quinta-feira, 30 de abril de 2009

Compostura

O Licas é o amigo mais composto que já fiz no autocarro. Logo que chego à paragem lá vem ele oferecer-me o pato de borracha, a melhor prenda que tem.
Traz sempre o mesmo casaco, mas não cheira a mofo antigo nem a tabaco frio. Nunca empata o corredor, nem abusa do espaço do parceiro com a vastidão das cadeiras. Não se diverte a estoirar balõezinhos, nem fica a ruminar a chicla de boquinha aberta. Não se enfeita com pregos nas orelhas, a ver se inventa uma personalidade. Não clama contra os políticos, que são todos uns ladrões. Não pára em segunda fila, nem avança no semáforo o seu Porsche Cayenne, obrigando o autocarro a uma travagem brusca. Nem se põe a publicar, em alta voz, as histórias da cunhada, que é uma cabra.
A dona do Licas apareceu esta manhã por trás da sebe, a apertar a cintura do roupão. Vinha dizer-me que o bicho tem seis anos e não se chama assim. Mas nem ela sabe do que fala, nem é para aqui chamada.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Abril, antes que Abril acabe

A missão do rico é curvar-se sobre o pobre que sofre e aliviá-lo.
[Boletim da Mocidade Portuguesa Feminina, Março 1941]

Há 35 anos, havia em Portugal um gesto que faltava. Era o gesto necessário, fulcral, indispensável, para que o pobre tivesse um país, e o rico pudesse viver sem se curvar.
Orgulho-me de pertencer à geração que praticou o gesto inadiável, que a nossa vida há muito reclamava. Para que todos tivessem um país.
O pior é o sarro da história, que nos confunde as ideias.
O pior são as elites que não temos, porque só nascem da consciência colectiva.
O pior é a economia que nunca edificámos, distraídos com palmeiras e miragens.
O pior são os milhões a vegetar na pobreza, ao lado da clique de gestores mais bem paga do mundo.
O pior é voltar a ser doutrina o que dizia a Mocidade.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

da capo - 28

IDEIAS FIXAS
Ainda ontem era governante e já hoje pagaria para o não ser. Que desabou a máquina do mundo e a coisa é de arrecear. O presidente em sítio num quartel, o ministro descomposto, a secretária apavorada ao telefone. Há blindados a galopar nas ruas, multidões em alarido, comunicados na rádio que ninguém autorizou...
O homem deixou de entender o mundo mas é secretário de estado. E o presidente reclama, na emergência, que alguém lhe desencante um interlocutor. Algum general de peso, não caia o poder na rua, tão frágil que é, o poder.
Arrisca até à praça sublevada, forceja entre a multidão, chega à fala com um soldado que dispara um ultimato ao megafone.
– Sou secretário de estado, trago um mandato do presidente do conselho!
– Apresente-se no PC e exponha as suas razões!
O outro respondeu à continência e aguentou o abanão, mas esgazeia o olhar.
– Sempre são eles quem manda?!
O soldado abre um sorriso, dá ordens ao condutor, embarca o homem num jipe.
– Leva sua excelência ao posto de comando. Põe-me os olhos no caminho, que há gente de ideias fixas!
E esticou o prazo ao ultimato.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Se Maomé não se mexe...

... que há-de fazer a montanha?!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Portugalmente (37)

(...)
Já segue rua fora o viajante, ali em frente está o adro da igreja. E estas casas modernas, mais enfunadas do que a barca de Noé, nascidas onde havia construções antigas não ficarão na história. Afora esta, à direita, mesmo à face a rua. Se fosse distraído o viajante, e confiasse em projectistas, por certo ficava sem cabeça. Porque esta casa ostenta um varandim de sacada, a entrar pela rua dentro, à altura dum pescoço. O desconchavo não podia ser maior. O que há-de valer aqui é não haver hoje em dia a tonteira dos bêbados a cambalear na rua, como antigamente. E terem-se acabado os burros, que hão-de ser agora todos projectistas, ou vereadores do urbanismo.
O adro da igreja é vasto e arejado, e este largo bem podia ser o centro do mundo, decerto já o foi para muita gente. Rodeia uma igreja setecentista, de ampla fábrica e altivo campanário, uma alentada torre de quatro ventanas e um relógio de pesos, fabricado em Almada. A fugir ao calor que começa a apertar, o viajante empurra as portas de almofada, de bom castanho antigo. Passado o guarda-vento, acha-se num refrigério de penumbra. Logo ao lado encontra o baptistério, com uma pia de granito onde qualquer neófito cabe de corpo inteiro. Mas está cerrada a porta gradeada, coberta de ferrugem, talvez do nenhum uso.
Ao fundo, no altar-mor, avulta o esplendor dum S. Martinho orago, de báculo e mitra. Cobre-o por inteiro um caprichado manto, decerto vindo do céu, assim tão novo. Mal havia de parecer o santo a presidir com singela meia-capa, no meio das talhas reluzentes, depois de repartir com o pobre o agasalho que tinha. Nos altares laterais anda atarefada uma devota, entre limpezas e enfeites. É ela que se encarrega dos ofícios de leigos, que ao velho padre já falece o coração, e outro novo não vem, que os não há. Mas não sabe decifrar ao viajante a inscrição que ali está numa pedra, onde a custo se confirma a era de 1712.
Encostado à parede, sobre umas andas de madeira, está um Senhor da Paixão em tamanho natural, a arrastar uma cruz. A cor soturna do manto e o vulto maltratado da figura destoam na placidez da nave. Mas não parecem assustar a devota, a explicar ao viajante que se trata de aquisição moderna, encomendada em Braga há meia dúzia de anos, pela vaidade de dois mordomos que assim quiseram apresentar serviço. O viajante pensa com os seus botões que mais valera terem ficado quietos, os mordomos. Porém, vaidades fora, tudo hão-de ser formas de vida, fazer santos e usá-los. E após uma mirada ao amplo coro, por cima da entrada, sai o viajante por uma porta lateral.
Cá fora, em volta da praça, a desmesura tosca das construções modernas corrompeu o antigo conjunto. Mas o pior foi feito no sagrado, a envolver a igreja, onde já foi em tempos o cemitério antigo. Cobriram-no a paralelos. E quando chega o verão e vêm os emigrantes, põem-lhe automóveis em cima, à sombra do campanário. Isto explica a devota, que já está de partida e põe um ar furibundo, como quem ameaça uma cruzada. Tem ela muita razão, concilia o viajante, embora com diversos argumentos.
O adro empedrado e deserto faz lembrar um tabuleiro de xadrez a estorricar ao sol, com as suas linhas às cores. E a este viajante, que não vinha a contar com maravilhas inefáveis, já lhe bastava encontrar algum respeito pela ordem simples do mundo, a natural harmonia do sol, das águas e da terra: duas plantas a crescer, um triângulo com flores, um regador na mão de horas em quando. Mas isso desapareceu.
(...)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Vanguardas

Está bem! O arquitecto visionou agora um Titanic!
Porém, muito antes dele, já alguém arquitectara a barca bíblica. Um moleiro que eu conheço tirou-a da cabeça, e deu-lhe forma ali, à beira do rio Tua!

Amália

O rapaz chama-se Nuno Gonçalves e tem feito algum furor na música descartável. Porém ultimamente retrocedeu às fontes, voltou ao leite materno do fado. Decidiu revisitar a Amália, para mostrar o lado pop da fadista.
Escolheu uma dúzia de cantigas, fez uns arranjos de instrumental avulso, pôs a mexer uma orquestra de Londres. E misturou-lhe uma voz feminina, melosa quanto baste, que também tem feito algum furor. E ala que se faz tarde!

Se um português marinheiro
Dos sete mares andarilho
Fosse, quem sabe, o primeiro
Haahããããã...
(vigoroso staccato épico das cordas!)

Põem a coitada de pernas para o ar, alheios ao facto de que uma boa fadista tem os seus pudores. Andam aí pelo éter, um dia chegam ao top. Os radialistas da costela pop não querem outra coisa, na sua play-list.