domingo, 9 de outubro de 2011

Isto anda tudo ligado (1)

Os recitais de vanguarda, com que a Antena 2 nos brinda a horas mortas, martelam horas a fio e podiam durar a eternidade. Seguem muito bem o ar do tempo.
A estética complexa, que os insufla e lhes dá forma, é feita de lamentos do camelo que perdeu a caravana, de risadas histéricas de hiena, do choro de cabritos desmamados, das estridências de cordas amotinadas, dos trinados de castrato que baralhou as pautas, dos uivos dum lobo à lua, do troar das cachoeiras no inverno, dos silvos de serpente enfurecida, do protesto de bichos no açougue, do tropear das cargas de cavalaria, da explosão dos cabos de aço que ultrapassam a tensão, do arrotar dum bêbado descomposto, do caos das discussões dos ciganos, do esbracejar de orquestras sem maestro, do rumorejo das folhas numa brisa, das ressonâncias de órgãos esquizofrénicos ou tímbales que enlouqueceram.
Seguem muito bem o ar do tempo. E mal por mal eu prefiro as estéticas do outro, que batutou quatro minutos de silêncio, até jorrarem aplausos do deslumbrado auditório.

sábado, 8 de outubro de 2011

Pigas

Por ser dono deste espírito assim desassossegado é que o Tó acorda cedo. Hoje em dia, que já goza da reforma, bem podia ficar até mais tarde, abandonado ao choco dos lençóis. Mas não senhor! Ainda a manhã passeia por Castela e já ele vai charneca fora, à sua caminhada.
Um tal génio de galo madrugador vem-lhe desde a meninice, no tempo em que se criou numa ninhada de nove. E à medida que a vida passou por ele não fez senão agravar-se. Anos e anos andou atrás das ovelhas, era o pastor da família desde que saiu da escola. E quando se enfastiou dos recantos da charneca, e dos segredos que há nela, passou a trazer livros no alforge. Emprestavam-lhos no enxido, todas as quintas-feiras, na carrinha itinerante. Leu tantos livros de histórias, de aventuras e de reis, que até se esqueceu de alguns. Mas outros houve que lhe ficaram gravados.
Quando fez dezoito anos foi para o colégio da vila, por teimosias do padre. E num ano fez logo os primeiros dois, duma simples assentada. No segundo fez as Ciências do quinto, segundo a fórmula antiga.
Um dia partiu para França, queria desbravar o mundo. E viveu por lá um ano, a plantar árvores ao longo de auto-estradas.
Quando a pátria lhe sentiu a falta, e o chamou para as inspecções da tropa, assentou praça nas Caldas da Rainha. E seria, em Luanda, o primeiro classificado no curso de comandos, num regimento famoso que lá havia. Depressa o despacharam para Montepuez, para proteger dos macondes o distrito de Cabo Delgado.
Um dia deixou abandonada uma lata de sardinhas na picada e foi expulso. Era uma traição ao grupo. Passou à tropa macaca, mandaram-no a defender as obras duma barragem que andavam a construir numa garganta dum rio.
Passou, enfim, à peluda, quando a revolução chegou. E uma vez que regressara à aldeia, e deixara de passar a carrinha itinerante, voltou outra vez à vila. A ver se apanhava as Letras que tinham ficado atrás.
Assim foi cabo da guarda-fiscal, até que um dia lhe pediram cem contos para concorrer a sargento. Lá foi parar a Cacilhas, integrado na GNR. E já era graduado quando chegou a reforma, esta em que agora se encontra.
Tinha um filho, já crescido, um dia divorciou-se, voltou à aldeia outra vez. E há quem diga que era o dele, este espírito assim desassossegado que o faz acordar tão cedo. Mas não é de ir na conversa.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ai dos simples!

A confusão que reina pelas cabeças de certos achadores de talentos literários só é ultrapassada pela cegueira contentinha que desgoverna as cabecitas dos achados talentos.

Na impossibilidade de obter um link, e num arriscado exercício de salvamento da Literatura, transcreve-se o crítico António Guerreiro, no último ATUAL:

"Sigamos Walter Hugo Mãe, se quisermos ver em funcionamento, sem hesitações nem alibis, a máquina de destruir escritores. A engrenagem subiu ao palco, sob a forma de tragicomédia, no festival de Paraty, de onde saiu uma personagem grotesca que se oferece em espectáculo numa representação de cabaré, amplificada por aplausos emocionados de espectadores que gostam do teatro das emoções, e acham que um escritor é tanto melhor quanto mais escreve como respira, isto é, como mente. (...)
Finalmente, a grande engenhoca do lançamento, para a qual se convocou o mais respeitável construtor da nossa democracia para a tarefa da mobilização nacional em torno do escritor, coroou este percurso pelo qual um romance passa a ter um destino extraliterário. (...)
Terminada a festa da destruição do escritor, fica o objecto desamparado do romance, no meio dos destroços. Quem, por dever de ofício, por curiosidade ou porque não se pode subtrair à 'atualidade', assistiu aos actos preparatórios da implosão, só tem um desejo, que, a cumprir-se, proporcionaria o júbilo pérfido da vingança: que o romance se erga acima do seu autor, apesar dele, ignorando os seus desvarios e as engenhocas promocionais de destruir escritores.
Infelizmente o desejo não se cumpre, o júbilo perverso fica adiado e o dito romance, tão patético como a engrenagem destrutiva que preparou o seu aparecimento, faz-nos passar por aquela experiência muito embaraçosa de sentir a vergonha que caberia ao outro. Nem um deus, quanto mais um filho, o pode salvar".

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Angelina

Angelina tem 73 anos e vive em Dine, que é o lugar onde nasceu. É uma aldeia com fornos de cal abandonados há muito. E fica para lá do derradeiro monte que limita os fins do mundo. Chega-se lá depois de passar muitas encruzilhadas, e é um lugar tão bonito que nem apetece deixá-lo. É aqui que Angelina vive, com uma cadela que se chama Luna. Ouve uma pessoa um nome assim e põe-se logo a fazer perguntas ao instinto.
A seu tempo foi Angelina mãe solteira, duma filha que vive na cidade. Trabalha no comércio, a rapariga, e Angelina está toda contente. Gosta mais de a ver longe neste ofício, do que perto a labutar no campo. Isto ressalvando a tristeza comum de ambas se encontrarem só de horas em quando. Mas um dia há-de-lhe dar uma netinha.
Angelina vive perto da fontana, ao lado duma represa que também serve de tanque de lavar. E, quando chega o Natal, faz todos os anos um presépio ali no jardinzito, para animação do povo. A casa fica além, debaixo da parreira, e vivem hoje nela a dona e a cadela, conforme antigamente lá viviam a filha e a mãe já velha. Sempre que voltava a casa, Angelina punha-se a fingir a voz duma vizinha, às punhaladas na porta com recados urgentes, para lhe fazer picardia.
– Oh que assim és tontinha, minha filha! - E riam ambas no fim.
Ao contrário do resto da aldeia Angelina não anda de preto, porque não é viúva. E por sobre ser uma mulher alegre, tem um espírito aberto, dado e solto. O melhor será chamar-lhe livre, porque o é. Ninguém lho amansou, que é o que sucede as mais das vezes, quando passa por cima das mulheres o rolo compressor da conjugalidade. Não é provável que Angelina tenha consciência disso. E foi com um largo sorriso que nos convidou para almoçar, um frango caseiro que já lá tinha ao lume.
À despedida ofereceu-nos um tantinho de nozes e castanhas. E confessou que, por esse mundo além, só lhe agradava ver a árvore de Natal numa praça do Porto. Disseram na televisão que não há outra maior, e ela acredita.

Meta-conversa, ou o discurso sobre a conversa

Este mundo está desgraçado, não vive senão de estímulos subliminares. Nada nele é mais sério que esse pouco. Já viste a publicidade que te cerca, a criar necessidades que não tens? Já viste a moda, o amor, a arte contemporânea, a própria literatura?! Repara-me neste texto:

O abelharuco, que tem o rabo longo, passa o tempo a estudar o relvado, hesitando entre a faia e a figueira. Não são, a bem dizer, os figos que o motivam, mas os grilos. Quando algum se arrisca no carreiro, mergulha em cima dele. Crucifica-o no bico, vai sentar-se num galho e come-o. Passou a manhã nisto.
Fora disso abriga-se na sombra e alarga as penas à brisa, a refrescar-se. Só volta ao chão se um grilo se aventura.
Mas quando a gralha, que tem a fala dura, espanejou as asas e desce do carvalho, logo o abelharuco desampara o relvado. Esquece grilo e tudo.


Bela fábula, dirás! Mas saberás por que a escrevi assim? Porque te surpreendo e te seduzo. A ti, que deixaste de ir ao campo, se alguma vez por lá andaste. Não sabes nomes de pássaros. Viste uma vez margaridas num portfólio de artista. E vives aterrorizado pelo buraco do ozono, o aquecimento global, o terrorismo inventado e a prestação duma casa. Sabes lá o que são abelharucos?!
É por aí que a fábula te assalta, e o discurso te belisca. Estimulando a tua ignorância. Tu já me viste este mundo?!

domingo, 2 de outubro de 2011

Até futuro aviso

Com a canzoada toda por aí à solta, a vinha está vindimada.
O resto vem no Borda d'Água
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011