segunda-feira, 31 de março de 2025

As Aves 6-1

O comboio entrou devagar na estação de Bordéus, inundou de ruídos a majestosa nave desta catedral de tijolos e aço, erguida há um século pela fé no progresso mecânico, e parou ao longo do cais, com grande chiadeira de ferros. Ao fundo um relógio colossal marcava a meia noite. Cansados da imobilidade, os viajantes agitaram-se quando a luz crua dos holofotes invadiu o compartimento. A conversa parou, e Gaspar levantou-se a esticar o pescoço para a vastidão das plataformas, a geometria rígida das vigas de aço, a amplidão das grandes vidraças abertas para o nada da escuridão exterior. As coisas ganham outro sentido com a agitação febril das multidões diurnas, pensou Gaspar, enquanto uns poucos passageiros desciam ensonados ao cais e outros tantos embarcavam, por tão pouco nem valia a pena ter parado. E ficou a imaginar o frenesi cosmopolita alastrando pelas gares, burgueses apressados e mulheres perfumadas passando, ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó coisas todas modernas, up-lá hô! E tudo isto são êxtases de poeta sensacionista inebriado de estrépitos da modernidade, ou será este um modo de viajar pelo mundo para quem outro não teve, comparado com isto o meu país é um pequeno recanto de província.

Já, porém, Geneviève insistia, presa ainda no fio do discurso de Gabriel, a querer saber do confronto com os fantasmas antigos, como foi que as flores apareceram, não é muito comum ver militares a derrubar os mitos da história, bem ao contrário, se para eles vivem, nem a atulhar de flores a boca dos canhões, que para mais duros destinos foram feitos.

Quem tinha razão era o cabo João Saar, retomou Gabriel, depois duma hesitação. Por tão redonda ser a bola do mundo, tanto os portugueses andaram em frente, que vieram um dia a achar-se no exacto ponto donde haviam partido. O fim da guerra era o mesmo fim do império, e era o fim da tirania mais longa do mundo, Portugal acabara por dar a si próprio um nó cego, que só os militares podiam desatar. Ora é sabido como a tropa foi feita para executar as ordens que de cima para baixo sempre nascem, ao invés da geral natureza, em que tudo rompe de baixo para cima, e assim ficará justificado o traço peremptório de tantos regulamentos, e o terminal rigor dos códigos deontológicos. Não sendo de esperar que a ordem de levantamento brotasse um dia lá do alto, que é onde os mitos moram, e viesse descendo a longa escadaria, até chegar às mãos que obrigam a mover-se as culatras dos canhões, houve que fazer as coisas ao inverso, por uma vez seguindo as leis do ordinário mundo. Uma coluna de subalternos partiu de Santarém numa noite de Abril e galopou furtiva até Lisboa, ao romper da madrugada estava no Terreiro do Paço onde os ministros se juntavam, não tardou muito e já os carros de assalto do governo tomavam posição na Ribeira, prontos a tirar a limpo o que ali se passava. Se estes canhões apontados a nós se lembram de abrir fogo, era uma vez uma revolução, pensou o capitão rebelde, ciente da fraqueza dos seus meios.Para o que der e vier guarda no bolso uma granada, e avança pela rua do Arsenal, de braços levantados, disposto a parlamentar.

O homem está sozinho no meio da rua, diante dum carro de combate, o olhar fixo na boca do canhão. Ao lado, um brigadeiro floreteia o pingalim e grita ordens de fogo. E qualquer coisa remota se põe a estremecer, o mesmo nada indecifrado que se punha a vibrar no peito deste homem nos matos da Guiné, quando as granadas nocturnas de morteiro caíam a assobiar e lhe explodiam cegas à volta. Lá sempre havia o refúgio da terra, como um regaço materno acolhedor. Mas agora o homem está de pé em frente do canhão, à luz crua da manhã, os braços levantados sobre as pedras madrastas da calçada, e todo o peso do peito lhe assenta no fio gelado duma baioneta, se Deus terá hoje acordado cedo, era esta a hora de intervir.

Já o alferes recusa cumprir o comando hierárquico, já o brigadeiro vocifera ordens de prisão e repete a ordenança, que seja o soldado a disparar. Mas o canhão permaneceu calado, enquanto rodava lentamente a boca escura para os lados do rio, e foi nesse instante que a revolução venceu. Os mitos foram desabando na calçada em catadupa, a explodir nuam auréola de estilhas que luziam, pareciam afinal manipansos de filme em movimento lento, e no peito deste homem alguma indecifrada coisa voltou a serenar.

A esta hora acordava a cidade. (Cont.)