Não sei bem a que exacto propósito. Sei só que o Primeiro-Ministro do Governo que há hoje no meu país veio louvar e agradecer aos portugueses a resignação e a paciência de que têm dados mostras, perante a situação de crise que os fustiga e as políticas que os dizimam.
Na parte que me respeita, quero aqui, pessoal e expressamente, dizer a Sua Excelência que vá louvar a resignação para casa do caralho! E agradecer a paciência à puta que o pariu!
quarta-feira, 6 de junho de 2012
A troica do passeio das estrelas
Eu, troicas, conheço várias. Num instantinho chego à meia dúzia.
A mãe de todas as troicas, tantos erros, tantos crimes, que um dia virou madastra dos filhos que a idolatraram.
A troica dos financeiros que nos assaltam a casa.
A troica dos aldrabões a dar a volta a um papel.
A troica do passeio das estrelas, de que temos que falar.
[clicando talvez se veja!]
O senhor presidente decidiu fazer mais obra, não pode viver sem ela. E não havendo na lei qualquer tutela de mérito, podia perfeitamente construir a disneilândia, nuns quintais do município. Mas felizmente optou por disparate menor. Fez uma parceria publico-privada, e betonou todo o rossio da feira. Uns três ou quatro hectares.
Para dar a volta aos rezingas do ambiente, mandou aplicar cimento bago-de-arroz. Disseram-lhe uns entendidos que é tão perfeitamente permeável como um solo de cascalho. E logo se dispensou da opinião dumas tílias, duns vulgaríssimos plátanos, e dum par de freixos velhos que se queixam do progresso. Já o Távora, que aqui tem a incubadora, nem lhe passou pela extenuada cabeça.
E assim foi que, rossio em fora, para dar campo à veia criativa, desenhou o arquitecto ao presidente um passeio das estrelas. É uma faixa de ruptura estetico-visual, de elementos minimais e fracturados, interditada ao trânsito vulgar pelo senso mais comum.
Sucede que à mão esquerda, (mal distintos na figura), há uma fila de microdifusores, que aspergem vapor de água refrescante. A ver se tornam citadina esta canícula. Mas umas velhas finórias, fartas de aturar o mundo, quando o calor as aperta no mercado, enfunam a saia à mão e fazem-se de estrelas. Dizem elas que é um consolo, ir ao passeio assim de perna aberta.
E então a troica?! Ora a troica! É um terceto de maduros, igual às troicas todas! Tem lá dentro um presidente medíocre, que trinta anos de poder ensandeceram; um arquitecto caríssimo e famoso; e um empreiteiro que se põe a jeito e vai ganhando dinheiro. Não mudam eles, nem muda o orçamento que os sustenta. Nem sequer mudamos nós, que o custeamos. Isso seria um milagre que nenhuma troica faz.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Ranço
Usando o calão rançoso das eras do adamastor, Cavaco julgou por bem lembrar aos tugas da bola, à despedida, que o povo português se agiganta nos momentos particularmente difíceis.
O que lhe vale a ele é ser um aldrabão triste.
Que se isso fosse verdade, há muito já estava ele a fazer festas aos netos, e a apanhar um sol às pernas, na marquise da travessa do Possolo.
O que lhe vale a ele é ser um aldrabão triste.
Que se isso fosse verdade, há muito já estava ele a fazer festas aos netos, e a apanhar um sol às pernas, na marquise da travessa do Possolo.
Ecos - 2***
Nos últimos tempos já só descia à rua de galochas e máscara no nariz, o desconchavo de alguns condóminos atingira proporções inauditas. Que ele, a bem dizer, o ambiente local nunca fora o que pudesse chamar-se impoluto. Desde há muito que vivia no andar de baixo uma cabra do gerês, um lince da malcata no terceiro-esquerdo, e no rés-do-chão um buldogue assustador, feio como os trovões.
À noite saíam todos ao beco, a soltar a musculagem de eunucos, e sempre que os encontrava no elevador era sabido que metia pulgas em casa. O pior, no entanto, era o estado em que ficavam os passeios. Havia sempre um distraído a patinar nos monturos, quando não era um noctívago azarado que aparecia espalmado em cima deles.
Começou a sair apenas em altura de grandes enxurradas, ou nas noites em que o pessoal da câmara varria as imundícies à força de agulheta. Um dia, a menina do quinto-esquerdo recebeu nos anos um pónei da Cornualha, e os tipos do quarto-frente encontraram abandonado numa estrada da província um velho asno andaluz, coberto de mataduras. Logo o empilharam no reboque da mota de água, e amesendaram-no na marquise.
As coisas agravaram-se muito, desde então, em aromas e em espécies, e ele passou a descer à rua de escafandro. Até que um garoto do terceiro-rectaguarda pediu ao pai natal um hipopótamo do rio loge. Nessa noite juntou à pressa um par de pertences e fugiu de casa. Apanhou o primeiro táxi e mudou-se para uma álea do jardim zoológico, onde foi ocupar a jaula devoluta dos tigres de bengala, que morreram de pasmo no outono. Por vezes ainda rosna às visitas. Mas não quer outra vida.
***Eco de 2002
À noite saíam todos ao beco, a soltar a musculagem de eunucos, e sempre que os encontrava no elevador era sabido que metia pulgas em casa. O pior, no entanto, era o estado em que ficavam os passeios. Havia sempre um distraído a patinar nos monturos, quando não era um noctívago azarado que aparecia espalmado em cima deles.
Começou a sair apenas em altura de grandes enxurradas, ou nas noites em que o pessoal da câmara varria as imundícies à força de agulheta. Um dia, a menina do quinto-esquerdo recebeu nos anos um pónei da Cornualha, e os tipos do quarto-frente encontraram abandonado numa estrada da província um velho asno andaluz, coberto de mataduras. Logo o empilharam no reboque da mota de água, e amesendaram-no na marquise.
As coisas agravaram-se muito, desde então, em aromas e em espécies, e ele passou a descer à rua de escafandro. Até que um garoto do terceiro-rectaguarda pediu ao pai natal um hipopótamo do rio loge. Nessa noite juntou à pressa um par de pertences e fugiu de casa. Apanhou o primeiro táxi e mudou-se para uma álea do jardim zoológico, onde foi ocupar a jaula devoluta dos tigres de bengala, que morreram de pasmo no outono. Por vezes ainda rosna às visitas. Mas não quer outra vida.
***Eco de 2002
segunda-feira, 4 de junho de 2012
A cor para ele!
Por Salzedas há vergéis de sabugueiros que os donos levam à eira. Secam a baga e vendem-na aos vinhateiros do centro da Europa.
Por mais que pisem o mosto no lagar, aos vinhateiros do centro da Europa falta sempre a cor para ele.
Por mais que pisem o mosto no lagar, aos vinhateiros do centro da Europa falta sempre a cor para ele.
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