sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pausa

Longa!
Durante o Verão, só acidentalmente se abre a porta às visitas.
Visitas, disse?! Se dito foi, fica dito.

Eleições - 1

Sem a Europa Portugal não anda, que o não talharam para isso. Nem para a frente, nem para trás. É um fidalgo arruinado a sucumbir devagar.
Sem a Europa, o Gomes da Costa já tinha voltado, em cima dum cavalo, na década de oitenta.
Sem a Europa já não havia eleições, nem sequer pequeno-almoço.
Mas há limites para tudo. Se não se for lá por elas, seja ao menos pela bucha.

Relíquia antiga IV

Copiando descaradamente as velhas tácticas da operação nó cego, que a seu tempo reduziram a pó o planalto dos macondes, desencadeei uma série de campanhas que me permitiram ultrapassar a crise dos pulgões amotinados. Porém, logo após a euforia da vitória, dei conta do estado lastimoso em que me ficara o terraço, quem tenha andado nas trincheiras da flandres saberá do que estou a falar.
Ora este era o pequeno património que me restava da família, e guardava para mim um vasto significado emotivo, a despeito de algum desvalor intrínseco. Pedi o parecer dum paisagista, que em boa hora me aconselhou a reconversão agrícola do espaço. Sem ajuizar, por certo, das metamorfoses a que me ia sujeitar.
Havia que fazer opções. E não sei se foi a antiga preocupação de dar de comer a um milhão de portugueses, ou se foi a minha costela pagã a lembrar-me que nem só os deuses merecem um bom vinho. O facto é que não demorei a plantar uns bacelos que arranjei no mercado, após o que tratei de me associar a uma destas agremiações da lavoura de qualidade, que há muito me habituara a reverenciar.
Logo na primavera, estavam os bacelos a abrolhar os primeiros gomos, começaram a sair-me coelhos da cartola. Havia um qualquer instituto no ministério da agricultura, que pagava generosamente o arranque das cepas. E eu, moderno empreendedor, tinha que ser pragmático. Meti os catrapilos a arrotear o terraço, e ainda me sobrou capital para investir num parque de máquinas. Comecei logo por um jipe samurai de tracção integral, e passei a deslocar-me ao centro da cidade em viatura própria, liberto das indigestões da carris.
Eu era agora um empreendedor, como já ficou dito, e tinha o terraço devoluto. Frequentava os seminários da grape, à procura de entender, entre o tinto e o patanegra alentejanos, os meandros daquilo que toda a gente chamava a política agrária global. Por alguns anos, e enquanto, salvo seja, ia apalpando o terreno, apostei na cultura das oleaginosas, que funcionava de modo tão simples quanto surpreendente. Eu lançava as sementes à terra, e garantia logo a correspondente subvenção. Porém, sendo os gastos da colheita superiores ao valor do produto, o destino da plantação era mirrar-se lentamente, até se desfazer ao vento. Ficava eu livre de trabalhos vãos, enquanto o fundo de garantia se encarregava de manter-me em equilíbrio os orçamentos.
Esta espécie de pousio havia de ter como efeito uma notável melhoria dos solos, a tal ponto que me abalancei à cultura de frutas mais especiosas. Apresentei um projecto de plantação, cuja subvenção a fundo perdido incluía um sistema de rega científico, inventado por judeus do deserto. E embora mais adequadas às neblinas da nova zelândia, as plantas resistiram à escassez de águas e mostravam considerável vigor.
Passados três anos, a primeira produção foi tão fecunda que o mercado recusou absorvê-la por inteiro. A situação era de vera catástrofe, não havia estações de armazenamento para acolher tanta fruta, esgotou-se a capacidade nacional de produção de embalagens. Apoiado pela grape, exigi a intervenção do governo. E a resistência obstinada do ministro, a quem alguns jornais chegaram a imputar infames antipatriotismos, acabou por ser-lhe fatal às coronárias e à carreira política.
Mas não há fartura que em fome não venha a dar, conforme o outro diz. Logo no ano seguinte, chegou em maio uma tardia onda de geadas negras, e as belas promessas dos pomares foram-se murchando e acabaram mirradas. Reclamei do governo a declaração de calamidade, e consegui apoios de emergência que me pouparam à falência.
Mas ficara-me da fruta um sabor desconsolado, depois de ver como a geada perturbara o estado vegetativo dos pomares. Ainda fiz umas podas extraordinárias, umas empas de recurso, ainda apliquei umas caldas de aquecimento mas nada valeu a pena. E eu era agora um empreendedor, volto a dizê-lo propositadamente, tinha que fazer opções sustentadas de investimento.
Foi assim que me entreguei à produção de leite. Apresentei os planos num instituto do ministério, e logo vieram uns catrapilos a instalar a pastagem, quando nos estábulos se afinavam já os equipamentos de automatização. Chegaram por fim umas dúzias de vacas frísias, que eram um consolo para a vista.
Foram dois anos que me deixaram saudades. Isto antes de os tipos de bruxelas reduzirem drasticamente o subsídio à produção, e antes de os galegos terem entrado no mercado, parecia a dada altura que o rio minho se fizera leite.
Foi por então que tive que vender a casa de férias no algarve, antes de entregar um projecto de reconversão à produção de carne, que me evitou males maiores. Em boa hora se foram as frísias e vieram as charolesas. Havia no ministério um fundo de apoio por cabeça, e os técnicos agrícolas vinham controlar os efectivos, volta não volta. Eu recebia-os pela manhã, na adega, com tinto e patanegra da amareleja, e a tarde passavam-na no terraço, embrenhados em observações de campo. Dava uma trabalheira transferir nessas noites o efectivo para a marquise, onde eu tinha montado um cenário de pastagens alpinas, a vistoriar no dia seguinte. Mas as contagens finais resultavam generosas, e foi graças a elas que a exploração floresceu.
Um dia fui ajeitar o penso às charolesas, e dei com elas a dançar a polca, cheias de cortesias. O veterinário fez-me o diagnóstico à mesa do café, as vacas tinham enlouquecido. Estalara a moda na inglaterra, quando os cientistas quiseram obrigá-las a comer os antepassados.
Caiu-me o queixo de estupefacção, e fiquei dois minutos a benzer-me. Mas o homem adiantou logo que estava criado um fundo para abate. E eu aproveitei-me dele para trocar o todo-o-terreno e abandonar o ciclo produtivo.
Por uns tempos ainda estive tentado a reconverter-me à floresta, usando um fundo de modernização. Mas tenho-me limitado a ver arder as matas dos vizinhos.

da capo - 29

Dia da Raça

Falam-nos dum passado de marinheiros audazes, em que nos fomos ao mar, a descobrir novos mundos que demos ao mundo velho.
Do mar trouxemos por junto uma epopeia de mitos, feita de deusas carnudas, e uns tantos heróis pintados, e adamastores de papel.
Arrenego um tal passado. Que ou não somos, agora, o que já fomos, ou nunca fomos o que nos dizem que somos.
Levaram-nos, é o mais certo, a fingir o que não fomos. Se assim foi, nunca seremos o que nos dizem que somos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Castanhas indianas

É o castanheiro da Índia, na flor da juventude. Quando floresce, tem um quê de candelabro. E dá umas castanhas reboludas, de grande rabo redondo, que não se podem comer. São castanhas indianas.
Usam-se nas arcas do bragal, para atormentar as traças, ao que dizem. E ao contrário do sonho dos visionários, que vivem de maravilhas (e prebendas), a única conclusão é que a aventura das Índias até às pobres das traças foi funesta.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

LER ou não ler

Abre-se a LER para ouvir falar de livros. A contar com a garantia do contrato de prestação de serviços, com quem de livros fala por ofício. E dá-se com esta conversa de Francisco José Viegas:
Há uns meses, a LER publicou uma entrevista com A. M. Pires Cabral - de frente ou de costas para aquelas montanhas, a sua imagem é extravagante, inabitual. A sua poesia não é deste mundo - refere-se a coisas como o Marão, o Nordeste, palavras que ardem, palavras que se referem a coisas que vamos desconhecendo (arado, levandisca), terra que ardeu ou apenas ficou deserta: [transcreve-se poema de Cabral]
Uma poesia destas (Arado, edição Cotovia) não se festeja - observa-se como uma paisagem, um mapa perdido num manual de geografia.
Mas então que serviço é este? O que é que esta merda quer dizer?! O que é que um leitor que a não conheça, pode esperar da poesia de Cabral? O divulgador enaltece ou menoscaba? É isto um apontamento crítico, ou é arte de assinar o ponto, sem ter de gastar na tinta?
Há em Portugal uma diletância atávica, que dói e é fatal. E usa salamaleques e pauzinhos de incenso. E faz referências universais. E gesticula cosmopolitamente. Mas ocupar um espaço é-lhe um fim. Porque se esgota nisso.

A Corja

Os simplórios já vinham considerando que o PPD era um quisto sebáceo. Os menos distraídos há muito suspeitavam de que havia ali um abcesso infectado. Os mais avisados nunca duvidaram de que aquilo era um furúnculo perigoso. E o presidente Cavaco sabia perfeitamente que se tratava dum tumor maligno. Na sua impoluta competência de campónio, que ninguém regateará, conheceu-os a todos muito bem. Foi por isso que, após dez anos de governo, em 1995, submeteu a corja a um tabu que durou o ano inteiro, e acabou por enjeitá-los a todos. Nunca mais saíram da orfandade.
Os factos conhecidos são claros. Uma boa dúzia de figuras cavaquistas - ministros numerosos, secretários de estado, chefes das secretas com procuradores à mistura, comissários políticos partidários - praticaram, ou foram coniventes, ou receberam benesses duma vasta panóplia de malfeitorias: traíram o país, defraudaram o povo, usaram o estado para proveito próprio, trocaram poder político por benefícios pessoais, traficaram influências, intercambiaram interesses, piratearam o erário, puseram-se a render, mostraram o que são. Este, salteador sem escrúpulos. Aquele, abutre faminto. Aqueloutro, cúmplice calado. Entre todos, e salvo outra opinião, a cadeira de espaldar cabe ao conselheiro de Estado Manuel Dias Loureiro.
E agora, presidente Cavaco? Sacrificando os anéis do cavaquismo, terás salvo os próprios dedos. Mas salvaste? Como foi que pudeste nomear, e como poderás ainda manter, sentado à cabeceira da Nação, um conselheiro de Estado desta estirpe? Sei que vais titubear que as sentenças penais competem só à justiça. E as éticas? E as morais? E as políticas? E as outras? Ou será que o conhecido ainda é pouco, e afinal a procissão vai só no adro?