domingo, 18 de dezembro de 2011

Lá a calari!!!

A enxurrada do Natal, mesmo carregado de promessas de penúria, não poupa os escaparates. O mercado, sempre atento e oportuno, desfaz-se mais uma vez em produtos e objectos de consumo. Nos tempos que correm, não é com literatura séria que se faz negócio e que os melões se compram. E os leitores, esses coitados, há muito que só contam enfileirados no rol de consumidores, alienados e acríticos.
Não falta oferta para todos os gostos, o mais dela afiançado pelo prémio Saramago, pobre dele. Lá aparece o Peixoto a pedir colo, como é hábito, e a desfilar dinastias inteiras de Alziras familiares em piqueniques campestres. O hugo mãe reincide no seu requentado neo-realismo, povoado de proletários canhestros, com títulos assarapantados e um estranho fraseado onde ecoam exotismos de quimbos muito remotos. Já o Tordo é de discurso e técnica mais cosmopolitas. Pena é que lá dentro haja tão pouco, no que respeita a densidade e substância. O Tavares sabe o que é a literatura. E põe em prática as suas qualidades quando não perde tempo com enigmas e charadas, à espera que chegue um dia o Nobel que umas pítias já lhe garantiram.
Sobra aos especialistas da matéria, e aos divulgadores domésticos, o estendal dos produtos literários da fábrica anglo-saxã, que nos colonizam e distraem, e nos convencem de que tomamos banho no tanque da cultura. Uns e outros se levam a sério extremamente, o que está longe de ser um bom sinal.
É neste contexto que o leitor muito ganha, e mais ainda poupa, se os deixar a todos em sossego. Ponha a rodar um disco do Erik Satie e recue 30 anos, que foi quando o Mário de Carvalho deu à luz estes Casos do Beco das Sardinheiras que nos levam a uma certa Lisboa, e de que se deixa aqui abaixo um gostinho com O Tombo da Lua. A técnica deste escriba é primitiva, mas clicar talvez ajude a ler.



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ecos da Sonora - XLIII (1)

OS DONOS DE PORTUGAL - Cem anos de poder económico (1910-2010)
Jorge Costa.Luís Fazenda.Cecília Honório.Francisco Louçã.Fernando Rosas
Edições Afrontamento, Porto, 2010

Da Introdução:

(...) Se o livro tem uma lição é esta: a burguesia portuguesa foi sempre incapaz de democratizar a modernização do país. Não é que não queira ou que não possa, mas, simplesmente, rejeita a repartição social porque a sua acumulação, garantida e protegida pela força do Estado, lhe permitiu beneficiar da maior desigualdade social do espaço europeu.
O resultado é uma estratégia, não é uma contingência; é um sucesso devastador e mesmo intrigante, mas não é uma inconveniência para os donos de Portugal. Como veremos nas páginas que seguem, essa conclusão é a mais importante do livro: os donos de Portugal são o problema de Portugal.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Gramática

"Nós não estamos ainda em condições de dizer qual terá sido a 31 de Dezembro o défice de 2011".
[Passos Coelho]
E o que é que se faz disto, sem ter à mão a gramática dos orangotangos!...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Desmancha-prazeres

Entrar na biblioteca, ou no Centro Cultural, dum qualquer desertificado concelho do interior, é sempre um exercício de muito proveito e grande inspiração. Pois que se ganha em disponibilidade e atenção das hospedeiras o muito que se perde no vazio de utentes.
Veja-se aqui este Portugal nos Mares Vol. I, de Oliveira Martins, Edit. Ulmeiro, s. d., pág. 111:

"De 1497 a 1612 armou o governo português para a Índia 806 naus que à razão de 125 mil cruzados representam 100 milhões e 750 mil cruzados. Computando o cruzado a 2.057 rs. de hoje, temos um custo dos navios, sem cargas, que atinge a soma de entre 207 e 208 mil contos de réis, o que importa um orçamento anual de cerca de 2.000 contos de réis só para construções.
Basta o enunciado destes algarismos para se fazer ideia das consequências financeiras da aventura da Índia. Incontestavelmente, a pimenta foi um mau negócio para o Tesouro de S. A.; e a Índia, como negócio, foi pior ainda para a economia portuguesa. Esterilizou uma sociedade que no séc. XIV, ainda no séc. XV, se desenvolvia normalmente, como riqueza e população, e corrompeu-a esterilizando-a. A pobreza trouxe consigo os vícios inerentes, e juntou-os aos vícios da vaidade e da dissipação.
Diz um escritor que D. Manuel conquistou na África, na Ásia e na América, o direito de gastar muitos milhões; tudo isto é verdade; mas verdade é também que a nossa ruína foi o preço do maior acto da civilização nos tempos modernos. Valha-nos a consciência dessa glória, perante o espectáculo das nossas misérias.
Com a Índia aparece entre nós pela primeira vez a instituição da dívida consolidada; é D. Manuel que a inicia, criando os padrões de juros reais; é no seu tempo que se esgotam os antigos tesouros soberanos, verdadeiras caixas económicas dos povos; Entra-se no período do capitalismo moderno que, desde então, através de sucessivos jubiléus, ou pontos, vem a parar na dívida monstruosa que actualmente nos esmaga.
Os embaraços financeiros, criados pelo poder marítimo português, existem já no tempo de D. Manuel: prova é o pedir emprestado; mas atingem proporções de crise no tempo de D. João III, quando os padrões, emitidos antes a 5 e a 6 por cento, sobem a 8 e a mais; quando a dívida flutuante, obtida por meio dos câmbios de Flandres, se contratava a tal preço que se dobra o dinheiro em quatro anos, por não haver já quem quisesse comprar os padrões da dívida fundada. (...)
É deplorável: já nesse tempo - nada há novo sob o sol! - se recorria ao sofisma de chamar extraordinárias a despesas que todavia se repetiam constantemente. (...)
Compreende-se pois o estado agudo da crise, que fazia dizer ao conde de Castanheira:
'Quando cuido nas coisas que Vossa Alteza é obrigado a suster e o modo de que está sua fazenda, representam-se-me tantas desesperações que muitas vezes me parece que vêm mais de a minha compleição melancólica que doutra coisa.
Des que se começou a tomar dinheiro a câmbio até agora, nunca se outra coisa fez, e quase se não sustém dal as despesas de Vossa Alteza. E porque ainda isto não bastava para se remediarem, se começaram a vender juros (padrões)... e o pior é que já agora não há quem os compre
'.
A compleição melancólica do conde de Castanheira antevia a sorte do país e o termo da viagem iniciada em 1498. O mar devorou-nos; a Pátria naufragou como essa Marinha que, levando-lhe a bandeira por todos os mares, se pode dizer que levou também consigo o sangue, a virtude e a força das populações vivas que tinham aclamado o Mestre de Aviz.
Antes de morrer em África, D. Sebastião teve um Alcácer-Quibir financeiro, quando foi necessário declarar a bancarrota, reduzindo o capital e os juros aos Padrões e vendendo-os à força, porque já desde o tempo do seu avô ninguém os queria comprar. Só os judeus de Flandres emprestavam a Portugal em condições em que se dobra o dinheiro em quatro anos...
"

domingo, 4 de dezembro de 2011

Os cabrões do Norte

Viciados, desde há séculos, em paraísos artificiais, estamos sempre prontos a voltar a eles.
Os visionários recolheram já um milhão de fundos para a igreja do Restelo, tudo bem. Mas a dolorosa vai em três milhões.
Portantos o problema está nos calvinistas e nos luteranos, essa corja de cabrões do Norte, que se recusam a pagar.

[Imagem e detalhes saqueados AQUI]

sábado, 3 de dezembro de 2011

Mentira e grande pena

1. Nisto da literatura é como em tudo, nos tempos nefastos que aí andam. Se o leitor baixa a guarda, afrouxa a exigência crítica, e se entrega desarmado a publicistas, agentes da opinião literária e editores que oficiam ao mercado, o mais certo é acabar depenado, a acumular a um canto genialidades inúteis, que nunca passam da página vinte.
2. Confessa este leitor o seu parti-pris pelas obras indígenas, as únicas que ousa ler no original. Por causa da desgraça da tradução.
[Na messe que enlourece estremece a quermesse
O sol celestial girassol esmorece
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluindo à fina flor dos fenos.

Claro que na poesia o caso é ainda mais grave. Imagina-se isto traduzido sem perdas fatais?!]
Ele há traduções boas e más. Em todo o caso há sempre uma harmonia, uma toada melódica, um jogo de sonoridades, um ritmo qualquer que se perdeu, na transição da língua.
3. E, olhando em volta, estava este leitor a pontos de encomendar um requiem pela literatura indígena que asila aí pelos escaparates, quando lhe caiu nas mãos O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. Ficou tão emocionado que leu o livrinho duas vezes, e andou dois meses sem palavras para o dizer: a encomenda do requiem era precipitada.
4. O livrinho, da Tinta da China, é um objecto fisicamente irrepreensível, daqueles que dá gosto manusear. E tem lá dentro um exercício de muita inteligência e grande encantamento.
O tema é o regresso das caravelas, em 1975, quando os fogos de santelmo do império finalmente se extinguiram. E o assunto é o último dia duma família de colonos em Luanda, e os dolorosos meses que se seguiram num hotel de cinco estrelas do Estoril.
Andam por aí dezenas de trabalhos espúrios sobre o drama dos retornados, o furor cego que os possuiu, e as lamentações da vida que perderam e por lá ficou, por culpa duns traidores ou duns cobardes míticos. Até aparecer este Retorno (frágil título!) que põe o dedo no sangue da ferida e iguala na mesma tragédia os portugueses de África e os da metrópole.
Nenhum outro mostra, como este, a violência que viveram uns e outros. Os de cá não escondem o que pensam dos de lá. E os de lá, com discutíveis razões, não se coíbem de dizer o que pensam dos de cá.
Eleger como narrador um miúdo de 15 anos, num registo narrativo perfeitamente adequado à sua condição, é uma das chaves do sucesso deste romance. Porque ele não se sujeita ao discurso politicamente correcto, nem é tolhido por preconceitos de adultos, nem teme os estigmas dum discurso racista. Limita-se a dar voz a um mundo que é o seu.
Ler e reler este livro é uma emoção de grande utilidade. Porém este facto traz ao leitor a ideia de que o mesmo não terá grande futuro. Aos portugueses interessam pouco as realidades da história.
5. Mas não há rosa que não tenha o seu espinho. Um tal drama colectivo, um tão doloroso impasse da história e um tão fundo sofrimento humano alguma causa hão-de ter, algum deus terão como culpado, algum vilão como agente. Era aqui o momento de os apontar com clareza, ou sequer de os sugerir, para elucidação geral. E isso não é feito.
6. Há um momento, escasso, a páginas 188, em que parece que o abcesso vai ser lancetado, sem o ser:
Estacionamos no princípio do cais e os contentores perdem-se de vista ao longo da margem do rio. O sr. Belchior diz que os contentores são as sobras do império, não deixa de ter piada que estejam a apodrecer no mesmo sítio de onde o império começou, alguma coisa isto quer dizer, alguma coisa devemos aprender com isto, tudo na vida tem os seus porquês.
Seria pedir demais, uma vez que aos portugueses sempre repugnou a crueza da história, quando a realidade lhes foi tantas vezes excessiva.
A atestá-lo vem a citação, com que a autora encerra o seu trabalho:

Las cosas que se mueren
No se deben tocar.

(Dulce María Loynaz)

Neste caso é mentira e grande pena!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Madona em mausoléu

Na estrada a tabuleta anuncia o Solar dos Brasis, na aldeia chamam-lhe a Casa das Fidalgas. Não sei quem tem razão. Eu fui lá muitas vezes, atraído pela gala das talhas, pela febre das cores a gritar nas madeiras, e a simetria misteriosa das janelas, a fingir horizontes pintados nas paredes. E acabei feito pagão, morto de amores por uma pujante madona de terracota, que escondia promessas carnais num manto azul a esvoaçar. Cheguei a congeminar o caviloso plano de raptar a madona numa noite de inverno.
Nesse tempo era vivo o Gastão, um caseiro que habitava os anexos e olhava pelo conjunto. Fazia bonecos de madeira a canivete, e flautas de cana que vendia aos passantes. Era naquilo tudo a única coisa viva, e queixava-se do IPPAR e das águas no telhado, dos roubos das imagens e da segurança escassa. Levava-me às palmeiras do passal, à mãe-de-água de pedra à beira do ribeiro, numas terras que o fidalgo arrematou, à vinda do Brasil. Tinham sido confiscadas a um marrano qualquer, pela Santa Inquisição.
Subíamos depois ao belvedere e mostrava-me o salão de honra, nos altos do torreão. Pendiam do tecto caixotões de santos, a ameaçar ruína, alguns a desabar por causa das humidades. Finalmente levava-me à capela, onde a santa, à minha frente, se desfraldava num pedestal.
Depois contava-me a história. Que D. Luís se foi ao Brasil, ao ouro, no tempo dele. Que era capitão da armada real, e provedor dos quintos de el-rei em Vila Rica de Ouro Preto, nas minas de Sabará.
- O muito e o pouco passava-lhe pela mão! Era de el-rei, mas quem parte e reparte... - sugeria o Gastão, sem avançar.
- D. Luís tinha em casa uma escrava da Mina, por quem se apaixonou. E trouxe, no regresso a Lisboa, a mulatinha Angélica, que vemos nestes quadros. "Mercê que fez Nossa Senhora, no Instituidor, vendo-se em perigo de morte no sertão do Brasil, em jornada de 900 légoas às Minas do Ouro". E lá estava um dragão pintalgado, a soprar fogo ao fidalgo em terror. "Milagre que fez Nosso Senhor... no mar da Bahía...". E era um barco a adornar, a vela já perdida, o fidalgo no convés a amparar a mulatinha.
- D. Luís era de Santa Marta de Penaguião. E ao ver-se em aflição, prometeu erguer à Senhora da Penha de França esta capela. Ao lado do solar, e dum convento franciscano que não chegou a existir. Onde o meu cavalo parar, aí o santuário hei-de levantar! O cavalo é que escolheu este lugar! - concluía o Gastão.
Mostrava-me depois, num livro dum letrado, que o fidalgo tomara ordens sacras ao fazer sessenta anos, que a mulatinha morreu sem descendência no ano em que assaltaram a Bastilha, e que o Solar dos Brasis é testemunho da boa aplicação em Portugal do ouro de Sabará. Eu sempre vi neste lugar apenas mais um túmulo, entre muitos, onde embalsamaram Portugal. Mas nunca cheguei a dizê-lo ao Gastão.
Não sei se os caixotões acabaram por cair, ou se a madona continua lá, a voar no pedestal. Quando há dias voltei ao Solar dos Brasis o Gastão tinha acabado de morrer. E o IPPAR pôs um telhado novo nos altos do torreão, e trancou as portas e as janelas com grades de ferro chumbadas na ombreira.
Fica-me a pena de não ter assaltado a madona, numa noite de inverno. Mas ainda bem que o Gastão foi embora, sem saber a verdade.