(...)
A quinta do Ferro faz lembrar um condado, vista à proporção destas terras minúsculas. E de ferro só conserva o nome, o mesmo do cristão que nos princípios do século XVII a possuía por aforamento. Ninguém sabe hoje como se veio a topar-lhe a marosca, em paragens remotas e apartadas como estas são. Longos, porém, e perspicazes, eram os braços e os olhos da hidra da Inquisição, que um dia o acusou, e condenou, por práticas marranas, contrárias à santa fé. E como quem perde cem, bem pode perder mil, levado que foi o marrano à fogueira, acabou a quinta confiscada e posta a leilão. Mas do Ferro ficou, até hoje.
Passaram nela os condes de Marialva, e a mordomia de Santo António de Ferreirim, e mais tarde morgados e viscondes. E gerações de servos maltrapidos, que ajardinaram as várzeas à beira do rio, e plantaram pomares, ceifaram as charnecas, e cobriram de matas estes montes. Quando a revolução dos cravos um dia cá chegou, alguém tirou a prova às contas desses tempos, e vozes houve a reclamar a ocupação da quinta. Mas a ocupação não chegou a fazer-se, porque alguém de olho afinado viu no caso uma aventura sem destino.
O viajante encontra uma ponte medieva, deixa o carro numa sombra e cruza o rio a pé. A ponte é de um só olho, e assenta nuns fraguedos que ali estão há mil anos, e que outros tantos mil hão-de ficar, a ver passar as águas. Hoje em dia é o que vêem passar, que agora já não há rebanhos transumantes, vindos da Serra da Estrela, a escapar aos invernos. Cruzavam o Mondego na ponte de Juncais, subiam ao planalto pela estrada do Carapito, e matavam as sedes no Távora, quando chegavam à ponte. Pernoitavam aqui no descampado e largavam de madrugada, que era preciso subir o vale da Ribeirinha, e alcançar Penedono que mirava a deslado, e chegar a Trevões, e a Valongo dos Azeites, e passar às encostas da Pesqueira, onde a parra das vinhas começava a cair.
Assim ficou sem préstimo o logradouro baldio, depois que os gados da serra deixaram de passar. E a quinta do Ferro, por serem tão difusas as extremas, as mais delas cruzes talhadas em fraguedos que o mato já comeu, logo lhe lançou a mão. Bastaram dois campónios a atestar, e um tabelião que tinha um selo branco e pouco escrúpulo. O povo não gostou. E tão mudados eram os tempos, que pôs uma demanda em tribunal, um dia algum juiz decidirá.
Caminha o viajante ao longo da estrada, vai resistindo à inclemência do sol, veremos até onde. A um lado e a outro há longos aramados, a rodear charnecas tornadas em pastagens. Vagueiam nelas manadas de vacas em busca duma sombra, e têm uma estranha cor grisalha, sabe Deus donde vieram. Não têm nomes, como as vacas antigas, nem conhecem o dono, que está longe. Mas têm um número pendurado na orelha. E gorda ou magra, seja neta ou avó, vence cada cabeça um subsídio ao fim do ano. Ao viajante apetecia-lhe voltar atrás, que deixou por lá o senhor Albino sem saber o que fazer à vida, com uma solução aqui tão perto. Mas ele não é dono de vastidões assim, onde as vacas vagueiam à procura de sombra. Só tem umas terras miúdas, que não vencem projectos, nem contam na agricultura moderna da Europa.
O viajante encontra uma carreteira de saibro, leva provavelmente às casas da quinta, que não estão à vista. E bem gostaria de as ver. Mas o caminho é propriedade particular, vê-se escrito ali numa placa. Depois o viajante está alagado em suor, o que não é surpresa, no meio deste forno em que veio meter-se. E sobretudo não quer desfalecer para aí numa valeta, ou vaguear em busca duma sombra, com um número pendurado na orelha, a vencer um subsídio ao fim do ano. Decide retroceder, e em boa hora o faz. Que só a duras penas consegue alcançar a ponte, livrar-se das roupas debaixo dum salgueiro e atirar-se a um pego, antes de começar a deitar fumo. Nu e em pêlo, conforme veio ao mundo, parece ao viajante que uma segunda vez aqui se baptizou.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Tributo antigo (cont.)
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Mas o melhor é que nos não lembremos. Já lá vai a velha Dodge amarela, uma chiadeira de molas nos poços do macadame, será do peso do padre, Santa Eulália o acompanhe. Tem ele um automóvel aí, numa garage improvisada lá para os fundos do povo. Para o que lhe havia de dar, um dia apareceu aí com o animal, espécie de cavalgadura sem ferraduras, preto retinto, com dois enormes olhos de sapo no focinho, a encimar uma larga dentuça de varetas de metal, não sabe a gente se vai a morder ou se vai a sorrir. Foi uma exaltação na garotada, e tão grande era a nuvem de pó na estrada como a fumarada escura que lhe escapava das tripas ruidosas. Mas o padre, ao que consta, não se ajeita bem com a alimária. Um dia destes quis pô-la ao sol, e só à custa de muita força de braços ela soube mover-se. Parece que os ratos já tinham aproveitado o estofo dos bancos para fazerem criação, quem vai chamar-lhes parvos. Em todo o caso, mesmo que estivesse o animal disponível para a caminhada, dez quilómetros para cima com outros tantos para baixo, não no estaria hoje o padre, com a celebreira que ainda arrasta.
Bem vistas as coisas, tolerância para com ele não me falta, coitado. Uma mulher é diferente. Mas não se enterra assim um homem sozinho numa aldeola que nem vem no mapa, sem ter quem o use e o cuide, à sua volta uma caterva de aldeãos sujos e miseráveis, crendo no céu e no inferno como lugares físicos e verdadeiros, triste rebanho bíblico a viver no esterco com ninhadas de filhos, e a pedir fiado, para se alumiarem, meio litro de petróleo que chega no carrão, de mês a mês. Fica o homem confinado entre sacristia e altar-mor, num gineceu de bafio, obrigado a acreditar nas trapaceiras que infantilizam mais a desgraçada gente, a prometer-lhes a eterna ventura no além, para que eles aceitem resignados a miséria em que vivem, para que eles continuem a suportar a canga do servilismo até ao último sopro, os bens deste mundo não são dos bem-aventurados, porque deles é o reino dos céus e só esse contará. Levantam-se, noite ainda, e fazem troar pelas calçadas os tamancos ferrados de pau para acudirem à rega da horta de que se alimentam, para sacharem o milho que tratam às terças com o dono da terra, para segarem, no corgo, a erva da vitela que trazem ao meio-ganho, para cevarem o porco que hão-de levar à feira de Agosto, e de que esperam algum sobejo depois de pagar a renda, depois de entregar a côngrua, depois de comprar uns farrapos aos filhos nas tendas ambulantes.
Levantam-se gelados de frio para apanharem as castanhas nos soitos do senhor conde, de que hão-de receber a mais minguada parte, e lá vão, ainda a manhã anda em Castela, a picareta às costas e o gasómetro de acetileno na mão, a caminho das minas da serra, as botas de pneu já na última e os pés enterrados na lama das galerias, um dia, que ainda vem longe, vão todos empenhar-se e pagar a um passador que os leve daqui para longe, hão-de passar a fronteira a salto, de noite, como ladrões de quinta, hão-de cruzar a pé serras geladas fugindo aos carabineiros, porque essa há-de ser a única forma de escapar a esta miséria. Por enquanto levantam-se cedo, ainda meninos, e vão guardar as ovelhas merinas dum senhor doutor por esses montes, pobres enjeitados cujo fito maior é escapar à fome, é poder adormecer à noite sem o relógio da barriga a dar horas, conhecem as chalanas pelo nome e pelas marcas da pelagem, e levam de farnel um bocado de pão e figos secos numa meia velha da patroa, e lá vão, a sonhar com os vermelhos de anilina com que hão-de pintar o rebanho em chegando a festa da Senhora da Saúde, hão-de dar três voltas à capela com o carneiro enfeitado à frente, a cabeça do rebanho irá juntar-se à cauda e então há-de o pastor sair da roda e ver o gado a rodar, como tonto, à volta da santinha que o guarda das doenças, e há-de ser então tal padre, tal pastor, nem sempre a comparação nos sai assim tão exacta e percuciente, com perdão da palavra.
Depois, em chegando Junho e o calor apertar, há-de o manajeiro marcar o dia do encontro no Chafariz do Vento, e lá irão por esses caminhos os homens e as mulheres, estropiada hoste que assim vai à conquista das searas do Ribatejo, do trigo ou do arroz, se acaso maleitas e sezões a não dizimarem primeiro. Mas temos que ver ainda se o pregador põe a chorar ou não o mulherio na missa da santa, caso em que se dará por bem empregue o dinheiro que ganhou, vede, irmãos e irmãs, como sois indignos da misericórdia de Deus, porque chafurdais no pecado e mantendes cerrados os ouvidos à voz benigna do Senhor, e cultivais o orgulho e a soberba quando devíeis ser submissos e obedientes diante da palavra da Santa Madre Igreja e das autoridades, pois não há em todo o mundo um jardim de paz e de ventura como esta nossa pátria eleita pela Virgem para sua morada na terra, e tudo isto é obra e sacrifício dos sábios governantes que Deus nos mandou e que vós não respeitais cabonde, vede só o que vai de guerra por esse mundo, mormente a desgraça dos nossos vizinhos espanhóis que Deus, na sua infinita misericórdia, acabou por salvar aniquilando os vermelhos, os iníquos de entre eles, e por isso três vezes amaldiçoado há-de ser aquele que não fechar os olhos do corpo e da alma às tentações e às falácias do mundo, e aquele que praticar a soberbia e a vaidade, e a ambição e a inveja, pois bem sabeis, irmãos e irmãs, que Deus desprezará o primeiro que na fila se colocar para receber no dia fatal os presentes divinos, e lhe pegará pelas orelhas, e o expulsará para o último lugar da divina quermesse.
Fica o homem, coitado, preso no que diz, condenado a acreditar naquilo que lhe resta, a sua própria rotina, e na repetição mecânica dos indecifráveis latinórios de baptizados e enterros, em verdade, em verdade vos digo, meus irmãos, que já não sei se vos digo aquilo em que acredito, ou se creio, afinal, naquilo que vos digo. Que um homem há-de cansar-se duma vida de encenações. Sabemos, bem entendido, que todos os rituais são importantes para organizar as vidas onde mais nada existe, e tirá-los às pessoas é deixá-las à solta, num escuro vazio. Mas também é verdade, quando a prática tanto se distancia da realidade, que em certo momento perde a retórica todo sentido e o ritual toda a eficácia. Fica apenas um balão vazio, que vitimará o mesmo encenador. Por isso eu compreendo o pobre padre, que se adormece no vinho, outros descambarão em práticas mais inadequadas, quem sabe se mais humanas.
E lamento o que há dias aí se passou no enterro duma velhota, que nem todos os homens são pacíficas ovelhas no redil do Senhor. O padre, que não podia adivinhar-lhe o passamento, apanhou nessa tarde uma bebedeira de caixão à cova, deixem que passe a coincidência involuntária. E, ao apresentar-se na igreja para encomendar a defunta, deu em recusar-se-lhe o palavrório do responso, o padre não atinava duas com duas, engrolada a língua no sarro da vinhaça. O burburinho ganhou corpo, vieram os maçónicos da venda, todos a ver qual era o primeiro a chegar-lhe a roupa ao pêlo, paramentado e tudo, com a estola, embora, às três pancadas. A defunta acabou por regressar ao tugúrio donde veio, e foi tal o alevanto que ninguém se dispôs a levá-la ao cemitério, com o padre naquele estado. Até que alguém agarrou nela às costas e lá foram, bem encomendada não terá descido à terra. Com mais sorte andou o padre que teve quem o guardasse, e por ele pôs mão até correr por dentro os ferrolhos da porta.
Não ficam bem tais maneiras, a meu ver, nem o povo recebe bons exemplos donde eles podiam vir. Por mim, cumpro o meu papel sem abdicar. Nunca pedi ajudas a ninguém para ir abrindo estas cabeças rudas, para os obrigar a lavar os pés nem que seja nas lajas do ribeiro, e para deixar nas mãos de cada um alguma arma útil amanhã. Mesmo que nenhum deles tenha consciência disso. Se assim não fosse, por certo me havia de acontecer a mim pior que ao padre.
Mas o melhor é que nos não lembremos. Já lá vai a velha Dodge amarela, uma chiadeira de molas nos poços do macadame, será do peso do padre, Santa Eulália o acompanhe. Tem ele um automóvel aí, numa garage improvisada lá para os fundos do povo. Para o que lhe havia de dar, um dia apareceu aí com o animal, espécie de cavalgadura sem ferraduras, preto retinto, com dois enormes olhos de sapo no focinho, a encimar uma larga dentuça de varetas de metal, não sabe a gente se vai a morder ou se vai a sorrir. Foi uma exaltação na garotada, e tão grande era a nuvem de pó na estrada como a fumarada escura que lhe escapava das tripas ruidosas. Mas o padre, ao que consta, não se ajeita bem com a alimária. Um dia destes quis pô-la ao sol, e só à custa de muita força de braços ela soube mover-se. Parece que os ratos já tinham aproveitado o estofo dos bancos para fazerem criação, quem vai chamar-lhes parvos. Em todo o caso, mesmo que estivesse o animal disponível para a caminhada, dez quilómetros para cima com outros tantos para baixo, não no estaria hoje o padre, com a celebreira que ainda arrasta.
Bem vistas as coisas, tolerância para com ele não me falta, coitado. Uma mulher é diferente. Mas não se enterra assim um homem sozinho numa aldeola que nem vem no mapa, sem ter quem o use e o cuide, à sua volta uma caterva de aldeãos sujos e miseráveis, crendo no céu e no inferno como lugares físicos e verdadeiros, triste rebanho bíblico a viver no esterco com ninhadas de filhos, e a pedir fiado, para se alumiarem, meio litro de petróleo que chega no carrão, de mês a mês. Fica o homem confinado entre sacristia e altar-mor, num gineceu de bafio, obrigado a acreditar nas trapaceiras que infantilizam mais a desgraçada gente, a prometer-lhes a eterna ventura no além, para que eles aceitem resignados a miséria em que vivem, para que eles continuem a suportar a canga do servilismo até ao último sopro, os bens deste mundo não são dos bem-aventurados, porque deles é o reino dos céus e só esse contará. Levantam-se, noite ainda, e fazem troar pelas calçadas os tamancos ferrados de pau para acudirem à rega da horta de que se alimentam, para sacharem o milho que tratam às terças com o dono da terra, para segarem, no corgo, a erva da vitela que trazem ao meio-ganho, para cevarem o porco que hão-de levar à feira de Agosto, e de que esperam algum sobejo depois de pagar a renda, depois de entregar a côngrua, depois de comprar uns farrapos aos filhos nas tendas ambulantes.
Levantam-se gelados de frio para apanharem as castanhas nos soitos do senhor conde, de que hão-de receber a mais minguada parte, e lá vão, ainda a manhã anda em Castela, a picareta às costas e o gasómetro de acetileno na mão, a caminho das minas da serra, as botas de pneu já na última e os pés enterrados na lama das galerias, um dia, que ainda vem longe, vão todos empenhar-se e pagar a um passador que os leve daqui para longe, hão-de passar a fronteira a salto, de noite, como ladrões de quinta, hão-de cruzar a pé serras geladas fugindo aos carabineiros, porque essa há-de ser a única forma de escapar a esta miséria. Por enquanto levantam-se cedo, ainda meninos, e vão guardar as ovelhas merinas dum senhor doutor por esses montes, pobres enjeitados cujo fito maior é escapar à fome, é poder adormecer à noite sem o relógio da barriga a dar horas, conhecem as chalanas pelo nome e pelas marcas da pelagem, e levam de farnel um bocado de pão e figos secos numa meia velha da patroa, e lá vão, a sonhar com os vermelhos de anilina com que hão-de pintar o rebanho em chegando a festa da Senhora da Saúde, hão-de dar três voltas à capela com o carneiro enfeitado à frente, a cabeça do rebanho irá juntar-se à cauda e então há-de o pastor sair da roda e ver o gado a rodar, como tonto, à volta da santinha que o guarda das doenças, e há-de ser então tal padre, tal pastor, nem sempre a comparação nos sai assim tão exacta e percuciente, com perdão da palavra.
Depois, em chegando Junho e o calor apertar, há-de o manajeiro marcar o dia do encontro no Chafariz do Vento, e lá irão por esses caminhos os homens e as mulheres, estropiada hoste que assim vai à conquista das searas do Ribatejo, do trigo ou do arroz, se acaso maleitas e sezões a não dizimarem primeiro. Mas temos que ver ainda se o pregador põe a chorar ou não o mulherio na missa da santa, caso em que se dará por bem empregue o dinheiro que ganhou, vede, irmãos e irmãs, como sois indignos da misericórdia de Deus, porque chafurdais no pecado e mantendes cerrados os ouvidos à voz benigna do Senhor, e cultivais o orgulho e a soberba quando devíeis ser submissos e obedientes diante da palavra da Santa Madre Igreja e das autoridades, pois não há em todo o mundo um jardim de paz e de ventura como esta nossa pátria eleita pela Virgem para sua morada na terra, e tudo isto é obra e sacrifício dos sábios governantes que Deus nos mandou e que vós não respeitais cabonde, vede só o que vai de guerra por esse mundo, mormente a desgraça dos nossos vizinhos espanhóis que Deus, na sua infinita misericórdia, acabou por salvar aniquilando os vermelhos, os iníquos de entre eles, e por isso três vezes amaldiçoado há-de ser aquele que não fechar os olhos do corpo e da alma às tentações e às falácias do mundo, e aquele que praticar a soberbia e a vaidade, e a ambição e a inveja, pois bem sabeis, irmãos e irmãs, que Deus desprezará o primeiro que na fila se colocar para receber no dia fatal os presentes divinos, e lhe pegará pelas orelhas, e o expulsará para o último lugar da divina quermesse.
Fica o homem, coitado, preso no que diz, condenado a acreditar naquilo que lhe resta, a sua própria rotina, e na repetição mecânica dos indecifráveis latinórios de baptizados e enterros, em verdade, em verdade vos digo, meus irmãos, que já não sei se vos digo aquilo em que acredito, ou se creio, afinal, naquilo que vos digo. Que um homem há-de cansar-se duma vida de encenações. Sabemos, bem entendido, que todos os rituais são importantes para organizar as vidas onde mais nada existe, e tirá-los às pessoas é deixá-las à solta, num escuro vazio. Mas também é verdade, quando a prática tanto se distancia da realidade, que em certo momento perde a retórica todo sentido e o ritual toda a eficácia. Fica apenas um balão vazio, que vitimará o mesmo encenador. Por isso eu compreendo o pobre padre, que se adormece no vinho, outros descambarão em práticas mais inadequadas, quem sabe se mais humanas.
E lamento o que há dias aí se passou no enterro duma velhota, que nem todos os homens são pacíficas ovelhas no redil do Senhor. O padre, que não podia adivinhar-lhe o passamento, apanhou nessa tarde uma bebedeira de caixão à cova, deixem que passe a coincidência involuntária. E, ao apresentar-se na igreja para encomendar a defunta, deu em recusar-se-lhe o palavrório do responso, o padre não atinava duas com duas, engrolada a língua no sarro da vinhaça. O burburinho ganhou corpo, vieram os maçónicos da venda, todos a ver qual era o primeiro a chegar-lhe a roupa ao pêlo, paramentado e tudo, com a estola, embora, às três pancadas. A defunta acabou por regressar ao tugúrio donde veio, e foi tal o alevanto que ninguém se dispôs a levá-la ao cemitério, com o padre naquele estado. Até que alguém agarrou nela às costas e lá foram, bem encomendada não terá descido à terra. Com mais sorte andou o padre que teve quem o guardasse, e por ele pôs mão até correr por dentro os ferrolhos da porta.
Não ficam bem tais maneiras, a meu ver, nem o povo recebe bons exemplos donde eles podiam vir. Por mim, cumpro o meu papel sem abdicar. Nunca pedi ajudas a ninguém para ir abrindo estas cabeças rudas, para os obrigar a lavar os pés nem que seja nas lajas do ribeiro, e para deixar nas mãos de cada um alguma arma útil amanhã. Mesmo que nenhum deles tenha consciência disso. Se assim não fosse, por certo me havia de acontecer a mim pior que ao padre.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Tributo antigo
Daqui desta janela vejo o mundo, o pouco ao menos que dele se deixa ver. Como o padre que lá vai, cambaleando, a caminho da paragem da carreira. É segunda-feira de Páscoa. E todos os anos, na segunda-feira de Páscoa, acontece a mesma coisa. Sua reverência sai de casa, vermelhusco e azamboado, a arrastar o corpo mole até se desfazer dele num banco da velha Dodge amarela, que passa aí ao meio dia. Vai à vila, dizem as línguas más, sossegar a consciência junto do arcipreste, e confessar o pecado da bebedeira pascal. É assim todos os anos, toda a gente já se habituou ao ritual, e olha o vulto hesitante do padre com tolerância ou desprezo, conforme o caso de cada um.
Já é sabido, depois da missa lá vem o almoço, e pelas três da tarde começa o compasso. As primeiras casas são as da rua de cima, atrás da fonte, têm os homens que se adiantar para não serem apanhados em falso, seria grande heresia. Nas outras pode o dono ficar mais um migalho no adro. A função só termina já noite cerrada e o padre vai alargando os seus vagares, à medida que os copos de vinho fino se lhe acumulam no estômago, e a litania das bênçãos dá em sair-lhe mais empastada da garganta.
Vai o da campainha lá na frente, um garoto qualquer, a chocalhar o badalo por tudo e por nada, a anunciar o movimento. Depois vem o da cruz, homem maduro, de opa avermelhada. Entra sisudo e oferece a prata em volta aos beiços da assembleia, ainda não terminou e já o padre está chegando, a casa é térrea e mal iluminada, e o denso vulto atravessando a soleira mergulha o adjunto na obscuridade. Há saudações canónicas ao bem-estar de corpos e ao sossego de espíritos, aleluia aleluia, toda a gente sabe de cor o salmejar mas apenas o padre o recita e alguns o tomam a sério, não quer vossa reverência um copo de vinho fino, uma fatia do nosso pão leve, Maria traz lá uma cadeira do quarto.
Discreto entrou o que recolhe os donativos, ora a moeda presa nos beiços duma laranja, ora o óbolo escondido num envelope fechado, di-lo-ão mais generoso, inventam os homens estas cerimónias e nós ficamos ao certo sem saber. Traz o rapazote um pequeno saco de veludo encarnado, de vez em quando toma-lhe o peso com ambas as mãos e alegra-se de verdade, sem compreender porquê, à medida que o vê ganhar corpo e substância. O saco tem laços de garrote, a cada função compete a conveniente palamenta, que a igreja não dispensa. E estes são tempos de ocorrência abundosa de meios, os humanos e os outros, vasto e submisso é o rebanho, não é o que se verá daqui por uns anos, um dia lá chegaremos.
Este do saco há-de ser rapaz de confiança, sabido como é dispor o demo de muitas artimanhas e vastíssima experiência em malas-artes. Ora desviar para bolso próprio o que à santa igreja mais convém seria perdição do pecador e grave dano do padre. Por isso escolhe sempre um moço de família para a função. Desde há uns anos, para evitar as tentações mais correntias, vem-na ele reservando a um rapazito que tenho aqui na escola, não sei com que proveito, do padre falo, é claro. Por enquanto é ele atilado quanto basta, na aula pelo menos, quanto ao resto não porei as mãos no lume. Consta que o padre o tem encomendado para seguir o seminário, única forma de fugir à fatídica enxada, talvez venha ele a escrever estas histórias que por aqui hoje acontecem, um dia Deus o dirá.
Casas há em que o padre se demora mais um pouco, e não será do calor da recepção, que em todo o lado é cabonde alvoroçada. Talvez seja do conforto da casa, ou tão só desta sabida conivência com as famílias mais gradas, os séculos ensinaram à igreja tais diplomacias, só as não vê quem não quer, a pobreza e a humildade pertencem ao sermão, e a igualdade só no céu a encontraremos, em na havendo. Sentou-se agora o padre num velho canapé, ajeita-lhe a dona da casa as almofadas em volta das cadeiras, ao menos tem o pobre, neste dia, direito a cuidados de mulher. Estende sua reverência um pouco as pernas, já entorpecidas do vasto caminhar, enquanto corresponde à geral alegria dos rostos e à particular disposição do dono da casa, não há como este júbilo no coração dos humildes. Tirai às gentes estes rituais e a vida será logo um vale de lágrimas, sem interregno nem sentido, um chapinhar na lama dos caminhos, porém hoje o mesmo Cristo ressuscitou dos mortos, aleluia aleluia, vai mais um copinho antes da partida, senhor abade.
Cá fora vai a tarde escurecendo, mal se distinguem ao longe os campos de centeio, verdes cabeleiras a ondear ao vento, nem se define já com precisão a cor dos lilases a espreitar às paredes das hortas, ficou só o rescendente aroma a espalhar-se por estas fragas do Cabeço, sete casas nos faltam antes de recolher à sacristia e arrumar a palamenta, aleluia aleluia.
No fim do compasso, cansado o corpo de tais trabalheiras e fatigada a alma destas desobrigas, recolhe o padre em casa toda a quadrilha. É o momento do caldo verde e do galo capão em molho de vilão, pois que se pode outra vez comer carne lá estão as mãos da velha cozinheira afeitas ao pitéu. Exultam os estômagos da rapaziada, que todo o sacrifício foi do galaroz, mas cada um tem seu destino e hora, e os deste há muito eram conhecidos, só ele talvez os não soubesse. O padre pôs-se à vontade, libertou finalmente os pés nas chinelas de trapo, tira o cabeção e abate as defesas perante o garrafão de tinto. Isso vem a produzir momentos de risada aberta e sã camaradagem, parece isto uma santa irmandade primitiva, e acaba por levar a um pesadiço torpor, rebolam entarameladas as palavras nos beiços orlados de gordura, que a gente é de gesto rude, e já as ideias se enovelam, parecem tropeçar umas nas outras. É tempo de deixar aberto o campo ao sono, amanhã voltaremos a ver-nos, quem sabe se ainda nos lembraremos disto.
(Continua)
Já é sabido, depois da missa lá vem o almoço, e pelas três da tarde começa o compasso. As primeiras casas são as da rua de cima, atrás da fonte, têm os homens que se adiantar para não serem apanhados em falso, seria grande heresia. Nas outras pode o dono ficar mais um migalho no adro. A função só termina já noite cerrada e o padre vai alargando os seus vagares, à medida que os copos de vinho fino se lhe acumulam no estômago, e a litania das bênçãos dá em sair-lhe mais empastada da garganta.
Vai o da campainha lá na frente, um garoto qualquer, a chocalhar o badalo por tudo e por nada, a anunciar o movimento. Depois vem o da cruz, homem maduro, de opa avermelhada. Entra sisudo e oferece a prata em volta aos beiços da assembleia, ainda não terminou e já o padre está chegando, a casa é térrea e mal iluminada, e o denso vulto atravessando a soleira mergulha o adjunto na obscuridade. Há saudações canónicas ao bem-estar de corpos e ao sossego de espíritos, aleluia aleluia, toda a gente sabe de cor o salmejar mas apenas o padre o recita e alguns o tomam a sério, não quer vossa reverência um copo de vinho fino, uma fatia do nosso pão leve, Maria traz lá uma cadeira do quarto.
Discreto entrou o que recolhe os donativos, ora a moeda presa nos beiços duma laranja, ora o óbolo escondido num envelope fechado, di-lo-ão mais generoso, inventam os homens estas cerimónias e nós ficamos ao certo sem saber. Traz o rapazote um pequeno saco de veludo encarnado, de vez em quando toma-lhe o peso com ambas as mãos e alegra-se de verdade, sem compreender porquê, à medida que o vê ganhar corpo e substância. O saco tem laços de garrote, a cada função compete a conveniente palamenta, que a igreja não dispensa. E estes são tempos de ocorrência abundosa de meios, os humanos e os outros, vasto e submisso é o rebanho, não é o que se verá daqui por uns anos, um dia lá chegaremos.
Este do saco há-de ser rapaz de confiança, sabido como é dispor o demo de muitas artimanhas e vastíssima experiência em malas-artes. Ora desviar para bolso próprio o que à santa igreja mais convém seria perdição do pecador e grave dano do padre. Por isso escolhe sempre um moço de família para a função. Desde há uns anos, para evitar as tentações mais correntias, vem-na ele reservando a um rapazito que tenho aqui na escola, não sei com que proveito, do padre falo, é claro. Por enquanto é ele atilado quanto basta, na aula pelo menos, quanto ao resto não porei as mãos no lume. Consta que o padre o tem encomendado para seguir o seminário, única forma de fugir à fatídica enxada, talvez venha ele a escrever estas histórias que por aqui hoje acontecem, um dia Deus o dirá.
Casas há em que o padre se demora mais um pouco, e não será do calor da recepção, que em todo o lado é cabonde alvoroçada. Talvez seja do conforto da casa, ou tão só desta sabida conivência com as famílias mais gradas, os séculos ensinaram à igreja tais diplomacias, só as não vê quem não quer, a pobreza e a humildade pertencem ao sermão, e a igualdade só no céu a encontraremos, em na havendo. Sentou-se agora o padre num velho canapé, ajeita-lhe a dona da casa as almofadas em volta das cadeiras, ao menos tem o pobre, neste dia, direito a cuidados de mulher. Estende sua reverência um pouco as pernas, já entorpecidas do vasto caminhar, enquanto corresponde à geral alegria dos rostos e à particular disposição do dono da casa, não há como este júbilo no coração dos humildes. Tirai às gentes estes rituais e a vida será logo um vale de lágrimas, sem interregno nem sentido, um chapinhar na lama dos caminhos, porém hoje o mesmo Cristo ressuscitou dos mortos, aleluia aleluia, vai mais um copinho antes da partida, senhor abade.
Cá fora vai a tarde escurecendo, mal se distinguem ao longe os campos de centeio, verdes cabeleiras a ondear ao vento, nem se define já com precisão a cor dos lilases a espreitar às paredes das hortas, ficou só o rescendente aroma a espalhar-se por estas fragas do Cabeço, sete casas nos faltam antes de recolher à sacristia e arrumar a palamenta, aleluia aleluia.
No fim do compasso, cansado o corpo de tais trabalheiras e fatigada a alma destas desobrigas, recolhe o padre em casa toda a quadrilha. É o momento do caldo verde e do galo capão em molho de vilão, pois que se pode outra vez comer carne lá estão as mãos da velha cozinheira afeitas ao pitéu. Exultam os estômagos da rapaziada, que todo o sacrifício foi do galaroz, mas cada um tem seu destino e hora, e os deste há muito eram conhecidos, só ele talvez os não soubesse. O padre pôs-se à vontade, libertou finalmente os pés nas chinelas de trapo, tira o cabeção e abate as defesas perante o garrafão de tinto. Isso vem a produzir momentos de risada aberta e sã camaradagem, parece isto uma santa irmandade primitiva, e acaba por levar a um pesadiço torpor, rebolam entarameladas as palavras nos beiços orlados de gordura, que a gente é de gesto rude, e já as ideias se enovelam, parecem tropeçar umas nas outras. É tempo de deixar aberto o campo ao sono, amanhã voltaremos a ver-nos, quem sabe se ainda nos lembraremos disto.
(Continua)
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Ecos da Sonora XII
CRÓNICA DUMA MORTE ANUNCIADA - Gabriel Garcia Márquez
A história não podia ser mais simples. Tão simples e tão breve que não existiria, não fosse o espantoso modo como está contada.
Num quadro rural da América Latina, casa um rapaz afamado com uma rapariga comum. Ao dar-se conta de que ela já não traz a virgindade, na mesma noite a devolve à procedência, deixando-a nas mãos da mãe sem mais explicações. Perante um desfecho tão funesto, reagem dois irmãos dela:
- Vá, menina, diz-nos lá quem foi!
Ela demorou tão só o tempo necessário para dizer o nome. Procurou-o nas trevas, encontrou-o à primeira vista entre tantos e tantos nomes confundíveis deste mundo e do outro (...)
- Santiago Nasar - disse.
Ficamos na dúvida nós e ele, que lhes morre às mãos pouco depois, à facada. E assim a honra foi limpa.
Quem está encarregado de nos contar a história, vinte e tal anos depois, é um comparsa secundário, que pertence ao grupo social mas não desempenha na intriga qualquer papel de relevo. Fala com todos os intervenientes, que lhe são familiares, traz-nos de cada um o que ele sabe, deixa-nos pistas de entendimento do mundo em que a acção se move, e vai construindo à nossa frente a sua teia sedutora. Tudo isto servido por uma tradução de luxo, da mão de Fernando Assis Pacheco. Chega o leitor ao fim e põe-se a chorar por mais, porque um pitéu assim é sempre pouco.
Escrever não é juntar palavras, está visto, como quem se ocupasse a amontoar tijolos. Antes há-de ser seleccioná-las, as palavras e as ideias, e dar a cada uma a sua função, segundo uma arquitectura que o artista engendra e sente.
Lições de escrita criativa?! Não há melhor lição que uma boa leitura!
A história não podia ser mais simples. Tão simples e tão breve que não existiria, não fosse o espantoso modo como está contada.
Num quadro rural da América Latina, casa um rapaz afamado com uma rapariga comum. Ao dar-se conta de que ela já não traz a virgindade, na mesma noite a devolve à procedência, deixando-a nas mãos da mãe sem mais explicações. Perante um desfecho tão funesto, reagem dois irmãos dela:
- Vá, menina, diz-nos lá quem foi!
Ela demorou tão só o tempo necessário para dizer o nome. Procurou-o nas trevas, encontrou-o à primeira vista entre tantos e tantos nomes confundíveis deste mundo e do outro (...)
- Santiago Nasar - disse.
Ficamos na dúvida nós e ele, que lhes morre às mãos pouco depois, à facada. E assim a honra foi limpa.
Quem está encarregado de nos contar a história, vinte e tal anos depois, é um comparsa secundário, que pertence ao grupo social mas não desempenha na intriga qualquer papel de relevo. Fala com todos os intervenientes, que lhe são familiares, traz-nos de cada um o que ele sabe, deixa-nos pistas de entendimento do mundo em que a acção se move, e vai construindo à nossa frente a sua teia sedutora. Tudo isto servido por uma tradução de luxo, da mão de Fernando Assis Pacheco. Chega o leitor ao fim e põe-se a chorar por mais, porque um pitéu assim é sempre pouco.
Escrever não é juntar palavras, está visto, como quem se ocupasse a amontoar tijolos. Antes há-de ser seleccioná-las, as palavras e as ideias, e dar a cada uma a sua função, segundo uma arquitectura que o artista engendra e sente.
Lições de escrita criativa?! Não há melhor lição que uma boa leitura!
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Portugalmente (21)
[Episódio para o Che Guevara, que foi encerrar o seu capítulo a Cabinda]
(...)
É o que sucede a quem se põe a viajar, dobra-se uma esquina e logo nos dão os olhos numa surpresa nova. Ora este viajante é imaginativo, quando não fantasista, conforme já se viu. Mas a tanto não se atrevia a sua imaginação. Pois o que está agora a ver, depois que passou a ponte da ribeirinha e se despediu de Palhais, é um avião a jacto em carne e osso. Estacionou ali ao cimo da colina, num descampado. E embora mostre um ar afoito e destemido, capaz de engolir o vale inteiro, não parece ter alento para voltar às alturas.
O viajante reconhece nele um velho companheiro de aventuras, e fica em grande sobressalto. Pára o carro à beira da estrada, sobe uma parede e corre para ele. Se alguém o vir de longe, o senhor Máximo do seu alpendre, vai dizer que este viajante é um tolinho. Porque se põe a andar à roda do avião, a passar-lhe a mão afectuosa pelo nariz, pelo bordo quente da asa, pelo fio dos lemes da cauda, pelos flancos redondos da barriga. Mete a cabeça na boca do motor e no escape da turbina, à procura de imagens e de cheiros antigos, quem o vir de longe não sabe que o viajante tem lágrimas nos olhos, porque lhe acordaram de súbito no peito emoções que viveu, e viu viver, num tempo tão antigo, e tão presente, e tão contraditório, parece mentira que tenha havido um tempo assim.
E no entanto houve. Que o diga este soldado, que se chama Pessoa, e mais lhe valera não o ser, antes um bicho qualquer. Está dentro deste avião de alerta, amarrado no minúsculo habitáculo, e vai à procura dum quartel que está em desespero nos confins do sertão. Veio ao rádio aos gritos, a pedir um apoio de fogo, por ser o fogo tanto à sua volta. Lá vai ele no ar, e já sente na cauda uma explosão violenta, já o motor se lhe apagou, e já o duro pégaso de ferro recusa obedecer aos seus comandos. Este soldado que se chama Pessoa nunca teve na mão uma máquina tão perfeita como este motor. Mas nem ele responde ao arranque de emergência, e são os pântanos da margem do Cacine que se aproximam vertiginosamente. Procura ainda a direcção do quartel, aonde veio como um fogo protector, agora é ele quem vai precisar de protecção. Arranca a duas mãos o manípulo de ejecção, mal se dá conta e já está cá fora, atirado ao vento, nem lhe dão tempo de ver onde cair porque já se vai rasgando numas árvores, a altitude é tão baixa que nem o pára-quedas teve tempo de abrir. Passará esta noite escondido no mato, o corpo a sangrar-se em farrapos, e amanhã há-de encontrá-lo vivo um grupo de caçadores pára-quedistas. E muita sorte teve ele, que foi só o primeiro e escapou. Nos próximos quinze dias cinco aviões vão desaparecer nos sertões deste império, levados por um fogo misterioso. E quando vierem os caçadores pára-quedistas não acharão lá dentro ninguém vivo.
O viajante senta-se numa pedra, amparada a cabeça em dois punhos. Quem o vir de longe vai dizer que é um tolinho, ali sentado à torreira do sol, amargurado e solitário. Mas o viajante não leva isso a mal. Há pesadelos que só pode entender quem os viveu, e ele muito suspeita de que este povo é, há séculos, um rebanho tresmalhado. A dona Ermelinda brasileira numa padaria de S. Paulo, o senhor Máximo e a mulher numa fábrica de borrachas de Lyon, o soldado Pessoa a despenhar-se num sertão do império, e o senhor Albino a lavrar as suas terras miúdas neste vale da Ribeirinha, sem saber o que fazer à vida. Enquanto andar cada um afogado na sua procela pessoal, não haverá para eles tempestades colectivas. E o viajante, que se apercebe disso, não é capaz de afastar os olhos do vulto deste avião, nem de arrancar da memória um milhão de portugueses, que durante um ror de anos deu o tempo melhor da sua vida, ou a melhor parte do seu corpo, como neste caso do soldado Pessoa, para alimentar epopeias de fumo. Dez mil deram o corpo e o tempo inteiros, que era tudo o que tinham, para os sátrapas dementes que mandavam no país terem tempo de fazer as exéquias dum império de brumas. E nenhum tempo lhes foi suficiente.
Tenha embora a questão importância primeira, não pode o viajante ficar aqui a vida toda, a pensar numa bezerra que está morta. Por isso vai regressando ao carro, que a esta hora é um forno. A ribeirinha já fugiu para a direita, conforme ficou dito, e o viajante está parado ao fundo do vale. Ia agora mesmo voltar-se para trás, para a última mirada, de que fala o manual dos viajantes. Mas este não quer fazê-lo, tem medo de que lhe fiquem lá os olhos. E vai precisar deles, que já em frente se alargam as charnecas da quinta do Ferro, a reclamar atenção.
(...)
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É o que sucede a quem se põe a viajar, dobra-se uma esquina e logo nos dão os olhos numa surpresa nova. Ora este viajante é imaginativo, quando não fantasista, conforme já se viu. Mas a tanto não se atrevia a sua imaginação. Pois o que está agora a ver, depois que passou a ponte da ribeirinha e se despediu de Palhais, é um avião a jacto em carne e osso. Estacionou ali ao cimo da colina, num descampado. E embora mostre um ar afoito e destemido, capaz de engolir o vale inteiro, não parece ter alento para voltar às alturas.
O viajante reconhece nele um velho companheiro de aventuras, e fica em grande sobressalto. Pára o carro à beira da estrada, sobe uma parede e corre para ele. Se alguém o vir de longe, o senhor Máximo do seu alpendre, vai dizer que este viajante é um tolinho. Porque se põe a andar à roda do avião, a passar-lhe a mão afectuosa pelo nariz, pelo bordo quente da asa, pelo fio dos lemes da cauda, pelos flancos redondos da barriga. Mete a cabeça na boca do motor e no escape da turbina, à procura de imagens e de cheiros antigos, quem o vir de longe não sabe que o viajante tem lágrimas nos olhos, porque lhe acordaram de súbito no peito emoções que viveu, e viu viver, num tempo tão antigo, e tão presente, e tão contraditório, parece mentira que tenha havido um tempo assim.
E no entanto houve. Que o diga este soldado, que se chama Pessoa, e mais lhe valera não o ser, antes um bicho qualquer. Está dentro deste avião de alerta, amarrado no minúsculo habitáculo, e vai à procura dum quartel que está em desespero nos confins do sertão. Veio ao rádio aos gritos, a pedir um apoio de fogo, por ser o fogo tanto à sua volta. Lá vai ele no ar, e já sente na cauda uma explosão violenta, já o motor se lhe apagou, e já o duro pégaso de ferro recusa obedecer aos seus comandos. Este soldado que se chama Pessoa nunca teve na mão uma máquina tão perfeita como este motor. Mas nem ele responde ao arranque de emergência, e são os pântanos da margem do Cacine que se aproximam vertiginosamente. Procura ainda a direcção do quartel, aonde veio como um fogo protector, agora é ele quem vai precisar de protecção. Arranca a duas mãos o manípulo de ejecção, mal se dá conta e já está cá fora, atirado ao vento, nem lhe dão tempo de ver onde cair porque já se vai rasgando numas árvores, a altitude é tão baixa que nem o pára-quedas teve tempo de abrir. Passará esta noite escondido no mato, o corpo a sangrar-se em farrapos, e amanhã há-de encontrá-lo vivo um grupo de caçadores pára-quedistas. E muita sorte teve ele, que foi só o primeiro e escapou. Nos próximos quinze dias cinco aviões vão desaparecer nos sertões deste império, levados por um fogo misterioso. E quando vierem os caçadores pára-quedistas não acharão lá dentro ninguém vivo.
O viajante senta-se numa pedra, amparada a cabeça em dois punhos. Quem o vir de longe vai dizer que é um tolinho, ali sentado à torreira do sol, amargurado e solitário. Mas o viajante não leva isso a mal. Há pesadelos que só pode entender quem os viveu, e ele muito suspeita de que este povo é, há séculos, um rebanho tresmalhado. A dona Ermelinda brasileira numa padaria de S. Paulo, o senhor Máximo e a mulher numa fábrica de borrachas de Lyon, o soldado Pessoa a despenhar-se num sertão do império, e o senhor Albino a lavrar as suas terras miúdas neste vale da Ribeirinha, sem saber o que fazer à vida. Enquanto andar cada um afogado na sua procela pessoal, não haverá para eles tempestades colectivas. E o viajante, que se apercebe disso, não é capaz de afastar os olhos do vulto deste avião, nem de arrancar da memória um milhão de portugueses, que durante um ror de anos deu o tempo melhor da sua vida, ou a melhor parte do seu corpo, como neste caso do soldado Pessoa, para alimentar epopeias de fumo. Dez mil deram o corpo e o tempo inteiros, que era tudo o que tinham, para os sátrapas dementes que mandavam no país terem tempo de fazer as exéquias dum império de brumas. E nenhum tempo lhes foi suficiente.
Tenha embora a questão importância primeira, não pode o viajante ficar aqui a vida toda, a pensar numa bezerra que está morta. Por isso vai regressando ao carro, que a esta hora é um forno. A ribeirinha já fugiu para a direita, conforme ficou dito, e o viajante está parado ao fundo do vale. Ia agora mesmo voltar-se para trás, para a última mirada, de que fala o manual dos viajantes. Mas este não quer fazê-lo, tem medo de que lhe fiquem lá os olhos. E vai precisar deles, que já em frente se alargam as charnecas da quinta do Ferro, a reclamar atenção.
(...)
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
4 de Fevereiro
(...)Bastava uma chuvada para trazer a fome, num destacamento que partilhava com umas dezenas de companheiros perdidos no sertão, ao lado duma sanzala miserável. Uma pista de terra que as chuvas alagavam e onde ninguém arriscava aterrar, alguns barracões de madeira roídos da formiga, o paiol das munições e uma cozinha onde os ratos faziam criação, no mastro risível do terreiro içavam às vezes a bandeira da soberania. Comeram os mangos bravos da velha picada abandonada, perderam-se em bandos no capim, de arma aperrada, sem avistarem um só dos burros do mato que deambulavam na paisagem, sem poderem despejar-lhe no bucho um carregador inteiro, a fome continuava e um dia Gaspar montou num velho avião e foi à caça.
O bicho estava no visor, partido em quatro pelo retículo, o avião ganhava altura e despenhava-se sobre ele num frenesi desesperado, alongando o focinho raivoso enquanto semeava estrondos na paisagem. As armas espirravam frenéticas e ninguém podia perceber onde iam parar as putas das balas, o bicho estava no visor e continuava aos saltos provocantes no capim, se prolongarmos aqui a picada um segundo talvez nos não escape, um só segundo e resgatamos o pundonor, mais um segundo e Gaspar sente o avião a afundar-se no capim, sente-o a pentear os arbustos com o rebordo grosso das asas, sente-o a rasgar a barriga no mato rasteiro, o bicho fugiu do visor e parou de saltar quando um trovão lhe desabou no espinhaço e o matou.
Gaspar viu também a morte que ali estava. Puxou o avião para o ar antes de a viseira partida lhe ter rasgado os olhos, antes de o capacete se estilhaçar contra os ferros da carlinga, viu a morte e execrou-a num clarão de raiva, e logo se deixou inundar por uma indescritível renúncia, quase mística, quase doce, aquela morte era distinta e inelutável. Caiu sobre ele um manto escuro de aniquilamento, perdeu a consciência por força da violenta pancada na cabeça e já não assistiu à derrocada restante, nunca chegará a perceber como saiu vivo daquilo. (...)
[in As Aves Levantam Contra o Vento]

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