Já não sei o que fazia, num lugar daqueles, um alferes de artilharia antiaérea. Mas o facto é que ele estava lá e era melómano.
Foi ele que me deu a novidade de que a Olga Prats e o Bruno Pizzamiglio davam um recital em Carmona, esse lugar implausível.
A mim coube-me pensar que o Auster era o meio de transporte mais adequado e rápido para andar 50 Km e ir lá ouvi-los. Muito mais do que o jipe de volante à direita que os sul-africanos ricos tinham oferecido à esquadra. Além disso era domingo... O comandante da esquadra não colocou objeções e eu lá fui.
Tinha conhecido há tempos a cinturinha de vespa, uma cachopa da terra, numa festa de aniversário. Ela acabara de sair das mãos dum alferes do arre-macho que terminara a comissão e regressara a Lisboa.
Antes de ir para o auditório passei pela casa da cachopa. E foi lá, durante a tarde, que descobri que ela tinha a cintura mais elegante que já me foi dado ver. A mãe manteve-se discreta, e o tempo foi escorrendo, entre blandícias. Até me esqueci do recital. A certa altura olhei pela janela e vi que a noite chegava.
Saí à pressa, e um táxi levou-me ao aeroporto. Meti-me no Auster, arranquei para a pista sem outras delongas, e iniciei a descolagem montado na roda esquerda, que era o meu hábito. O crepúsculo era naquelas terras um intermezzo breve, quando iniciei a subida os montes em volta eram uma escuridão. Tão densa como o painel de instrumentos, que não tinha iluminação.
O regime e as rotações do motor eram de ouvido. E eu fui subindo até me parecer altura de nivelar. Ainda acendi um isqueiro, para ver a pressão do óleo. Quanto à rota, uma estrada que passava lá em baixo, com faróis de viaturas ocasionais, era boa referência.
Às tantas apareceu na rádio a voz do controlador da base, a repetir chamadas insistentes. Eu respondi, dei-lhe um tempo de chegada, até que vi ao longe uma pista descomunal, em parte balizada por candeeiros de petróleo. A torre estava à minha espera. Fiz aproximação directa e aterrei na perfeição.
O comandante da esquadra estava no gabinete, à minha espera. Mal sabia que eu trazia os olhos cheios da cinturinha de vespa. Cuidou que era o piano da Olga Prats a enfeitiçar-me. Eu não desfiz o engano e ele mandou-me ir para a cama. Desarmado.
*Nesse tempo a Olga Prats era assim. Eu não a vi mas contaram-me depois!
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Velho do Restelo
É uma das figuras mais injuriadas e mais caluniadas do sótão da nossa história. E no entanto o poeta deixou dele uma visão positiva, sem auréolas pintadas nem coroas de louro falso.
Era um velho de aspeito venerando, tinha um saber só de experiências feito, e tirou do experto peito anátemas de bom-senso: contra a glória de mandar e a vã cobiça, contra a temeridade que põe em risco a vida, contra as promessas falsas que o povo néscio enganam, contra a vaidade que enleva a fantasia, contra a feridade a crueza a que puseram nome esforço e valentia.
Tresleram-no desde logo os poderosos do reino, que das misérias alheias sempre encheram a barriga. Crismaram-no de timorato e de cobarde. O néscio povo seguiu-lhes o exemplo, e agora já é tarde para mudar.
Era um velho de aspeito venerando, tinha um saber só de experiências feito, e tirou do experto peito anátemas de bom-senso: contra a glória de mandar e a vã cobiça, contra a temeridade que põe em risco a vida, contra as promessas falsas que o povo néscio enganam, contra a vaidade que enleva a fantasia, contra a feridade a crueza a que puseram nome esforço e valentia.
Tresleram-no desde logo os poderosos do reino, que das misérias alheias sempre encheram a barriga. Crismaram-no de timorato e de cobarde. O néscio povo seguiu-lhes o exemplo, e agora já é tarde para mudar.
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Ruínas
(Os fornos crematórios eram todos iguais e eram isto.)
Em 1976 nos arredores de Berlim havia sepulturas pelos bosques, de soldados soviéticos caídos em combate. Tinham flores, e homenagens e cuidados. Na cidade havia o monumento em Treptower Park, ao soldado soviético que tomou Berlim.Em 1995, numa aldeia distante, ao lado dum cemitério comum havia também um cemitério judaico, com pedrinhas nas campas e nas áleas. Na aldeia passava uma linha de caminho de ferro que vinha do Sul.
Os nazis queriam esconder a hecatombe da solução final e dos campos de concentração. Mas o Jukov já vinha perto, a caminho de Berlim. Então os nazis atulhavam vagões de gado com prisioneiros e mandavam-nos para o Norte, para o Báltico, na esperança que o mar lhes oferecia de se desfazerem deles.
O comboio parou aqui, abandonado nos carris. E foi dos mortos que nele foram achados que o cemitério se fez.
terça-feira, 2 de maio de 2017
Plutocracia 2 - Belle-Époque
"As exigências do meu trabalho levavam-me para rumos bem diferentes: para o meio de intelectuais fatigados, cuja força criadora se mirrara num simples desejo de entreter e agradar; homens e mulheres que viam na poesia, no amor, no sacrifício e até na dor humana tão somente motivos para silogismo e jogos de espírito. Eram eles os artistas que tinham nascido bem-fadados, que não criavam nada, e contudo davam a nota nas rodas cosmopolitas de arte e literatura; autores de bom ton e de bonne compagnie que escolhiam bem as suas palavras, untavam-nas bem, para que elas entrassem por um ouvido e saíssem por outro sem atritos, sem tocar em nada à passagem; críticos cuja ocupação principal era manejar a escova de polir; os petits précieux de Molière, excentricamente trajados, de maneiras impecáveis, que compunham doutrinações para os jornais sólidos e bem pensantes, financiados pelos trusts das munições e pelos reis do aço; poetas que pontificavam e super-realizavam, supra-inspirados; mulheres que pagavam a aristocratas decaídos para irem visitar em sua companhia os bas-fonds de Montmartre e verem um proxeneta deitar-se com a sua amante dentro dum ataúde, ou um gigolô negro sodomizar uma mulher branca; (...) financeiros que exploravam plantações de borracha no Senegal, canaviais na Cochinchina, bananais na Guiné, minas de ouro no Cameroun e cinemas em Marselha e Buenos Aires. Toda essa gente refinada andava constantemente em busca de novas sensações, novos arrebiques, novas emoções, novos frissons em arte, amor e literatura. (...) Queriam a arte sintética, confundiam publicidade com fama, e imaginavam que podiam comprar a paz de espírito como se compra um par de chinelos num bazar. (...)
Uma das minhas incumbências era a de investigar os mistérios do Bosque de Bolonha, os deleites dos bares de Montmartre, as alegrias dos cabarets do alto da colina, onde dezenas de milhares de americanos esbanjavam milhões de francos em prazeres duvidosos. Estávamos no meio daquele afluxo anual de turistas que atingiu o auge no Verão de 1929, e nunca mais se repetiu. Eles desciam sobre Paris como um nuvem de mosquitos, machos e fêmeas, magros e rechonchudos, homens de óculos, mulheres de saias curtas, brancos e pretos, ricos e pobres. O franco andava cotado a quarenta e cinco por dólar, e os títulos americanos subiam vertiginosamente. (...) A lotação das Follies-Bergères era vendida com uma semana de antecedência, as mondaines dançantes achavam-se todas tomadas às seis da tarde. A América queria dançar! (...)".
Uma das minhas incumbências era a de investigar os mistérios do Bosque de Bolonha, os deleites dos bares de Montmartre, as alegrias dos cabarets do alto da colina, onde dezenas de milhares de americanos esbanjavam milhões de francos em prazeres duvidosos. Estávamos no meio daquele afluxo anual de turistas que atingiu o auge no Verão de 1929, e nunca mais se repetiu. Eles desciam sobre Paris como um nuvem de mosquitos, machos e fêmeas, magros e rechonchudos, homens de óculos, mulheres de saias curtas, brancos e pretos, ricos e pobres. O franco andava cotado a quarenta e cinco por dólar, e os títulos americanos subiam vertiginosamente. (...) A lotação das Follies-Bergères era vendida com uma semana de antecedência, as mondaines dançantes achavam-se todas tomadas às seis da tarde. A América queria dançar! (...)".
Gato por lebre
Apanhadas entre fogos cruzados múltiplos, as galinhas extinguiram-se em Espanha, durante a guerra civil. Com elas foram os ovos.
É por isso que, no fim, quando a guerra terminou, os compradores de Castela e de Leão vinham a Portugal comprá-los. Paravam aqui na aldeia e matavam a fome na taberna.
É claro que havia a eterna dúvida, quando se sentavam à mesa. A cozinheira jurava que era coelho, mas eles suspeitavam de que era gato, a que chamavam romízio.
Depois lá iam, a alimária carregada de ovos. Por cá ficou apenas a expressão.
É por isso que, no fim, quando a guerra terminou, os compradores de Castela e de Leão vinham a Portugal comprá-los. Paravam aqui na aldeia e matavam a fome na taberna.
É claro que havia a eterna dúvida, quando se sentavam à mesa. A cozinheira jurava que era coelho, mas eles suspeitavam de que era gato, a que chamavam romízio.
Depois lá iam, a alimária carregada de ovos. Por cá ficou apenas a expressão.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
Plutocracia*
Li-o a primeira vez emprestado por um amigo, no Porto. Era ele um velho stalinista que só ouvia as prédicas do comité central, o que hoje se compreende muito bem. Mas depois tive que lho devolver. E foi num alfarrabista que acabei por encontrar o exemplar que hoje tenho em casa.
A minha leitura dele é agora diferente. Mas continua a ser instrutiva e cativante. Não é um manual de história de encartados, porque é melhor. Passa nele a vida das pessoas, a que tem sangue e lágrimas e dramas.
É a história duma loucura antiga, de há cem anos, que as elites repetem conforme lhes convém. Com dados novos, como era de esperar.
" (...) Tinha imenso respeito a esses homens, que ousavam remar contra a corrente. Vejo agora que eles foram os legítimos heróis da guerra. Expostos ao opróbrio do mundo pelas nações cristãs, curtindo anos na cadeia e nos campos de concentração pelo crime de se haverem negado a assassinar, eram eles os verdadeiros campeões dos princípios cristãos mais básicos e essenciais. (...)
Das verdadeiras causas da guerra nada sabíamos. E esta foi uma das lições que me ensinaram as lancinantes experiências da guerra: o dever de revelar ao meu próximo o que me foi dado conhecer das engrenagens que provocam tais catástrofes. Os alemães não são mais bárbaros que os outros povos. A guerra não é consequência dos instintos bestiais do homem, mas o fruto de profundos antagonismos sociais, que opõem às forças naturais os interesses constituídos. Não só a guerra, como também a ruína e a decadência que feriram todas as nações após a guerra, são resultado do mesmo desajuste fundamental: a exploração duma maioria produtiva por uma minoria locupletada. (...)".
(NOTA: De facto, o conceito que parece abranger o essencial da questão aqui posta em causa parece ser o de plutocracia alienada dos povos, ainda em vigor.)
Peregrinação
"(...) Na estrada a tabuleta anuncia o Solar dos Brasis, na aldeia chamam-lhe a casa das fidalgas. Seja ele como for, é um insólito lugar. E o viajante já por aqui andou alguma vez, atraído pela gala das talhas, pela febre das cores a gritar nas madeiras, pelo mistério simétrico das janelas, a fingir horizontes pintados nas paredes.
O viajante empurra um portão carcomido. Mas não encontra o Gastão, sentado atrás da bancada, a fazer bonecos de madeira a canivete, e flautas de cana para vender aos turistas. O anexo do solar está fechado, a cumeeira mestra já ruiu, e quem recebe o viajante é uma assistente que anda por ali, de mau feitio e pior catadura. Logo lhe dispara a novidade da morte do feitor.
Antigamente o Gastão habitava estes anexos e olhava pelo conjunto. Ele era neste lugar a única coisa viva e queixava-se do IPPAR, e das águas no telhado, dos roubos das imagens e da segurança escassa. Mostrava ao viajante as palmeiras do jardim, as japoneiras em flor quando era o tempo, levava-o à mãe-de-água de pedra à beira do ribeiro, nas terras que um fidalgo arrematou ao fisco à vinda do Brasil, há muitos anos atrás. Tinham sido confiscadas a um marrano qualquer pela Santa Inquisição.
Subia depois ao belvedere, virado às doçuras do poente, e mostrava o salão de honra nos altos do torreão. Era um deslumbramento inusitado, olhava o viajante a paisagem lá fora e não acreditava no que estava ali, à frente dos seus olhos. O tecto era um céu de caixotões pintados, com o brasão do fidalgo no lugar central. O resto em volta eram painéis de santos e naturezas mortas. E tão mortos estavam, as naturezas e os santos, que uns prometiam a ruína e as outras já desabavam, comidas da humidade. O todo apoiava-se nos cantos em anjos-cariátides, empenachados como índios do Brasil.
Finalmente o Gastão conduzia à capela um viajante estonteado, cativo do esplendor dos ouros, do jogo das simetrias barrocas, dos exotismos da flora mineira, com crocodilos, e palmeiras e coqueiros. A Senhora da Penha de França lá estava em apoteose, entre prodígios de arte e opulência, cercada de querubins, envolta em festões e grinaldas. À direita uma porta a fingir, reflectindo a entrada verdadeira na parede da esquerda. E em cima, à esquerda, uma janela pintada, a espelhar a verdadeira, que à direita abria para a ruela.
Depois contava ao viajante a história do fidalgo, que ali se mostrava em dois retratos de tamanho natural. Dum lado o escarlate da labita cortesã, do outro o hábito escuro das ordens que tomou, já sexagenário. Luís de Figueiredo Monterroyo foi-se ao Brasil, ao ouro, no tempo dele. Era capitão da armada real e provedor dos quintos de el-rei em Vila Rica de Ouro Preto, nas minas de Sabará. E à desmedida fortuna acumulava uma filha, a mulatinha Angélica, que fez numa escrava da Mina por quem tomou paixões. "Mercê que fez Nossa Senhora no Instituidor, vendo-se em perigo de morte no sertão do Brasil, em jornada de 900 léguas às Minas de Ouro". E o Gastão mostrava, num ex-voto, um dragão pintalgado, a soprar fogo ao fidalgo em terror. "Milagre que fez Nosso Senhor, no mar da Bahia...". E era um barco a adornar, a vela já perdida, o fidalgo no convés a amparar a mulatinha.
Ao ver-se em aflições, implorou D. Luís a protecção da santa, jurou construir-lhe uma capela que não tivesse igual. Em 1727 cumpriu-se o voto aqui, ao lado dum solar que ninguém concluiu, e dum convento franciscano que não chegou a existir. Onde o meu cavalo parar, aí o santuário hei-de levantar. O cavalo é que escolheu este lugar, concluía o Gastão, antes de mostrar ao viajante, num livro dum letrado, que a mulatinha se finou solteira sem deixar descendência, no ano em que assaltaram a Bastilha. E que o Solar dos Brasil é testemunho da boa aplicação em Portugal do ouro de Sabará.
Agora o Gastão foi-se embora e com ele a sorte deste viajante, que se limita a uma ronda exterior do solar dos Brasis. O IPPAR pôs-lhe um telhado novo, e trancou as portas e janelas com grades de ferro chumbadas na ombreira.
Ao contrário do letrado, o viajante só vê neste lugar um tempo triste da história, que deixou aqui um túmulo, mais um, onde embalsamaram Portugal. Chegavam rios de ouro nos porões, a um país sangrado pelo império. E acabavam aqui, neste espavento, sem deixar outro sinal nas vidas. Mas este viajante nunca o disse ao Gastão, e ele foi-se embora sem saber a verdade. Ao menos foi em paz. (...)".
[PORTUGALMENTE - Peregrinação da Lapa a Riba-Côa, Ed. Âncora e Fund. Vox Populi, Lisboa, 2012]
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