sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Palavra de brigadeiro (1)

Eu estava há três semanas no hospital, estendido na cama articulada do fundo da enfermaria. Nos primeiros quinze dias dormira sem intervalos, ideia vaga tinha apenas de algumas vezes o enfermeiro me acordar, atrás do seu carrinho de vitualhas. Alçava-me nas manivelas o corpo dobrado em dois, sentava-me na beira da cama para mudar de posição, e alimentava-me a fornalha dos dentes com pequenos pedaços de comida. Eu trazia avariadas as maxilas, apenas abria alguns milímetros os queixais. Mas devorava como um lobo a ração do almoço, num estado de fome que eu nunca assim pudera observar tão irmã da vida. Vinha não sei de que remoto local de mim aquela fome. De um local por certo esvaziado, mas que só os mortos terão vazio. E eu, afinal vivo, sofria aquela fome de o preencher.
Uma vez alimentado, baixava-me o enfermeiro de novo à horizontal. E eu ficava, hibernando, num sono sem limite, como um corpo avarento que amontoa energias. Sem um gesto, sem um pensamento consciente, sem um sinal sequer de comunicação. Rugiam-me tempestades no mais fundo da pele, escalavravam o mais ignorado de mim. Mas na minha cara, que fora sempre um verdadeiro espelho, não perpassava um tremor.
Nos últimos dias comecei a acordar, por lapsos curtos de tempo. Comecei a atentar, silencioso, na voz dos companheiros, até se me diluírem no ouvido as suas deambulações de língua. O nariz, a tempos, ia reconhecendo cheiros de hospital. Cheguei a estar desperto durante uma hora. E lá voltava outra vez aquele sono, que não era bem sono. Era uma prostração, era um limite físico. Além dele nem um passo. Chegava ele e eu ficava aprisionado, naquela ratoeira dum corpo incapaz. Enquanto o sol, entrando na vidraça, ia queimando, intenso de vida, a minha pele.
Um dia à tarde, não sei já por que labirintos se me aventurava o pensamento, salpicou o silêncio de metais brancos da enfermaria o trote bailado de uns sapatos de salto, atacando o soalho fresco de ladrilhos. Alguém tinha visitas.
Rodei a cabeça na direcção da porta. Habituado durante vinte e quatro anos a ver as coisas com os olhos, esqueci-me de que mos tinham obturado.
Ela entrou, desenvolta, espargindo alegrias acrílicas sobre a rapaziada. Éramos nós, os internados, a sua frente de batalha. E estava ela, pois, no seu teatro de operações. A cada um ia distribuindo sorrisos de grafonola, livrinhos policiais e bugigangas, no meio de aspersões de reconforto beato.
Eu seguia-lhe, de ouvido, o deambular. Imaginava-a nos quarenta anos pelo cetim envolvente das cordas vocais, ainda macias. Talvez menos, pelo cirandar seguro dos saltos dos sapatos. Talvez um pouco mais, pela eficácia quase maternal com que distribuía a cada um o seu pacotinho de coragem sintética. Tinha na voz requebros de bairro elegante, e eu imaginei-lhe a silhueta quarentona, cada cabelo no sítio certo do penteado cuidadosamente armado, o peito, ainda altivo, suspenso por elásticos, a harmonia das coxas marcada, a compasso, pelo esteticista, o leito das rugas a aflorar, assoreado pelo macadame das loções hidratantes. Imaginei-lhe o ar sacripanta e farisaico dos naufragados na falsa temência a Deus, no falso amor à Pátria, no serviço falso da Família.
- Só me faltava esta agora! – berrou a minha paciência.
(...)