Vive além naquela casa grande, ao fundo da vereda, mas nunca gostou de morar fora do povo, aqui no descampado. E agora está sozinha, desde que enviuvou.
Antigamente a vida era diferente e até os dias pareciam pequenos, sempre numa fona entre a cozinha e a horta, o asseio da casa e as lixaradas que o vento juntava no pátio. Agora tornaram-se tão grandes, e às vezes tão pesados, que mal os consegue suportar. Só a poder de tristeza e solidão.
Metade da casa não parece sua, fechou a porta que dá para o corredor e nem lá entra. Só para se defender. As latas das sardinheiras que rodeiam o pátio ficam semanas sem uma atenção. O que lhes vale é serem resistentes e saberem esperar. Agora já tem pena, mas foi assim que as sécias lhe morreram.
A ideia das sécias traz-lhe uma aflição, fá-la sentir-se culpada da morte do marido naquela manhã. Ele em frente do espelho, a deixar de ver no queixo a espuma da barba, a queixar-se das tonturas. Vem ela a correr, e ele dobrado por cima do lavatório, ele a estender a mão à procura da parede, ele a pedir que lhe limpe um suor frio na testa. E ela a ficar ali atarantada, a telefonar ao cunhado em vez de ligar para as ambulâncias, o cunhado a tirar o carro da garagem, a levar o irmão ao consultório do médico, e o médico sem atentar no que fazia, sem perceber o que se estava a passar, sem o recambiar logo para as urgências, o médico a escrever uma carta vagarosa para os colegas do hospital, a mandá-lo seguir no carro do cunhado em vez de reclamar os bombeiros, o tempo a passar e os dois a gastá-lo na sala de espera, sem que nenhuma funcionária reparasse neles, sem que a menina da bata lhe adivinhasse o nome e viesse chamá-lo, senhor Manuel dos Santos.
Ah, se ela soubesse a tempo que havia ambulâncias quando se deixa de ver a espuma da barba em frente do espelho, se ela tivesse num papel o telefone dos bombeiros, se ela ao menos soubesse conduzir, talvez o Manel não tivesse morrido cercado de gente, ali à entrada das urgências do hospital da cidade!
(...)
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
Ecos da Sonora - XLII (2)
Esta obra de Rentes de Carvalho colige 30 textos, de dimensão e apuro variáveis. Titulados mas sem data, é difícil definir-lhes uma idade, um dia de nascimento. Porém os conteúdos, assim como ocasionais variações formais, sugerem um alongado período de produção. E terão ficado na gaveta, a marinar à maneira de Horácio, candidatos a uma página, na colectânea que finalmente surgiu.
A questão carece de importância, e não tem maior significado. Salvo permitir-nos acompanhar o autor, e concluir que Rentes de Carvalho não é homem de se pôr a emular cânones. Tem o seu, que definiu e cultiva. Escreve ao sabor da própria respiração.
Salvo opinião abalizada, nenhum dos textos cabe na definição canónica do conto. Se a dimensão o sugere muitas vezes, logo os tempos, ou os lugares, ou o desfilar das personagens, ou o fluir solto da intriga o contradizem. Nesse aspecto é Rentes de Carvalho moderno e actual há muito tempo. Para mim, leitor atreito a normas e taxinomias, por lhes reconhecer alguma utilidade, se tivesse que lhes dar um género, chamava-lhes histórias.
A escrita é fluente, correntia, despreocupada na aparência, às vezes surpreendente. Numa esquina qualquer espreita-nos um gracejo, uma ironia subtil, um sarcasmo desenganado, mais raramente um cinismo. Leitura útil que, se não desvenda o mundo, nos conta muito sobre ele. Para o meu gosto, falta às vezes, aqui e ali, um pouco mais de tensão na corda narrativa.
Uma historinha de página (188) dá o sugestivo nome à colectânea: Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia. E a sua leitura deixa-me em perplexidade, resistente aos ensaios todos que já fiz.
Porque é domingo, e sendo o texto tão curto, arrisquemos um exercício. Sem invasão daquilo que é do autor, e do seu direito à malandrice e à picardia. Nem daquilo que do leitor é, e direito seu à inépcia ou falta de agudeza.
[narrador, Júlia e um senhor]
“Os braços da Júlia da farmácia ainda um dia o deitam a perder. [esta premonição é feita pelo narrador, ou pelo senhor?] No emprego usa a bata branca do regulamento, mas na rua, mal o tempo aquece, passeia-os em todo o esplendor da nudez, e a impressão que tem é que ela faz aquilo de propósito, com a única intenção de lhe acender calores que julgava extintos. [parece claro que a premonição é expressa pelo senhor, confidenciada ao narrador, que no-la comunica]
Como se conhecem, encontram-se às vezes no café, e é um tormento. Pele com maciezas de seda, a penugem dourada, a delicadeza dos pulsos, o suave redondo dos ombros! Esforça-se por mostrar que a ouve atento, mas naquele sonho de que delícia seria tocar-lhe, mesmo de leve ou a fingir acaso, antes de dar conta já os olhos resvalam para os dedos, acariciam a perfeição das unhas, sobem pelo antebraço, param nos ombros. [detalhes confidenciados pelo senhor ao narrador, que nos dá conta deles]
- Estava eu a dizer… [uma fala de Júlia?] - Faz [o senhor] o trejeito involuntário de criança apanhada em flagrante, e ela continua, finge não reparar. Para ambos é um jogo, mas só o de Júlia é inocente. [juízo feito pelo narrador? Por Júlia?] Sente [ela]os tremores, adivinha-lhe a excitação, por vezes a segredar qualquer coisa quase lhe toca e não lhe escapa o fremir das narinas. Mas depois diz-se [a si própria] que se engana. [parece manifesto que estas confidências são de Júlia ao narrador]
- Está a ver? Não sei porque estou a falar disto. Então um senhor que conheço desde pequena, colega do meu pai, que até já tem netos… E tão carinhoso. É tolice minha, não é? [discurso de Júlia, que conversa com o narrador]
Aceno que sim, de facto é tolice. Surpreendi-a ao dizer-lhe que tinha uns braços muito bonitos, e foi então que ela contou o caso.” [o narrador assume as confidências de Júlia. Mas no início parece haver também confidências do senhor. Ou o narrador é natural confidente dum e doutro, em momentos diferentes?]
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Lavagem em série
O Oliveira e Costa, o BPN, o Dias Loureiro, a SLN, o Cavaco Silva, o cabrão do Sócrates, o PEC IV, a bancarrota, o FMI, as eleições, o Passos Coelho e o Relvas a fazer anos...
É uma limpeza geral.
É uma limpeza geral.
'Pera aí!!!
Mas então acontece isto, e a nação toda boceja?!
Não há um sobressalto do PR?
Não há um suspiro dum magistrado?
Não há um rumor no parlamento?
Não há um bocejo dum ministro?
Não há um recurso dum advogado?
Não há um levantamento da polícia?
Não há um protesto partidário?
Não há um incêndio num jornal?
Não há um motim numa cadeia?
Será que garrotaram o país e ninguém avisou nada?!
Não há um sobressalto do PR?
Não há um suspiro dum magistrado?
Não há um rumor no parlamento?
Não há um bocejo dum ministro?
Não há um recurso dum advogado?
Não há um levantamento da polícia?
Não há um protesto partidário?
Não há um incêndio num jornal?
Não há um motim numa cadeia?
Será que garrotaram o país e ninguém avisou nada?!
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Ecos da Sonora - XLII (1)
José Rentes de Carvalho, um andarilho notável com raízes transmontanas, deixou há muitos anos de viver na sua terra por razões que são da história. Andou muito pelo Brasil, pela América e por Paris, até lançar âncoras em Amesterdão, há meio século atrás. Foi correspondente de jornais, garimpou, vendeu cafés, tomou o pulso do mundo, fez-se professor das letras e culturas pátrias numa universidade holandesa. E acabou por repartir a vida entre Amesterdão e os Estevais do Mogadouro.
Escreveu sempre, abundantemente: Montedor (68), O Rebate (71), Com os Holandeses (72), Portugal - A Flor e a Foice (75), A Sétima Onda (84), Portugal - Um Guia para Amigos (89), Guia dos Vinhos de Portugal (92), Mazagran (92), Tempo Contado (96), O Joalheiro (98), O Milhão (99), A Amante Holandesa (2000), A Coca (2000), Ernestina (2001)...
À sua escrita reservou sempre a Holanda uma boa recepção, indo algumas obras suas além da dezena de edições. Em Portugal nunca se deu por ele, a bem dizer nunca existiu. Nem mesmo quando, na passagem do século, uma editora - O Escritor - deu à luz meia dúzia de trabalhos seus.
A editorazinha faliu sem sobressalto, guardou o autor alguns exemplares. E os publicistas, os críticos, os amanuenses das letras não encontraram razões para interrompar a sesta. Nem mesmo enquanto Rentes de Carvalho foi o veterano patrono da Periférica, cuja falta só não sente quem a não conheceu ou já se esqueceu dela.
Recentemente a Quetzal acordou e deu início à publicação da sua obra. Já lá vão Ernestina (a grande saga!), Com os Holandeses, A Amante Holandesa, Tempo Contado e La Coca, aparecendo agora a colectânea de histórias Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia.
Ainda estremunhados, os escribas de turno descobrem agora em Rentes de Carvalho um "autor de culto das gerações novas". E terão razões, as tais gerações, já que a literatura, com vida lá dentro, é um barro bem diferente. Mais consistente do que o gel das escritas criativas, com que lhes desenham cristas arrojadas e lhes congelam as ideias.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Bacalhau basta!
Aqui há dias, no intervalo de duas lições da Universidade de Verão (!) do PSD, alguns colegiais puseram-se a berrar que Soares é fixe.
Eu olho à volta, e tenho as mais sérias dúvidas.
Eu olho à volta, e tenho as mais sérias dúvidas.
Subscrever:
Mensagens (Atom)