(...)
Quando acorda, já tarde, tem à espera o céu do planalto. Nem todas as manhãs serão assim, mas esta veio ao viajante como uma prenda de anos. Não é coisa que entendam à primeira uns olhos acostumados à incerteza das brumas, à cerração melancólica dos fumos da cidade, à poeirada dessas avenidas. O viajante suspeita de que um céu assim é alto privilégio e aproveita-se dele, mas não sabe como há-de defini-lo. Dá com as portas do Prado e vai andando ao longo das muralhas, reduzidas agora à função mais singela e mais nobre de todas, passear nelas o olhar. Foi à procura das argolas de ferro espetadas nas frestas, onde ficava presa a multidão dos jumentos antigos, enquanto os donos corriam ao mercado. Viu-os numa imagem já velha, as argolas e os burros, e com ela se dará por satisfeito, já nada disso existe. O que muito se vê são cartazes, pendurados nas árvores, a anunciar a feira de São Bartolomeu. É outra fama da terra, e já vem perto.
A feira vem dos tempos do rei bolonhês, aos anos que ela dura. Antigamente vinham dar aqui os caminhos todos, de Lamego, de Além-Doiro, da raia do Côa, da Malcata, de toda a serrania em volta. Semanas antes já se viam manadas de gado e maltas a passar, estradas fora. Caminhavam pela fresca e matavam a sede onde havia uma fonte, a sombra dum ribeiro, um descampado. Acudiam aqui negociantes, bufarinheiros, troca-tintas, marchantes, saltimbancos, adivinhos, troveiros cegos, bandarras, e a gentinha toda desses montes e vales, só não vinha à feira quem estivesse de cama. Durante séculos foi o centro da vida desta província, oxalá sobrasse dela alguma coisa, nestes tempos de tão carecida vida.
À procura do melhor panorama, o viajante sobe ao primeiro andar do tribunal e não fica arrependido. Abre sem licença uma janela para o largo, e outra vez se teme das ameias do alcácer, facinorosos dentes lá no alto. Namora-se do enredo das empenas antigas, das torres das igrejas avultando, e fica ali tempos infindos, o olhar preso ao correr das muralhas, desde a porta do Carvalho até lá ao fundo, à praça. Estava ainda a pensar nos burricos de antigamente, ali à espera do dono, quando veio o oficial de diligências a gritar no bulício do átrio um rol de testemunhas.
O viajante não pode senão dirigir-se ao castelo, e faz questão de entrar pela porta da traição, não há melhor caminho para vencer a mais dura muralha. Há fendas numa torre da cidadela, uns técnicos montaram uns andaimes, haveremos de ver o resultado. Mas do que o viajante mais se teme são estes tufos de hera, fincados na cantaria. Um dia acabarão o seu trabalho de ruína, já visivelmente começado. Parecia simples, era matar a hera. Se não morasse tão longe o dono destas pedras, respondem ao viajante os técnicos dos andaimes.
Assim deixado em branco, o viajante rodeia a cidadela. Enche os olhos no vastíssimo horizonte, desde Penedono, a norte, às escarpas do Douro, à Marofa e à serra da Gata, às terras do Sabugal, aos contrafortes da Estrela, para acabar outra vez a poente, no monte do Almansor. O céu é o cristal que se vê, e o sol, subindo, acentua o azul. O viajante não cabe em si de contente, com a benesse de andar aqui num tempo assim. Passada a feira não tardará o outono, e há-de vir outra vez um longo inverno, e o frio voltará a lembrar-se do jantar que tem sempre na mesa, quando chega a Trancoso.
(...)
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Prosperidade e crescimento
Com vénia ao dr. Luís Queirós
Presidente da Marktest e membro da ASPO Portugal
O sistema que preside à organização económica e ao modo de viver das sociedades actuais, o qual modelou a presente “globalização”, assenta num pressuposto indispensável: o crescimento contínuo da economia. Sem ele, nada funciona eficazmente. E (apesar das leis da Física!) a crença no crescimento contínuo está profundamente enraizada na nossa mentalidade. Por tal modo que, até agora, a única via de saída da crise actual, apresentada por economistas, políticos e responsáveis de todas as instâncias, é a famigerada “retoma”. Entenda-se por isso a “retoma do crescimento económico”.
Nos últimos 50 anos, o mundo assistiu a um crescimento exponencial da economia, em grande parte impulsionado pela disponibilidade de uma energia abundante e barata: os combustíveis fósseis. Nesse período, cresceu cinco vezes o PIB global, aumentou três vezes a população, subiram generalizadamente os níveis de conforto, saúde, mobilidade e bem-estar. Porém, e paradoxalmente, esse crescimento beneficiou mais uns países do que outros. De tal forma que, nas últimas décadas, as diferenças entre ricos e pobres se acentuaram, em lugar de diminuírem.
Desejável seria que esta tendência de crescimento pudesse continuar no futuro, por forma a assegurar o pleno emprego, estimular a inovação, incentivar o investimento e a concorrência. Mas parece cada vez mais evidente que tal não irá acontecer. Pode até ser necessário, se não mesmo vantajoso, que tal não aconteça. Muitos dos problemas actuais, como o aquecimento global, o esgotamento dos recursos energéticos, o desequilíbrio ambiental , e até as diferenças entre ricos e pobres, só poderão agravar-se com o crescimento.
Sendo previsível que a população mundial continuará a crescer, é lícito perguntar como se vai compatibilizar esse crescimento populacional com a estagnação da economia, com o “pico” da produção energética, ou mesmo com a regressão dessa produção. Que respostas haverá para cerca de 1/3 da população mundial, (que na China, ou na Índia, ou no Paquistão, aspira a atingir os níveis de conforto dos países mais desenvolvidos), caso não lhe seja possível aceder a eles?
A nossa civilização enfrenta um desafio, importante e decisivo, porque global: para não agravar os desequilíbrios do planeta, (o aquecimento global, a poluição ambiental, a gestão dos recursos cada vez mais escassos), estamos condenados a viver sem crescimento. Os próprios economistas, enquanto anunciam a retoma ali ao virar da esquina, começam a dar-se conta da cruel realidade, e já falam de “economia estável”. Embora pareça que ainda não encontraram a fórmula de a pôr em prática, nem ainda entenderam as leis que a governam.
O ser humano, como qualquer outro ser da criação, aspira à prosperidade, anseia por crescer, reproduzir-se e expandir-se. Mas na sociedade actual, o conceito de “prosperidade” está predominantemente ligado à posse de bens materiais. Para o cidadão comum é isso que traz felicidade. Está a chegar o momento de colocar a questão doutra maneira: é possível prosperar, sem acumulação de riqueza? Não só é necessário acreditar que sim, como também vai ser preciso pô-lo em prática.
Para sobreviver, a nossa civilização tem de encontrar formas de prosperar sem crescimento: uma prosperidade não centrada em conteúdos predominantemente materiais, em que se valorize mais o “ser” do que “ter”, num mundo com novos valores e uma nova espiritualidade.
Nem será um caminho fácil, nem pode ser deixado ao arbítrio de cada um. E exigirá dos governantes muita sabedoria, se o quisermos percorrer em democracia. Porque abrir esse caminho será um exercício no fio da navalha: entre a ameaça do colapso, e a violenta regressão a regimes e tempos de totalitarismo.
A sociedade de consumo, baseada no materialismo, tem que ceder lugar a uma sociedade mais altruísta, baseada na solidariedade humana. No fundo implica uma nova moral, dir-se-ia até uma nova “religião”. À semelhança do papel que teve o Cristianismo, no colapso inevitável do Império Romano, defendendo a igualdade, a irmandade, o fim da escravatura e da exploração humana.
As “marcas” que reinam no moderno mercado vão ter que devolver aos deuses e aos heróis do passado as simbologias, os valores arquetípicos e a força mítica de que oportunamente se apropriaram. Como dizia Alan S. Drake, “no futuro, o consumidor tem de voltar a ceder lugar ao cidadão; juntamente com a responsabilidade e os deveres que o conceito implica.”
A mudança nas formas de comunicar, trazidas pela Internet, poderá conter em si uma esperança nova. No campo da comunicação, é esta a terceira grande revolução da Humanidade, depois das descobertas da escrita e da imprensa. E se a “escrita” produziu a Bíblia e o Corão, e a “imprensa” nos trouxe Martinho Lutero e os ideais da Reforma, quem sabe se na Internet não andará a semente de uma nova “religião”. De uma nova forma de viver, na qual seja possível nova prosperidade. Mais do que sob ameaça, a prosperidade presente está em agonia.
Presidente da Marktest e membro da ASPO Portugal
O sistema que preside à organização económica e ao modo de viver das sociedades actuais, o qual modelou a presente “globalização”, assenta num pressuposto indispensável: o crescimento contínuo da economia. Sem ele, nada funciona eficazmente. E (apesar das leis da Física!) a crença no crescimento contínuo está profundamente enraizada na nossa mentalidade. Por tal modo que, até agora, a única via de saída da crise actual, apresentada por economistas, políticos e responsáveis de todas as instâncias, é a famigerada “retoma”. Entenda-se por isso a “retoma do crescimento económico”.
Nos últimos 50 anos, o mundo assistiu a um crescimento exponencial da economia, em grande parte impulsionado pela disponibilidade de uma energia abundante e barata: os combustíveis fósseis. Nesse período, cresceu cinco vezes o PIB global, aumentou três vezes a população, subiram generalizadamente os níveis de conforto, saúde, mobilidade e bem-estar. Porém, e paradoxalmente, esse crescimento beneficiou mais uns países do que outros. De tal forma que, nas últimas décadas, as diferenças entre ricos e pobres se acentuaram, em lugar de diminuírem.
Desejável seria que esta tendência de crescimento pudesse continuar no futuro, por forma a assegurar o pleno emprego, estimular a inovação, incentivar o investimento e a concorrência. Mas parece cada vez mais evidente que tal não irá acontecer. Pode até ser necessário, se não mesmo vantajoso, que tal não aconteça. Muitos dos problemas actuais, como o aquecimento global, o esgotamento dos recursos energéticos, o desequilíbrio ambiental , e até as diferenças entre ricos e pobres, só poderão agravar-se com o crescimento.
Sendo previsível que a população mundial continuará a crescer, é lícito perguntar como se vai compatibilizar esse crescimento populacional com a estagnação da economia, com o “pico” da produção energética, ou mesmo com a regressão dessa produção. Que respostas haverá para cerca de 1/3 da população mundial, (que na China, ou na Índia, ou no Paquistão, aspira a atingir os níveis de conforto dos países mais desenvolvidos), caso não lhe seja possível aceder a eles?
A nossa civilização enfrenta um desafio, importante e decisivo, porque global: para não agravar os desequilíbrios do planeta, (o aquecimento global, a poluição ambiental, a gestão dos recursos cada vez mais escassos), estamos condenados a viver sem crescimento. Os próprios economistas, enquanto anunciam a retoma ali ao virar da esquina, começam a dar-se conta da cruel realidade, e já falam de “economia estável”. Embora pareça que ainda não encontraram a fórmula de a pôr em prática, nem ainda entenderam as leis que a governam.
O ser humano, como qualquer outro ser da criação, aspira à prosperidade, anseia por crescer, reproduzir-se e expandir-se. Mas na sociedade actual, o conceito de “prosperidade” está predominantemente ligado à posse de bens materiais. Para o cidadão comum é isso que traz felicidade. Está a chegar o momento de colocar a questão doutra maneira: é possível prosperar, sem acumulação de riqueza? Não só é necessário acreditar que sim, como também vai ser preciso pô-lo em prática.
Para sobreviver, a nossa civilização tem de encontrar formas de prosperar sem crescimento: uma prosperidade não centrada em conteúdos predominantemente materiais, em que se valorize mais o “ser” do que “ter”, num mundo com novos valores e uma nova espiritualidade.
Nem será um caminho fácil, nem pode ser deixado ao arbítrio de cada um. E exigirá dos governantes muita sabedoria, se o quisermos percorrer em democracia. Porque abrir esse caminho será um exercício no fio da navalha: entre a ameaça do colapso, e a violenta regressão a regimes e tempos de totalitarismo.
A sociedade de consumo, baseada no materialismo, tem que ceder lugar a uma sociedade mais altruísta, baseada na solidariedade humana. No fundo implica uma nova moral, dir-se-ia até uma nova “religião”. À semelhança do papel que teve o Cristianismo, no colapso inevitável do Império Romano, defendendo a igualdade, a irmandade, o fim da escravatura e da exploração humana.
As “marcas” que reinam no moderno mercado vão ter que devolver aos deuses e aos heróis do passado as simbologias, os valores arquetípicos e a força mítica de que oportunamente se apropriaram. Como dizia Alan S. Drake, “no futuro, o consumidor tem de voltar a ceder lugar ao cidadão; juntamente com a responsabilidade e os deveres que o conceito implica.”
A mudança nas formas de comunicar, trazidas pela Internet, poderá conter em si uma esperança nova. No campo da comunicação, é esta a terceira grande revolução da Humanidade, depois das descobertas da escrita e da imprensa. E se a “escrita” produziu a Bíblia e o Corão, e a “imprensa” nos trouxe Martinho Lutero e os ideais da Reforma, quem sabe se na Internet não andará a semente de uma nova “religião”. De uma nova forma de viver, na qual seja possível nova prosperidade. Mais do que sob ameaça, a prosperidade presente está em agonia.
Regionalizar, pois claro!
Fernando Ruas, o galifão das pedradas nos fiscais do Ambiente, é presidente da câmara de Viseu, e chefe dos autarcas todos. Quando houve aí o Euro 2004, chorou baba e ranho porque também queria um estádio para alavancar a cidade. Chegou a declarar-se discriminado e ofendido pelo centralismo malsão do Terreiro do Paço.
O tempo foi passando. E Ruas será por certo muita coisa que eu não digo, mas lá cego é que não é. Olhou à sua volta, e viu a tristonha herança que o Euro deixou às autarquias, com estádios que ninguém usa.
Agora está disposto a ir a pé a Fátima, a agradecer à Virgem, por não ter lá na terra um pesadelo assim. Diz isto com o riso inteligente que caracteriza todo o bom autarca. O mesmo ar inteligente e dedicado, com que na altura berrava pelo brinquedo.
O tempo foi passando. E Ruas será por certo muita coisa que eu não digo, mas lá cego é que não é. Olhou à sua volta, e viu a tristonha herança que o Euro deixou às autarquias, com estádios que ninguém usa.
Agora está disposto a ir a pé a Fátima, a agradecer à Virgem, por não ter lá na terra um pesadelo assim. Diz isto com o riso inteligente que caracteriza todo o bom autarca. O mesmo ar inteligente e dedicado, com que na altura berrava pelo brinquedo.
As carraças
O quarto submarino da armada dos cavaquistas apanhou sete anos de prisão.
Isaltino reclama que só ajudou a atravessar, na rua, umas velhinhas de Oeiras.
É verdade que ainda teve, como pena acessória, a perda de mandato.
Isaltino considera que volta a ganhar a câmara com maioria maior.
Para cumprir a sentença, o réu desembolsará os seus quinhentos mil Euros.
Mas Isaltino, que em tempos foi magistrado, sabe bem que ainda é cedo, para se declarar incobrável.
E Portugal é um cão a andar à roda, a ver se morde as carraças do rabo.
Isaltino reclama que só ajudou a atravessar, na rua, umas velhinhas de Oeiras.
É verdade que ainda teve, como pena acessória, a perda de mandato.
Isaltino considera que volta a ganhar a câmara com maioria maior.
Para cumprir a sentença, o réu desembolsará os seus quinhentos mil Euros.
Mas Isaltino, que em tempos foi magistrado, sabe bem que ainda é cedo, para se declarar incobrável.
E Portugal é um cão a andar à roda, a ver se morde as carraças do rabo.
De focinho rente ao chão
Em 2004, o simulacro de país que Portugal já era construiu dez estádios de futebol para um campeonato europeu. Com mais propriedade se diria que o fez para impressionar o mundo. E fundamente o terá impressionado, pois não é todos os dias que se vê um país incapaz de se alimentar a si próprio gastar assim mil milhões, para ver jogar à bola durante um mês.
Englobando os que ficaram inacabados, os que nunca mais tiveram ocupação e aqueles que não estão pagos, lá ficaram marcas impressionantes em Braga, em Guimarães, no Porto, num descampado de Aveiro, em Coimbra, em Leiria, em Lisboa, e mais uma algures no Algarve.
Agora vem aí o Mundial de 2018. E Portugal, mais desprovido ainda do que então já estava, alia-se à Espanha, para apresentar nova demonstração.
É certo que os estádios candidatos não satisfazem as condições mínimas, e terão que ser remodelados. Mas isso não esmorece os responsáveis políticos, autárquicos, desportivos. Mais uns milhões resolvem o assunto.
Dir-se-á que nem todos os portugueses são visionários paranóicos, que confundem o país com um circo de carnaval. Pois nem precisam de o ser, que os palhaços de serviço que os governam já ocupam a arena toda. Aos portugueses basta-lhes ser o que são: um rebanho de carneiros a tasquinhar na charneca, de focinho rente ao chão.
Englobando os que ficaram inacabados, os que nunca mais tiveram ocupação e aqueles que não estão pagos, lá ficaram marcas impressionantes em Braga, em Guimarães, no Porto, num descampado de Aveiro, em Coimbra, em Leiria, em Lisboa, e mais uma algures no Algarve.
Agora vem aí o Mundial de 2018. E Portugal, mais desprovido ainda do que então já estava, alia-se à Espanha, para apresentar nova demonstração.
É certo que os estádios candidatos não satisfazem as condições mínimas, e terão que ser remodelados. Mas isso não esmorece os responsáveis políticos, autárquicos, desportivos. Mais uns milhões resolvem o assunto.
Dir-se-á que nem todos os portugueses são visionários paranóicos, que confundem o país com um circo de carnaval. Pois nem precisam de o ser, que os palhaços de serviço que os governam já ocupam a arena toda. Aos portugueses basta-lhes ser o que são: um rebanho de carneiros a tasquinhar na charneca, de focinho rente ao chão.
Portugalmente (43)
(...)
6
O burgo de Trancoso, onde o viajante pernoitou, devia estar guardado numa caixa de jóias. Fizeram-no aqui, neste espigão do planalto, num tempo em que a história se fazia a povoar territórios e a ferir guerras por eles. As guerras feridas já passaram de moda, mas não os povoamentos, conforme temos visto. E o burgo ainda aqui está, a alimentar-se de séculos, a resistir ao tempo.
Quem quiser saber como é que ele resiste, há-de meter-se na pele do inimigo antigo. Dos vários inimigos que um dia o cobiçaram. Há-de estudar-lhe o entorno, medir-lhe os ângulos mortos, sondar-lhe um ponto fraco. Não é o exacto caso deste viajante, que não veio em pé de guerra a derrubar castelos, antes a farejar-lhes pontos fortes. Por isso deu aquela volta larga, ontem à noite, antes de recolher. Passou à estrada de S. Marcos, desceu ao Chafariz do Vento, voltou à esquerda na estrada real, e virou outra vez na direcção da vila, no cruzamento da Cruz da Galega. O viajante diz vila, sabendo já que lhe mudaram a patente. Dizem que a subiram a cidade. Mas este viajante, que de promoções de escrivaninha conhece alguma coisa, não leva a sério a novidade. Trancoso não precisa de se pôr em bicos de pés para ser a vila mais formosa destes planaltos antigos, supõe o viajante que é preciso muito andar para lhe encontrar coisa parecida. E assim deveria continuar, mas adiante.
Quando avistou o castelo, iluminado no penhasco fronteiro, o viajante saiu do carro e embasbacou. Pôs-se à procura da imagem adequada para descrever a alteza duma tal aparição. Deitou fora umas palavras imponentes, recusou lugares-comuns muito pisados, e o mais que lhe saiu da veia criativa foi a nau capitaina duma armada invencível, a pedir meças ao mundo. Porém este viajante nunca gostou de naus, e muito menos se fia em flotilhas indomáveis. Acabou muito contente, por nunca ter nascido sarraceno invasor. Que a visão do castelo, àquela hora da noite e num lugar assim, é uma fascinação que alvoroça qualquer um. E o viajante esteve a pontos de ceder ao insensato desejo de mostrar a uns artistas que agora andam na moda, como é que resolviam os arquitectos antigos o ingente conflito entre a forma e a função.
Depois disso recolheu à pousada e foi ler os seus roteiros. Logo soube que Trancoso é terra de largas famas, nem todas neutras, como esta do padre Costa. Parece hoje uma lenda de almanaque. Mas as terras antigas são assim, guardam histórias que nos não cabem na cabeça. Esta é tão extraordinária que o viajante se dá pressa em contá-la, antes que ela lhe escape.
O padre Costa tinha sessenta e dois anos e era prior de Trancoso em 1487, quando se viu degredado das ordens sacramentais. E em vistas de ser arrastado nos rabos dos cavalos, esquartejado o corpo e postos os seus quartos em diferentes distritos, cumprindo-se a sentença que da pena do juiz lhe veio a cair em cima. Dando agora de barato a barbárie dos tempos, tão diversa da brandura com que hoje são tratados diferentes malfeitores, é de crer que houvesse no caso maroscas de relevo. Fiquemo-nos apenas pelos quesitos provados, que o caso espanta, se não arrepiar.
O padre Costa dormiu com vinte e nove afilhadas, e fez nelas noventa e sete filhas fêmeas e trinta e sete varões. Em cinco irmãs engendrou dezoito meninas. De nove comadres teve dezoito raparigas e trinta e oito rapazes. Sete amas conceberam dele, e deram-lhe cinco filhas e vinte e nove filhos. Duas escravas, que também alcançaram, pariram sete fêmeas e machos vinte e um. Biblicamente conheceu Ana da Cunha, uma tia de quem teve três meninas. E nem a própria mãe se viu desobrigada, que dele acabou a conceber dois filhos varões.
O burgo de Trancoso, onde o viajante pernoitou, devia estar guardado numa caixa de jóias. Fizeram-no aqui, neste espigão do planalto, num tempo em que a história se fazia a povoar territórios e a ferir guerras por eles. As guerras feridas já passaram de moda, mas não os povoamentos, conforme temos visto. E o burgo ainda aqui está, a alimentar-se de séculos, a resistir ao tempo.
Quem quiser saber como é que ele resiste, há-de meter-se na pele do inimigo antigo. Dos vários inimigos que um dia o cobiçaram. Há-de estudar-lhe o entorno, medir-lhe os ângulos mortos, sondar-lhe um ponto fraco. Não é o exacto caso deste viajante, que não veio em pé de guerra a derrubar castelos, antes a farejar-lhes pontos fortes. Por isso deu aquela volta larga, ontem à noite, antes de recolher. Passou à estrada de S. Marcos, desceu ao Chafariz do Vento, voltou à esquerda na estrada real, e virou outra vez na direcção da vila, no cruzamento da Cruz da Galega. O viajante diz vila, sabendo já que lhe mudaram a patente. Dizem que a subiram a cidade. Mas este viajante, que de promoções de escrivaninha conhece alguma coisa, não leva a sério a novidade. Trancoso não precisa de se pôr em bicos de pés para ser a vila mais formosa destes planaltos antigos, supõe o viajante que é preciso muito andar para lhe encontrar coisa parecida. E assim deveria continuar, mas adiante.
Quando avistou o castelo, iluminado no penhasco fronteiro, o viajante saiu do carro e embasbacou. Pôs-se à procura da imagem adequada para descrever a alteza duma tal aparição. Deitou fora umas palavras imponentes, recusou lugares-comuns muito pisados, e o mais que lhe saiu da veia criativa foi a nau capitaina duma armada invencível, a pedir meças ao mundo. Porém este viajante nunca gostou de naus, e muito menos se fia em flotilhas indomáveis. Acabou muito contente, por nunca ter nascido sarraceno invasor. Que a visão do castelo, àquela hora da noite e num lugar assim, é uma fascinação que alvoroça qualquer um. E o viajante esteve a pontos de ceder ao insensato desejo de mostrar a uns artistas que agora andam na moda, como é que resolviam os arquitectos antigos o ingente conflito entre a forma e a função.
Depois disso recolheu à pousada e foi ler os seus roteiros. Logo soube que Trancoso é terra de largas famas, nem todas neutras, como esta do padre Costa. Parece hoje uma lenda de almanaque. Mas as terras antigas são assim, guardam histórias que nos não cabem na cabeça. Esta é tão extraordinária que o viajante se dá pressa em contá-la, antes que ela lhe escape.
O padre Costa tinha sessenta e dois anos e era prior de Trancoso em 1487, quando se viu degredado das ordens sacramentais. E em vistas de ser arrastado nos rabos dos cavalos, esquartejado o corpo e postos os seus quartos em diferentes distritos, cumprindo-se a sentença que da pena do juiz lhe veio a cair em cima. Dando agora de barato a barbárie dos tempos, tão diversa da brandura com que hoje são tratados diferentes malfeitores, é de crer que houvesse no caso maroscas de relevo. Fiquemo-nos apenas pelos quesitos provados, que o caso espanta, se não arrepiar.
O padre Costa dormiu com vinte e nove afilhadas, e fez nelas noventa e sete filhas fêmeas e trinta e sete varões. Em cinco irmãs engendrou dezoito meninas. De nove comadres teve dezoito raparigas e trinta e oito rapazes. Sete amas conceberam dele, e deram-lhe cinco filhas e vinte e nove filhos. Duas escravas, que também alcançaram, pariram sete fêmeas e machos vinte e um. Biblicamente conheceu Ana da Cunha, uma tia de quem teve três meninas. E nem a própria mãe se viu desobrigada, que dele acabou a conceber dois filhos varões.
Ser pai dos próprios irmãos era exagero que nenhum cânone tornava obrigatório. Do virtuoso preceito constava apenas ser pai na clemência e irmão no sofrimento. Porém em separado. Mas o padre Costa não entendia assim. E o viajante, metendo o nariz onde não é chamado, acha cruenta a sentença mas acaba a concordar com o tribunal. Muito melhor decidiu el-rei João II, que tinha um reino inteiro a governar e poder para o fazer. Perdoou a morte ao padre Costa e mandou-o libertar, por tanto se esforçar a povoar a região das altas beiras, tão ermadas ao tempo como agora voltam a estar. É caso para dizer que um forte rei fortalece a fraca gente. E não faltarão cobiças por aí, de tais cometimentos. Não é o sentir deste viajante, que finalmente adormeceu tranquilo.
(...)
terça-feira, 4 de agosto de 2009
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