar, o representante irlandês na Comissão, Charles McCreevy, disse que, dos 4,2 milhões de habitantes do seu país, menos de 250 o tinham lido, e, desses, menos de 25 o tinham compreendido. (...)
5 - (...) Finalmente perguntei-lhe (a Durão Barroso) o que pensava da chamada Estratégia de Lisboa. Foi mais uma vez directo: "Era irrealista".
Quanto à crise económica e financeira, eis o que me disse: "Tudo começou nos Estados Unidos, onde se espalharam créditos tóxicos e onde ocorreram factos de natureza criminal. Os governos de entâo não queriam um supervisor comum. (...)"
Pobreza e culturas dela
[A propósito dum belíssimo filme inglês que aí andou há muitos anos, e tive a sorte de encontrar na FNAC. Sobre uma novela romântica de Thomas Hardy, Far from the madding croud.
Na atmosfera rural inglesa da pré-revolução industrial, há um cão de guarda que enlouquece e empurra o seu rebanho para a escarpa, há uma noiva que se engana na igreja onde um granadeiro a espera até desesperar, há uma donzela com apurado sentido feminista, independente e pouco convencional; "é difícil para uma mulher definir os seus sentimentos, numa linguagem sobretudo feita por homens, para expressarem os seus"; há um granadeiro que se afoga no mar e é salvo por pescadores, e um pastor que nunca faz perguntas...
Foi isto num tempo em que o mundo não era ainda uma colónia cultural americana globalizada e estéril, a ruminar pipocas e barris de coca-cola, enquanto palita os dentes e guarda a arma no coldre.]
À sombra dos freixos altos, os gadanheiros limpavam os barranhões do almoço, à volta duma toalha. E depois montavam ali as armas, espetadas no chão à margem da ribeira, para picarem as gadanhas a martelo. No fim puxavam-lhes o fio, com uma pedra que ripavam da água dum corno que traziam à cintura. Por um migalho ainda fechavam os olhos. Mas o feno estava à espera, até ao fim da jornada que acabava em cantorias a caminho de casa. Guardo disto um filme na lembrança.
O Diamantino tinha andado pelo Brasil e um dia voltou à aldeia. Era assinante d'O Século, que chegava pelo correio com alguns dias de atraso. E tinha um cavalo grande, olhava-nos lá de cima quando passava a cavalo.
Não sei onde arranjou ele uma máquina daquelas. Era Krupp, toda em ferro. E tinha um braço que mordia o feno, e se movia à largura do corte, e um assento onde o segador montava. O cavalo grande era a força que a arrastava, lameiro fora.
Num Verão experimentou-se a segadeira, não vieram gadanheiros, nem gadanhas, nem as armas de as picar. Mas o trabalho dela não satisfez ninguém, que desperdiçava os fenos. Soube mais tarde que aquele ferro todo eram restos dos canhões, da guerra que andara longe.
Muitos anos depois viria a descobrir que tudo isto era um filme da pobreza, com uma cultura lá dentro. Hoje sei que a miséria ainda aí anda. Só desapareceu foi a cultura dela, sem que outra tivesse vindo
Na atmosfera rural inglesa da pré-revolução industrial, há um cão de guarda que enlouquece e empurra o seu rebanho para a escarpa, há uma noiva que se engana na igreja onde um granadeiro a espera até desesperar, há uma donzela com apurado sentido feminista, independente e pouco convencional; "é difícil para uma mulher definir os seus sentimentos, numa linguagem sobretudo feita por homens, para expressarem os seus"; há um granadeiro que se afoga no mar e é salvo por pescadores, e um pastor que nunca faz perguntas...
Foi isto num tempo em que o mundo não era ainda uma colónia cultural americana globalizada e estéril, a ruminar pipocas e barris de coca-cola, enquanto palita os dentes e guarda a arma no coldre.]
À sombra dos freixos altos, os gadanheiros limpavam os barranhões do almoço, à volta duma toalha. E depois montavam ali as armas, espetadas no chão à margem da ribeira, para picarem as gadanhas a martelo. No fim puxavam-lhes o fio, com uma pedra que ripavam da água dum corno que traziam à cintura. Por um migalho ainda fechavam os olhos. Mas o feno estava à espera, até ao fim da jornada que acabava em cantorias a caminho de casa. Guardo disto um filme na lembrança.
O Diamantino tinha andado pelo Brasil e um dia voltou à aldeia. Era assinante d'O Século, que chegava pelo correio com alguns dias de atraso. E tinha um cavalo grande, olhava-nos lá de cima quando passava a cavalo.
Não sei onde arranjou ele uma máquina daquelas. Era Krupp, toda em ferro. E tinha um braço que mordia o feno, e se movia à largura do corte, e um assento onde o segador montava. O cavalo grande era a força que a arrastava, lameiro fora.
Num Verão experimentou-se a segadeira, não vieram gadanheiros, nem gadanhas, nem as armas de as picar. Mas o trabalho dela não satisfez ninguém, que desperdiçava os fenos. Soube mais tarde que aquele ferro todo eram restos dos canhões, da guerra que andara longe.
Muitos anos depois viria a descobrir que tudo isto era um filme da pobreza, com uma cultura lá dentro. Hoje sei que a miséria ainda aí anda. Só desapareceu foi a cultura dela, sem que outra tivesse vindo
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