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E quem é que se admira?!
A FAMÌLIA
"Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pesca do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
E foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão
vamos pra casa
disse o esturjão!
[Mário-Henrique Leiria]
Foi quando pude dormir no sótão duma casa de fidalgos, no centro de Viseu. Era a casa da Prebenda, e o simples nome diz tudo.
As magnólias e as camélias ramalhavam de noite. Eu a ouvi-las e a pensar nos doze gatos que dormiam em sofás, e comiam a pescada melhor que as criadas traziam do mercado.
Uma manhã, um dos filhos que tinha a minha idade perguntou-me qualquer coisa de aritmética. E ficou surpreendido por eu lhe ter adiantado a correcta resposta.
Eu deixei andar, esqueci o ramalhar nocturno das japoneiras e das magnólias, voltei a casa na camionete da carreira pela mão da minha mãe.
Mas isto era apenas o início da história. P'ra quê recordar o resto, doloroso e indigesto.
Era um tempo tão antigo que ainda havia dinossauros excelentíssimos. Nós éramos tão novatos que nem idade tínhamos para ir ao cinema. Por isso mostrávamos ao polícia as cédulas de amigos mais velhos, que atirávamos do segundo andar até entrarmos todos.
Subíamos para o segundo andar porque era mais barato. Por baixo havia o primeiro, o dos burgueses, e lá em baixo a plateia.
Os filmes eram projectados lá de cima, numas bobines enormes que faziam o que podiam. As fitas é que partiam muitas vezes, e a bobine lá ficava a rodar em seco, sem imagem nem som, enquanto o operador não dava conta.
Se ele tardava, ouvia-se uma voz: - Ó marreco, olha o sonoro!
A gargalhada era geral. Mas o cinema era assim, com actualidades do António Ferro lá pelo meio.
Aquele tempo era bem pior que o de hoje, que já de si mais parece um acto trágico. Lembro-me dele só para me compensar.
A pista era uma bisarma, no cimo do planalto. Cabia nela um B52. Justamente o capitão já nos deixara dito que, no ano que findara, toda a esquadra fizera uso das capacidades de um B52 e meio. A malta, que só usava umas passarolas ligeiras em pistas de terra do mato, e um Texan vindo da África do Sul que transportava um armamento ridículo, não chegou a comover-se, à excepção do próprio capitão, que esse vibrava em falsete.
Na base aérea havia um alferes de artilharia, nunca ficou explicado que fazia ele ali. Era melómano e culto e miliciano, e isso explicará tudo.
Um dia trouxe a notícia de que a Olga Prats e o Bruno Pizzamillo davam um recital no cineteatro de Carmona, a capital do Uíge. E eu concluí que o melhor meio de transporte, para os 50 Kms de distância, era o Auster. Muito melhor do que os Land Rover de volante à direita que os sul-africanos boers tinham oferecido à esquadra. O capitão acedeu. E lá fui eu, à espera do recital.
Como cheguei cedo, passei por casa da cinturinha de vespa, uma donzela chorosa que saíra das mãos dum alferes do arre-macho que acabara a comissão. A mãe dela não interferiu, apenas se manteve atenta. E quando eu me dei conta estava a chegar o crepúsculo. Naquelas terras, o crepúsculo é um intermezzo.
Saí para a rua, chamei um táxi e corri ao aeroporto. Entrei na passarola sem qualquer inspecção prévia. Alinhei na pista, descolei sobre a roda esquerda e comecei a subir na escuridão. A dada altura acendi um isqueiro para ver a pressão do óleo. E fui subindo até me parecer altura de nivelar.
Rumei a sul e fui andando, guiado apenas pelo cantar do motor. Depressa ouvi as chamadas da torre, que queria saber de mim. Tranquilizei o rapaz, dei-lhe um tempo estimado de chegada, até que vi ao longe uma pista balizada por candeeiros de petróleo.
A aterragem foi um sossego, parecia mesmo um B52. O mecânico arrumou-me na placa e eu dirigi-me ao comando da esquadra.
O capitão lá estava à minha espera atrás da secretária, e eu nunca me senti como o fiel fiador daquele rei que não pagou as onças de ouro ao papa.
O capitão cedeu à corda que eu trazia ao pescoço e mandou-me dormir. E foi assim que perdi o recital da Olga Prats por troca duma cinturinha de vespa. E na manhã seguinte foi o companheiro de barraca que me acordou.
O troglodita dum juiz achou atenuantes para dois réus que violentaram em conjunto uma mulher porque era adúltera.
Este sacripanta vê-se que leu a santa bíblia. Mas esqueceu o cristo que perdoou à Madalena. Tem o céu à espera, esse cabrão.
"Ela tinha oitenta e oito anos, ele era um pouco mais novo. E um dia rachou-a toda à bengalada, porque lhe deu pr'ali. Não havia adultério nenhum, nem sinais disso, apenas uma mania, uma doideira, uma cabeça de herege.
Ela passou um ano a recuperar, o corpo dos hematomas, um braço partido pelo rádio e pelo cúbito. Lá conseguiu, graças a outras mulheres.
Ela salvou-se, ele ficou a soletrar a bíblia."
Parte delas morreram no fogo. Outra parte abortaram por stress. As restantes não têm que comer.
O dono já lhes comprou uma tonelada de maçãs, para as enganar. O resto é palha que vem de Espanha, e custa 45 euros o fardo.
A produção de leite reduziu-se a metade. E o queijo da serra não chega para as encomendas.
Nesta versão, as personagens são cabras. Podiam bem ser ovelhas.