No séc. XV, com a aventura de Ceuta, ocorreram em Lisboa as primeiras rapaziadas de corte, que deram início à gesta gloriosa. Desde então, com ínfimas excepções, a pátria e o povo dela têm sido dirigidos por elites de aventureiros cúpidos e de lunáticos visionários e irresponsáveis.
Porém, nunca como hoje foi tão clara e visível a natureza criminosa e traidora destas elites marginais e desqualificadas. O que não basta, ai de nós, para que o povo dos portugueses tenha consciência disso!
domingo, 9 de março de 2014
sábado, 8 de março de 2014
O último maçaricão-esquimó 20
(Cont.)
Após trinta e seis horas sobre o mar, os músculos e os
nervos começaram finalmente a acusar cansaço. O voo deixou de ser um acto
reflexo inconsciente e infatigável. Agora exigia esforço de vontade, e só a
concentração determinada na tarefa fazia ainda bater as asas debilitadas. Duas
noites e um dia sem alimento tinham afrouxado os processos no corpo das aves,
que arfavam no ar quente dos trópicos. Mantinham os bicos abertos, pois tinham
que respirar velozmente, para cobrir as necessidades de oxigénio dos pulmões.
Três tarambolas novas, que faziam pela primeira vez a longa viagem sobre o
oceano, atrasavam-se lentamente. O maçaricão reduziu a velocidade, até ao ponto
de as aves mais fracas se poderem aguentar.
Ele
sabia que havia ilhas além, a Oeste, por baixo das espessas nuvens do
horizonte. Ficavam apenas a uma ou duas horas de voo. Porém, para as alcançar
era preciso seguir um rumo em que o vento soprava directamente de cauda. E isso
prejudicava o voo, tanto como o vento de frente. Por isso o maçaricão mantinha
a rota inicial. Ele sabia que havia de passar uma terceira noite antes que
chegassem à costa. E se alcançassem terra firme na escuridão, numa noite
cerrada e cheia de nuvens, só poderiam poisar quando os contornos dos mangais
venezuelanos e das ilhas de areia dos estuários se pudessem desenhar na
claridade da manhã.
O dia
demorou muito a passar. Mas finalmente o sol mergulhou no mar das Caraíbas, e
rapidamente ficou escuro, quase sem crepúsculo. As nuvens cresceram e ocultaram
a lua e as estrelas. Caíram as primeiras gotas, o bando chegava aos trópicos em
pleno tempo das chuvas. Era uma chuva ligeira e fina, que refrescava o ar e
facilitava a respiração. E assinalava a proximidade da costa.
Durante duas
horas voaram à chuva. O maçaricão não podia ver nada, mas reconheceu
imediatamente quando deixaram o mar e se acharam sobre terra firme. Primeiro
trovejou, no escuro, a rebentação, e logo a seguir surgiram as turbulências das
correntes térmicas, a elevar-se do solo quente.
As aves
não podiam senão continuar em frente, hora após hora. E agora, sabendo que por
baixo delas se estendia terra firme, o voo tornou-se uma prova de força cruel,
e cada batida de asa uma luta atormentada contra a inércia e o esgotamento.
Muita energia era agora desperdiçada, uma vez que as rémiges estavam de tal
modo estafadas que já não cortavam o ar como pás duma hélice. Tal como o faziam
ao princípio, ao deixarem o Lavrador, com batidas ligeiras e fáceis.
O
maçaricão sabia que, por trás da faixa costeira com praias e estuários de rios,
havia mangais pantanosos. Eles estendiam-se ao longo de 250 quilómetros, e
poisar neste emaranhado era tão difícil como fazê-lo no mar alto. Assim, quando
clareasse, teriam que continuar a voar em frente, até atingirem os Llanos
relvados da Venezuela. As asas tinham-se tornado pesadas, mas o maçaricão
ganhava altura para poder ultrapassar os montes costeiros. Era um tormento.
Atravessaram os montes e o cansaço mantinha-se, crescia de repente em guinadas
agudas, e fazia vibrar cada fibra dos seus pequenos corpos.
A noite
estava escura como breu. Até que a manhã rompeu finalmente, não com amarelos e
vermelhos, mas com uma luz turva e cinzenta. Por baixo deles a terra era húmida
e lamacenta, atravessada por rios largos, como a tundra na Primavera. Tão longe
quanto podiam ver, na luz cinzenta da manhã, estendia-se em todas as direcções
o extenso vale do Orinoco. E continuava a chover.
(Cont.)
quinta-feira, 6 de março de 2014
O último maçaricão-esquimó 19
(Cont.)
À superfície da água havia também outras aves, que passam
a maior parte da vida a cardar no mar alto. Apenas voam para terra quando o impulso
de acasalamento as chama. Paínhos-mergulhadores, de patas coloridas, esvoaçavam
por ali como borboletas, e precipitavam-se entre as ondas. Os seus vultos
faiscavam como reflexos minúsculos, e sem descanso procuravam alimento,
pequenos crustáceos e plâncton. Aves aquáticas que tinham nidificado na tundra,
no meio das narcejas suas parentes, tinham regressado ao mar, em cuja solidão
se manteriam até à próxima época de criação. Casualmente passava um grande
albatroz, com as suas braçadas escuras e tranquilas, a aproveitar habilmente a
impulsão criada sobre as cristas das ondas, pelos movimentos da água. Mas aqui
tratava-se de verdadeiras aves marinhas. O mar alimentava-as e concedia-lhes
repouso quando as asas ficavam fatigadas, pois podiam nadar tão perfeitamente
como voavam.
O maçaricão
e as tarambolas só podiam voar, voar e voar, adiando o descanso e o alimento,
até atingirem terra firme.
Quando a
noite chegou já tinham atravessado o braço da corrente do Golfo que se dirige
para Leste. Encontravam-se agora no meio do Atlântico, numa zona de cinco
milhões de quilómetros quadrados, onde nenhuma corrente agita a água salobra e
onde bóiam ilhas de algas esponjosas. Estavam sobre o Mar dos Sargaços, o mais
estranho de todos os mares. E voavam há vinte e quatro horas sem descanso.
Enormes
tapetes de algas castanhas passavam por baixo deles. Quando perdiam altitude,
viam os peixes-voadores com as suas barbatanas peitorais semelhantes a asas,
lançando-se sobre os rolos húmidos de algas marinhas. Entre elas viviam
caranguejos, camarões e caracóis. Em anos passados, por esta altura, já o
maçaricão tinha avistado os picos baixos do Sear’s Hill, nas Bermudas. Mas
desta vez tinham sido afastados muito mais para Leste pela tempestade nocturna.
O sol caía no mar sem fim. Quando escureceu, a água cintilava com o brilho
claro e frio de milhões de seres fosforescentes.
O
maçaricão conduziu o bando em frente, e durante toda a noite voaram a uma
altitude de cerca de mil metros. De tempos a tempos, as aves comunicavam entre
si através de pequenos gritos. Quando o maçaricão seguia no comando, tinha que
aplicar todos os sentidos para estar atento aos caprichos do vento e aos
impulsos cósmicos. O seu cérebro traduzia estes impulsos num sentido de
orientação. E, quando cedia o comando a uma tarambola, voava num estado de
semi-sonolência. As asas batiam automaticamente, os olhos mantinham-se meio
fechados, e ele seguia o turbilhão da ave precedente quase inconscientemente.
Nessa
noite, a estrela polar e as constelações do Árctico já se perdiam no horizonte.
Para os lados do Sul apareciam estrelas novas. Pouco antes do romper do dia o
vento tornou-se mais fresco. Soprava de Nordeste, forte, constante e monótono.
Tinham atingido a zona dos alísios. Era um vento de bombordo, que lhes
acelerava a velocidade nuns bons quinze quilómetros por hora.
Apesar
do vento, o dia estava quente. E por vezes deslizava à superfície da água a
sombra azul escura dum tubarão. O bando estava perto dos trópicos, o mar tornava-se
cada vez mais azul, e na atmosfera quente formavam-se maciças nuvens
cumuliformes, cujas sombras salpicavam a água. Grossos montões de nuvens
empilhavam-se, imóveis, no horizonte, a Oeste. Eram marcas de itinerário. Por
baixo delas havia ilhas, cada uma com o seu capacete de nuvens, que podiam
observar-se muito antes de elas se avistarem. O bando tinha agora diante de si
o mar das Caraíbas e as Pequenas Antilhas. E lá à frente, por detrás do
horizonte, à distância de doze horas de voo, encontravam-se as selvas e os
montes da América do Sul.
(Cont.)
terça-feira, 4 de março de 2014
A vida das pessoas não, mas a vida do país está muito melhor!
Foi uma besta quadrada que o disse. E, visto assim, é de facto verdade.
segunda-feira, 3 de março de 2014
Afinal em que ficamos?!
O cabrão do Sócrates é que pretendia calar a comunicação social, e afinal são os lacaios do Relvas que pontapeiam os jornalistas?!
Quer-me parecer que têm o que merecem.
Quer-me parecer que têm o que merecem.
O último maçaricão-esquimó 18
(Cont.)
6
O
maçaricão sabia que tinham de continuar a voar para Leste, para que o temporal
os não apanhasse de novo. Mas isso era um simples reconhecimento factual, que
não provocava nenhum sentimento de medo. Já tinha esquecido o pânico do
tempestuoso céu de neve, tinha esquecido mesmo as tarambolas afogadas, só se
lembrava da tempestade. Na sua memória ela não era um acontecimento horrível e
medonho, apenas um inimigo natural com que tinha que contar, e que era preciso
evitar.
Mas o destino
do bando era o Sul, e para Leste apenas se estendia o imenso mar vazio. Assim,
meia hora depois, o maçaricão mudou de rumo e apontou a Sul. Durante cerca de
meia hora voaram nessa direcção, até que a frente fria os apanhou de novo. Logo
que as primeiras gotas de chuva caíram, o maçaricão rodou para Leste, e alguns
minutos depois encontrou de novo a atmosfera límpida e tranquila.
Nas três
horas que faltavam para a alvorada tiveram que repetir várias vezes esta
manobra. Rumavam para Sul até a chuva os atingir, e viravam a Leste para a
manter atrás de si. Voavam precisamente em direcção ao Sul quando um clarão
amarelado rasgou o céu sombrio. Amanhecia rapidamente, a escuridão do mar
transformou-se num verde frio, mas o sol não nascera ainda. Continuaram para Sul
durante uma hora ou duas, o manto de nuvens tornou-se menos espesso, o dia clareou
e o temporal não voltou. Mesmo as grossas nuvens cinzentas a Oeste
desapareceram e a Leste rompeu o sol, como um archote, através das névoas que
se dissolviam. O ar mantinha-se frio, mas em breve só o sol se erguia, no vasto
céu azul.
O bando
tinha finalmente ultrapassado a tempestade, rompendo para Sul. O que ainda
restava das nuvens geladas da noite diluía-se lá para o Norte, sobre os bancos
de pesca da Terra Nova.
No final
da manhã o ar aqueceu, e farrapos de neblinas erguiam-se da água. O céu manteve
a claridade azul, mas por vezes o mar ocultava-se atrás dum véu nebuloso. O
bando aproximava-se do ponto onde se encontram a corrente fria do Lavrador, que
se desloca para sul, e a corrente quente do Golfo, dirigindo-se para Norte.
Aqui, ao largo da Terra Nova, a corrente do Golfo desvia-se para Leste, para o
Atlântico Central. Durante uma hora foram atravessando bancos de nevoeiro, até
que a vista do mar ficou livre. O verde pálido da água deu lugar ao azul marinho,
e as duas cores delimitavam-se tão rigorosamente como o mar e a praia. O bando
encontrava-se sobre a corrente do Golfo, que vem dos trópicos. O verde da
corrente do Lavrador, último prolongamento do Árctico, desvanecia-se atrás dele.
As asas
batiam mecanicamente, sempre com idêntico andamento, como se não estivessem fatigadas.
A atmosfera era cada vez mais quente, pois em cada hora avançavam 80
quilómetros para Sul. E na monotonia do voo só alguma coisa mudava quando
planavam cerca de uma hora, perdendo altitude até à flor das ondas. Depois
subiam outra vez.
Visto
de perto, descobria-se que o mar, tal como a tundra, só na aparência era
deserto e sem vida. As aves passavam ao rés da água, que formigava de vida. Por
vezes cintilavam as medusas, ao longo de quilómetros, como discos brilhantes.
Cardumes de peixes vinham à superfície, e o sol reflectia-se, metálico, em milhares
de corpos prateados. Depois apareciam autênticas nuvens de plâncton, organismos
unicelulares microscópicos, cada um deles um minúsculo ponto, colorido e
invisível. Mas eram aos biliões, e coloriam quilómetros de mar de um vermelho
vivo.(Cont.)
Sem papas na língua
Perante a falência das elites políticas, as indígenas e as outras, e perante a quadrilha de marginais e de traidores que servem a finança e nos destroem a vida, o que este velho diz, e a limpidez com que o faz, sempre são um consolo.
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