sábado, 11 de julho de 2009
Continua...
quarta-feira, 8 de julho de 2009
O TGV e "A Batalha do Caia"
Com vénia ao dr. Luís Queirós
Presidente do grupo Marktest e membro da ASPO Portugal
Na tendência que temos, nós os portugueses, de nos considerarmos o centro do mundo, andamos a falar dum TGV Lisboa-Madrid, quando, em boa verdade, devíamos falar no TGV Madrid-Lisboa. Com efeito, esta ligação faz todo o sentido na perspectiva espanhola: ligar Madrid a Lisboa é completar a rede de alta velocidade que há-de ligar a capital espanhola aos vértices do polígono ibérico. Lisboa será mais um desses vértices, tal como já são – ou vão ser no futuro - Sevilha, Valência, Bilbau, Barcelona e a Coruña. Esta ligação terá como principal efeito reforçar a centralidade ibérica de Madrid e acentuar a periferia de Lisboa. Servirá mais para trazer os espanhóis a Lisboa, e menos para levar os portugueses para a Europa.
A “distância” entre Madrid e Lisboa, consequência dum hinterland pobre e pouco povoado, foi o que historicamente alicerçou a existência de Portugal como país independente. A geo-morfologia do território não favorece um corredor natural a ligar as duas capitais. Nem sequer existe um centro urbano de média importância a dividir o caminho e a atenuar a jornada, pois nem Badajoz, nem Cáceres ou Mérida cumprem esse papel. E a Évora da nossa imaginação nunca esteve no caminho de Madrid. Razão tinha Oliveira Martins, ao espantar-se com o facto de os grandes rios ibéricos serem cortados perpendicularmente pela fronteira. Porque eles – e o Tejo em particular - nunca foram traço de união, nem vias de penetração.
Com a drástica redução da “distância” para Madrid, prometida pela alta velocidade, a “Costa Oeste” da Europa pode afinal ser apenas la playa madrileña. E o aeroporto de Barajas, a menos de três horas de Lisboa, será também o nosso aeroporto. O que D. João de Castela não conseguiu em Aljubarrota, nem D. Filipe IV nas guerras da restauração, pode vir a ser conseguido pelo TGV. Refiro-me à conquista de Lisboa. E a terceira travessia do Tejo vai ser a passadeira que estendemos, para a entrada triunfal de nuestros hermanos em Lisboa.
Esta pacífica invasão, anunciada pelo TGV que virá de Madrid, traz-me à memória Eça de Queirós. Cônsul em Inglaterra em 1878, o escritor pensou em escrever um romance - A Batalha do Caia. O argumento era simples: Portugal é invadido pela Espanha e humilhado na sua dignidade de nação secular. Com ele esperava Eça de Queirós exaltar a independência nacional e avivar a consciência colectiva para superar o “rebaixamento” sofrido. O romance nunca foi publicado, mas ficou um conto - A Catástrofe - a atestar a sua ideia.
Estou convicto de que o nosso Eça, que foi cônsul em Newcastle e Paris, e foi um dos nossos grandes europeístas do século XIX, nunca terá passado por Madrid. Naquele tempo, a Europa começava nos Pirenéus. E a ligação de Portugal à Europa, já feita pela via férrea, não passava por Madrid. Passava, e ainda passa, por Salamanca e Valladolid, pelo caminho do Sud-Expresso até à fronteira de Irun… É também esse o caminho dos milhões de emigrantes portugueses que vivem e trabalham na Europa, e aos quais o TGV de Madrid de pouco ou nada servirá.
Enquanto país, Portugal tem que ter uma estratégia em relação ao futuro. E essa estratégia passa, em primeiro lugar, por uma definição clara da sua relação com a Espanha: ou União Ibérica, ou reforço da independência nacional. A construção do TGV de Madrid para Lisboa, de que hoje tanto se fala, não pode ser desligada dessa estratégia. Para o melhor e para o pior! E o debate sobre a sua construção não deve ser deixado apenas aos engenheiros que a aprovaram, ou aos economistas que agora a vêm recusar.
Confesso que gosto de Madrid e dos espanhóis. E agrada-me a ideia de tomar o pequeno-almoço em Lisboa, ir almoçar a Madrid, visitar o Museu do Prado e regressar a casa, ainda a tempo de jantar. Mas antes disso preferia ver um Sud-Expresso moderno, a correr veloz pela Meseta Ibérica, cheio de emigrantes e imigrantes. Uns e outros deixando de pagar, desta maneira, o seu tributo de sangue às estradas espanholas.
Terá sido profética a intenção do Eça, e da sua fracassada “Batalha do Caia”?
Presidente do grupo Marktest e membro da ASPO Portugal
Na tendência que temos, nós os portugueses, de nos considerarmos o centro do mundo, andamos a falar dum TGV Lisboa-Madrid, quando, em boa verdade, devíamos falar no TGV Madrid-Lisboa. Com efeito, esta ligação faz todo o sentido na perspectiva espanhola: ligar Madrid a Lisboa é completar a rede de alta velocidade que há-de ligar a capital espanhola aos vértices do polígono ibérico. Lisboa será mais um desses vértices, tal como já são – ou vão ser no futuro - Sevilha, Valência, Bilbau, Barcelona e a Coruña. Esta ligação terá como principal efeito reforçar a centralidade ibérica de Madrid e acentuar a periferia de Lisboa. Servirá mais para trazer os espanhóis a Lisboa, e menos para levar os portugueses para a Europa.
A “distância” entre Madrid e Lisboa, consequência dum hinterland pobre e pouco povoado, foi o que historicamente alicerçou a existência de Portugal como país independente. A geo-morfologia do território não favorece um corredor natural a ligar as duas capitais. Nem sequer existe um centro urbano de média importância a dividir o caminho e a atenuar a jornada, pois nem Badajoz, nem Cáceres ou Mérida cumprem esse papel. E a Évora da nossa imaginação nunca esteve no caminho de Madrid. Razão tinha Oliveira Martins, ao espantar-se com o facto de os grandes rios ibéricos serem cortados perpendicularmente pela fronteira. Porque eles – e o Tejo em particular - nunca foram traço de união, nem vias de penetração.
Com a drástica redução da “distância” para Madrid, prometida pela alta velocidade, a “Costa Oeste” da Europa pode afinal ser apenas la playa madrileña. E o aeroporto de Barajas, a menos de três horas de Lisboa, será também o nosso aeroporto. O que D. João de Castela não conseguiu em Aljubarrota, nem D. Filipe IV nas guerras da restauração, pode vir a ser conseguido pelo TGV. Refiro-me à conquista de Lisboa. E a terceira travessia do Tejo vai ser a passadeira que estendemos, para a entrada triunfal de nuestros hermanos em Lisboa.
Esta pacífica invasão, anunciada pelo TGV que virá de Madrid, traz-me à memória Eça de Queirós. Cônsul em Inglaterra em 1878, o escritor pensou em escrever um romance - A Batalha do Caia. O argumento era simples: Portugal é invadido pela Espanha e humilhado na sua dignidade de nação secular. Com ele esperava Eça de Queirós exaltar a independência nacional e avivar a consciência colectiva para superar o “rebaixamento” sofrido. O romance nunca foi publicado, mas ficou um conto - A Catástrofe - a atestar a sua ideia.
Estou convicto de que o nosso Eça, que foi cônsul em Newcastle e Paris, e foi um dos nossos grandes europeístas do século XIX, nunca terá passado por Madrid. Naquele tempo, a Europa começava nos Pirenéus. E a ligação de Portugal à Europa, já feita pela via férrea, não passava por Madrid. Passava, e ainda passa, por Salamanca e Valladolid, pelo caminho do Sud-Expresso até à fronteira de Irun… É também esse o caminho dos milhões de emigrantes portugueses que vivem e trabalham na Europa, e aos quais o TGV de Madrid de pouco ou nada servirá.
Enquanto país, Portugal tem que ter uma estratégia em relação ao futuro. E essa estratégia passa, em primeiro lugar, por uma definição clara da sua relação com a Espanha: ou União Ibérica, ou reforço da independência nacional. A construção do TGV de Madrid para Lisboa, de que hoje tanto se fala, não pode ser desligada dessa estratégia. Para o melhor e para o pior! E o debate sobre a sua construção não deve ser deixado apenas aos engenheiros que a aprovaram, ou aos economistas que agora a vêm recusar.
Confesso que gosto de Madrid e dos espanhóis. E agrada-me a ideia de tomar o pequeno-almoço em Lisboa, ir almoçar a Madrid, visitar o Museu do Prado e regressar a casa, ainda a tempo de jantar. Mas antes disso preferia ver um Sud-Expresso moderno, a correr veloz pela Meseta Ibérica, cheio de emigrantes e imigrantes. Uns e outros deixando de pagar, desta maneira, o seu tributo de sangue às estradas espanholas.
Terá sido profética a intenção do Eça, e da sua fracassada “Batalha do Caia”?
País a tracejado
Mudanças
A mulher do viaduto
Um ror de tempo depois ouviu-se um altifalante, atenção sores passageiros, este comboio encontra-se retido, por motivo de incidente com pessoa, em plena via.
O aviso provocou leituras desencontradas. Até que apareceu um hermeneuta e explicou o sucedido: uma mulher lançou-se dum viaduto, na altura em que o comboio ia a passar.
Houve peitos que ali estremeceram. Mas porém estavam parados há uma boa meia hora, e até a avó das fábulas da princesa suspirou que a tal mulher escolhesse outro comboio. Para bom sossego do mundo.
Logo estalaram telemóveis, a transmitir a notícia aos quatro ventos. E quando finalmente alguém abriu as portas, foram descendo à linha os passageiros.
Eu quis tirar, de longe, uma fotografia. Mas o pé que atirei à vala seca logo se afundou num lodo movediço. E uma senhora que aventurou os dois foi recuperada a custo, em arriscada operação de salvamento. Foi então que um viajante pôs ao ombro uma mochila e desandou linha fora, Lisboa estava ali a uns trinta quilómetros.
Passei o dia de calça arregaçada. E cheguei a casa à noite, com três quilos a mais no pé direito, o estômago a ladrar de fome. Da mulher do viaduto não se voltou a falar.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Portugal dos Cabrais
[Vénias ao João Paulo Sousa, (impressoesdigitais2.blogspot.com), que na Casa dos Avós, em Caspelo Rodrigo, me escancarou o Google e me apontou o caminho!]
O Colmeal já foi terra de colmeias, mas hoje não tem nenhuma. Nem sequer apicultores, nem casas onde vivessem. Fica ali numa asa da Marofa.
Parecerá que desertaram as abelhas e não é verdade. Que as abelhas morrem de tristeza, não desertam.
O Colmeal era um feudo dos Cabrais, ainda vivem as cabras que o atestam. E um dia o dono partiu, à descoberta da Índia. Há quem diga que até se perdeu no mar.
Ficaram os apicultores a fumigar as colmeias...
a riscar pelos caminhos um rasto de humanidade...
a bailaricar no adro, nas festas da padroeira...
e a tocar a concertina, em noites de borga e lua.
Há-de haver 50 anos - 8 de Julho de 57 - os trinetos dos Cabrais reclamaram o domínio. Deram como testemunhas dois desenhos numa pedra.
Um juiz tomou-lhes o depoimento, foi na conversa das cabras, deu cabimento ao pedido. E mandou cumprir a lei.
A guarda veio a cavalo, correu com os apicultores. As abelhas morreram de tristeza e o Colmeal perdeu tudo.
Perdeu apicultores e colmeias, a igreja e os santos dela, o adro e as concertinas.
Acabou mesmo a perder os trinetos dos Cabrais.
E mais tarde veio o tempo, e os incêndios, a tomar conta do resto.
Mas ficara por cumprir um fantasma muito antigo, se não era um remorso dos Cabrais. O facto é que o Colmeal ganhou agora uma estrada, que há séculos lhe fez falta e nunca teve.
É de risco ao meio, a estrada, à maneira da Europa e dos fundos que a pagaram. Mas chega ao Colmeal e ali falece, que para lá do fim do mundo não há destino nenhum.
O largo novo há-de ser calcetado em granito, sempre tem outra nobreza. E acautela as poeiradas, que molestam as abelhas. O mais certo é desenharem nele uma rotunda, pode sempre algum Cabral querer dar a volta. Quem se habituou um dia aos fumos da pimenta, mais aprecia hoje os fundos do FEOGA. E quinhentos anos não é nada, no Portugal dos Cabrais.
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