Jumento queixoso por ter ido à Caparica de óculos escuros e máscara no focinho.
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
Feira de Agosto
Há um sobressalto na paisagem. Do céu fugiu a cor. A brisa bate à porta. Vem entrando Saturno, o melancólico.
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Pardais ao ninho!
Um alferes artilheiro numa base aérea não trazia vantagem que se visse. Mas este era apreciador de música e estava atento às notícias. E assim eu soube que, no domingo, a Olga Prats e o Pizzamillo davam em Carmona um recital.
O que faria um jeitão era o comandante da esquadra dispensar-me um Auster. Muito mais fácil do que fazer de jipe cinquenta quilómetros para lá e outros tantos para cá. É certo que a passarola não tinha sequer o painel iluminado, quanto mais ser capaz de fazer voo nocturno. Mas porém... E eu lá fui, depois do almoço.
As coisas correram bem, com ganhos múltiplos. Porém, sendo tão cedo, resolvi eu fazer uma visita a uma cinturinha de vespa que conhecia na cidade. E assim o resto da tarde se escoou num ai.
Quando dei por mim caía a noite. Despedi-me à francesa, corri a apanhar um táxi e fui para o aeroporto. Meti-me na passarola, dispensei procedimentos, rolei para a pista e descolei de seguida. Durante a subida, ainda acendi o isqueiro para ver a pressão do óleo. À minha volta era tudo escuridão.
A minha referência principal eram as luzes dum carro ou outro, lá em baixo, na estrada. E eu lá fui, sempre a subir, confiando que o motor fizesse a sua parte. A certa altura comecei a ouvir no rádio chamadas insistentes da torre de controlo do Negage. Eu respondi, com um tempo estimado em rota muito escasso, para acalmar o pessoal.
Às tantas lá vi ao longe uma pista iluminada e pude respirar fundo. Afinal a passarola não fazia voo nocturno mas era o tanas! Benzi-me, falei para a torre e fiz aproximação directa.
O mecânico orientou-me na placa, tinha um ar preocupado. E eu corri para a esquadra, onde o chefe me aguardava. Não me restava outra coisa que não fosse pôr o cachaço no cepo.
Foi assim que o desarmei. E lá fomos todos, cada um à sua vida. Ao ninho.
terça-feira, 22 de junho de 2021
Acto Primeiro
Já o pai era um cabeça de vento. Um dia achou maneira de ir para a África e foi parar a Benguela. Lá ficou. E a mãe, que era tecedeira, fraca conta poderia dar dos filhos. Foi por isso que ele, ainda cachopo, foi servir de pastor no Frontelheiro.
A patroa aviava-lhe a merenda numa meia das dela. Até que ele se fartou daquela vida e pensou voltar a casa.
Sempre a pé, por trilhos mal conhecidos, levou três dias para chegar à aldeia. Isto antes de alguém o levar para Matosinhos a servir de marçano. Nunca mais lhe saiu da cabeça essa experiência. Mas isso é o acto seguinte.
segunda-feira, 31 de maio de 2021
Boqueira
As vitaminas da alimentação, miserável e monótona, eram escassas. Imagine-se a desgraça da higiene. De forma que as mães, coitadas, acorriam ao pátio com os crianços ao colo, os cantos da boca em ferida. Tinham boqueira.
Ela trazia numa tijela uma mistura de sal e algumas ervas. Aplicava a mezinha com um trapo húmido na face do cachopo, enquanto murmurava uma prece misteriosa. E era remédio santo, ou um milagre.
terça-feira, 13 de abril de 2021
Ao menino e ao borracho...
Em Fevereiro de 1976 atravessei a ribeira dos Tourões e passei a salto a fronteira na Alta Rasa. Tinham-me prometido dez anos de exílio. Mas em Fevereiro de 78 já se tornara claro que, a haver um julgamento do 25 de Novembro, as regras normais seriam tidas em conta. Ora assim sendo havia que regressar. Porque a guerra era aqui e não lá fora.
E eu não tive qualquer dúvida. Mas também não tinha um passaporte válido, nem era lógico pedi-lo em Berlim. E lá se decidiu que o lugar adequado era o Maputo. Havia que ir até lá, depois de apanhar em Moscovo o voo da Aeroflot que dava a volta a meio mundo.
Nessa época eu tinha problemas com as amígdalas. E surgiam com frequência umas crises danadas, que me exigiam pesados antibióticos injectáveis. Dois ou três dias antes da partida... lá estava mais uma delas.
Preocupado fui ao hospital, onde uma Frau Doktor já madura me ouviu sem se condoer. Ficou-se por umas pastilhitas de chupar!
Era inverno. E eu vesti o sobretudo, apanhei o voo para Moscovo, passei umas horas numa sala de trânsito, e à noitinha parti no avião russo.
A infecçãozita fazia o seu caminho. E eu deixei de conseguir engolir, perante o espanto da hospedeira russa a quem recusei sempre as laranjas e outras vitualhas. A meio da noite aterrámos no Cairo, que se estendia lá em baixo num mar de luzes e noutro de mistérios. Milenares. Pouco depois descolámos, rumo à noite. E quando a manhã rompia achámo-nos em Aden, à entrada do Mar Vermelho.
Aí pudemos sair e estender as pernas. Lembro-me do sol macio, duns indígenas que andavam por ali, mas nenhum deles me pareceu ser o fantasma do Afonso de Albuquerque. Verdadeiro só o leme de direcção dum Mig russo, emboscado atrás das dunas. E ao longe, no horizonte, via-se um monte escuro, que bem ou mal me fez lembrar a Canção do Camões. Junto dum seco, fero e estéril monte...
A etapa seguinte seria Mogadiscio, onde as coisas não deviam andar muito católicas com os etíopes. Ninguém saiu, e a hospedeira russa encostou-se a um tabique, silenciosa, enquanto uma agente local entrou com ar de poucos amigos. Percorreu lentamente a coxia, viu o que havia que ver e pôs-se a andar.
Foi sem demora que nos fomos dali, rumo a Dar-es-Salam, e quando lá chegámos era Verão. Despi o sobretudo, desembarquei, e fiz uma bela passeata lá num parque, com hibiscos, trepadeiras e palmeiras. A fome nem a sentia, que tinha mais que fazer.
Restava um último salto até Maputo. Mas quando quis sair do aeroporto vi-me proibido de o fazer. E com imensa razão, já que não trazia qualquer visto de entrada. Sentei-me lá num banco, livrei-me do sobretudo e deixei-me desabar. As dores na garganta pareceram aumentar, e a cabeça entrou-me em roda livre, à espera duma saída. Até que ela chegou. Pedi ao hospedeiro o favor de telefonar para a embaixada alemã. E de lá chegou um funcionário que me safou da embrulhada.
O homem deixou-me num hotel surpreendente, que era redondo e moderno e se chamava girassol. Ora eu nunca estivera no Maputo, o que conhecera a palmo fora Angola e a Guiné. Não conhecia nada da cidade, nem das surpresas que ela me guardava. Logo que fiquei sozinho vim à rua e pus-me a andar à toa, alguma farmácia havia de encontrar. E encontrei-a. Atendeu-me um farmacêutico branco, de bata imaculada, a quem contei a história. A quem pedi que me vendesse sem receita o antibiótico de nome já esquecido.
Caiu-me o queixo de espanto quando o homem foi lá dentro e voltou com as pílulas na mão. Ao menino e ao borracho... e era mesmo verdade! Voltei para casa, contente como é de imaginar, e de caminho encontrei um vendedor a quem comprei um enorme abacaxi.
Levei para o quarto um prato e uma faca, que me dariam um jeitão. E deitei-me muito cedo, em vista das circunstâncias.
Depois é que foram elas. Passei a noitada em claro, já se vê. As amígdalas estavam mais que maduras, e quando engoli as pílulas foi efeito fulminante. Passei toda a madrugada a escarrar num cinzeiro umas matérias castanhas, ensanguentadas e podres, que me faziam lembrar nem sei o quê.
De manhã dei-me conta de estar novo. As dores desapareceram e finalmente a fome pôs-se a gritar. Fui-me ao abacaxi, comi-o todo.
Restava-me procurar o consulado, que encontrei na avenida Mao-tse-Tung, e pedir um passaporte. Atendeu-me uma mulher que estava grávida, e me pediu uma certidão de nascimento de narrativa completa. Voltei lá quinze dias depois, com a certidão na mão. E nesse mesmo dia a mulher que estava grávida entregou-me o documento.
Confesso que fiquei emocionado, até lhe beijei a mão. Depois fui marcar o avião da TAP, que me traria a Lisboa. Informei o Conselho da Revolução da chegada à capital. E lá tinha à minha espera um senhor que era major, e me entregou em Caxias. Estive lá, se tanto, quinze dias. Fui presente a um juiz que me mandou aguardar o julgamento. Em casa.
Ora casa era coisa que eu não tinha. E o julgamento também nunca aconteceu. A história é que deixou de ser a mesma, com a ressalva de sempre. Ao menino e ao borracho...
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Um tantinho de nozes
Angelina tem mais de setenta anos e vive em Dine, que é o lugar onde nasceu. É um aldeia com fornos de cal, abandonados há muito. E fica atrás do derradeiro monte que limita os fins do mundo. Chega-se lá depois de passar muitas encruzilhadas, e é um lugar tão bonito que nem apetece deixá-lo.
É aqui que Angelina vive, com uma cadela que se chama Luna. Ouve uma pessoa um nome assim e põe-se a fazer perguntas ao instinto.
A seu tempo foi Angelina mãe solteira, duma filha que vive na cidade. Trabalha no comércio, a rapariga, e Angelina está toda contente. Gosta mais de a ver longe neste ofício, do que perto a labutar no campo. Ressalvando a tristeza comum de se encontrarem só de horas em quando. Mas um dia há-de-lhe dar uma netinha.
Angelina vive perto da fontana, ao lado duma represa que também serve de tanque de lavar. E quando chega o Natal faz um presépio ali no jardinzito, para alegria e animação do povo. A casa fica além, debaixo da parreira, e vivem hoje nela a dona e a cadela, conforme antigamente lá viviam a filha e a mãe já velha. Sempre que voltava a casa, Angelina punha-se a fingir a voz duma vizinha, às punhaladas na porta com recados urgentes. - Oh que assim és tontinha, minha filha! - E riam ambas no fim.
Ao contrário do resto da aldeia Angelina não anda de preto, porque não é viúva. E por sobre ser uma mulher com ar alegre, tem um espírito aberto, dado e solto. O melhor será chamar-lhe livre, porque o é. Ninguém lho amansou, que é o que sucede as mais das vezes, quando passa por cima das mulheres o rolo compressor da conjugalidade.
À despedida oferece-nos um tantinho de nozes e castanhas. E confessa que, por esse mundo além, só lhe agradava ver a árvore de Natal numa praça do Porto. Dizem na televisão que não há outra maior, e ela acredita.