domingo, 16 de fevereiro de 2025

As Aves 5-3

Diz o marquês que numerosos estrangeiros vêm apoquentando el-rei com suas memórias e propostas, visando enriquecer-se a si próprios e ao reino através da agricultura ou das manufacturas, ignorantes de que tais iniciativas e empreendimentos não convêm ao bem do estado,e menos ainda ao sossego e à ventura dos seus habitantes. Pois já que Deus fez do reino o dono de todo o ouro que se tira do Brasil, quase sem ter de cavar, e pois que esse ouro está distante, a mais de duzentas léguas para o interior, o único perigo à vista é a cobiça dos países estrangeiros, que, assaltando os nossos portos, poderiam vir a privar-nos do desfrute de tais tesouros. Nada disso acontecerá, porém, enquanto os ingleses dispuserem do país como vazadouro dos produtos das suas terras e indústrias, caso em que verterão o seu sangue até à derradeira gota, para nos defenderem.

Não têm outra escolha os ingleses, senão trabalhar e proteger-nos, e lá terão a paga assegurada, chega a dizer-se que o ouro do Brasil não alcança a pôr pé em terra portuguesa, que sai das nossas naus para entrar nos porões das armadas inglesas. E assim será, porém do mal o menos, antigamente eram as fragatas holandesas o baú do ouro das Índias, sem mais contrapartida. Pois nós damos aos ingleses maior lucro do que todas as outras nações juntas, sendo eles os únicos a embarcar os nossos vinhos do Douro e as nossas tenras vitelas do Barroso, para uns e outras nos falta a nós aguçado paladar.

Havemos, isso sim, de temer-nos de franceses, prosseguiu o marquês, de quem gostamos mais que dos ingleses, já que somos da mesma religião, e até lhes damos a casar as nossas filhas. Mas a protecção duns nos é mais útil do que a amizade doutros. Os franceses podem fazer-nos guerra sem ferir o seu comércio, e já o teriam feito se não se temessem, no que seriam prontamente ajudados por outras potências marítimas, zelosas das parcas moedas de ouro que os ingleses lhes deixam. E se estes não levam tudo é por mera artimanha política, já que poderiam fazê-lo, dispondo, como dispõem, abundantemente, de toda a qualidade de mercadorias que nos convêm.

Iguais são os motivos por que não desejamos dar-nos à exploração das minas de cobre do Algarve, e das minas de estanho e prata das partes setentrionais do reino, pois assim iríamos arruinar um dos ramos do comércio inglês. Vós sois suíço, vindes dum país que não tem interesse em contender connosco. Por isso vos falo com o coração nas mãos, e vos revelo o político segredo em que assenta a nossa ventura. Só com Roma não podemos manter altercações, já que Roma, embora precisada de nós, nem por isso deixaria de nos prejudicar. Demasiada bulha vem fazendo el-rei, sem falarmos agora do dispêndio de fazendas, só para que os núncios de Sua Santidade em Portugal tenham direito ao chapéu cardinalício. Para açular a inveja dos nossos vizinhos, bastam as bênçãos que Deus nos distribui no Brasil. Havemos, pois, de viver em paz com toda a cristandade, e governar-nos por tal forma que, se uma parte das nações conspirar em perder-nos, a outra se desunhará para nos defender. Deus nos valerá!

Mas não valeu. Nem às pretensões do senhor Merveilleux,  o qual, de abismado, não logrou maneira de contestar o marquês, nem às costumadas penúrias do povo do reino. Já que, à morte deste rei maquiavel agudíssimo, alguma ousada voz de embaixador ilustre, que muito viu e aprendeu nas cortes da Europa, escreverá um dia ao príncipe, herdeiro na sucessão, achará Vossa Alteza boas povoações como Covilhã, Fundão, Guarda, Lamego, Bragança e outras muitas quase desertas, e destruídas as suas manufacturas. Não sei de alguém que a tanto se atreva, porém a mim não me permite a idade final senão a liberdade e o destemor de vos dizer das causas desta dissolução. E vem a ser que, por mão da Inquisição, prendendo uns cristãos.novos e outros fazendo fugir para fora do reino com seus cabedais, por temerem ver-se confiscados sendo presos, forçoso foi que tais manufacturas decaíssem, porque tais chamados cristãos-novos as sustentavam. E a causa segunda vem a ser a permissão que Sua Majestade deu aos ingleses para meterem em Portugal os seus lanifícios, e fios de seda, e vidros, e ferros temperados, e couros curtidos, e toda a sorte de mercadoria.

Razão maior tinha o velho embaixador. (Cont.)

sábado, 15 de fevereiro de 2025

As Aves 5-2

Lá fora batem rijos os aços do comboio furando a noite, alguém lhe chamou idêntica, será verdade. Do que não há que duvidar, se ela própria o afirma, é chamar-se Geneviève esta mulher, e regressar a casa depois duma semana inteira de lições numa escola de sociologia, malquista ciência esta em Portugal, se todas, há séculos, o não são. E de novo lhe aflora ao rosto uma surpresa, agora sim, real e verdadeira, quando sabe serem portugueses estes viajantes de gesto polido, de semblante cortês um pouco melancólico, que falam bem francês e se dirigem a Paris. Dos portugueses, que há anos povoaram a França, tudo quanto lhe consta é serem eles muito sofridos nos trabalhos rudes e elas porteiras humílimas, quem é que falou um dia em rainhas destronadas, uns e outros vivendo em bidonvilles, e a salvarem às vezes da lixeira, a horas da madrugada, bonecos manetas e ursinhos de olhos vazados, com que os filhos hão-de brincar. De Portugal tem sabido alguma coisa pela imprensa, no último ano falou-se bastante duma revolução de flores com militares à mistura, ou duma estranha revolução de militares misturados com as flores. Ao dizer isto a mulher riu-se do jogo de palavras, e logo tropeçou no ar subitamente sério de Gabriel, que não apreciou o trocadilho, para socióloga andará a senhora pouco atenta às realidades do mundo, chama-se a isso na minha terra espeto de pau em casa de ferreiro. Geneviève acusou o toque, faiscou-lhe no olhar uma vibração imperceptível, um virar subtil de agulha, e foi então que deixou cair o pedido cortês, fala-me da tua revolução.

Gabriel apanhou do assento a revista que pusera de lado, alisou-lhe a palma lenta da mão sobre o joelho, ganhou alguns segundos na busca deste fio de novelo emaranhado, e começou a responder.

A minha revolução é uma história marcada há muitos anos num calendário antigo, minha cara senhora, a minha geração tinha-a inscrita no destino desde há séculos, como se os portugueses vivessem ainda no tempo das tragédias gregas, suspensos da mão de fados caprichosos. Nessa história muitos lances dariam para rir se tão trágicos não fossem, alguns de nós se habituaram há muito a olhá-los como farsa e viram costas, por lhes parecer este o modo mais fácil de os esquecer, quem vai agora averiguar razões. Ademais não se deslinda em meia dúzia de palavras, sem esforço e muito tempo, ainda bem que Paris fica longe, a uma noite inteira de caminho.

E, se por algum lado havemos de começar, dir-lhe-ei que existiu em Portugal, um dia, um rei magnânimo e beato, ninguém lhe veio a chamar rei-sol porque um francês qualquer se antecipou, o qual se divertia a assistir aos autos-de-fé dos padres na ribeira do Tejo, e gastou o melhor da vida a povoar o reino de bastardos, que semeou a esmo nos abrasados ventres da freiria incontável de Lisboa. Um dia chamou para lhe estudar o reino o senhor Merveilleux, naturalista suíço, reputado de fama e promissor de nome, pois quem não tem ciência paga por ela, toda a vida assim foi, mormente em se tratando do rei de Portugal que não tem precisão de olhar a despesas, assim se mantenham firmes os filões de oiro do sertão do Brasil.

Comprovam os achados botânicos da utilíssima genciana, curadora de pestes e abundosa nos altos lugares da província da Beira, que o suíço meteu pés aos caminhos e fez o que dele se esperava. Mas não ficou por aí. Homem atento e oportuno, vindo a saber das descargas de salitre que os mercadores traziam da Holanda, concebeu o plano de explorar os abundantes filões de Alcabideche. E apresentou os seus empenhos numa noite, ao serão com o velho marquês de Fronteira, vedor da fazenda, presidente do desembargo do paço, membro do conselho de estado e mordomo-mor da rainha austríaca. Havia de parecer adquirido o desembargo da empresa, melhor porta não havia onde bater. Porém, em vez do bom despacho, o que o homem ouviu foi apurada lição de ciência política, e a prova cabal, se falta cá fizesse, de como em Portugal é subtil e engenhosa a arte de governar. (Cont.)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

As Aves 5-1

Fala-me da tua revolução, foram estas as palavras da mulher, ainda jovem, que entrou no comboio em Dax. Claro que não foi assim do pé para a mão que a imperativa explodiu, tudo na vida tem o seu germinar e o seu nascer, mormente em se tratando da apurada manobra destes comércios humanos. A mulher, que deambulava no cais, a protestar com a neblina e o frio, embarcou finalmente nesta carruagem nocturna, procurou um compartimento mais desafogado, e acabou a decidir-se por este ocupado somente por dois viajantes tranquilos, já era tempo de o serem. Um deles folheia uma revista, o outro vai olhando para lá da janela o que se podever da noite antiquíssima.

A sua entrada acordou naturais curiosidades, atraiu os olhares enquanto se desfazia da capa molhada, Gabriel levantou-se, tenteou um primeiro gesto na direcção do saco de viagem, a consequência foi tê-lo içado para a grade das bagagens. Foi aqui a vezda mulher abrir um sorriso de real ou fingida surpresa, tão raros são de ver, hoje em dia, estes requebros de viril gentileza. Mas antes dela fora Gaspar o primeiro a ficar surpreendido, não há dúvida que mudámos de mundo, onde é que uma mulher portuguesa viria agora sentar-se num compartimento só ocupado por dois estranhos neste comboio, demais a esta hora da noite e prevendo-se longa a viagem. A mulher agradeceu, num jeito contido embora manifesto, e nós, que vamos fazer desta aparente contradição que nos fica nos braços, não tem de quê, foi mais o gesto que o esforço, isto é o que sugere a ínfima vénia de Gabriel e uma poucas palavras em francês.

É bem verdade só existirmos nós por aquilo que fazemos, ou pela função que temos a desempenhar, não faltarão aqui os filósofos da ataraxia atestando o contrário, ou os poetas do fingimento, sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo... contente quase e bebedor tranquilo, A prová-lo, porém, vem Gabriel, que só agora ganhou direito a nome e a uma identidade, não fora este seu gesto cavalheiro e passava por nós sem deixar rasto, tarde demais íamos descobrir quanto ficávamos a perder. (Cont.)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

As Aves 4-7

Os viajantes chegaram à fronteira quando a noite caía. E só João interrompeu o mutismo geral para recolher os passaportes,  saiu devagar da viatura e dirigiu-se à casa dos guardas. O silêncio tornou-se mais espesso e constrangido e Gaspar não pôde evitar um sobressalto no peito, fruto só da pouca habituação a estes andamentos, um carabineiro veio espreitar os passageiros que vêm em turismo, dobrou-se para a minúscula janela, cotejou as caras com os retratos e mandou avançar.

Nada é mais contraditório do que os homens. Passámos a fronteira de França, e sendo isto motivo de particular alívio e geral distensão, a tristeza nos peitos é maior. Estes viajantes deixaram de ter razões de insegurança, ninguém aqui virá saber quem são e ao que vêm, indagar dos falsos passaportes, esmiuçar-lhes um dente irregular no selo branco. Há longos anos tem sido esta terra um local de refúgio de portugueses, dos cladestinos da fome, dos refractários duma comprida guerra, não vai deixar de sê-lo agora para os que doutra guerra escapam. E no entanto cresce a melancolia nestes olhos, passámos a vida a pensar que a liberdade é tudo e enganámo-nos, estamos finalmente soltos e preferíamos não estar, temos o mundo todo à mão e o nosso a ficar-nos para trás, cada vez mais distante.

João é que não esconde o seu contentamento. Procura um restaurante aprimorado, esmera a selecção das vitualhas, pede para nós um beaujolais. O jantar é um consolo para o corpo, a gentileza de França faz o resto. Leva-nos ao comboio, falamos de João que fortemente nos envolve nos braços compridos, antes de dobrar ao fundo a esquina da calçada, uma chuva angustiada cai.

Na vida é como no cinema, conclui Gaspar, preso ainda no relance final do carro branco, insistentemente chove quando alguém se vai embora para sempre. Nos filmes entendemos porquê, na vida não.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

As Aves 4-6

Franco assassino, este era o grito na noite solidária de Lisboa, ouvia-se em Madrid e era verdadeiro, isso bastava. As massas são assim, juntam-se e logo ficam cegas e surdas a vozes da razão, que o turbilhão da ira é uma paixão irrecusável, tão fundo como a raiz da barbárie de que nos erguemos um dia, se dela nos fomos libertando aos poucos, e assim em bando é simples qualquer heroicidade, temos ao mesmo tempo anonimato e luz de palco, mormente se uma oportuna voz nos estiver açulando, sem confessar que para um abismo nos empurra. Tal é o caso desta emissora católica, ocupada pelos trabalhadores em regime de autogestão, como era dito, porém sempre aoserviço da classe operária e do povo trabalhador, isto é o que anuncia o locutor enquanto vocifera dramáticos apelos à luta das massas oprimidas, enquanto incita o povo à revolução aqui e agora, amanhã será tarde, amanhã será tempo de mudar-me de campo e governar a vidinha, amanhã já ninguém lembrará felizmente o que aqui se passou.

Franco assassino, era o que gritava a maré humana que já não cabia na praça, de Espanha também chamada, não viremos a saber se é fé ou delírio o que estamultidão agita, idênticos são uma e outro. E, enquanto estes esgrimem pendões e bandeira vermelhas, já roucos e afónicos das repetidas palavras de ordem, já aqueles pularam o muro e franquearam os portões, de pouco valem os tiros que uns soldados barbudos apontam para o ar, com eles já nós aprendemos que não basta ao cão ladrar. Já subimos a trote a ampla escadaria, feita para os delicados pés dos bastardos do rei D.João, magnânimo como se vê pelo desafogo destes palácios, divina lhes seria a estirpe, mas revolução abençoada é a nossa, que tais portas nos franqueia. Já explodem no ar vidros estilhaçados, e das bocas da janelas voam madeiras partidas e retratos de grão-duques, quiçá espectros de bastardos que uma gritaria assim amedrontou, e cadeiras de espaldar, estantes e reposteiros, sofás de veludo, arquivos, cofres-fortes, tapetes iguais aos da Flandres antiga, e espadas do duque d'Alba, e obras de arte e lombadas de biblioteca, jarrões da Índia, vasos de plantas, documentos diplomáticos, relatórios e memorandos, se não estamos nós a desperdiçar ensejo de aceder aqui aos segredos de Castela, ou da própria terra basca, boa era a conjuntura e não teremos outra, e bonecas sevilhanas, e garrafas de Pedro Domecq. Já espezinhámos com volúpia o retrato do ditador, que fizémos arder neste auto-de-fé, já passaram por nós, sem os termos notado, diversos mariolas com pratas ocultas debaixo das casacas, tudo isto por junto nos custará, não tarda, o melhor de dois milhões, e pior que isso já há tropas espanholas afinando as miras na fronteira da Estremadura, onde estará sediado o quartel-general que lhes traçou a ordem de batalha é coisa que nos fica por saber. E, sem nos darmos conta, desta fumarada foi a revolução que saiu chamuscada, tanto que nós precisávamos dela em boa condição, e foi um pouco mais da nossa liberdade que estas labaredas dissiparam no ar, se Torquemada já cá não está, alguém lhe terá ficado com os novelos.

Pois quem vê caras não vê corações, há séculos que assim é e muito especialmente neste passo, os que são contra a revolução têm mil caras que mostram, e um só coração que escondem. Vejamos este jornal, que se chama O Proletário, parecia que tudo estava esclarecido e não está, que se formos nós além do frontispício e lhe perguntarmos o programa, o objectivo, a finalidade, a linha, a editorial ou outra, ficamos a sabê-lo anti-capitalista, anti-imperialista, anti-social-imperialista, e anti-revisionista, e mais que tudo disposto a combater o trotskismo, e o anarquismo, e o infantilismo de esquerda, e o ultra-esquerdismo, o revolucionarismo verbalista e o radicalismo pequeno-burguês. Assim tão contra tudo, fica-nos por saber se estará ele a favor de alguma coisa, não vimos aqui o fascismo citado. Porém, não cedendo nós à repentina e cínica descrença, afinal o descobrimos solidário com as teses do congresso dos comunistas chineses da revolução permanente, um dia viremos a saber o que isso foi, e também com as teses do congresso do partido do trabalho da Albânia, um país adormecido à beira do Adriático, para que não souber.

Albânia é também o cognome por que se está dando a conhecer o liceu Pedro Nunes, em Lisboa, mais que todos a escola da boa gente da Estrela, e dos filhos-família da Lapa, e dos meninos da avenida Infante Santo, chama-se Albânia e já levou à rendição dum directório militar, que deste modo evitou baixas maiores, é este um fenómeno exemplar e nunca visto, sem querer voltámos à guerra das bolanhas da Guiné, as armas e os caranguejos é que não são os mesmos. Em vão perguntamos nós o que ligará uma coisa à outra, a Albânia a esta gente que sempre nadou em privilégios, e esta gente à mísera Albânia, recôndito lugar que ninguém sabe onde fica no mapa. Em vão fazemos nós perguntas que nos ficam  no ar, pairando no espírito perplexo, tanto tempo levamos a perceber e de tão pouco dispomos. E um dia vem Gustarino lá de longe, escapando do ensanguentado Chile, oxalá venha ele a tempo de nos mostrar o que a sua terra tem vivido, se nos servirá de exemplo, o povo não imagina do que são capazes as classes poderosas, quando se trata de manter ou restaurar privilégios e mando. (Cont.)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

As Aves 4-5

Finalmente achou João que era tempo de acalmar o estômago, porventura enfadado desta solidão em que tem vindo, os viajantes acordaram quando o carro parou em Alsasua. Um após outro se apearam, açoitou-lhes o rosto o  aguilhão da aragem fria a descer da montanha, e o que fazem é o que deles se espera, esticam os músculos, afagam uma articulação dorida, lançam em volta um olhar pesquisador. Ali perto, escoltado por um pelotão de bétulas hirtas, desce a encosta um ribeiro zabgado,, a espumar entre margens de pedra. E pouco se demoram os viajantes no estanco onde procuraram restauro, três velhotes sentados a uma mesa não chegam a interromper o pausado concílio, abrigados nas gorras bascas, dava jeito aqui sabermos nós interpretar.lhes a exótica liguagem, acaso ficávamos a conhecer algum segredo escondido.

Esta atmosfera é diferente. E se um país é também uma cor da paisagem, ou um certo recorte da linha do céu no horizonte, então o país basco não é terra de Espanha, porventura era este o segredo dos três conversadores que ali atrás deixámos. Fosse ou não fosse, é isso o que pensa Gaspar, à medida que a estrada vai serpenteando entre encostas de abetos, à medida que ficam para trás povoados acolhidos ao regaço dos montes, à medida que desfilam chaminés escuras assinalando fábricas. Falava-se muito na Lisboa da revolução, demais se terá falado, que os ânimos andavam levantados e tudo era motivo de análise e disputa, modo de recuperar o tempo perdido em cinquenta anos de silêncio, e os atentados sangrentos traziam a ETA à discussão, alguns mais exaltados a tomariam por modelo, cativos da sua violência radical. A Gaspar sempre escassearam as certezas, de alguém ouviu um dia a frase, quiçá definitiva, muito mal terá feito Madrid à terra basca, para que ela lhe responda deste modo.

Em qualquer caso, que o país basco não era terra espanhola, era o que pretendia Otaegui mais os companheiros. E por este simples ou outro mais pesado crime, todos foram condenados ao garrote num tribunal de Madrid, desmesurado e arrepiante modo de matar e morrer, que só ao generalíssimo cabia comutar. Foi um alvoroço na noite inteira de Lisboa, e esta é uma branda palavra que erradamente usámos, o que ali se passou foi uma bebedeira de vã destruição, foi uma orgia de violência estéril que nenhum milagre podia operar, todos eles acabaram fuzilados ao amanhecer, em Madrid, em Barcelona, em Burgos, como Garcia Lorca o foi em Granada, como levas de milhares de rojos o tinham sido em Badajoz, que tiranos são touroa bravios, uma vez corridos aprendem a sombra do toureiro e avezam-se a buscá-la, disto tem este regime vasta escola e alongado tirocínio. (Cont.)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

As Aves 4-4

O viajante tem fraco entendimento destas simbologias, e das razões que lhes deram nascimento.Observa de relance a dúzia de finas agulhas rendilhadas, que se espetam no céu e lhe causam vertigens, e irrompem dum confuso jardim de ramagens de pedra, dum turbilhão de linhas em que os olhos se perdem em arabescos de calcário, qual teia duma aranha atónita, onde ficaram eternamente imóveis assembleias de apóstolos, concílios de beatos, comícios de sisudos profetas, estátuas de evangelistas circunspectos, bustos de princesas coroadas, academias de arcanjos, virgens a esmagar dragões zangados, béstias mitológicas, sátiros infernais, grifos, tritões, centauros, sibilas, polifemos, elfos e olharapos, copistas presos às bancas, bodes de costas voltadas, sereias de cauda dupla, touros de cornos em lira, gnomos sem cabeça, pégasos alados, águias bicéfalas, demónios a ferver proscritos nus em caldeirões, basisliscos, lobisomens, gáugulas, brasões, e sobre este portal dão-se as mãos um sujeito de casula e mitra e outro de elmo e couraça, e meio escondida aqui neste recanto ergue uma taberneira um pichorrão de vinho em cada mão, e no alto desta coluna abriga-se ao capitel uma abadessa cujos peitos inflados dois faunos abocanham, não vale a pena procurarmos mais, vivas aqui só as gralhas a ralhar entre si nos pináculos, e quem nos espia rindo é o diabo em pessoa, atrás daquele arcobotante.

Gaspar conclui rapidamente o circuito dos terraços e das platibandas, das cornijas e das carrancas, um dia saberá apreciar, um dia aprenderá a entender melhor estes lugares e estes mistérios da vida. Hoje tem apenas a vaga intuição de que ninguém constrói uma fábrica assim, senão para afirmar o poder que tem. Todas as divindades lhe são por igual indiferentes. Mas, a haver um criador dos homens e do mundo, por certo o seu único e profanado templo era o corpo do alvanil que um dia subiu a esta torre para acomodar-lhe a pedra de fecho, e com ela se despenhou, no terreiro desta praça de Santa Maria.

Mal deixam Burgos para trás, caem os viajantes em prolongado sono, não falamos, claro, de João, que não pode descartar-se de papel mais activo e vigilante. A próxima paragem é para lá de Vitória, no fim jantaremos na Baiona francesa e despedimo-nos, isto foi o que ele deixou dito logo à saída, antes de uma chuva miúda e quezilenta vir puxar o brilho à fita negra da estrada, cerrar as cortinas da paisagem e reduzir ainda mais o espaço de manobra aos viajantes.

Assim adormecido, Gaspar fica liberto de cogitações sobre floreados de pedra, e o ofendido corpo do alvanil há muito que regressou ao pó, nem em pesadelos viria agora recuperer alento. E só acordará, falamos de Gaspar, lá muito para diante, quando a isso o forçarem os incómodos da orografia, e os montes do país basco vierem a quebrar a suave monotonia desta rota.

E é pena, que então já será tarde. Cada um sabe de si, verdade amiúde publicada e nem sempre pertinente, sobretudo se tivermos na conta devida quanto pode ajudar-nos, no avaliar das dores próprias, o cotejo com alheios males maiores. Este viajante não nos tem escondido desconfortos e incertezas  ao longo da viagem, às vezes desalento, quando não mau humor. Para seu governo e edificação, convir-lhe-ia atentar nestes caminhos do mundo, trilhados que têm sido por tanta gente em pior condição e mais lastimoso estado. Mas isso são histórias a que Gaspar não assistiu, nem menos adormecido lhe serviriam de consolo. (Cont.)