sábado, 16 de agosto de 2014
Figuras um
Bonitona
Era uma silhueta
vestida de preto, debaixo dum chapéu de palha de aba larga, a resguardar-se do
sol. Aparecia ao pé do poço, acarinhava as sécias, e lembrava à minha mãe um
pingo de água aos manjericos.
- Ué! Ué! Tens aqui um
morgado!
Eu estranhava-lhe o
rouquejar raspado, os modos brandos, as manchas escuras nas costas da mão. O
nome exótico punha-me a sorrir. E conheci-a melhor muito mais tarde, muitos
anos depois dela morrer.
Casou-se com o Cipriano
e logo foi para o Brasil. Viveu por lá, em Santos, muito tempo, vendia frutas
estranhas num mercado. E um dia que regressou era diferente. Recusava as
novenas na capela, e recitava um remoto padre-nosso, falando não sei com quem.
Grande foco, vida do universo, venha a nós a tua luz, e cumpram-se as tuas leis, neste e nos outros planetas. Nem a Nossa Senhora a percebia.
Quando o Cipriano lhe
morreu não deitou uma lágrima. Vestiu-lhe o fato melhor, fez-lhe uma festa na
cara e despediu-o:
- Adeus, meu
perfeitoso! Os anjos vieram a buscar-te, vai com eles!
Nem a Nossa Senhora a
percebia. E por pura caçoada chamavam-lhe a Bonitona. Por ser feia.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Girassóis
Voltam o colo para a luz, que os faz viver. Se o sol faltar, não sabem o que fazer, como as baratas tontas.
É como nós, perante elites que nos atraiçoam.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Electrões
Sempre agrestes, cruas, primitivas, estas terras já deram
vinho e pão. E abrigos e lenhas e pastagens. E paisagens.
Hoje dão estes moinhos-de-vento. Ainda e sempre a
antiquíssima questão duns electrões inquietos.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Situação terceira
Fim
de feira
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