domingo, 29 de junho de 2008

Pastiche I


Uma brisa agitou a figueira.
Fogem espavoridos os papa-figos
Lambendo os beiços húmidos.

O do rabo longo


O abelharuco, que tem o rabo longo, passa o tempo a estudar o relvado, saltitando entre a faia e a figueira. Não são, a bem dizer, os figos que o motivam, mas os grilos. Quando algum se arrisca no carreiro, mergulha em cima dele. Crucifica-o no bico, vai sentar-se num galho e come-o. Passou a manhã nisto.
Fora disso abriga-se na sombra e alarga as penas à brisa, a refrescar-se. Só volta ao chão se um grilo se aventura.
Mas mal a gralha, que tem a fala dura, espanejou as asas e desce do carvalho, logo o abelharuco desampara o relvado. Esquece grilo e tudo.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Verão breve

Ausências estivais, vilegiaturas e tarefas urgentes deixarão esta loja algo desamparada, nos próximos tempos.

Terrorismo e terror

A França prepara uma lei que permite cortar o acesso à Internet, para combater a pirataria e o download.
O parlamento sueco acaba de recusar uma lei que permitiria aos serviços de segurança controlar chamadas telefónicas, e-mails e mensagens, sem autorização judicial.
O governo britânico pretende autorização legislativa para criar uma base de dados maior que as que já tem. Servirá para guardar, durante um ano, todos os telefonemas, mensagens, e-mails e páginas da Internet visitadas pelos cidadãos. Uma tal estratégia é indispensável para combater o terrorismo e a criminalidade.
E nós interroguemo-nos.
- a quem interessou destruir, há anos, o edifício de Oklahoma?
- quem atacou realmente o USS Cole, no Golfo Pérsico?
- quem preparou o atentado contra a embaixada americana no Quénia?
- donde veio o primeiro ataque às Torres Gémeas, em que morreram 6 pessoas?
- quem provocou a hecatombe do 11/9, que as destruiu?
- quem dinamitou a torre 7, claramente implodida?
- que disco voador colidiu com o Pentágono, já que não foi um avião comercial?
- que estranho meteoro caiu na Pensilvânia, onde ficaram umas valas?
A única coisa indiscutível nisto tudo, é que a sociedade americana acabou a aceitar o Patriot Act.
Para combater o terrorismo e o crime, claro!

terça-feira, 17 de junho de 2008

Os inimigos do homem

Não vai muito longe o tempo em que se ouvia dizer que os três inimigos do homem eram o mundo, o demónio e a carne. Hoje vemos claramente que foram sempre a ignorância, o medo e o desespero.
A ignorância faz de nós alienados, quantas vezes arrogantes, e sempre manipuláveis pelos mercadores de ilusões.
O medo tolhe-nos a razão, amordaça-nos o espírito crítico, transforma-nos em presas fáceis duma máquina que não compreendemos.
O desespero aniquila-nos, reduz-nos a destroços descartáveis.
Por isso os senhores do mundo, que alugam serventuários como na praça da jorna, exultam com a nossa ignorância, atiçam o nosso medo, empurram-nos para o desespero.
Não têm, nunca tiveram, qualquer limite moral. A moral fazem-na eles, sobre o nosso silêncio de rebanho. E não nos matam à fome, ou com bombas de dez toneladas, se não for estritamente necessário.
Têm é que nos roubar o livre arbítrio, privar-nos da cidadania, capturar-nos a condição humana. Constroem o seu poder sobre costados de escravos. Muitos deles vestidos de Armani.

sábado, 14 de junho de 2008

O Referendo

Dizem que Portugal entrou na CEE por força da agudíssima visão dum estadista, mas não é verdade. Portugal entrou na Europa pela lógica mais elementar, e pela mais natural ordem das coisas. Entrou pelas mesmas razões que obrigam o náufrago a agarrar-se a uma jangada. Passe a imagem trágico-marítima, para não ter que passar a do mendigo de mão estendida, ou outra mais rastejante.
Num Portugal esvaído por séculos de balelas gloriosas, ninguém perguntou aos portugueses se queriam entrar na CEE, nem faria sentido perguntar-lho. É certo que na Europa nem tudo são boas companhias. Mas há transes neste mundo em que melhor se vai mal acompanhado do que só, é do mais básico senso comum. Foi assim que se juntou a fome própria, com a alheia vontade de comer.
A modernização entrou depressa no discurso político, um rio de dinheiro entrou em Portugal, o pugresso instalou-se em marcha acelerada. Saldou-se a pouca indústria pela veniaga dos fundos, saldou-se a fraca agricultura para abreviar os prazos, saldaram-se traineiras por dinheiro vivo. Fizeram-se auto-estradas e estádios de futebol, e resumiu-se o futuro a um Audi de seis cilindros, com trezentos cavalos de potência que alguém há-de pagar. Portugal tornou-se um país rico, e foi deixando correr o marfim, no pelotão da frente.
Mas há sempre patriotas sonâmbulos, e outros que simulam sê-lo. Temem-se da Constituição da Europa, temem-se do Directório, temem-se da soberba dos países ricos. Já esqueceram que quem não tem dinheiro também não terá vícios. E queixam-se do tratado de Lisboa, que nem foi referendado pelo povo, nem lhes representa a voz.
Os patriotas sonâmbulos disfarçam mal um sofisma. Apenas 2% dos portugueses, dos que são pagos para lerem o tratado, se deram ao trabalho de o ler. E só metade dos que conhecem a vulgata aligeirada entenderam o que leram. Nenhum outro português tem a mais pálida ideia do que o tratado contém, nem algum dia a terá. Referendá-lo é, por isso, um fingimento, uma irrealidade, um formalismo vazio.
Porque só há nisto tudo duas realidades. A primeira é o pequeno-almoço dos portugueses, que eles tomam porque são membros da UE. No dia em que deixarem de o ser, logo metade deixarão de o tomar, como bem sabe quem não perdeu a memória. E a segunda é competir aos portugueses fazer, dentro da UE, o trabalhinho de casa. Foi o que nunca fizeram.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Ecos da Sonora IV

A encerrar Ruben A., O Mundo à Minha Procura I, 1966:

(...) Infelizmente a mesquinhice, aliada à mediocridade, é uma das bitolas por que nos regemos. Temos uma cordialidade de abraço, com um vislumbre traiçoeiro no aperto de mão suado. É um tipo de afecto para primeiras impressões, diferente da fria cordialidade nórdica que, sem aparências nem exibicionismos, é actuante e de boa fé.
(...) E o que é ainda mais estranho é pensar que o português saído do seu solo, habitando terra alheia, clima inóspito, brilha como ninguém, brilha a uma craveira notável em que todas as suas qualidades de homem se oportunam. Esta a nossa tragédia: para sermos grandes, ou precisamos de ir para o estrangeiro, ou de morrer. E, já depois de morto, continuar a esperar. Haja em vista o caso de Fernando Pessoa, isto para não falar da poesia de Camões...
(...) No entanto nunca se mata, porque matar - como nos povos espanhol e inglês - já exigia uma grandeza, um Shakespeare, um Siglo de Oro, e isso é-nos alheio. A grandeza humana vive à margem dos nossos sentimentos, é coisa de livros, impenetrável à camada de surro de que nos é difícil despojar. (...)