(...)
Ela chegou perto de mim, trouxe-me às narinas uma nuvem subtil de Cabochard. E eu senti-a tão perto que levei, por instinto, a mão aos olhos, a proteger os esfregões de palha-de-aço que me ocultavam as órbitas.
Cresciam-me as sobrancelhas, pensava eu, enleadas nas cordas dos pontos que sentia arrepanharem-me as pálpebras. Picavam-me, por vezes, do suor, e eu deliciava-me a sentir vivos também os olhos, onde se concentrara enfim o aguilhão do medo, a aflição da cegueira. Traziam-me os soldados no jipe da tropa, picada fora, desajeitados e inseguros como um tio solteirão a quem caiu nas mãos um sobrinho acabado de nascer. Tratavam-me com a solicitude aflita que se dispensa aos casos perdidos, e ter-se-iam estendido no chão, para eu lhes dançar sobre as barrigas. Não eram homens para recusar um último desejo a um qualquer. Um deles empinou-se à frente do jipe, encavalitado sobre mim. Com o dorso ia varrendo as pontas do capim alto que vinham afligir-me a bola de sangue da cara, abandonada no encosto do lugar do morto.
Depois, no quartel, a morfina. Subtil primeiro, em torrentes depois, a euforia da ressurreição. As minhas pernas vivas, os braços a saltar sobre a maca rasteira, a consciência clara e agitada de poder mexer-me, se quisesse.
Não sei onde se me gravou tudo, nem com que olhos acompanhei o que se passou naquelas horas. Sei apenas que o vivi, que alguma parte obscura de mim o sentiu e o guardou. Sei que pisei o limiar onde se está dum lado morto e doutro vivo. E senti o animal de mim inebriado com a redescoberta da vida. Soltei anátemas de fúria contra as hierarquias, os comandantes, os galões, as guerras e as pátrias. Exigi ao brigadeiro a palavra de honra que não ia perder os olhos. Ele deu-ma, e mandou buscar uma camisa verde que lá tinha, passada a ferro, para me vestir.
Mas não tinha voltado ainda a ver a luz do dia. Os olhos eram o centro de mim, e eu tapei-os quando ela chegou. Senti-lhe a mão pousar de leve sobre a minha, tão leve como se ela pudesse viver a minha aflição de cego.
- Mas a ti não te tinha visto ainda! Há quanto tempo estás aqui? Conta-me lá a tua história!
Vi-me transformado num canhão no estaleiro. Eu não era eu, era uma peça do cenário, era um banquinho para as verdadeiras personagens. A intimidade forçada deste contacto fez-me lembrar que eu teria, espetado no alto da carantonha de pau, o ferro de manejo dos bonecos de Santo Aleixo.
Voltei para ela os tubos entrapados das pupilas. A língua pulou-me da garganta como se tivesse deixado de ser minha, como se por trás do seu contorcionismo verbal já não estivesse eu, nem o meu cérebro amarrado nas ligaduras do respeito pelas instituições, afeito ao molde das hierarquias. Senti-me dar um passo para a frente sem o ter sequer imaginado. Fiquei a ouvir-me falar.
(...)
sábado, 5 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Palavra de brigadeiro (1)
Eu estava há três semanas no hospital, estendido na cama articulada do fundo da enfermaria. Nos primeiros quinze dias dormira sem intervalos, ideia vaga tinha apenas de algumas vezes o enfermeiro me acordar, atrás do seu carrinho de vitualhas. Alçava-me nas manivelas o corpo dobrado em dois, sentava-me na beira da cama para mudar de posição, e alimentava-me a fornalha dos dentes com pequenos pedaços de comida. Eu trazia avariadas as maxilas, apenas abria alguns milímetros os queixais. Mas devorava como um lobo a ração do almoço, num estado de fome que eu nunca assim pudera observar tão irmã da vida. Vinha não sei de que remoto local de mim aquela fome. De um local por certo esvaziado, mas que só os mortos terão vazio. E eu, afinal vivo, sofria aquela fome de o preencher.
Uma vez alimentado, baixava-me o enfermeiro de novo à horizontal. E eu ficava, hibernando, num sono sem limite, como um corpo avarento que amontoa energias. Sem um gesto, sem um pensamento consciente, sem um sinal sequer de comunicação. Rugiam-me tempestades no mais fundo da pele, escalavravam o mais ignorado de mim. Mas na minha cara, que fora sempre um verdadeiro espelho, não perpassava um tremor.
Nos últimos dias comecei a acordar, por lapsos curtos de tempo. Comecei a atentar, silencioso, na voz dos companheiros, até se me diluírem no ouvido as suas deambulações de língua. O nariz, a tempos, ia reconhecendo cheiros de hospital. Cheguei a estar desperto durante uma hora. E lá voltava outra vez aquele sono, que não era bem sono. Era uma prostração, era um limite físico. Além dele nem um passo. Chegava ele e eu ficava aprisionado, naquela ratoeira dum corpo incapaz. Enquanto o sol, entrando na vidraça, ia queimando, intenso de vida, a minha pele.
Um dia à tarde, não sei já por que labirintos se me aventurava o pensamento, salpicou o silêncio de metais brancos da enfermaria o trote bailado de uns sapatos de salto, atacando o soalho fresco de ladrilhos. Alguém tinha visitas.
Rodei a cabeça na direcção da porta. Habituado durante vinte e quatro anos a ver as coisas com os olhos, esqueci-me de que mos tinham obturado.
Ela entrou, desenvolta, espargindo alegrias acrílicas sobre a rapaziada. Éramos nós, os internados, a sua frente de batalha. E estava ela, pois, no seu teatro de operações. A cada um ia distribuindo sorrisos de grafonola, livrinhos policiais e bugigangas, no meio de aspersões de reconforto beato.
Eu seguia-lhe, de ouvido, o deambular. Imaginava-a nos quarenta anos pelo cetim envolvente das cordas vocais, ainda macias. Talvez menos, pelo cirandar seguro dos saltos dos sapatos. Talvez um pouco mais, pela eficácia quase maternal com que distribuía a cada um o seu pacotinho de coragem sintética. Tinha na voz requebros de bairro elegante, e eu imaginei-lhe a silhueta quarentona, cada cabelo no sítio certo do penteado cuidadosamente armado, o peito, ainda altivo, suspenso por elásticos, a harmonia das coxas marcada, a compasso, pelo esteticista, o leito das rugas a aflorar, assoreado pelo macadame das loções hidratantes. Imaginei-lhe o ar sacripanta e farisaico dos naufragados na falsa temência a Deus, no falso amor à Pátria, no serviço falso da Família.
- Só me faltava esta agora! – berrou a minha paciência.
(...)
Uma vez alimentado, baixava-me o enfermeiro de novo à horizontal. E eu ficava, hibernando, num sono sem limite, como um corpo avarento que amontoa energias. Sem um gesto, sem um pensamento consciente, sem um sinal sequer de comunicação. Rugiam-me tempestades no mais fundo da pele, escalavravam o mais ignorado de mim. Mas na minha cara, que fora sempre um verdadeiro espelho, não perpassava um tremor.
Nos últimos dias comecei a acordar, por lapsos curtos de tempo. Comecei a atentar, silencioso, na voz dos companheiros, até se me diluírem no ouvido as suas deambulações de língua. O nariz, a tempos, ia reconhecendo cheiros de hospital. Cheguei a estar desperto durante uma hora. E lá voltava outra vez aquele sono, que não era bem sono. Era uma prostração, era um limite físico. Além dele nem um passo. Chegava ele e eu ficava aprisionado, naquela ratoeira dum corpo incapaz. Enquanto o sol, entrando na vidraça, ia queimando, intenso de vida, a minha pele.
Um dia à tarde, não sei já por que labirintos se me aventurava o pensamento, salpicou o silêncio de metais brancos da enfermaria o trote bailado de uns sapatos de salto, atacando o soalho fresco de ladrilhos. Alguém tinha visitas.
Rodei a cabeça na direcção da porta. Habituado durante vinte e quatro anos a ver as coisas com os olhos, esqueci-me de que mos tinham obturado.
Ela entrou, desenvolta, espargindo alegrias acrílicas sobre a rapaziada. Éramos nós, os internados, a sua frente de batalha. E estava ela, pois, no seu teatro de operações. A cada um ia distribuindo sorrisos de grafonola, livrinhos policiais e bugigangas, no meio de aspersões de reconforto beato.
Eu seguia-lhe, de ouvido, o deambular. Imaginava-a nos quarenta anos pelo cetim envolvente das cordas vocais, ainda macias. Talvez menos, pelo cirandar seguro dos saltos dos sapatos. Talvez um pouco mais, pela eficácia quase maternal com que distribuía a cada um o seu pacotinho de coragem sintética. Tinha na voz requebros de bairro elegante, e eu imaginei-lhe a silhueta quarentona, cada cabelo no sítio certo do penteado cuidadosamente armado, o peito, ainda altivo, suspenso por elásticos, a harmonia das coxas marcada, a compasso, pelo esteticista, o leito das rugas a aflorar, assoreado pelo macadame das loções hidratantes. Imaginei-lhe o ar sacripanta e farisaico dos naufragados na falsa temência a Deus, no falso amor à Pátria, no serviço falso da Família.
- Só me faltava esta agora! – berrou a minha paciência.
(...)
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Pois é!
«Um "não", de resto inteiramente provável, terá efeitos catastróficos sobre a economia grega. Levará à bancarrota, ao cancelamento da assistência externa, a uma terrível suspensão de salários e pagamentos.
Para os gregos, seria um suicídio colectivo. Têm agora a arma nas mãos».
[Lomba, in PÚBLICO de hoje]
E ainda...
E ainda mais...
Para os gregos, seria um suicídio colectivo. Têm agora a arma nas mãos».
[Lomba, in PÚBLICO de hoje]
E ainda...
E ainda mais...
A retoma
Em Almendra a azeitona está madura, e as recentes chuvas vieram a tempo de salvar alguma.
Recolhê-la é a única retoma de que é lícito falar. E, mais urgente ainda, de levar à prática.
Qualquer outra não passa de palavreado duns bonecos aventureiros e sem vergonha, que à má fila chegaram ao governo, sem saberem muito bem o que fazer com ele, salvo acumular trapaças e malfeitorias.
Salvo repetir as mesmas fórmulas, já velhas de cinco séculos: reduzir o rebanho à indigência e à penúria, ao grau zero da cidadania, ao medo da fome e à submissão, à emigração, ao despaisamento e à precaridade.
Com o interregno ilusório dos últimos trinta anos, esta pátria tristonha nunca foi a mãe dos portugueses todos. Antes foi a madrasta de gerações infindáveis dos muitos enteados, para benefício duns poucos ínclitos filhos que lhe mamaram sofregamente as tetas. E que ensaiam de novo as fórmulas antigas.
Cá em casa, nos próximos tempos, a retoma é de galochas e luvas. Porque os dedos não são de pechisbeque.
Recolhê-la é a única retoma de que é lícito falar. E, mais urgente ainda, de levar à prática.
Qualquer outra não passa de palavreado duns bonecos aventureiros e sem vergonha, que à má fila chegaram ao governo, sem saberem muito bem o que fazer com ele, salvo acumular trapaças e malfeitorias.
Salvo repetir as mesmas fórmulas, já velhas de cinco séculos: reduzir o rebanho à indigência e à penúria, ao grau zero da cidadania, ao medo da fome e à submissão, à emigração, ao despaisamento e à precaridade.
Com o interregno ilusório dos últimos trinta anos, esta pátria tristonha nunca foi a mãe dos portugueses todos. Antes foi a madrasta de gerações infindáveis dos muitos enteados, para benefício duns poucos ínclitos filhos que lhe mamaram sofregamente as tetas. E que ensaiam de novo as fórmulas antigas.
Cá em casa, nos próximos tempos, a retoma é de galochas e luvas. Porque os dedos não são de pechisbeque.
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