quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Perplexidades

Repetidas, renitentes, recorrentes.

Dizem

Sim, dizem! Que estes cedros vieram da Toscânia, em camião expresso, para emprestarem uma patine clássica às muralhas de Trancoso. 
Dizem que eles ainda não foram pagos, porque a factura se perdeu numa embrulhada qualquer. Dizem, mas ninguém sabe.
O que se sabe é que os Paços do Concelho estão a cair de podres e a meter água. E sabe-se também, por estar à vista, que a praça dos mercados está numa ruína vergonhosa, em que os vendedores das bancas protegem os produtos de guarda-chuva aberto.
Claro que isto, como tudo, tem uma explicação. A dita cuja está no cabrão do Sócrates, esse proscrito, que nos conduziu tenazmente à bancarrota.   

Informar

O Público de ontem escreve em editorial:
« (...) Sim, há jihadistas oriundos de países da União Europeia e até há pelo menos 
doze de nacionalidade portuguesa. E se a descoberta não devia ser tão surpreendente 
(foi também na Europa que foram planeados os infames atentados do 11 de Setembro de 2001), a verdade é que a simples difusão deste facto reabre o dossier da desconfiança 
generalizada.»
Assim mesmo, entre parêntesis, o jornal produz duas afirmações simultâneas: as queda das Torres Gémeas foi um atentado do Bin Laden; e o seu planeamento foi feito na Europa.
A primeira resulta duma fezada, e pronto. Pouco importa que a bota do sucedido não dê com a perdigota da sua explicação. É uma questão de crença!
Já sobre a segunda, não era mau que o jornal se explicasse melhor: onde foi que as coisas foram planeadas, por quem e quando.
É que informar consiste nisso.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Outro olhar lúcido

Sobre o "Estado Islâmico".

Um olhar

Sobre a Ucrânia.

Canícula

Vai aqui relembrar.

Sebastianismo 2

[anterior]
(…) «O mito sebastianista, como tentaremos demonstrar, reside num processo alucinatório da consciência de alguns portugueses (posteriormente elevado a parte integrante da história colectiva de Portugal), sobretudo dos seus principais criadores e seguidores no séc. XVII [nomeadamente, D. João de Castro (neto), Frei Sebastião de Paiva e Padre António Vieira], face a condições sociais e políticas totalmente adversas (decapitação da quase totalidade da nobreza; morte ou desaparecimento do rei; perda da independência; humilhação patriótica pela passagem do Império para mãos castelhanas), reunindo ou cruzando três mitos pré-existentes – o mito celta do Rei Artur; o mito milenarista cristão do abade Joaquim de Fiori e os mitos d’O Encoberto e do Quinto Império registados nas Trovas de Bandarra.
O mito sebastianista, como processo alucinatório, instaurador duma verdade auto-referente, base da narrativa mítica sobre el-rei D. Sebastião, opera a suspensão do tempo histórico cronológico, ou desqualifica-o ontologicamente como tempo fraco ou de decadência (o real sensível dado à percepção ou à compreensão da razão), substituindo-o por um tempo mítico, meta e trans-histórico, que a todo o momento pode ritualmente ser activado, simbolizado na inscrição acrónica com que Fernando Pessoa encerra o livro Mensagem: «É a Hora!»
Porém, como alucinação mental e, posteriormente, como narrativa mítica, o sebastianismo não corresponde a uma total falsidade, como pensava António Sérgio. De outro modo, estatui-se como uma criação colectiva, onírica (sonho diurno, “imaginal”, no dizer de José Marinho), delirante, enquanto resultado de uma alucinação inicial, correspondente a um profundo mal-estar dos portugueses que não encontram explicação racional (justificação argumentativa lógica, objectiva e necessária) para o permanente estado económico de falência e de insucesso social a que as elites políticas têm conduzido Portugal desde o séc. XVII, projectando esta explicação, de um modo alucinatório e delirante, para a ordem da Providência divina e do messianismo, isto é, para a esfera do sagrado. (…)
Nesse sentido, o sebastianismo, como o define magistralmente Eduardo Lourenço, constitui o «máximo de existência irrealista» de Portugal, mas também o «máximo de coincidência com o nosso ser profundo», já que representa «a consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência é real». (O Labirinto da Saudade, 1978, pág. 24). (…) [Pág. 12/13, sublinhados meus]

Nota 1 – A primeira coisa que qualquer “pensador” tem que resolver é a questão formal do discurso e a sua transparência expositiva. Ninguém transmitirá qualquer ideia com clareza, usando um discurso ‘embrulhado’, de frase quilométrica, a desdobrar-se num labirinto de atalhos subordinados, onde o fio do entendimento de qualquer leitor naufraga. A frase longa pode ser um recurso de grande valia significante, em casos específicos da ficção literária (o Saramago original que o diga!). No caso do texto expositivo, não-literário, é uma pecha fatal (E. Lourenço que o ateste!).
Nota 2 – Os alçapões e as contradições dos nossos pensadores sobre o tema depressa se manifestam:
- o mito nasce dum processo alucinatório da consciência de alguns portugueses, mormente os seus criadores e seguidores;
- o mito instaura uma outra verdade, opera a suspensão do tempo histórico, substitui-o por um tempo mítico;
- mas afinal o mito acaba sendo uma criação colectiva;
- por uma alucinação, o mito transfere a explicação duma realidade insuportável para o divino, para o messiânico, para o sagrado;
- essa carência insuportável é real;
- o sebastianismo não corresponde a uma total falsidade, como pensava António Sérgio;
- está à vista que o mito é uma armadilha, uma alucinação, um engano, um tapa-olhos, um capote de toureiro, que certas elites manuseiam.
[seguinte]