quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Adamastores de papel

A vilória, que não vem no mapa, tem uma avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao meio. Em volta dela espalham-se arrabaldes, onde há anos se secava o milho no final do Verão, quando o havia. O burro ficava preso numa ferradura entalada na parede. E nada mais existia nem existe. Por isso é na avenida que os novos adamastores instalaram o circo.
A única coisa que os motiva são as coimas do trânsito: são elas que os justificam, que lhes fazem currículo, lhes arredondam a bolsa doméstica e compõem o orçamento das finanças.
Este escriba já foi mimoseado com uma coima transitória de 250 euros, e a pena acessória de perder a carta de condução durante o máximo de um ano. Será um exercício gratuito e muito doloroso, mas na minha longa vida já vivi coisas piores.
Tudo o resto que diz respeito ao trânsito lhes é indiferente: os imbecis que viajam de farolada ligada a encandear os outros, às vezes um farol caolho, outras vezes a sair do nevoeiro sem uma candeia acesa. Na noite de fim de ano, por essas estradas, sete condutores foram parar à morgue. Mas tudo isso é indiferente a estes parasitas.
Calçados nas botas de cavaleiros do regulamento, falam grosso aos cidadãos comuns na avenida Gago Coutinho que não vem no mapa. Talvez se fodam.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Satie

Gymnopédie 1.

Grão de areia

Sei que é um sobressalto na engrenagem. Porém é necessário, se não imperioso. Ainda anda aí em certos círculos, não se pode ignorá-lo.
Em tempos que já lá vão, sempre que Savimbi andava politicamente na mó de baixo, vinha a família Soares em socorro.
João Soares sobreviveu ao desastre na Jamba com fortíssimos danos. O avião despenhou-se à descolagem, carregado de marfim. Porquê?
Como se justifica a peripécia?
A pergunta fica aí.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Memorial

Releio o Memorial do Convento. E é verdade o que Saramago disse: 80% da literatura é linguagem.
Era. Porque hoje ninguém sabe o que isso seja, além da imagem duma ignorância negra. É o que o mercado fez dela.

«(...) Nas janelas só há mulheres, é esse o costume. Os penitentes vão de grilhões enrolados às pernas, ou suportam sobre os ombros grossas barras de ferro, passando por cima delas os braços como crucificados, ou desferem para as costas chicotadas com as disciplinas, feitas de cordões em cujas pontas estão presas bolas de cera dura, armadas de cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibem verdadeiro sangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tanto pelos motivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos se não soubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo.
Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas às cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo amador sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladaínhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de-rosa, ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, é aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não podendo falar, berra como o toiro em cio, mas se às mais mulheres da rua, e a ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente, ou que a vergastada foi em jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do coro feminil grande assuada, e possessas, frenéticas, as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o estralejar dos rabos do chicote, que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. (...)»
O que hoje se passa nas Filipinas tem antecedentes muito antigos, no Corpo de Deus lisboeta.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Emperor

Piano concerto nº5.

Em alta

Ando por essas estradas e constato: 98% dos carros com que me cruzo são mercedes reluzentes, são bmw's que dão 300 kms, são audis carregados de argolinhas!
Só me sobra uma questão: quantas voltas ao mundo têm que dar os portugas indígenas, até perceberem que isto não é o da Joana?! 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Porque impossíveis não há...

Se alguma vez tal coisa chegar a existir, o que não é nada fácil, foi este o pai de Portugal moderno.