A bem dizer, o sempre temido, porque sempre iminente naufrágio desta barca adornada que é a nação portuguesa tem raízes antigas. Vem desde o século XV, quando um restrito grupo de rapazes notáveis, centrados na corte e alienados do interesse geral, encontrou artes de fazer valer as temerárias e fatídicas opções da expansão para o Norte de África. Firmadas as pazes da Independência contra Castela, a tomada de Ceuta (1415), o desastre de Tânger (1437), e os avanços do Africano para Alcácer-Ceguer (1458) e Arzila (1471) foram os primeiros e hesitantes passos duma construção imperial improvisada sobre as dunas, que havia de agrilhoar o país ao capricho das marés da história durante séculos. Pelo meio não faltaram episódios de fogo e ranger de dentes, nem fomes, frustrações e bancarrotas. E tudo acabou em algazarra, em 1975, quando o país de marinheiros voltou à barra do Tejo, naufragado e exangue, com a alma cheia de remendos.
Não era sem motivos que o país assim voltava, mais pobre e mais desgarrado do que partira. Porque a edificação e manutenção do império lhe condicionou e tolheu sempre toda a organização e progresso da política, da economia e da sociedade. A própria existência de Portugal como estado independente ficou associada à manutenção do império e das colónias.
Durante séculos, houve uma permanente sangria de portugueses para o império: militares, funcionários, comerciantes, missionários, aventureiros, emigrantes, exilados, degredados, prostitutas, órfãos... Muitos deles jamais regressaram a Portugal, que nos inícios da aventura pouco mais teria que um milhão de habitantes.
Esta hemorragia humana é uma das grandes causas do atraso do país. Já que, do mesmo passo que o despovoava, adiava e desobrigava a solução dos seus reais problemas, uma vez que todas as prioridades eram outras. E assim os portugueses partiam para fugir à pobreza agravando a própria pobreza, porque perdiam energias e motivos de renovação.
As actividades de além-mar (mormente a sempre escamoteada prática da escravatura) deixaram persistentes marcas na mentalidade dos portugueses: levaram-nos a desvalorizar e menosprezar o trabalho; condicionaram-nos para o lucro imediato e a especulação; empurraram-nos para áreas e tarefas de trabalho pouco qualificado; e sobretudo permitiram-lhes descuidar, se não desconhecer totalmente, os métodos de melhorar a organização da sociedade, a eficiência do trabalho e os problemas da economia.
As elites dirigentes (a nobreza e os altos funcionários) viviam dos rendimentos gerados pelas possessões, ligados ao tráfico, ao comércio e à exportação da população. Esse estado de coisas alimentou-lhes uma mentalidade parasitária e bastarda, que as alienou dos demais estratos populacionais. Não eram as elites que estavam ao serviço do país, bem ao contrário, era o país que estava ao dispor delas.
Um tal quadro impediu e logrou o desenvolvimento duma cultura de cidadania e de responsabilidade cívica, sem a qual não há um país moderno, nem uma sociedade desenvolvida. E ainda hoje não foi ultrapassado. Segundo a regra geral, políticos, gestores, administradores, funcionários, empresários, intelectuais… têm mais como objectivo o tranquilo usufruto da nação, do que o bem e o progresso do povo e do país.
O fim do império veio pôr em causa os mecanismos desta mentalidade secular, que vivia da exploração das colónias e da população exportável. Os portugueses viraram-se finalmente para si próprios e para a Europa. Mas as entorses permaneceram activas na consciência, na mentalidade parasitária, no desprezo pelo trabalho e pela inovação dos métodos.
A entrada na Europa foi uma faca de vários gumes, com efeitos contraditórios múltiplos: a exigência duma transformação profunda, que não se logra numa geração; a síndrome sebastianista duma nova e exótica árvore das patacas, que nos há-de resolver os problemas; o deslumbramento sempre fatal dos novos-ricos; o desvio e o malogro dos fundos europeus; a competição desarmada com os outros parceiros, incompatível com estruturas e mentalidades passadas; a incompetência, o laxismo e a venalidade das elites instaladas, confrontados com a exigência e a responsabilidade indispensáveis.
Pelas elites históricas, ela já era encarada como simples objecto de exploração. Nos tempos de hoje, e perante uma situação de crise internacional múltipla e grave, a uma crescente fatia da população do país acaba por restar apenas a descoberta de novos caminhos de emigração.
domingo, 13 de março de 2011
sábado, 12 de março de 2011
Mais vale tarde... 3 - La belle époque
(...)
Em 1924 o Evening World, a conselho de Arthur Krock, nomeou-me seu correspondente-viajante na Europa, com sede em Paris. (...)
As exigências do meu trabalho levavam-me para rumos bem diferentes: para o meio de intelectuais fatigados, cuja força criadora se mirrara num simples desejo de entreter e agradar; homens e mulheres que viam na poesia, no amor, no sacrifício e até na dor humana tão-somente motivos para silogismo e jogos de espírito. Eram eles os artistas que tinham nascido bem-fadados, que não criavam nada, e contudo davam a nota nas rodas cosmopolitas de arte e literatura; autores de bon ton e de bonne compagnie que escolhiam bem as suas palavras, untavam-nas bem, para que elas entrassem por um ouvido e saíssem pelo outro sem atritos, sem tocar em nada à passagem: críticos cuja ocupação principal era manejar a escova de polir; os petits précieux de Molière, excentricamente trajados, de maneiras impecáveis, que compunham doutrinações para os jornais sólidos e bem pensantes, financiados pelos trusts das munições e pelos reis do aço; poetas que pontificavam e super-realizavam, supra-inspirados, servindo as suas reticências ternamente admiráveis todas as vezes que olfacteavam Coty a dez mil francos a onça; mulheres que pagavam a aristocratas decaídos para irem visitar em sua companhia os bas-fonds de Montmartre e verem um proxeneta deitar-se com a sua amante dentro de um ataúde, ou um gigolô negro sodomizar uma mulher branca; (...) financeiros que exploravam plantações de borracha no Senegal, canaviais na Cochinchina, bananais na Guiné, minas de ouro no Camerum e cinemas em Marselha e Buenos Aires.
Toda essa gente refinada andava constantemente em busca de novas sensações, novos arrebiques, novas emoções, novos frissons em arte, amor e literatura. Quanto às emoções autênticas, à angústia real e à genuína alegria da vida, evitavam-nas, como se evita o contacto duma corrente eléctrica. Queriam a arte sintética, confundiam publicidade com fama, e imaginavam que podiam comprar a paz de espírito como se compra um par de chinelos num bazar. (...)
Uma das minhas incumbências era a de investigar os mistérios do Bosque de Bolonha, os deleites dos bares de Montmartre, e as alegrias dos cabarets do alto da colina, onde dezenas de milhares de americanos esbanjavam milhões de francos em prazeres duvidosos. Estávamos no meio daquele afluxo anual de turistas, que atingiu o auge no verão de 1929 e nunca mais se repetiu. Eles desciam sobre Paris como uma nuvem de mosquitos, machos e fêmeas, magros e rechonchudos, homens de óculos, mulheres de saias curtas, brancos e pretos, ricos e pobres. (...) A lotação das Folies Bergères era vendida com uma semana de antecedência, as mondaines dançantes achavam-se todas tomadas às seis da tarde. A América queria dançar! (...)
O Moulin Rouge reviveu as saturnais de Calígula; rapariguinhas trajadas com o boné do Exército de Salvação e um par de meias de seda vendiam cigarros; Cleópatra, na indumentária de Santa Godiva , cavalgava as espáduas dum núbio cor de ébano; Messalina, a imperatriz nua, com os longos cabelos soltos, coroada de folhas douradas de carvalho, exibia-se no coche imperial puxado por sessenta escravozinhos pintados e empoados como meninas, a quem outros escravos de pele acobreada vergastavam com correias dilacerantes. (...)
À porta, grão-duques arruinados, com a estrela de S. Miguel pregada às suas blusas de chauffeur, oficiais do tzar, generais cossacos de bigodes encerados, destroços do grande dilúvio, esperavam os americanos para conduzi-los aos seus hotéis. (...) Seis comboios repletos de passageiros baldeados dos transatlânticos chegavam ao meio dia à gare St. Lazare: Vive l'Amérique! Vive l'amour! Vive le dollar! - o bezerro de ouro com a cabeça de George Washington encaixada no pescoço!
(...)
Em 1924 o Evening World, a conselho de Arthur Krock, nomeou-me seu correspondente-viajante na Europa, com sede em Paris. (...)
As exigências do meu trabalho levavam-me para rumos bem diferentes: para o meio de intelectuais fatigados, cuja força criadora se mirrara num simples desejo de entreter e agradar; homens e mulheres que viam na poesia, no amor, no sacrifício e até na dor humana tão-somente motivos para silogismo e jogos de espírito. Eram eles os artistas que tinham nascido bem-fadados, que não criavam nada, e contudo davam a nota nas rodas cosmopolitas de arte e literatura; autores de bon ton e de bonne compagnie que escolhiam bem as suas palavras, untavam-nas bem, para que elas entrassem por um ouvido e saíssem pelo outro sem atritos, sem tocar em nada à passagem: críticos cuja ocupação principal era manejar a escova de polir; os petits précieux de Molière, excentricamente trajados, de maneiras impecáveis, que compunham doutrinações para os jornais sólidos e bem pensantes, financiados pelos trusts das munições e pelos reis do aço; poetas que pontificavam e super-realizavam, supra-inspirados, servindo as suas reticências ternamente admiráveis todas as vezes que olfacteavam Coty a dez mil francos a onça; mulheres que pagavam a aristocratas decaídos para irem visitar em sua companhia os bas-fonds de Montmartre e verem um proxeneta deitar-se com a sua amante dentro de um ataúde, ou um gigolô negro sodomizar uma mulher branca; (...) financeiros que exploravam plantações de borracha no Senegal, canaviais na Cochinchina, bananais na Guiné, minas de ouro no Camerum e cinemas em Marselha e Buenos Aires.
Toda essa gente refinada andava constantemente em busca de novas sensações, novos arrebiques, novas emoções, novos frissons em arte, amor e literatura. Quanto às emoções autênticas, à angústia real e à genuína alegria da vida, evitavam-nas, como se evita o contacto duma corrente eléctrica. Queriam a arte sintética, confundiam publicidade com fama, e imaginavam que podiam comprar a paz de espírito como se compra um par de chinelos num bazar. (...)
Uma das minhas incumbências era a de investigar os mistérios do Bosque de Bolonha, os deleites dos bares de Montmartre, e as alegrias dos cabarets do alto da colina, onde dezenas de milhares de americanos esbanjavam milhões de francos em prazeres duvidosos. Estávamos no meio daquele afluxo anual de turistas, que atingiu o auge no verão de 1929 e nunca mais se repetiu. Eles desciam sobre Paris como uma nuvem de mosquitos, machos e fêmeas, magros e rechonchudos, homens de óculos, mulheres de saias curtas, brancos e pretos, ricos e pobres. (...) A lotação das Folies Bergères era vendida com uma semana de antecedência, as mondaines dançantes achavam-se todas tomadas às seis da tarde. A América queria dançar! (...)
O Moulin Rouge reviveu as saturnais de Calígula; rapariguinhas trajadas com o boné do Exército de Salvação e um par de meias de seda vendiam cigarros; Cleópatra, na indumentária de Santa Godiva , cavalgava as espáduas dum núbio cor de ébano; Messalina, a imperatriz nua, com os longos cabelos soltos, coroada de folhas douradas de carvalho, exibia-se no coche imperial puxado por sessenta escravozinhos pintados e empoados como meninas, a quem outros escravos de pele acobreada vergastavam com correias dilacerantes. (...)
À porta, grão-duques arruinados, com a estrela de S. Miguel pregada às suas blusas de chauffeur, oficiais do tzar, generais cossacos de bigodes encerados, destroços do grande dilúvio, esperavam os americanos para conduzi-los aos seus hotéis. (...) Seis comboios repletos de passageiros baldeados dos transatlânticos chegavam ao meio dia à gare St. Lazare: Vive l'Amérique! Vive l'amour! Vive le dollar! - o bezerro de ouro com a cabeça de George Washington encaixada no pescoço!
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Portugalmente - 82
(...)
Duma curva, lá ao fundo, vem crescendo um barco de turistas, a serpentear no rio. Vagaroso e cheio de majestade, imerso na magia da paisagem, faz lembrar ao viajante um cisne misterioso, deslizando ao rés da água.
Bem a propósito, quem sabe se consciente, Camilo quer levar o viajante a ver a quinta da Leda, na contra-face do rude monte Calabre, que abriga a estação de Almendra. Lá no cimo já reinou uma cidade goda, que sucumbiu há mil anos às avançadas dos mouros, dela sobrevive apenas uma memória rara. Mas nem o castigo deste sol recomenda a trabalheira, nem a rapidez do tempo lho permite. O que mais vem a calhar é uma visita ao morgadinho de Algodres, que em breve terá cem anos e há-de apreciar a companhia. É ele uma figura de pasmar. E o viajante, erradamente supondo que nada tem a temer, é disso que anda à procura e deixa-se levar.
O morgadinho mora na casa grande de Algodres, que há gerações foi o berço das famílias mais abastadas da área. Na juventude, em Coimbra, fez-se bacharel de leis, seguindo a tradição dos ascendentes varões. E quando voltou à terra logo submeteu o coração duma princesa, que mais tarde acabou freira num recatado convento. O que era prisão para ela, foi para ele a liberdade.
Esposadinha de fresco, a prometer primaveras, andava por essa altura a donzela mais vistosa do lugar. Mas como já se tem visto, nem sempre os dotes da natureza trazem bem-aventurança. Mormente a esta mulher, a mais velha de onze irmãos. A mãe morrera de parto, perdeu o pai aos dez anos. Tão cedo mãe de família, a rapariga casou mal fizera os dezasseis. Mas o facto não tolheu o morgadinho, que um belo dia se dispôs a requestá-la. E ela, com um tal fardo sobre os ombros, pôs-se a avaliar-lhe o peso. Agradava-lhe viver na casa grande, deu em aceder à corte. O marido claudicou, abandonou a contenda, fez a trouxa para o Brasil.
Hoje é ela a mulher do morgadinho. Durante muito tempo não passou de concubina, reduzida à condição de serviçal. Até que um dia lhe exigiu o casamento, que o morgadinho já não pôde recusar. Um tal enredo engendrara à sua volta um geral desprazimento, que a passos largos se tornou num ódio surdo. E embora ninguém esperasse tão grande longevidade, ele resistiu ao linguajar do populacho e negou as previsões.
Era uma grande cabeça, todo a gente o boquejava, e o diploma que trouxe de Coimbra lá estava para o comprovar. Mas enquanto homem de leis, nunca dedicou às ditas um avo dos seus labores. Quando a revolução chegou pôs muita coisa a tremer. E logo os mandantes dos partidos quiseram cativar o morgadinho para o governo distrital. O homem não aceitou. Mais tarde foi convidado para o ministério da Justiça, mas outra vez declinou.
O viajante fica sem saber se mais o rói o espanto, se a incredulidade. E a surpresa vai ainda nos começos, agora que o castelão recebe os visitantes ao cimo da escadaria, mais ágil e desenvolto do que os anos prometiam. A mulher, muito mais nova, os olhos emaciados por uma solidão azeda, está de guarda na cozinha, a um trem de caçarolas e alfaias da culinária que enchem paredes inteiras. Na saleta, ali ao lado, vem guardando o morgadinho uma colecção completa de diários do governo, do primeiro ao mais recente. Este foi o diploma de bacharel de leis do bisavô, em pergaminho genuíno, ao tempo que isso lá vai. Agora aqui o diploma de bacharel de leis do meu avô, que dispensou o cabrito original. E ali está encaixilhado o meu diploma de bacharel de leis, neste papiro de luxo.
Nas salas do rés-do-chão é pouco o espaço inteiro para acomodar um bricabraque indizível, empilhado a trouxe-mouxe: lugres à vela e caravelas de chifre; santantoninhos e cartapácios antigos; pedras de lousa e soldadinhos de chumbo; galhardetes militares e ceifeiras de além-tejo; cães de loiça e corujas empalhadas; bonecas de trapo e ursinhos de peluche; landscapes inglesas e mal-me-queres bordados; quadros de caça e águias embalsamadas; naturezas-mortas e trabucos de pederneira; pais-natais de grandes barbas e pagelas de santinhos; pisa-papéis e cassetes antigas; rádios de pilhas e discos de fadistas; compêndios escolares e breviários pios; moinhos de café e balanças romanas; canapés de palhinha e edições de bolso; flores de papel e canetas de aparo; cadeiras de barbeiro e bustos de Beethoven; estatuetas macondes e máscaras da Lunda; calculadoras de bolso e paisagens de leões; faisões de plástico e gravuras de filósofos; dossiês incompletos e moedas comemorativas; relógios de corda e elefantes de marfim; charretes de latão e presépios de oratório; bonecas sevilhanas e leques de bambu; colecções numismáticas e garrafas de cinzano; miniaturas de licores e sifões de água tónica; porta-plumas e mata-borrões; canhões antigos e duendes nórdicos; dobadoiras e papagaios de papel; carros de bois e galos de Barcelos; caixas de música e bebés chorões; furgonetas de metal e cofres de segredo; higrómetros de parede e ventoinhas eléctricas; pandeiretas, catapultas e corta-papéis; pescadores da Nazaré e almofarizes de lata; cinzeiros de estanho e lavradeiras do Minho; lampiões de petróleo e botas espanholas; signos do zodíaco e colecções de chocalhos; bilhas de Nisa, canecas alemãs, molheiras de Sacavém, barros de Bisalhães, barretes de campino, um don Quixote amarelo… e pendurados do tecto um nunca mais acabar de vinte mil porta-chaves, o mais notável dos quais é uma piranha do Brasil envernizada.
No final o morgadinho conduziu os visitantes aos fundos do logradouro, para lhes mostrar, orgulhoso, a sua forja. E em boa hora o fez, pois lá dentro se decifra o que não tem explicação. A forja do morgadinho é o mundo inteiro do ferro, um vastíssimo arsenal das armas de Vulcano: tornos, tenazes, bigornas, compassos, medidores, fornalhas, martelos, maçaricos, soldadores, pias de têmpera… Foi aqui que o morgadinho gastou o melhor que tinha. E o viajante viu nele o símbolo mais-que-perfeito dum país trágico e incerto, que não soube o que fazer aos talentos da parábola.
(...)
Duma curva, lá ao fundo, vem crescendo um barco de turistas, a serpentear no rio. Vagaroso e cheio de majestade, imerso na magia da paisagem, faz lembrar ao viajante um cisne misterioso, deslizando ao rés da água.
Bem a propósito, quem sabe se consciente, Camilo quer levar o viajante a ver a quinta da Leda, na contra-face do rude monte Calabre, que abriga a estação de Almendra. Lá no cimo já reinou uma cidade goda, que sucumbiu há mil anos às avançadas dos mouros, dela sobrevive apenas uma memória rara. Mas nem o castigo deste sol recomenda a trabalheira, nem a rapidez do tempo lho permite. O que mais vem a calhar é uma visita ao morgadinho de Algodres, que em breve terá cem anos e há-de apreciar a companhia. É ele uma figura de pasmar. E o viajante, erradamente supondo que nada tem a temer, é disso que anda à procura e deixa-se levar.
O morgadinho mora na casa grande de Algodres, que há gerações foi o berço das famílias mais abastadas da área. Na juventude, em Coimbra, fez-se bacharel de leis, seguindo a tradição dos ascendentes varões. E quando voltou à terra logo submeteu o coração duma princesa, que mais tarde acabou freira num recatado convento. O que era prisão para ela, foi para ele a liberdade.
Esposadinha de fresco, a prometer primaveras, andava por essa altura a donzela mais vistosa do lugar. Mas como já se tem visto, nem sempre os dotes da natureza trazem bem-aventurança. Mormente a esta mulher, a mais velha de onze irmãos. A mãe morrera de parto, perdeu o pai aos dez anos. Tão cedo mãe de família, a rapariga casou mal fizera os dezasseis. Mas o facto não tolheu o morgadinho, que um belo dia se dispôs a requestá-la. E ela, com um tal fardo sobre os ombros, pôs-se a avaliar-lhe o peso. Agradava-lhe viver na casa grande, deu em aceder à corte. O marido claudicou, abandonou a contenda, fez a trouxa para o Brasil.
Hoje é ela a mulher do morgadinho. Durante muito tempo não passou de concubina, reduzida à condição de serviçal. Até que um dia lhe exigiu o casamento, que o morgadinho já não pôde recusar. Um tal enredo engendrara à sua volta um geral desprazimento, que a passos largos se tornou num ódio surdo. E embora ninguém esperasse tão grande longevidade, ele resistiu ao linguajar do populacho e negou as previsões.
Era uma grande cabeça, todo a gente o boquejava, e o diploma que trouxe de Coimbra lá estava para o comprovar. Mas enquanto homem de leis, nunca dedicou às ditas um avo dos seus labores. Quando a revolução chegou pôs muita coisa a tremer. E logo os mandantes dos partidos quiseram cativar o morgadinho para o governo distrital. O homem não aceitou. Mais tarde foi convidado para o ministério da Justiça, mas outra vez declinou.
O viajante fica sem saber se mais o rói o espanto, se a incredulidade. E a surpresa vai ainda nos começos, agora que o castelão recebe os visitantes ao cimo da escadaria, mais ágil e desenvolto do que os anos prometiam. A mulher, muito mais nova, os olhos emaciados por uma solidão azeda, está de guarda na cozinha, a um trem de caçarolas e alfaias da culinária que enchem paredes inteiras. Na saleta, ali ao lado, vem guardando o morgadinho uma colecção completa de diários do governo, do primeiro ao mais recente. Este foi o diploma de bacharel de leis do bisavô, em pergaminho genuíno, ao tempo que isso lá vai. Agora aqui o diploma de bacharel de leis do meu avô, que dispensou o cabrito original. E ali está encaixilhado o meu diploma de bacharel de leis, neste papiro de luxo.
Nas salas do rés-do-chão é pouco o espaço inteiro para acomodar um bricabraque indizível, empilhado a trouxe-mouxe: lugres à vela e caravelas de chifre; santantoninhos e cartapácios antigos; pedras de lousa e soldadinhos de chumbo; galhardetes militares e ceifeiras de além-tejo; cães de loiça e corujas empalhadas; bonecas de trapo e ursinhos de peluche; landscapes inglesas e mal-me-queres bordados; quadros de caça e águias embalsamadas; naturezas-mortas e trabucos de pederneira; pais-natais de grandes barbas e pagelas de santinhos; pisa-papéis e cassetes antigas; rádios de pilhas e discos de fadistas; compêndios escolares e breviários pios; moinhos de café e balanças romanas; canapés de palhinha e edições de bolso; flores de papel e canetas de aparo; cadeiras de barbeiro e bustos de Beethoven; estatuetas macondes e máscaras da Lunda; calculadoras de bolso e paisagens de leões; faisões de plástico e gravuras de filósofos; dossiês incompletos e moedas comemorativas; relógios de corda e elefantes de marfim; charretes de latão e presépios de oratório; bonecas sevilhanas e leques de bambu; colecções numismáticas e garrafas de cinzano; miniaturas de licores e sifões de água tónica; porta-plumas e mata-borrões; canhões antigos e duendes nórdicos; dobadoiras e papagaios de papel; carros de bois e galos de Barcelos; caixas de música e bebés chorões; furgonetas de metal e cofres de segredo; higrómetros de parede e ventoinhas eléctricas; pandeiretas, catapultas e corta-papéis; pescadores da Nazaré e almofarizes de lata; cinzeiros de estanho e lavradeiras do Minho; lampiões de petróleo e botas espanholas; signos do zodíaco e colecções de chocalhos; bilhas de Nisa, canecas alemãs, molheiras de Sacavém, barros de Bisalhães, barretes de campino, um don Quixote amarelo… e pendurados do tecto um nunca mais acabar de vinte mil porta-chaves, o mais notável dos quais é uma piranha do Brasil envernizada.
No final o morgadinho conduziu os visitantes aos fundos do logradouro, para lhes mostrar, orgulhoso, a sua forja. E em boa hora o fez, pois lá dentro se decifra o que não tem explicação. A forja do morgadinho é o mundo inteiro do ferro, um vastíssimo arsenal das armas de Vulcano: tornos, tenazes, bigornas, compassos, medidores, fornalhas, martelos, maçaricos, soldadores, pias de têmpera… Foi aqui que o morgadinho gastou o melhor que tinha. E o viajante viu nele o símbolo mais-que-perfeito dum país trágico e incerto, que não soube o que fazer aos talentos da parábola.
(...)
sexta-feira, 11 de março de 2011
Mais vale tarde... 2 - O grande logro
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A Alemanha baseara todos os seus cálculos numa guerra fulminante e numa vitória rápida. Ao princípio, a sua provisão de material bélico mal bastava para sustentá-la durante um ano de campanha, nas duas frentes. Os aliados, por conseguinte, poderiam ter obrigado o Kaiser a capitular antes dos fins de 1915, estabelecendo o bloqueio económico. Mas isto importava abrir mão dos mais gordos proventos da guerra: os que trazia o comércio de contrabando.
Durante os três primeiros anos da guerra, o Reich recebeu sem cessar fornecimentos através da Holanda, Suíça e dos países escandinavos, em especial de algodão, sem o qual não poderia lutar um só dia mais. Isto prolongou-se até surgir o protesto indignado dos Estados Unidos: a Inglaterra, o maior inimigo da Alemanha, estava-lhes roubando o mercado europeu.
O capitalismo alemão tão pouco se havia esquecido do seu bolso: até ao começo de 1917, as fundições Krupp de Essen enviavam mensalmente 250.000 toneladas de aço ao Comité des Forges da França, através da Suíça.
Além do pagamento em ouro, uma das cláusulas dessa transacção era que os aviadores franceses deviam abster-se de bombardear as minas, os altos fornos e as fábricas de preparação metalúrgica do distrito de Longwy, ocupado pelos alemães desde o começo da guerra. Carregamentos de níquel vindos da Caledónia com destino à Alemanha, apreendidos por destroyers franceses no alto mar, e trazidos para os portos de Brest e Cherburgo, foram mandados restituir pelo governo francês e alcançaram Bremen, sem mais incidentes. Representantes do trust de indústrias químicas alemãs, das fábricas de cobre suíças, de Vickers, Krupp, Schneider-Creusot e do Comité des Forges reuniram-se em Viena, no momento em que os exércitos se engalfinhavam numa luta de morte na lama da Flandres. O seu propósito único era o de inventar meios e modos de fazer com que a guerra seguisse lucrativamente o seu curso.
On croyait mourir pour la patrie, on mourait pour les industriels - disse Anatole France ao ter conhecimento da resposta do senador Béranger, aos que indagavam dele por que razão o distrito metalúrgico de Longwy não fora retomado logo no início da guerra, achando-se desprotegido pelos alemães, e com os franceses a dois passos dali. A causa de não se ter envidado nenhuma tentativa para recapturar Thionville era que isto levaria a guerra prematuramente a termo. Pois a ocupação de Thionville, declarava o senador, teria reduzido os alemães a sete milhões de toneladas de aço pobre por ano. Toda a produção ficaria paralisada. A captura de Thionville faria com que a guerra terminasse imediatamente. E era isto que se queria impedir a todo o custo.
O general Sarrail, comandante das forças da Lorena, maquinou, em 1915, um plano estratégico para conquistar, ou então destruir o distrito de Briey, onde a Alemanha explorava os altos fornos tomados ao Comité des Forges. Quando o comandantre supremo, Joffre, teve notícia da projectada ofensiva, Sarrail foi chamado a Paris, avistou-se com Poincaré, presidente da República, e o plano foi arquivado.
Graças ao minério francês, (...) pôde a Alemanha, durante quatro anos, inundar o oriente e ocidente, por terra e por mar, com rios de aço. Em troca dos magnetos para motores de aviões, enviados pela Alemanha, a França mandava bauxite, ingrediente indispensável na manufactura de alumínio para zepelins. O terrível arame farpado que os ingleses estenderam em Ypres e no Somme, e que foi uma armadilha mortal para a Guarda Prussiana, era fabricado pelos Drahtwerke de Opel e Cia, e chegava à Inglaterra pelo caminho da Holanda. A Austrália embarcava sebo para a Alemanha via Noruega e Dinamarca; os estabelecimentos do Estreito, copra; Ceilão, chá; o país de Gales, coque e carvão, alcatrão, amoníaco e glicerina, tudo em navios ingleses. (...)
A entrada dos Estados Unidos na guerra tornava certa a vitória final no front. Surgira no horizonte um outro perigo, que ganhava contornos cada vez mais precisos: o novo adiamento da paz ameaçava provocar uma revolução social. Só quando as classes superiores reconheceram a iminência dum desastre irreparável para a clique governante de banqueiros e mercadores da morte, foi que se instituiu um comando supremo único para todos os fronts, e, a instâncias dos Estados Unidos, se começou a aplicar a sério o bloqueio económico. A Alemanha percebeu imediatamente que tinha chegado o seu fim. Lançou mais uma última ofensiva desesperada, e acabou por ceder. (...)
Foi então que se assinou o Armistício!
A Alemanha baseara todos os seus cálculos numa guerra fulminante e numa vitória rápida. Ao princípio, a sua provisão de material bélico mal bastava para sustentá-la durante um ano de campanha, nas duas frentes. Os aliados, por conseguinte, poderiam ter obrigado o Kaiser a capitular antes dos fins de 1915, estabelecendo o bloqueio económico. Mas isto importava abrir mão dos mais gordos proventos da guerra: os que trazia o comércio de contrabando.
Durante os três primeiros anos da guerra, o Reich recebeu sem cessar fornecimentos através da Holanda, Suíça e dos países escandinavos, em especial de algodão, sem o qual não poderia lutar um só dia mais. Isto prolongou-se até surgir o protesto indignado dos Estados Unidos: a Inglaterra, o maior inimigo da Alemanha, estava-lhes roubando o mercado europeu.
O capitalismo alemão tão pouco se havia esquecido do seu bolso: até ao começo de 1917, as fundições Krupp de Essen enviavam mensalmente 250.000 toneladas de aço ao Comité des Forges da França, através da Suíça.
Além do pagamento em ouro, uma das cláusulas dessa transacção era que os aviadores franceses deviam abster-se de bombardear as minas, os altos fornos e as fábricas de preparação metalúrgica do distrito de Longwy, ocupado pelos alemães desde o começo da guerra. Carregamentos de níquel vindos da Caledónia com destino à Alemanha, apreendidos por destroyers franceses no alto mar, e trazidos para os portos de Brest e Cherburgo, foram mandados restituir pelo governo francês e alcançaram Bremen, sem mais incidentes. Representantes do trust de indústrias químicas alemãs, das fábricas de cobre suíças, de Vickers, Krupp, Schneider-Creusot e do Comité des Forges reuniram-se em Viena, no momento em que os exércitos se engalfinhavam numa luta de morte na lama da Flandres. O seu propósito único era o de inventar meios e modos de fazer com que a guerra seguisse lucrativamente o seu curso.
On croyait mourir pour la patrie, on mourait pour les industriels - disse Anatole France ao ter conhecimento da resposta do senador Béranger, aos que indagavam dele por que razão o distrito metalúrgico de Longwy não fora retomado logo no início da guerra, achando-se desprotegido pelos alemães, e com os franceses a dois passos dali. A causa de não se ter envidado nenhuma tentativa para recapturar Thionville era que isto levaria a guerra prematuramente a termo. Pois a ocupação de Thionville, declarava o senador, teria reduzido os alemães a sete milhões de toneladas de aço pobre por ano. Toda a produção ficaria paralisada. A captura de Thionville faria com que a guerra terminasse imediatamente. E era isto que se queria impedir a todo o custo.
O general Sarrail, comandante das forças da Lorena, maquinou, em 1915, um plano estratégico para conquistar, ou então destruir o distrito de Briey, onde a Alemanha explorava os altos fornos tomados ao Comité des Forges. Quando o comandantre supremo, Joffre, teve notícia da projectada ofensiva, Sarrail foi chamado a Paris, avistou-se com Poincaré, presidente da República, e o plano foi arquivado.
Graças ao minério francês, (...) pôde a Alemanha, durante quatro anos, inundar o oriente e ocidente, por terra e por mar, com rios de aço. Em troca dos magnetos para motores de aviões, enviados pela Alemanha, a França mandava bauxite, ingrediente indispensável na manufactura de alumínio para zepelins. O terrível arame farpado que os ingleses estenderam em Ypres e no Somme, e que foi uma armadilha mortal para a Guarda Prussiana, era fabricado pelos Drahtwerke de Opel e Cia, e chegava à Inglaterra pelo caminho da Holanda. A Austrália embarcava sebo para a Alemanha via Noruega e Dinamarca; os estabelecimentos do Estreito, copra; Ceilão, chá; o país de Gales, coque e carvão, alcatrão, amoníaco e glicerina, tudo em navios ingleses. (...)
A entrada dos Estados Unidos na guerra tornava certa a vitória final no front. Surgira no horizonte um outro perigo, que ganhava contornos cada vez mais precisos: o novo adiamento da paz ameaçava provocar uma revolução social. Só quando as classes superiores reconheceram a iminência dum desastre irreparável para a clique governante de banqueiros e mercadores da morte, foi que se instituiu um comando supremo único para todos os fronts, e, a instâncias dos Estados Unidos, se começou a aplicar a sério o bloqueio económico. A Alemanha percebeu imediatamente que tinha chegado o seu fim. Lançou mais uma última ofensiva desesperada, e acabou por ceder. (...)
Foi então que se assinou o Armistício!
Mais vale tarde... 1 - Primeira Grande Guerra
Pierre van Paassen (1895/1968) foi um jornalista holandês que acabou naturalizado americano. Estes Dias Tumultuosos, obra notável de pendor biográfico, veio à luz na América, em 1939. E teve edição portuguesa, em 1946, na Livros do Brasil.Pelas suas páginas passam menos as peripécias pessoais, e mais os acidentes, os sucessos e as tragédias do seu tempo. Mutatis mutandis, a aragem que nelas corre faz lembrar os tempos de hoje, em que também chacais andam à solta, numa história mal contada. Talvez por isso, dou comigo a lamentar só conhecer este livro com cinquenta anos de atraso. Que me lembre, nunca me aconteceu.
Em 1917, milhões de corações fatigados remoçaram ao calor de uma nova esperança. A infinita paciência dos povos martirizados atingira o ponto de exaustão. (...) Para obstar à explosão, os governos calafetaram previamente todas as fendas e sentaram-se em cima da tampa. (...) Ganhava terreno a convicção de que os povos tinham sido vítimas de um logro colossal e sangrento. (...) Aumentava entre as massas a indignação ante os tesouros incalculáveis que eram esbanjados na loucura da guerra, ao passo que o apoio financeiro às medidas que visavam o melhoramento das suas condições sociais nunca se obtinha sem estrénuas lutas. (...)
Ainda se falava, na imprensa e nos escritórios de propaganda, em hunos trucidadores de crianças e senegaleses canibalescos, mas nas trincheiras já muita gente se havia curado da mistificação. Os quatro anos de guerra justa tinham acumulado mais ruínas e monstruosidades do que os senhores feudais e a Igreja reunidos, nos seus dez séculos de incontestável omnipotência. (...)
Os poilus franceses começaram a debater entre si a volta para os seus lares, antes que a guerre à outrance de Clémenceau atingisse a sua horrenda plenitude. Na primavera de 1918, André Maginot reconheceu, em sessão secreta da Câmara, que entre a cidade de Paris e a linha de combate só restava uma divisão em que o governo podia depositar absoluta confiança. A bandeira vermelha fora içada sobre a refinaria de açúcar, em ruínas, de Souchez. Um regimento alemão respondeu a isto entoando a Marselhesa, e atravessando a terra de ninguém para confraternizar com os inimigos. (...) Tornou-se necessário proibir às tropas britânicas toda a conversação com os prisioneiros alemães. A imprensa truncava as listas de baixas. (...)
Morriam ainda diariamente dezenas de milhares de homens. Mas nos castelos, longe da explosão das granadas (...) os generais e políticos aliados continuavam a contender entre si sobre pontos de precedência e prestígio. (...) O desacordo entre os homens dos galões de ouro ameaçava prolongar a guerra indefinidamente. (...) Rebentaram revoltas. (...) Os conselhos de guerra funcionavam noite e dia. Por um simples murmúrio de desagrado dizimava-se uma companhia inteira. Enviavam-se divisões propositadamente à linha de combate para serem chacinadas, esmagando-se assim o espírito de derrotismo. (...)
Os censores redobraram de esforços para obstar a que o povo conhecesse toda a extensão do horror. Nas grandes cidades, clamorosos cartazes advertiam toda a gente contra as intrigas sinistras dos pacifistas, dos agentes inimigos, do ouro estrangeiro, e também contra os emissários da extinta Internacional do Trabalho. Impunha-se silêncio às multidões. (...) Uma vez que, em tempos de guerra, uma mentira capaz de elevar o moral das tropas e da população civil vale mais que um milhão de verdades, organizaram-se as fábricas de mentiras. Elas levaram as universidades no arrastão. Sábios e intelectuais, escritores e homens de púlpito, todos aqueles que se desvaneciam de amar a verdade pela própria verdade, puseram-se a uivar em uníssono com a matilha. Os homens abriam mão das suas convicções tão facilmente como das suas vidas. (...)
Em Verdun, no Chemin des Dames, na Flandres, o holocausto a Moloch, a dança macabra atingia a sua obscena culminância. Os exércitos haviam recebido novas armas dos laboratórios. Fazia-se largo uso do gás asfixiante. Efectuavam-se novas experiências com bacilos morbígenos. Embora essa invenção diabólica não fosse utilizada em 1918, permanecerá para sempre o estigma infamante da geração pervertida e desumanizada que pensou a sério em empregá-la. (...) O monstro era insaciável. A Europa do cristianismo e do humanismo chafurdava num tremedal de sangue e servia de pasto aos piolhos.
Chegaram então da Itália notícias sobre a ocupação das fábricas. Surgiram as dissenções entre as equipagens dos submarinos e o comando naval alemão em Kiel. (...) Os alsacianos que serviam no exército alemão passaram-se em massa para a França. Os conscritos franceses iam buscar refúgio na Suíça e na Espanha. Os bósnios desertavam das duas águias dos Habsburgos para irem ter com os seus irmãos sérvios. Um exército checo vagueva sem rumo pelas planícies moscovitas. (...) Na França, as forças da Rússia Imperial que tinham sido transferidas de Odessa para levantar a moral dos aliados, e que se cobriram de glória em Verdun, negaram-se a lutar assim que a Rússia se retirou da guerra. Foram desarmadas e chacinadas, em número de dez mil, por ordem de Foch, a fim de preservar o exército francês do vírus revolucionário. (...)
quarta-feira, 9 de março de 2011
Mala-sorte
Escuta-se o discurso de tomada de posse do renovado Presidente, que é economista e já foi primeiro-ministro em tempos decisivos. E assistindo aos hossanas da canalha que o rodeia... acaba-se a lamentar a mala-sorte do padeiro. Que todos os dias se levanta às quatro da manhã, para cozer o pão a tanta cavalgadura.
terça-feira, 8 de março de 2011
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