Sem ele, nada hoje em Portugal seria o mesmo, por muito mau que seja. Particularmente a baixa pombalina de Lisboa nunca teria deixado de ser um labirinto de ruelas medievais, sem o Terreiro do Paço e outras pérolas.
Espírito estrangeirado criado na Europa, aproveitou o débil mental do pe. Malagrida para dar uma catanada no bando jesuíta. E, sabendo muito bem que nada em Portugal poderia mudar sem escavacar os ossos à aristocracia todo-poderosa, mandou montar em Belém um cadafalso onde não deixou um osso inteiro aos Távoras e aos duques de Aveiro.
Criou fama de déspota sanguinário e não se livrará dela. E acabou homiziado em Pombal, abrindo caminho à loucura da rainha Da. Maria.
Porque em Portugal não se faz o que deve ser feito, faz-se sempre o que convém.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Grafonolas
O miserável Catroga ainda existe e fala, quando lhe dão corda à vitrola. Em coro com o esquerdalho Louçã, que há anos afirmou na televisão: "recusar o PEC4 será já começar a sair da crise".
Viu-se!
Viu-se!
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Piolhosos
Nos primeiros anos do séc. XIX, a fuga da corte portuguesa de D. João VI para o Brasil, perante os maltrapilhos de Junot entrados por Almeida, foi uma débacle de misérias e sofrimento. Mas é preciso ir buscar a informação a autores estrangeiros.
O excesso de carga e passageiros foi fatal. Riquezas documentais incomensuráveis foram abandonadas na lama do porto de Lisboa. Os barcos usados na viagem não pareciam apropriados. Metiam água copiosamente, o cordame era velho e os mastros e vergas estavam meio podres. O mastro principal do Medusa rachou e partiu-se. O mastro da mezena abateu, deixando o navio à deriva. O D. João de Castro perdeu o mastro. Perante uma praga de piolhos e a falta de água e higiene durante a viagem, as damas tiveram que ver as cabeleiras rapadas, para fugir à praga. Os cavalheiros deitavam ao mar as cabeleiras infestadas, e as senhoras, de Da. Carlota para baixo, faziam fila para rapar a cabeça. As damas de honor carecas reuniam-se no castelo da proa depois da sua provação. O couro cabeludo era então lavado e tratado com pós para eliminar os piolhos sobreviventes.
Isso marcou a iconografia histórica da imagem dos portugueses no Brasil. Todas as figuras femininas usavam turbante, para esconder as misérias.
O excesso de carga e passageiros foi fatal. Riquezas documentais incomensuráveis foram abandonadas na lama do porto de Lisboa. Os barcos usados na viagem não pareciam apropriados. Metiam água copiosamente, o cordame era velho e os mastros e vergas estavam meio podres. O mastro principal do Medusa rachou e partiu-se. O mastro da mezena abateu, deixando o navio à deriva. O D. João de Castro perdeu o mastro. Perante uma praga de piolhos e a falta de água e higiene durante a viagem, as damas tiveram que ver as cabeleiras rapadas, para fugir à praga. Os cavalheiros deitavam ao mar as cabeleiras infestadas, e as senhoras, de Da. Carlota para baixo, faziam fila para rapar a cabeça. As damas de honor carecas reuniam-se no castelo da proa depois da sua provação. O couro cabeludo era então lavado e tratado com pós para eliminar os piolhos sobreviventes.
Isso marcou a iconografia histórica da imagem dos portugueses no Brasil. Todas as figuras femininas usavam turbante, para esconder as misérias.
domingo, 3 de dezembro de 2017
Efeméride
Há muito tempo a manhã apareceu álgida, como a que hoje aí está. Mas alguma coisa tinha acontecido. Havia um rebento novo e era um pichas.
O meu pai foi a casa do Zé Barbeiro comprar marrã, para festejar. E não é que se festejou?
Demorei anos largos a provar a marrã.
O meu pai foi a casa do Zé Barbeiro comprar marrã, para festejar. E não é que se festejou?
Demorei anos largos a provar a marrã.
Bem contada, a nossa vida já deu um célebre romance...
"A uns 50 quilómetros a Norte de Lisboa, para lá da Serra de Sintra, fica a vila de Mafra. As suas casas parecem miniaturas, diante duma enorme estrutura setecentista, um convento barroco construído durante o reinado de D. João V (1706- 1750) cujas colunas e abóbadas gigantescas são visíveis de quilómetros em redor. A imponente fachada, flanqueada por duas torres sineiras, domina a área, mas esconde a verdadeira dimensão do complexo, que se estende para trás, através de 40 mil m2 de celas de monges, capelas, aposentos e salões de banquete.
No entanto, o projecto começou de forma muito modesta, quando o rei ordenou a construção de um convento singelo, em acção de graças pelo nascimento dum herdeiro. Originalmente destinava-se a abrigar apenas treze frades franciscanos, e em 1717 só algumas centenas de pedreiros iniciaram a construção do edifício.
Sete anos mais tarde, doze mil camponeses acampavam numa área que em breve se tornou o maior estaleiro de obras da Europa. Em 1730 a força de trabalho aproximava-se dos 50 mil homens, o equivalente à população duma grande vila do séc. XVIII. Os custos cresceram, mas o tesouro real pagava tudo, encomendando mármores italianos em rosa, branco, azul, amarelo e negro. Os fabricantes de sinos de Liège e Antuérpia ficaram tão surpreendidos com o tamanho da encomenda recebida de Portugal que puseram em dúvida a quantidade. Mas a seu tempo mais duma centena de sinos seria forjada e transportada através da Europa até Portugal.
Percorrendo milhares de quilómetros através do Oceano Atlântico, até ao Brasil, e depois mais uns 500 Kms para o interior até à região hoje conhecida por Minas Gerais, encontrava-se a maior fonte de receitas para a extravagância de Mafra. Aí, nos primórdios do sistema colonial, homens, os seus escravos e ajudantes índios raspavam o solo, cavavam minas rudimentares e peneiravam as correntes, na primeira corrida ao ouro da era moderna. Nos primeiros anos as condições de vida eram horríveis - os campo auríferos situavam-se em território não desbravado, e as provisões eram insuficientes para as sucessivas vagas de prospectores. Mas, à medida que as obras de Mafra avançavam, o ouro em pó atravessava o oceano. Em breve diamantes e pedras preciosas eram desenterrados e embarcados para a Europa, indo as taxas alfandegárias referentes à sua venda encher os cofres da coroa.
Com entradas de dinheiro cada vez maiores, provenientes das colónias..."
[Patrick Wilcken, Ed.Civilizaçao, 2005]
sábado, 2 de dezembro de 2017
Rodada geral
FÁBULA
Entraram à noitinha na taberna, mandaram encher dois copos. Vinham de longe, quiseram impressionar.
- E aquela ribeira que passámos, onde havia um moinho no bico dum choupo?! -isto disse o moço ao almocreve.
- Não vá, senhor, sem resposta! Nesse lugar vi um dia dois machos eguariços, carregados de fanegas, a trepar choupo acima! - foi o que retorquiu um aldeão.
- Pois ontem mesmo topámos nós um ganapo de sete braços! Está aqui o moço que me não deixa em mentira!
- Minta mais a modo, meu amo! Que o rapaz de sete braços não chegámos a topá-lo! Vimos-lhe foi a camisa de sete mangas pendurada no estendal!
Veio rodada geral.
Entraram à noitinha na taberna, mandaram encher dois copos. Vinham de longe, quiseram impressionar.
- E aquela ribeira que passámos, onde havia um moinho no bico dum choupo?! -isto disse o moço ao almocreve.
- Não vá, senhor, sem resposta! Nesse lugar vi um dia dois machos eguariços, carregados de fanegas, a trepar choupo acima! - foi o que retorquiu um aldeão.
- Pois ontem mesmo topámos nós um ganapo de sete braços! Está aqui o moço que me não deixa em mentira!
- Minta mais a modo, meu amo! Que o rapaz de sete braços não chegámos a topá-lo! Vimos-lhe foi a camisa de sete mangas pendurada no estendal!
Veio rodada geral.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Conto
O conto é um sub-género do universo narrativo com características próprias, definidas pela estilística. É curto, e a história desenvolve-se sobre poucas personagens que evoluem e sofrem transformações pessoais. Hoje ninguém sabe o que é um conto canónico. Contam-se histórias, assinam-se e é tudo.
A NINFA
Eram os olhos a maior perdição dela. Tão grandes que nele cabia o mundo, tão escuros e fundos que lembravam o mar. Depois vinha a estampa límpida do rosto, debaixo da gaforina asa de corvo: o lábio húmido, a carnação macia, a flor da face cheia de mistério, a prometer abrir-se num sorriso que não chegava a abrir. O resto era o colo generoso, o ventre inquieto, as colunas das ancas a prometer abismos.
Ninguém sabe explicar como apareceu ali, criada na aldeia, aquela ninfa antiga. Olhava-se para ela e vinham à lembranças deusas primitivas da fertilidade. O mesmo nome, Pristila, era um sinal pagão.
Dava escola para os lados de Aveiro e vinha a casa sempre que podia. Chegava na carreira ao fim da tarde, porque o pai, atento à vida, a reclamava. A bem dizer, era a aldeia inteira que a reclamava.
Na vila sabia toda a gente que o Tunante não era boa rês. Era um vilão bastardo, que fazia deste mundo uma coutada de caça. E todos lhe guardavam respeitinho, mais por instinto primário de defesa do que por atributos que não tinha. A ninfa confundiu nele a brutidade grosseira com predicados de macho dominante. E quando vinha à vila, a passear, nem lhe escusava as momices atrevidas nem os avanços de bruto galaroz. E acabou, já mansa e confundida, a enlear-se no assédio do bargante.
No dia em que as férias começaram chegou a ninfa à vila, desceu da carreira ao fim da tarde. Um outra que vinha do comboio havia de pô-la em casa. Mas o Tunante estava à espera dela. Cercou-a de rapapés e cortesias, havia de lhe mostrar a loja nova, logo à entrada das muralhas.
A ninfa deixou-se conduzir. E quando veio a hora da carreira, à beirinha da noite, prometeu-lhe o Tunante que um amigo a levaria a casa, de carrinho, à moda das princesas. E ela logo se rendeu, enleada em semelhante gentileza. Tinha mesa posta e banquete preparado, bom presunto, melhor queijo, de vinho bastava-lhe um dedal, não estava habituada.
A princípio o Tunante foi cordato, coroou-a de rapapés, quis levá-la com bons modos. Penteou-lhe a gaforina, passeou-lhe as mãos no flanco, encheu-lhe o copo de vinho. E abriu-lhe um botão do peito, só para ter uma visão.
A ninfa aos poucos cedeu, o coração num galope. Dum lado o corpo inteiro a amotinar-se, o sangue a romper as veias, o ventre incendiado a extravasar. Doutro lado um grande medo, a cara dele a perder as feições, e um gesto tão poderoso que a assustava.
Quando quis despir-lhe a blusa, a ninfa ainda resistiu. Mordeu o lábio para evitar um grito, cruzou os braços no peito sublevado, refugiou-se no medo. E o Tunante deteve-se um momento, pareceu abandonar o campo de batalha. Foi ajeitar, ao canto, as mantas que lá tinha. Depois apagou a luz, ergueu numa braçada a ninfa amedrontada e foi estendê-la no chão.
Lá fora passaram socas a tropear na calçada. Porém a ninfa hesitou, reteve outra vez um grito. E já dois braços poderosos lhe sujeitavam o corpo, e as pernas brutas lhe apartavam as colunas, e rudes mãos lhe devassavam o peito. As socas na calçada voltaram a tropear, mas a ninfa retraiu-se. Conteve a respiração, não fosse ouvir-se lá fora o gragal que estilhaçava. Por três vezes entrou nela um vendaval, três vezes a desfolhou. Depois caiu uma escuridão desamparada, e um lago que arrefecia.
Por fim bateram à porta, era o outro que chegava. Aconchegou a ninfa no banco de trás do seu Volvo marreco e arrancou. Antes de a deixar em casa foi parar na carreteira dos moinhos do Alcaide, ninguém ali passava àquela hora.
O Tunante recolheu as mantas, fechou a porta da loja. Uma ninfa desfolhada dava casamento certo, era raspar-se um homem para o Brasil ou sujeitar-se aos códigos. Porém, em sendo o festim a meias, era ela assumida marafona e os códigos sossegavam. Cumprisse o amigo a sua parte e ficava o problema resolvido.
Quando o Outono chegou, depois das primeiras chuvas, o Tunante subiu para a camioneta e foi recolher à aldeia uns contratos de centeio. Bem o avisaram as sibilas, que desfizesse o negócio, que por lá tinha a morte prometida. Mas ela guardou a sovaqueira no casaco e lá subiu a encosta, a governar a vida. Um homem não saiu para outra coisa das mãos do criador.
O pai da ninfa já estava à espera dela, sentado no balcão. E quando o viu saltar da camioneta, de machado nas unhas foi-se a ele. O outro ficou surpreendido, não podia acreditar. Estendeu a mão à sovaqueira e pôs-se a ladear, queria ver se era verdade. Mas o homem trazia no carão a fúria dum deus irado, como quem chega duma tragédia antiga, o melhor era levar a coisa a sério. E desatou a correr.
As mulheres espreitavam à janela, havia gente que parava pelas hortas, a olhar, silenciosa. A própria tarde parou, a ver um homem cavalgar estrada abaixo, atrás doutro que fugia. Quando o sentia mais perto, virava o braço para trás e disparava. Disparou à passagem do ribeiro, e à horta da Teresa Côta, e à subida do negrilho, e à curva da fraga grande.
Agora chegámos nós à fundeira da encosta, e já cruzámos a estrada, e temos à nossa frente o açude da ribeira. Não nos sobra mais que um tiro, e já nos queima o pescoço o bafo dum deus irado. O Tunante apontou-lhe ao coração e disparou. E o machado, que lá vinha como um raio, enterrou-se-lhe no ombro.
Mas vem dalém um pastor, a correr em altos berros, vem salvar esta desgraça. O primeiro já está morto, nada podemos fazer. Para que no serve o segundo, um vagabundo. E num golpe de machado abriu-lhe a cabeça ao meio.
A NINFA
Eram os olhos a maior perdição dela. Tão grandes que nele cabia o mundo, tão escuros e fundos que lembravam o mar. Depois vinha a estampa límpida do rosto, debaixo da gaforina asa de corvo: o lábio húmido, a carnação macia, a flor da face cheia de mistério, a prometer abrir-se num sorriso que não chegava a abrir. O resto era o colo generoso, o ventre inquieto, as colunas das ancas a prometer abismos.
Ninguém sabe explicar como apareceu ali, criada na aldeia, aquela ninfa antiga. Olhava-se para ela e vinham à lembranças deusas primitivas da fertilidade. O mesmo nome, Pristila, era um sinal pagão.
Dava escola para os lados de Aveiro e vinha a casa sempre que podia. Chegava na carreira ao fim da tarde, porque o pai, atento à vida, a reclamava. A bem dizer, era a aldeia inteira que a reclamava.
Na vila sabia toda a gente que o Tunante não era boa rês. Era um vilão bastardo, que fazia deste mundo uma coutada de caça. E todos lhe guardavam respeitinho, mais por instinto primário de defesa do que por atributos que não tinha. A ninfa confundiu nele a brutidade grosseira com predicados de macho dominante. E quando vinha à vila, a passear, nem lhe escusava as momices atrevidas nem os avanços de bruto galaroz. E acabou, já mansa e confundida, a enlear-se no assédio do bargante.
No dia em que as férias começaram chegou a ninfa à vila, desceu da carreira ao fim da tarde. Um outra que vinha do comboio havia de pô-la em casa. Mas o Tunante estava à espera dela. Cercou-a de rapapés e cortesias, havia de lhe mostrar a loja nova, logo à entrada das muralhas.
A ninfa deixou-se conduzir. E quando veio a hora da carreira, à beirinha da noite, prometeu-lhe o Tunante que um amigo a levaria a casa, de carrinho, à moda das princesas. E ela logo se rendeu, enleada em semelhante gentileza. Tinha mesa posta e banquete preparado, bom presunto, melhor queijo, de vinho bastava-lhe um dedal, não estava habituada.
A princípio o Tunante foi cordato, coroou-a de rapapés, quis levá-la com bons modos. Penteou-lhe a gaforina, passeou-lhe as mãos no flanco, encheu-lhe o copo de vinho. E abriu-lhe um botão do peito, só para ter uma visão.
A ninfa aos poucos cedeu, o coração num galope. Dum lado o corpo inteiro a amotinar-se, o sangue a romper as veias, o ventre incendiado a extravasar. Doutro lado um grande medo, a cara dele a perder as feições, e um gesto tão poderoso que a assustava.
Quando quis despir-lhe a blusa, a ninfa ainda resistiu. Mordeu o lábio para evitar um grito, cruzou os braços no peito sublevado, refugiou-se no medo. E o Tunante deteve-se um momento, pareceu abandonar o campo de batalha. Foi ajeitar, ao canto, as mantas que lá tinha. Depois apagou a luz, ergueu numa braçada a ninfa amedrontada e foi estendê-la no chão.
Lá fora passaram socas a tropear na calçada. Porém a ninfa hesitou, reteve outra vez um grito. E já dois braços poderosos lhe sujeitavam o corpo, e as pernas brutas lhe apartavam as colunas, e rudes mãos lhe devassavam o peito. As socas na calçada voltaram a tropear, mas a ninfa retraiu-se. Conteve a respiração, não fosse ouvir-se lá fora o gragal que estilhaçava. Por três vezes entrou nela um vendaval, três vezes a desfolhou. Depois caiu uma escuridão desamparada, e um lago que arrefecia.
Por fim bateram à porta, era o outro que chegava. Aconchegou a ninfa no banco de trás do seu Volvo marreco e arrancou. Antes de a deixar em casa foi parar na carreteira dos moinhos do Alcaide, ninguém ali passava àquela hora.
O Tunante recolheu as mantas, fechou a porta da loja. Uma ninfa desfolhada dava casamento certo, era raspar-se um homem para o Brasil ou sujeitar-se aos códigos. Porém, em sendo o festim a meias, era ela assumida marafona e os códigos sossegavam. Cumprisse o amigo a sua parte e ficava o problema resolvido.
Quando o Outono chegou, depois das primeiras chuvas, o Tunante subiu para a camioneta e foi recolher à aldeia uns contratos de centeio. Bem o avisaram as sibilas, que desfizesse o negócio, que por lá tinha a morte prometida. Mas ela guardou a sovaqueira no casaco e lá subiu a encosta, a governar a vida. Um homem não saiu para outra coisa das mãos do criador.
O pai da ninfa já estava à espera dela, sentado no balcão. E quando o viu saltar da camioneta, de machado nas unhas foi-se a ele. O outro ficou surpreendido, não podia acreditar. Estendeu a mão à sovaqueira e pôs-se a ladear, queria ver se era verdade. Mas o homem trazia no carão a fúria dum deus irado, como quem chega duma tragédia antiga, o melhor era levar a coisa a sério. E desatou a correr.
As mulheres espreitavam à janela, havia gente que parava pelas hortas, a olhar, silenciosa. A própria tarde parou, a ver um homem cavalgar estrada abaixo, atrás doutro que fugia. Quando o sentia mais perto, virava o braço para trás e disparava. Disparou à passagem do ribeiro, e à horta da Teresa Côta, e à subida do negrilho, e à curva da fraga grande.
Agora chegámos nós à fundeira da encosta, e já cruzámos a estrada, e temos à nossa frente o açude da ribeira. Não nos sobra mais que um tiro, e já nos queima o pescoço o bafo dum deus irado. O Tunante apontou-lhe ao coração e disparou. E o machado, que lá vinha como um raio, enterrou-se-lhe no ombro.
Mas vem dalém um pastor, a correr em altos berros, vem salvar esta desgraça. O primeiro já está morto, nada podemos fazer. Para que no serve o segundo, um vagabundo. E num golpe de machado abriu-lhe a cabeça ao meio.
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