quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Relíquia antiga - V

Era uma vez uma família muito pobre. Vivia numa aldeia em que as noites eram escuras, e mais longas ainda quando a noite se punha a cantar nas barrigas, antes de chegar a manhã.
Certa noite, num serão de pão escasso, lembrou-se o pai de contar uma história. E vai ele, que bom seria, mulher, termos dinheiro para comprar uma cabra. Havíamos de levá-la à vez a pastar pelos caminhos, para ela encher a barriga dos botões de silvas bravas, quando o sol, na primavera, constrói jardins nas paredes. E quando a noite chegasse, e a cabra voltasse a casa, íamos colher-lhe o leite, e as noites seriam longas, e a família cresceria, já viste mais alegria.
Mas eu não gosto de leite, tornou o filho mais novo. E quando o outono chegar, e as silvas ficarem duras, subo ao freixo do valado, e do mais dourado ramo se há-de fartar nosso gado, disse o outro, confiado. Mas eu não gosto de leite, insistiu o desgraçado.
Numa breve conclusão, perde o pai o seu vagar, e ali mesmo obriga o revel e obstinado filho a engolir duas grandes tigelas de leite na companhia dos irmãos, que assim dormiram toda a santa noite, de barriguinha calada.
É claro que tudo isto aconteceu num tempo muito antigo, enquanto havia milagres e cabras que davam leite.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O trigo e o joio


Na vida dos portugueses já não escasseavam motivos de aflição, nem lhes fazia falta esta calamidade. De elites indigentes trazem às costas uma larga história, do tamanho de séculos.
Mas há no caso vertente o joio e o trigo, que é preciso distinguir.
O trigo não será de primeira, é trigo turco. Mas também com ele se faz pão.
Quando ao joio há que levá-lo à eira, o vento ajuda.

Carta fechada

E assim estamos conversados, Senhor Prof. Cavaco Silva!
Para mim já não era novidade ser muito longa a lista dos actores que em Portugal desempenham papéis muito para lá das suas competências.
Agora fico a saber, ainda assim com surpresa, que o seu nome ocupa nela o lugar mais cimeiro. Mas é o que mais se tem visto, na história de Portugal.

Santíssima Trindade

A pós-modernidade é um elixir destilado nos alambiques da América, e está em todo o lado: na economia, nas artes, na política, nas formas do pensamento, na extravagância do clima, na vida quotidiana, e até na religião. Pois nem a Santíssima Trindade é agora o que já foi.
Hoje é o desemprego em massa (que já veio), a explosão de falências em cascata (que aí estão), e o desabar do sistema monetário (que aí vem).
Basta-lhe o que se passa no Iraque e no Afeganistão, onde afogaram a América, connosco pela mão.

Pobres... de espírito!


Portugal apresentou na ONU a proposta de alargar a área marítima das 200 para as 350 milhas. - O Hiper-Cluster do Mar são os Descobrimentos do séc. XXI! - confidenciou Mira Gomes, outro Infante D. Henrique que é secretário de estado.
Entretanto dizem os jornais que um tribunal de Ponta Delgada condenou o ministério da Defesa a pagar uma indemnização aos pescadores açoreanos, por prejuízos resultantes da ausência de fiscalização das frotas pesqueiras estrangeiras na ZEE dos Açores, entre 2002 e 2004. Por força das grandes frotas de pesca, como é o caso da espanhola e das de outros estados, os recursos haliêuticos estão a ficar cada vez mais escassos, atenta a grande quantidade de embarcações e artes depredadoras. Paulo Portas, um Neptuno que era ministro do Mar, alegou a impossibilidade de fazer fiscalização sem meios.
Aqui há uns anos, perguntei eu a um almirante que foi comigo à escola, por que razão adquiria Portugal uma parelha de submarinos. Ele respondeu-me logo que essa era a arma dos pobres, mas não disse que era a dos pobres de espírito. Deixou à história a rudeza da verdade.

Portugalmente (63)

(...)
Lá segue, entre fogos, pela estrada da Meda. E dizer fogos é só um bem de falar, que já se vai tornando cansativo. A encosta da direita é uma mancha de carvões recentes, e a da esquerda um espinhaço de fraguedos, que os incêndios mais antigos deixaram a descoberto. Ficou este mar ondulante de barrocos que o viajante segue pela margem, e o vai acompanhando até Moreira de Rei.
Nestes prados da quinta dos Cavalos não há cavalos nenhuns. Só João vai caminhando pela berma da estrada e o viajante pára ao lado dele. Não sendo velho é uma figura antiga, delida pelo tempo, ou pela vida. E há nele uma servitude primitiva que este viajante já julgava extinta. De manhã tirou-se de cuidados e foi à vila ao médico espanhol, à boleia dum vizinho. Em breve se despachou e agora não há transportes, não tem remédio senão voltar a pé. Tem a mãe à espera em casa, já muito velha, e ainda mais achacada do que ele. Há mais irmãos, mas desgarraram todos, depois que voltaram de Angola. Foram para lá quando eram pequenos, cresceram nos colonatos do Cunene. Havia o gado, e aquelas terras grandes... Agora o que lhe vale é o rendimento mínimo.
Quando o carro estaca no largo, João ainda não se convenceu de que o viajante parou na estrada e o trouxe para casa. O que lhe vale é o rendimento mínimo. E ao vê-lo assim, a afastar-se cabisbaixo, fica a pensar o viajante que deu boleia a um símbolo de alguma coisa maior.
(...)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Portugalmente (62)

(...)
8
Hoje acordou cedo o viajante, que tem as horas contadas. Esperam-no ao fim da tarde os cavalinhos rupestres no baixo Côa, há que meter pés ao caminho, que vai ser longo. Já se despediu das muralhas de Trancoso, já deixou para trás as portas do Carvalho, já segue para norte pela estrada da Meda. Para trás ficou também a capela de Santa Luzia que não pôde visitar, tão fechada que estava debaixo do seu arco românico.
O bairro da mesma santa, estendido pelo arrabalde que se dispersa na encosta, é uma pequena parte de Trancoso moderno. Mas não há ponto cardeal que a febre da construção tenha poupado. O viajante perdeu-se ontem à noite nos dilatados subúrbios e não pode imaginar donde vem tanta gente habitar estas casas. Por força haverá muitas vazias, que todos os munícipes concentrados na vila não haviam de chegar para as ocupar. Mas a perplexidade do viajante é sem motivo. Havendo dispersas no país inteiro meio milhão de casas devolutas, sempre uma parte caberia a Trancoso, a menos que houvesse um milagre qualquer. A especulação imobiliária fez-se galinha de ovos doirados há uns anos, não há terra em que o betão e uma ideia peregrina de progresso não andem de braço dado. Os construtores trocam as leis e os planos por peitas e ganhuças, os edis fazem o mesmo por taxas e derramas, e os governos, sobre todos, abdicam do país por impostos e sisas. Os banqueiros multiplicam capitais, como é da sua função. E alguém há-de pagar um dia esta factura, se ela não estiver já hoje a pagamento.
O viajante vai ficando cansado destes embates com a realidade, sempre espessa e concreta e angulosa. Ouriçada de esquinas afiladas, que deixam feridas nas mãos. O que dava jeito a este viajante era acreditar em trovas e refugiar-se nelas, se para consolo de almas foram inventadas. Mas não tem ele essa sorte. Há-de parecer que anda à procura de quebra-cabeças e não é verdade. São os quebra-cabeças que vêm ter com ele. Parou aqui à saída da vila, para ver as instalações do mercado dos gados, sem sinais de ocupação há muito tempo. Num lugar de ruralidades dominantes é sempre um gosto vê-las, mesmo assim vazias, que já estarão à espera se um dia o gado voltar. Mas não estão sós no desamparo, pois logo ali à direita, espraiados no vale, andam quinze hectares de pomar abandonados. O viajante pára o carro num caminho de saibro, pula uma parede a observar melhor. O matagal pagão assoberbou as árvores, que lá vão resistindo aos gritos pela encosta. Algumas já secaram, outras lambeu-as o fogo, muitas granjearam frutos enfezados que tornaram à braveza natural. Na vastidão da tapada ficou a branquejar uma inútil estação de tratamento.
Umas vezes protesta o viajante contra a própria ignorância e falta de entendimento. Outras muito suspeita que dez cursos de economia não haviam de chegar para lhe tornar compreensível este mundo. Dá consigo a perguntar o que o faz correr assim, andar por montes ardidos, e pomares abandonados, e terras adormecidas donde a vida desertou. Vinha à procura dum país, a ver se lhe encontrava ao menos as raízes. Mas só esbarra em perguntas que ficam sem resposta. Anda por ali a restolhar no capim, a tropeçar em tubagens de rega, a arranhar-se nos silvedos. Abre os braços à carícia do sol, oferece o peito ao ar de vidro da manhã, e com tanto se dará por satisfeito. É um tolo, este viajante, a querer entender o mundo. Deu com a fronteira da parede, esbarrondou umas pedras, saltou para a carreteira e foi-se embora.
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