sexta-feira, 8 de junho de 2012

Agarra que é ladrão!

Isso é o que berram os verdadeiros bandidos, quando se acham num beco sem saída.
No contexto da Comissão de Inquérito ao Caso BPN, uma bestiaga primária que dá pelo nome de Carlos Abreu Amorim e é deputado do PPD, reagiu agrestemente ao facto de Vitor Constâncio não ter assumido falhas, erros, responsabilidades ou deficiências na supervisão da actividade bancária em 2008, por parte do Banco de Portugal.
Assim nos põe a germinar na mona a subreptícia ideia de que o culpado do crime não foi o ladrão, mas o polícia. E ao mesmo tempo que sentencia o adversário, inocenta o comparsa.
É claro que o não afirma, mas di-lo implicitamente.
Ele sabe que nós todos há muito já esquecemos, se alguma vez viemos a sabê-lo, que o Al Capone só foi condenado por delito de fraude fiscal. Esse mesmo gangster que, na malfeitoria, pedia meças à quadrilha do deputado Amorim.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Notícias boas

Já se alcunhou aqui de flor do xadrez (Schachbrettblume), encontrada que fora num recanto da Estrela.
Vem a saber-se que se chama Fritilária, e que também sobrevive no Gerês.

Pausa

Que quem já é pecador...
...mas as crianças, Senhor! 

Enormidades

Já em tempo aqui foi sugerido, que o pensamento das nossas elites dirigentes (políticas, económicas, jurídicas, religiosas, culturais, académicas, sociais e outras) teve sempre, desde há muitos séculos, um traço essencial: olhar para o povo de Portugal e ver nele gado avulso de exportação. Em vez de gente, em vez de um conjunto de homens e de cidadãos, com uma cidade comum a construir.
O momento original vem desde Ceuta, que inaugurou há séculos a aventura criminosa do além-mar. Uma canalha de corte, feita de aventureiros vaidosos e de traidores cúpidos, (esses mesmos que ficaram como os heróis melhores dos nossos mitos de sempre) trucidou todos quantos se lhe opuseram, e empurrou o país para um rumo que só podia levar ao descalabro e à ruína. Entre o mais, porque a população portuguesa, no ano de ir à Índia, pouco mais era que um milhão de habitantes. Muito em breve o país sucumbia, e o povo de Portugal ainda hoje não sabe quem é.
Quer isto dizer que Portugal foi sempre governado por traidores?! Individualmente não. Em todos os tempos houve figuras notáveis, algumas modelares, que oportunamente ficaram sem cabeça. Mas colectivamente sim: Portugal foi sempre governado por elites que o traíram. Mudaram os modos da traição, conforme os tempos. Mas ainda hoje elaa se mantém.
A ironia mais cínica da história, que é sempre implacável nas contas, está naquela fotografia do Gageiro de 1975 (será do Cunha?), que nos mostra no cais de Belém o Navegador de Pedra (o maior pulha da história nacional!), cercado de caixotes e destroços do império, do desespero de quem chegava e da miséria de quem já cá vivia.
Ali ao lado sorria o Velho do Restelo. Mas esse era um desqualificado, um marginal, um pusilânime que ninguém levava a sério, conforme decretara há muito a ideologia oficial. Conforme volta a lembrar.
As enormidades últimas do Relvas, sobre o nosso futuro brilhante de exportadores de cabeças grandes, revelando um pensamento antigo, são a última forma de insulto que as nossas elites nos disparam. Mas têm um aspecto positivo, exactamente por serem tão primárias. Exprimem claramente o que está lá dentro, mostram a fractura do osso, e não nos alienam com floreados. É uma qualidade do Relvas, que não serve os seus patrões, e acabará por lhe ser fatal.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Fabulário - 4

De picos e de flores
vestiu-se o tojo para a primavera.
Tão má imitação duma roseira.

Um palavrão não chega

Aqui, só os nove milímetros seriam bastantes!

Ecos - 3***

Quando os paisagistas da expo 98 resolveram plantar a palmeira de java ali à beira da doca dos olivais, não previram as funestas consequências do acto. Pois logo os pardais da zona oriental, cansados do vil ambiente, se lhe vieram anichar nos braços. E, como toda a gente sabe, quando os pardais se juntam nos braços duma palmeira, a imundície é mais que muita.
A primeira vítima foi o guarda-nocturno, encontraram-no debaixo da palmeira quando a manhã começava a nascer, hirto e já cadáver. Mantinha a arma no coldre e trezentos e sessenta e sete escudos no bolso, além de apresentar no alto da cabeça um buraco redondo. Tudo isso foi anotado pelo agente de serviço à ocorrência, o qual concluiu tratar-se dum crime muito encoberto.
Alguns dias depois, dois cidadãos do mali trotavam na aurora amena debaixo da palmeira de java. E quando um deles acabou de sacudir do cheviote um mofino excremento de pardal, reparou que o companheiro havia desabado no chão. Veio o agente de serviço à ocorrência, o qual anotou que a vítima apresentava no alto da cabeça um redondo buraco, sem outras marcas de sevícia. O agente concluiu tratar-se de um crime basto enigmático, e mandou calar a comunicação social.
Mas isso tornou-se difícil, depois que uma funcionária da limpeza da expo 98 apareceu esticada no pavimento, rodeada do aparato técnico da função e da imundície que imaginar se pode. Apresentava no alto da cabeça um buraco redondo e tinha a vida presa por um fio. Às perguntas do agente de serviço apenas contrapôs o indicador esticado no ar, na direcção do céu. Comoveu-se o agente, com aquilo que tomou por devoção cristã. E ali ficou sentado, de queixo espetado na mão, indiferente ao cair da noite e aos agravos dos pardais. Parecia uma estátua conhecida.
E foi quando a aurora estendia já os dedos róseos sobre a doca dos olivais que o mistério se desfez. O agente de serviço nem queria acreditar no que via. Empoleirada no braço mais alçado, descansando na perna esquerda, estava ali, nem mais nem menos, que a galinha dos ovos de ouro. Volta não volta fugia do galinheiro e vinha pernoitar com os primos à palmeira de java. Ora toda a gente devia saber que tais coisas não dão em bem.
***Eco de 2002