Mas fica atento o molosso de guarda. Não vá passar por aqui o cabotino do Santana Lopes, a garantir outra vez a ruína à câmara de Lesboa.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Pausa
Mas fica atento o molosso de guarda. Não vá passar por aqui o cabotino do Santana Lopes, a garantir outra vez a ruína à câmara de Lesboa.
Mais equívocos - 2
A procura destes comboios turísticos está em crescimento. No Verão passado aumentou 36%.
A linha do Tua, entre outros considerandos, é uma das cinco linhas de montanha mais belas da Europa. E é neste contexto que a sua destruição irreparável aparece claramente como um crime contra o património. Portugalmente (64)
(...)
A Moreira de Rei já chamaram ninho de águias, sobre um montão de rochas. E o viajante concorda. Se das águias não encontra sinal, que o tempo as levou para outros ares, já o ninho cá ficou e rochedos não faltam. Só a história, e a teimosia dos homens no que é seu, explicam um lugar assim. A igreja, logo à entrada, é de antiga fábrica românica, com bárbaros cachorros zoomórficos. O viajante encontrou a chave na porta lateral e foi cumprimentar a padroeira, que é Santa Maria. Já viu os caixotões do tecto, pintados com cenas devotas, e os painéis com figuras de santos, que são uns regalões. No mais ignoto lugar sempre lhes cabe a moradia mais aprimorada, e nunca lhes faltam esmeros e frescuras, como agora podemos ver. As talhas reluzentes de castanho genuíno trazem ao viajante lembranças do padre Júlio, que antes de tomar aqui os paramentos descarregava as pistolas na mão do sacristão.
Do padre já se não lembra Manuel, nem a mulher, que atravessam o largo atrás duma carroça. São velhos, mas não tanto. Só lhes constam as boas famas que ficaram no povo, e ainda se lembram bem da Carlotinha e do irmão, que eram filhos. Ela há muito que se ficou num parto, ele morreu há poucos anos. Mas agora já não têm padre residente, que os não há. Chegou a haver esperanças num rapazola aí do povo, que andava no seminário. Mas um dia tomou-se de amores e resolveu desistir, Deus é quem sabe.
Saberá ou não, isso é outra conversa. O burrico é que parece não ter dúvidas, já lá vai adiante com três sacos de milho e uns molhos de feijão para secar. Os donos seguem atrás e o viajante vai com eles. Manuel andou uns anos na emigração, como toda a gente. Foi onde ganhou dinheiro para comprar esta casa e arranjá-la, aqui à vista do castelo. Mas era uma vida desgraçada, aquela, uns escravos do trabalho. Os filhos lá cresceram, lá casaram, ainda hoje lá vivem. Ele, quando pôde, escapuliu-se, que não há como viver na nossa terra.
- Tivemos cá rei e tudo! Se passar no castelo, há-de lá ver a cadeira!
Manuel esvazia a carroça e recolhe o jumento, que já o afligem o calor e a mosca. E a mulher fica a espalhar ao sol as maçarocas, na laja que se estende logo ao traço da porta. A canzoada que ladra ali ao lado, no quintal da residência paroquial, é do padre de Trancoso, que vem rezar os ofícios quando calha. E está tão belicosa, a cainçada, que nem deixa conversar. Com batedores assim, o padre há-de ser bom caçador. Mas o viajante fica a pensar que o padre Júlio caçava muito melhor.
(...)
A Moreira de Rei já chamaram ninho de águias, sobre um montão de rochas. E o viajante concorda. Se das águias não encontra sinal, que o tempo as levou para outros ares, já o ninho cá ficou e rochedos não faltam. Só a história, e a teimosia dos homens no que é seu, explicam um lugar assim. A igreja, logo à entrada, é de antiga fábrica românica, com bárbaros cachorros zoomórficos. O viajante encontrou a chave na porta lateral e foi cumprimentar a padroeira, que é Santa Maria. Já viu os caixotões do tecto, pintados com cenas devotas, e os painéis com figuras de santos, que são uns regalões. No mais ignoto lugar sempre lhes cabe a moradia mais aprimorada, e nunca lhes faltam esmeros e frescuras, como agora podemos ver. As talhas reluzentes de castanho genuíno trazem ao viajante lembranças do padre Júlio, que antes de tomar aqui os paramentos descarregava as pistolas na mão do sacristão.
Do padre já se não lembra Manuel, nem a mulher, que atravessam o largo atrás duma carroça. São velhos, mas não tanto. Só lhes constam as boas famas que ficaram no povo, e ainda se lembram bem da Carlotinha e do irmão, que eram filhos. Ela há muito que se ficou num parto, ele morreu há poucos anos. Mas agora já não têm padre residente, que os não há. Chegou a haver esperanças num rapazola aí do povo, que andava no seminário. Mas um dia tomou-se de amores e resolveu desistir, Deus é quem sabe.
Saberá ou não, isso é outra conversa. O burrico é que parece não ter dúvidas, já lá vai adiante com três sacos de milho e uns molhos de feijão para secar. Os donos seguem atrás e o viajante vai com eles. Manuel andou uns anos na emigração, como toda a gente. Foi onde ganhou dinheiro para comprar esta casa e arranjá-la, aqui à vista do castelo. Mas era uma vida desgraçada, aquela, uns escravos do trabalho. Os filhos lá cresceram, lá casaram, ainda hoje lá vivem. Ele, quando pôde, escapuliu-se, que não há como viver na nossa terra.
- Tivemos cá rei e tudo! Se passar no castelo, há-de lá ver a cadeira!
Manuel esvazia a carroça e recolhe o jumento, que já o afligem o calor e a mosca. E a mulher fica a espalhar ao sol as maçarocas, na laja que se estende logo ao traço da porta. A canzoada que ladra ali ao lado, no quintal da residência paroquial, é do padre de Trancoso, que vem rezar os ofícios quando calha. E está tão belicosa, a cainçada, que nem deixa conversar. Com batedores assim, o padre há-de ser bom caçador. Mas o viajante fica a pensar que o padre Júlio caçava muito melhor.
(...)
Relíquia antiga - V
Era uma vez uma família muito pobre. Vivia numa aldeia em que as noites eram escuras, e mais longas ainda quando a noite se punha a cantar nas barrigas, antes de chegar a manhã.
Certa noite, num serão de pão escasso, lembrou-se o pai de contar uma história. E vai ele, que bom seria, mulher, termos dinheiro para comprar uma cabra. Havíamos de levá-la à vez a pastar pelos caminhos, para ela encher a barriga dos botões de silvas bravas, quando o sol, na primavera, constrói jardins nas paredes. E quando a noite chegasse, e a cabra voltasse a casa, íamos colher-lhe o leite, e as noites seriam longas, e a família cresceria, já viste mais alegria.
Mas eu não gosto de leite, tornou o filho mais novo. E quando o outono chegar, e as silvas ficarem duras, subo ao freixo do valado, e do mais dourado ramo se há-de fartar nosso gado, disse o outro, confiado. Mas eu não gosto de leite, insistiu o desgraçado.
Numa breve conclusão, perde o pai o seu vagar, e ali mesmo obriga o revel e obstinado filho a engolir duas grandes tigelas de leite na companhia dos irmãos, que assim dormiram toda a santa noite, de barriguinha calada.
É claro que tudo isto aconteceu num tempo muito antigo, enquanto havia milagres e cabras que davam leite.
Certa noite, num serão de pão escasso, lembrou-se o pai de contar uma história. E vai ele, que bom seria, mulher, termos dinheiro para comprar uma cabra. Havíamos de levá-la à vez a pastar pelos caminhos, para ela encher a barriga dos botões de silvas bravas, quando o sol, na primavera, constrói jardins nas paredes. E quando a noite chegasse, e a cabra voltasse a casa, íamos colher-lhe o leite, e as noites seriam longas, e a família cresceria, já viste mais alegria.
Mas eu não gosto de leite, tornou o filho mais novo. E quando o outono chegar, e as silvas ficarem duras, subo ao freixo do valado, e do mais dourado ramo se há-de fartar nosso gado, disse o outro, confiado. Mas eu não gosto de leite, insistiu o desgraçado.
Numa breve conclusão, perde o pai o seu vagar, e ali mesmo obriga o revel e obstinado filho a engolir duas grandes tigelas de leite na companhia dos irmãos, que assim dormiram toda a santa noite, de barriguinha calada.
É claro que tudo isto aconteceu num tempo muito antigo, enquanto havia milagres e cabras que davam leite.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
O trigo e o joio

Na vida dos portugueses já não escasseavam motivos de aflição, nem lhes fazia falta esta calamidade. De elites indigentes trazem às costas uma larga história, do tamanho de séculos.
Mas há no caso vertente o joio e o trigo, que é preciso distinguir.
O trigo não será de primeira, é trigo turco. Mas também com ele se faz pão.
Quando ao joio há que levá-lo à eira, o vento ajuda.
Carta fechada
E assim estamos conversados, Senhor Prof. Cavaco Silva!
Para mim já não era novidade ser muito longa a lista dos actores que em Portugal desempenham papéis muito para lá das suas competências.
Agora fico a saber, ainda assim com surpresa, que o seu nome ocupa nela o lugar mais cimeiro. Mas é o que mais se tem visto, na história de Portugal.
Para mim já não era novidade ser muito longa a lista dos actores que em Portugal desempenham papéis muito para lá das suas competências.
Agora fico a saber, ainda assim com surpresa, que o seu nome ocupa nela o lugar mais cimeiro. Mas é o que mais se tem visto, na história de Portugal.
Santíssima Trindade
A pós-modernidade é um elixir destilado nos alambiques da América, e está em todo o lado: na economia, nas artes, na política, nas formas do pensamento, na extravagância do clima, na vida quotidiana, e até na religião. Pois nem a Santíssima Trindade é agora o que já foi.
Hoje é o desemprego em massa (que já veio), a explosão de falências em cascata (que aí estão), e o desabar do sistema monetário (que aí vem).
Basta-lhe o que se passa no Iraque e no Afeganistão, onde afogaram a América, connosco pela mão.
Hoje é o desemprego em massa (que já veio), a explosão de falências em cascata (que aí estão), e o desabar do sistema monetário (que aí vem).
Basta-lhe o que se passa no Iraque e no Afeganistão, onde afogaram a América, connosco pela mão.
Subscrever:
Comentários (Atom)